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É só o amor

“Meu objetivo é te preparar para o futuro, não ser amada por você.” Frase de Amy Chua, autora do livro Battle Humn of the Tiger Mother (Hino de Batalha da Mãe Tigresa, em tradução livre).

No início do ano, a mídia brasileira e internacional dedicou espaços generosos ao polêmico livro Battle Humn of the Tiger Mother, de Amy Chua, que conta como a autora, uma mãe chinesa, criou suas duas filhas. A obra causou muito espanto pela rigidez dos métodos de educação praticados. Não li o livro, mas Caio Blinder, colunista de Veja, contou à época que na obra “há relatos de como ela inferniza a vida das duas filhas para serem nota 10 (como a mãe). Foram criadas sob regras que alguns mais histéricos dizem equivaler a abuso infantil. As garotas devem ser  primeiro lugar em tudo (não apenas na escola), agir com perfeccionismo até para escrever um cartão de feliz aniversário e ter uma vida de quartel: nada de televisão, vida social ou dormir na casa das amigas, além de tocar piano e violino com padrão Carnegie Hall (a filha Sophia chegou lá). Quando as meninas não correspondem às altas expectativas, castigos e chacotas da mãe tigresa”.

Vinte e sete anos antes da mãe tigre ficar conhecida, em 1984, um padre norte-americano, Haroldo Rahm, importou de seu país natal para o Brasil um programa chamado Tough Love e adaptou-o ao nosso país com o nome de Amor-Exigente. A metodologia de auto e mútua ajuda desenvolve preceitos para a reorganização da família. Todo o trabalho feito pelos seus profissionais e mais de 10 mil voluntários em todo o país visa aplicar uma metodologia rigorosa de mudança do comportamento humano, que coloca a família no centro do processo. Atualmente, o Amor-Exigente é muito conhecido por ajudar no tratamento de familiares de dependentes químicos.

Mas o que a história de uma mãe chinesa e seu método de educação extremo e discutível tem a ver com uma receita norte-americana reconhecidamente bem-sucedida para recuperação da família de drogados?

Os elos dessa semelhança são exatamente o amor e a família.

É dentro do lar, nessa pequena sociedade onde crescemos, nos desenvolvemos e aprendemos a ser cidadãos, que nasce a maioria dos casos de desvio ético, de corrupção, de criminalidade, de drogadição. Não quero analisar aqui se são corretos os métodos aplicados por Amy. Minha provocação visa trazer à reflexão um questionamento central: que tipo de amor educa?

Pelos relatos que ouço há mais de um ano na Rádio Aliança participando do programa Escolhe, pois, a Vida (que discute prevenção e recuperação da dependência química) posso arriscar: o amor que educa é o amor que é exigente. Um amor que não é só afeto, que não é só sentimento; um amor que é atitude, comportamento, comprometimento. Quando eu amo, minha forma de agir prioriza a felicidade do outro, e não o meu bem-estar. Este amor ignora o meu prazer e o meu conforto. Com este amor, combina muito mais o “não” do que o “sim”. Um “não” que aponta limites, que ensina responsabilidade. Não um “sim” permissivo em excesso, que lava as mãos, que é condescendente, que inspira a libertinagem e negligencia o bom exemplo. Que autoriza os filhos, esses aprendizes da vida, a legislar dentro de casa, dentro da sala de aula.

Sempre será saudável para pais e mães pensarem sobre que tipo de amor praticam em seus lares. Talvez a história chocante da mãe chinesa nos traga essa valiosa contribuição. Antes que seja tarde.

