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Bento e seus limites – parte 2

Bento, o meu afilhado de um ano e sete meses, chorou desesperadamente dias desses. E como chorou, contaram-me. De dar dó.

Chorou porque, depois de, acidentalmente, conseguir alcançar e pegar uma faca da gaveta que ficara aberta na cozinha aqui de casa,  tiraram-lhe tão rápido quem nem pôde perceber. Bento queria brincar com uma faca e não permitiram. E Bento chorou exaustivamente. Parou só quando percebeu que não fariam a sua egoísta vontade.

Da mesma forma como são desafiadas pela natureza a explorar seus limites físicos, motores e psíquicos, as crianças devem ser ensinadas sobre a razão pela qual chamamos isso tudo de limites. A palavra vem do latim limes, que significa caminho entre dois campos, fronteira, sulco. E, mais importante, ao perceber o limite entre o seu campo e o campo do outro, passamos a alfabetizá-la sobre sua responsabilidade com a coletividade. Somos todos responsáveis pelo outro, quase mais do que por nós mesmos.

Tão logo cresça, a criança logo ficará triste porque, embora observe e seja atingido pelas atitudes do outro, não poderá julgá-lo. Como adulto, colecionamos defeitos e características que desagradam quem convive conosco e só por isso, porque também erramos, não temos o direito de apontar nosso dedo. A criança aprenderá que precisa cuidar de si, do seu campo, e por meio de suas escolhas e por meio de seus exemplos, melhorar a vida do outro e a vida de todos, por consequência. A mão que aponta um dedo, dizem, direciona outros três para o juiz. Esteja certo que ninguém te olha agora e faz o teste.

Outra lição que o limite ensina à criança é sobre a transgressão de regras. Se valorizo o campo do outro, respeito as regras impostas. Desde a faixa de segurança no trânsito, passando pelo volume do som no meu quarto e chegando ao cigarro que fumo em lugar público fechado. São regras desnecessárias em uma sociedade que valoriza o outro, mas fundamentais para adultos que, na infância, não aprenderam algumas regras básicas.

E o último aprendizado que quero lembrar está bem na moda há alguns anos. Ao tirar a faca da mão do Bento, ele aprenderá, a duras penas e mililitros de lágrimas, que não pode fazer o que quiser com o ambiente em que vive, que precisa repensar seus atos. Estamos cercados de uma natureza com recursos finitos, que espera de nós um pouco de consciência. Consciência de que não podemos só consumir o que ela produz sem pensar em contribuir para a sua sobrevivência. Que natureza vamos entregar aos nossos filhos, e que filhos vamos entregar à natureza? É de se pensar.

Tudo isso é de se pensar.

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Bento e seus limites – parte 1

Como o nascimento, tem uma outra cena do meu afilhado, o Bento, que, suponho, jamais esquecerei. Estávamos todos brincando com ele, ele com pouco mais de um ano, quando pôs-se de pé.

Sorriso nu e faceiro no rosto, corpo instável sobre duas perninhas que pareciam não estar preparadas para suportar aqueles poucos quilogramas. Bento cambaleava. Bento parecia ter sido embriagado. E sorria. E a expectativa de todos é que ele desse o primeiro passo, e depois o segundo e o terceiro. Estávamos posicionados em lugares opostos da cozinha, e cada um, em seu íntimo, imaginava-se agachando e esticando os braços para recebê-lo. Achávamos que ele caminharia cada vez que colocava-se na posição ereta, conquista de nossos ancestrais. Ele sorria de novo, as bolinhas escuras dos seus olhos iam de um lado pro outro, alegres como a boca. Mas Bento sentava-se repentinamente, num tombo, e parecia feliz.

Bento repetiria aquela posição muitas e muitas vezes até fortificar-se, até caminhar. Ao contrário dos demais, era a aparente indecisão que me encantava, quando ele sorria pra nós e parecia dizer: “Uma hora dessas eu vou caminhar, vocês vão ver. E quando eu decidir caminhar, preparem-se, senhoras e senhores”. E caía de bunda.

Tem uma história bonita sobre a vida da gente que nos compara a pratos de porcelana. E diz que a gente precisa decidir crescer e transformar-se em pratos grandes, mesmo que, maiores e com menos controle de nosso corpo no espaço, aumentemos o risco de rachar, de quebrarmos, de produzir rachaduras. Mas precisamos decidir por crescer. Precisamos nos colocar à prova. Para não corrermos o risco ¬¬– termina a bela história – de sermos úteis apenas para acomodar a sobremesa dos convidados. E quem convida alguém para servir apenas a sobremesa?

Todos temos limites, bem sabemos. Uns querem mais que os outros transpor essas divisas e ver logo, de uma vez, o que há do outro lado. E como serão quando chegarem neste outro lado. Outros, ao contrário, preferem ir vivendo a vida, cuidando para não se aproximarem das demarcações, das fronteiras do caminho. Um caminho que, nenhum dos dois, sabe bem qual é.

Uma criança ainda não sabe, mas caminhará. Mais cedo ou mais tarde, caminhará. Caminhará quando seu corpo, quando sua estrutura óssea, estiverem preparados, quando seu cérebro estiver suficientemente adaptado ao mundo dos gigantes. Agora, diferentemente ao ato de caminhar e falar, por exemplo, há decisões na nossa vida, a de crescer e transformar-se de prato de sobremesa para prato de refeição, que depende só da gente mesmo. A gente é que decide encarar os desafios da vida, explorar o desconhecido para nos tornarmos mais fortes, mais testados, mais experientes.

Aprendi que o mais importante é a consciência de que a decisão de ficar ou de partir estará sempre nas nossas mãos. Seremos arrojados ou conservadores se assim o quisermos. É diferente do trio de sabiás que nasceu num ninho no pátio aqui de casa e que partiu esses dias. Nem pudemos curtir direito o momento sublime. Depois dos ovinhos, vieram as criaturinhas peladas, famintas e de olhos fechados. Víamos quase sempre com pescoço esticado, bico aberto para cima, à espera da chegada da comida, que a mãe trazia aparentemente no horário marcado. Logo em seguida, transformaram-se em pequenos pássaros, de penas novas, testando o ambiente em que nasceram para poder voar para longe dali.

Se o sabiá – a magestade, o sabiá – já encanta por seguir a risca o script de sua vida, mais cativante ainda é a história de uma criatura que depois que caminha e fala, porque assim quer a sua natureza, decide por sua conta e risco os caminhos que quer seguir. Nós escrevemos as nossas vidas a cada decisão, a cada “sim”, a cada “não”, a cada proposta, a cada cerveja que combinamos tomar com um amigo. Seja você cristão ou não, quero dizer que Deus nos criou e nos deu a liberdade. E será só nosso o mérito de como viveremos essa liberdade