Nossa sociedade adoece, vítima da violência e das drogas, porque não pratica com seus filhos o verdadeiro amor. Porque não os ensina a alcançar os objetivos, a conquistar a felicidade por seu próprio esforço, a duras penas, percebendo seu papel e seu valor na sociedade. Por estas causas é que luta o Amor-Exigente, representado em Porto Alegre pela Apaex (Associação Porto-Alegrense de Amor-Exigente) e nacionalmente pela FEAE (Federação de Amor-Exigente). Essencialmente, o Amor-Exigente, organizado em 12 princípios básicos e éticos, existe para cumprir o seu lema: “eu o amo, mas não aceito o que você está fazendo de errado”. Viveríamos em outra sociedade se todo filho escutasse isso de seus pais um dia.

Nenhuma família está livre. Ainda que ela fale todas as línguas, as dos anjos, as dos homens, as dos livros, a da tecnologia, se não tiver amor, será como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo uma família aparentemente perfeita, que conhece todos os mistérios e toda a ciência; que possui toda a fé, a ponto de operar milagres, se não tiver o amor, não será nada. O amor de verdade é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. O amor de verdade não tolera atitudes inapropriadas, não se alegra com a injustiça, mas se realiza com a verdade. Só o amor que é reto, que é exigente, tem o poder de recuperar adultos, de transformar crianças, adolescentes e jovens em pessoas sadias, felizes e amorosas.

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Para o que tu bates palmas?

Escrevo esse texto com uma tristeza alegre, que é como o poeta Fabrício Carpinejar define a saudade. Não vejo o Bento há exatos 20 dias e parece uma eternidade. E ele deve estar fazendo milhões de coisas novas que ainda não presenciei e que, por isso, não pude relatar aqui pra vocês. E não o verei pelo menos nos próximos cinco dias. Ele deve estar um gigante já. Tudo isso é uma lástima. Uma tristeza não ver o meu afilhado Bento. Mas uma tristeza alegre.

Fiquem com a última evolução que pude presenciar no meu sobrinho: ele agora bate palminhas.

***

Minha memória é seletiva. Terei leitores rindo essa hora, sei. Dirão que ela não selecionou nada até hoje. Mas a verdade é que, embora eu também desconfie da primeira frase, tem vezes que me surpreendo com flashs que me veem do nada, contando alguma situação relevante do passado. A última ocorrência disso foi na tarde de um sábado quente desses aí.

O aniversário de um ano do Miguel, filho do Léo, meu ex-chefe e grande pessoa, me fez lembrar do dia em que recebi vizinhos taiwaneses aqui em casa, bem no início da minha faculdade. Sim, vizinhos made in Taiwan. Precisava entrevistá-los para um trabalho. O que me lembro porque me marcou foi quando eles disseram que no país deles — e em toda cultura oriental — eles não festejavam as crianças como nós o fazemos. Mas os idosos. Para eles, a pessoa digna de ós e de salvas de palmas é, sim, senhoras e senhores, o velho. Aquele que viveu a vida, que sofreu, que enrugou-se, e que contraiu sabedoria, o maior de todos os bens humanos. Não a criança e sua paupérrima compreensão da vida. Não a criança e seus passinhos sôfregos. Não a criança e seu idioma de meia dúzia de vocábulos molhados de baba. Não a criança e seus livros repletos de figurinhas.

Mas a criança ocidental ela é lucrativa. Porque movimenta-se em torno de um mundo de cores e de formas, ela tem curiosidade, ela consome e quer as coisas pra ela. E mais coisas pra ela são fabricadas. Até que ela deseje mais e deixe seu pai frustrado por não poder saciar sua sede. E ela tem futuro, diferentemente do velho. A criança é, portanto e ao mesmo tempo, um bom cliente e um investimento de curto, médio e longo prazo. A criança é a sustentabilidade da economia. E isso movimenta a roda dessa mesma economia. E gera empregos e renda. Para que os pais tenham condições de serem felizes e de comprar mais coisas que as crianças querem. É por isso, portanto, que fazemos festas de um ano e batemos palmas para as crianças. Elas são nosso sustento.

Bater palmas, diga-se, é uma coisa que gostamos de fazer. É o principal símbolo da concordância, do elogio, da condescendência.

E o Bento, o meu sobrinho e afilhado de quase dez meses, começou a bater palmas esses dias. Começou a fazer festa praquilo que aprova. Em sua ingênua forma de fazer juízo de valor, mas é isso: o Bento já aprova as coisas de seu mundo com uma desengonçada salva de palmas.

Fico aqui pensando, de trás dos meus óculos antigos (há quanto tempo não troco meus óculos!), para o que o Bento baterá palmas quando puder fazer avaliações do tipo que eu faço, que, nós adultos, fazemos? Haverá guerras para o Bento se recusar a aplaudir? E Bento baterá palmas para o casamento homossexual? E para o BBB 22? E para a volta do Roth, com a idade do Zagallo, vindo treinar o Grêmio? E Bento concordará com a lipo da namorada? E com a promoção do chefe que não faz nada?

E você, no alto de sua envergadura moral, para o que você bate palmas atualmente?

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O Prendedolho e o Bento

Olá, meu nome, como vocês já desconfiam, é esse troço esquisito: Prendedolho. Chamam-me assim porque, além de ter nascido um simples prendedor de roupas de madeira, eu desenvolvi uma capacidade que me difere dos outros. Digo pra vocês, e sei que posso causar espanto a um ou outro, mas eu posso ver. Isso, enxergar. Distinguir entre um objeto e outro, entre uma pessoa e outra. Taí a razão do meu nome. Prendedolho. E estou aqui, contando essa história pra vocês, porque há exatamente um mês minha vida mudou.

Tinha uma rotina era de um prendedor de roupas qualquer. Tenho até hoje como habitat natural uma grade, em formato de elos de corrente, que decora uma estreita janela ao lado da porta de uma cozinha. Em Canoas. Vivo aqui desde sempre. E gosto bastante deste lugar. Percebo que sou útil, sabe? E como é bom sentir-se útil… A dona Ema, avó do Bento, aquele do título ali de cima, é quem mais convive comigo. Isso, claro, até o seu neto nascer, desenvolver-se e chegar ao sétimo mês. Coisa que contarei a vocês com mais detalhes daqui a pouco. Bom, sou útil para a Dona Ema porque volta e meia ela precisa de um prendedor de roupas para prender roupas no varal (óbvio!) ou para funções um pouco mais nobres. Posso dizer, com orgulho, que já atuei como prendedor para pacotes de biscoito, para pacotes de erva-mate e até – morram de inveja! – para decorar a cozinha da dona Ema. Verdade. Uma vez ela pôs em mim umas bonitas flores de biscuit e eu tornei-me uma espécie de bibelô da dona Ema. Ela pendurava-me a um bonito pano de prato, com bordas de crochê, em cima da pia da cozinha. Mas foi só uma fase. Depois, voltei ao anonimato da minha grade preferida. Volta e meia, pegavam-me de novo para evitar que o ar entrasse dentro dos pacotes de biscoito ou de erva-mate. No caso do biscoito, o ar o amolece, e no da erva-mate, pelo fato de ela ser muito leve, ela pode voar se a embalagem ficar aberta. Sempre culpa do ar. Quando eu ocupo o meu posto mais tradicional também o faço para evitar que o ar, neste caso mais conhecido como vento, impeça as roupas de cair. Já aconteceu uma vez. Um irmão meu quebrou e o vento jogou uma calça jeans na grama. Tinha chovido e aquela calça, além de não secar, teve de ser lavada de novo. Quando isso acontece, pra nós prendedores, é o pior dos mundos. É como se fracassássemos, sabe? E como vocês, humanos, temos dificuldade de lidar com o fracasso.

Coisa que o Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, começou a exercitar neste sétimo mês. Deixem-me falar pra vocês sobre o Bento e sobre minha relação com esse piá. Falando nisso, ele completa oito meses hoje, 15/12, viram? Bom, essa bela criança, de pernas e braços brancos e compridos, me descobriu dia desses. Estava ele no colo da dona Ema, a dona Ema de pé, quando eu o vi me mirando. Tentei desviar o olhar, fazendo que não era comigo, mas foi em vão. Ele me olhou reto, começou a fazer biquinho com a boca, esticou o braço em minha direção e começou a balançá-lo. Braços e pernas em grande entusiasmo. Fiquei apreensivo, quase assustado. Embora estejamos sempre em contato com mãos humanas, eu fiquei amedrontado com aquela pequena pessoa que olhava pra mim de um jeito estranho e fazia gestos como se quisesse me fazer algum mal. Só mais tarde descobri que não era pra tanto. Acabei descobrindo que pessoas como vocês, quando estão nessa idade, com seis ou sete meses, precisam pegar com as mãos todo tipo de coisa e, mais: levá-las ate à boca. Foi isso que o Bento passou a fazer comigo todos os dias que vinha visitar sua avó, a dona Ema, aqui em Canoas. Todos os dias. Ele entrava na cozinha e vinha direto me pegar. Era até divertido, sabem? Ele me pegava, olhava pra mim, me balançava um pouco e logo me colocava em sua boca molhada. E ficava ali, me melecando todo com sua saliva.

Até que o tempo passou, o Bento cresceu e não contentou-se em pegar-me e levar-me ao encontro de sua língua. Foi desse dia em diante que descobri que havia algo de ruim em poder ver. Digo pra vocês que desenvolvi medo de altura. Pode? Eu que sempre vivi no alto de um varal com medo de altura! Mas foi isso. Culpa do Bento. Essa criaturinha sem noção. Tá bom, eu sei que ele não tem culpa. Mas e eu? Como eu fico? E a acrofobia?

Meu drama começou quando o Bento completou sete meses. Naquele dia, o Bento pegou-me, como sempre, mostrou-me o seu biquinho, como sempre, e levou-me à sua boca. Tudo como sempre. Até que o Bento descobriu que podia fazer mais do que isso. E me usou. Descobriu que o Prendedolhozinho aqui podia ser ainda mais divertido. Perguntem se ele me consultou, perguntem! Que nada. Sabem o que ele passou a fazer desde lá? O Bento e os seus perversos dedinhos de unhas minúsculas passaram a soltar-me do alto do colo de sua avó. Sem dó, sem piedade, sem o mínimo de noção do perigo. E seu eu me quebrar todo? E se o ferro que sustenta meu corpo e garante minha profissão se soltar? Mas, não. Ninguém se preocupa comigo. Querem mesmo é ver o tal Bentinho se divertindo às minhas custas. É só o querem. Humanos.

Já estou acabando meu desabafo. Sabem o que mais eu ouvi esses dias? Sabe qual foi a desculpa que eles estão dando para esse mais recente passatempo do Bento? Que faz parte do desenvolvimento da criança a capacidade de pegar e soltar as coisas. De lidar com a perda, com o fracasso. Que ele precisa realizar a experiência de causa e efeito. Que mesmo quando um objeto está longe do seu campo de visão, continua existindo e pode voltar às suas mãos. Ora, façam-me o favor! E não podia ser de uma distância menor? Não podia ser em cima daquele seu cobertor fofo? E não podia ser com um daqueles seus brinquedos coloridinhos, de plástico? Não podia?

Este é o último parágrafo. Sim, já estou mais calmo. E quero que o senhor, seu Bento, quando puderes ler isso, que o senhor me valorize. Que valorizes o que eu representei para ti. Quero que saibas que o Prendedolho aqui não foi um prendedor de roupas qualquer. Que participei do teu desenvolvimento como criança. Que fui útil para a articulação dos teus dedinhos, para o amadurecimento da tua fase oral e, mais importante, para a tua noção de desapego. Foi importante tu perceberes que já podias viver sem mim. Sem o Prendedolho querido aqui. E isso, seu Bento, pelo que eu observo desse monte de gente grande, tu terás que fazer muitas vezes ainda na tua vida aqui neste mundo. Ter a capacidade de valorizar a si mesmo e poder despreender-se das coisas e dos objetos será fundamental para a tua evolução. Sem medo da perda ou da derrota. E daí não só como ser humano que nasce, cresce e aprende a caminhar. Mas como uma pessoa mesmo. Que passará a valorizar-se pelo que é e não pelo que possui. Que passará a valorizar o mundo e as pessoas como são e não pelo que têm.

Se cuidarem bem de mim, maneirando nas alturas, eu continuarei aqui. No alto dessa grade, disponível para você e para os demais. Para secar as roupas, para combater as frestas. Eu, o mais especial dos prendedores de roupa que vocês já conheceram.

Abraço forte, Prendedolho.

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Façamos um bem

O desejo de mudar o mundo destruiu nossa vontade de fazer o bem.

E tem tanta gente que cruza os braços com a desculpa da impotência.

Venham cá, vocês lembram da historinha do menino salvador de estrelas? É assim:

Conta que um gurizinho passava o dia inteiro na beira da praia recolhendo da areia as estrelas que haviam sido largadas ali pela espuma da onda no mar. Reza a lenda que não se via um grão de areia naquela praia tal era a quantidade de estrelas que sofriam ali, morrendo no calor daquele solo salgado. O piá tirava as estrelas do chão e, uma a uma, jogava de volta ao mar. E ficava alguns segundos parado, admirando o movimento da água e o mergulho da estrela. 

E as estrelas nunca acabavam. Pelo contrário. A areia estava sempre cheia, mais e mais, de estrelas sedentas do mar. No que um sábio aproximou-se do rapaz e perguntou o que ele achava que estava fazendo. Com a razão que lhe tomava a mente, afirmou ao garoto que nunca, nem até o fim de sua jovem vida, ele salvaria todas as estrelas. Nunquinha. Já-mais.

Como se o tal senhor não estivesse ali, ao seu lado, dizendo aquelas palavras duras no seu ouvido, o garoto abaixou-se, desgrudou mais uma estrela enferma do chão e lançou-a ao mar com ainda mais ânimo. De forma que ela foi parar muito mais longe do que todas as outras. Esperou o buraco fechar-se na água, voltou a por-se de pé, restabeleceu o fôlego e disse ao velho, como quem analisa e orgulha-se de cada palavra: “Para esta últim estrela, meu senhor, eu tenho certeza que fiz a diferença”.

De fato, o jovem nunca terminou o seu trabalho lá, na beira daquela praia. E nunca mais, ao longo dos tempos, ouviu-se falar do velho sábio.

Este jovem da bonita história que relembrei nunca usou como desculpa sua importência em salvar todas as estrelas. Nunca sequer ousou deixar com que a dificuldade da missão esmorecesse a sua vontade de fazer o bem, de salvar a vida de uma única estrela.

Lá na empresa onde trabalho, este Natal foi mais um exemplo de como cada um pode sempre fazer um bem. Um só. Um só bem para alguém. Porque o todo, bem, o todo todos farão.

As árvores de Natal lá do trabalho tinham pendurados em seus ramos nomes de crianças carentes, ligadas à alguma entidade beneficente de Porto Alegre. Qualquer um que quisesse, poderia ir até a árvore, pegar um papel e adotar simbolicamente uma criança. Até uma data determinada, todos tinham trazido de volta o nome do pequeno com um presente ou uma roupa. Não vi ninguém que tenha pego todos os papéis de uma árvore. Assim mesmo, as árvores ficaram todas vazias.

Fazer um brinquedo, uma roupa nova ou um prato de comida quente chegar a um pequeno nunca será um gesto perdido. Mesmo que seja um. Mesmo que nem todas recebam este bem. A quentura de um pedaço de pão, o colorido de um pedaço de plástico, de um pedaço de pano. Todos terão devolvido para aquela pequena estrela, sem ela saber, a sensação inestimável da esperança.

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Pais, leiam isso!

Maravilhosamente
Por Fabrício Carpinejar

Vicente gosta de jogar futebol. Vicente gosta de jogar cartas de Supertrunfo. Vicente gosta de cavar a terra com pá e galochas. Vicente gosta de colecionar figurinhas. Vicente gosta de desenhar deitado no tapete. Vicente gosta de ajudar a mãe na cozinha. Vicente gosta de ir ao cinema e comer pipoca para acumular pontos. Vicente gosta de escolher sua roupa e colocar a camisa nova por cima de uma velha. Vicente gosta de jogar farelos para as pombas antes de chegar à escola. Vicente gosta de cortar os cabelos de seus bonecos. Vicente gosta de receber camisetas de times. Vicente gosta de tornear esculturas de argila. Vicente gosta de jogar videogame. Viente gosta de classificar restaurantes. Vicente gosta de dormir no carro. Vicente gosta de tirar fotografias. Vicente gosta de limpar os farelos dos salgadinhos nas calças. Vicente gosta de freqüentar o estádio. Vicente gosta de comer sorvete contornando as beiradas. Vicente gosta da sexta-feira.

Entre tantos gostos, o que meu filho mais gosta?

Observava o guri no final de semana. Com respeito. Como se fosse o pé direito de um quarto. Ele não parava quieto. Sua felicidade no final de semana é narração. Aponta e fala. Fala o que aponta.

Posso estar enganado, mas o que meu filho realmente gosta é de conversar.

Quando não cancelamos os ouvidos para forçá-lo a se ocupar com suas coisas. Não o empurramos ao seu canto e para seus brinquedos. Não o diminuímos diante de nossas leituras e afazeres miúdos.

O que fará uma criança crescer confiante é o tempo que dedicamos para escutá-la. É o tempo que propomos perguntas e a continuidade do raciocínio. O tempo em que legitimamos suas descobertas. O tempo em que não suspendemos sua curiosidade com elogios vadios: que bonito!, ótimo!, é isso mesmo!. Exclamações que pretendem enterrar o assunto e nos liberar para nossas atividades.

Ele se verá importante se eu valorizar o que ele escolhe para dizer, seus rascunhos e vacilações, seu modo de se organizar. Não é enchendo de mimos e presentes. Não é numa semana hiperativa, com passeios emendados e a adrenalina das surpresas. Toda criança tem um acesso estreito de sua imaginação para os pais. Deixará aberto se for usado. É tabuada: nenhuma criança dorme com a porta fechada, por que fechá-la durante o dia?

O autismo vem no momento em que a solidão é maior do que nossa capacidade de explicá-la.

Numa manhã e tarde modorrenta, com chuva intensa, trancados na residência, faltou luz. Escureceu dentro e fora. Acendemos velas e ficamos ao redor de uma mesa, brincando de adivinhar vultos, gesticulando fantoches nas paredes. A cera derretendo dá vontade de pescar sombras. De minha parte, conversava para matar o tempo e espantar o período de exceção. Reagia mais ao tédio do que à vida (mas é somente no tédio que suspiro). Restava a certeza de que era o pior dia do Vicente. Ele não fez nada do que admirava. Não brincou, não alisou o pó de seus carrinhos, não circulou pelo terraço.

Ao cabo da noite, ao apressar as cobertas e a virada do calendário, me confessou que nunca tinha sido tão feliz. Como? Sim, o óbvio é o imprevisível; por um momento contou com a audição de meus cílios. Maravilhosamente, eu olhei o que ouvia, não ouvia como quem olha. Sem querer, não descolamos um minuto da respiração. Um poderia embaçar o rosto do outro, tamanha a proximidade.

Meu filho procura entender o mundo. Posso ajudá-lo. Talvez ele tenha mais chance do que eu.

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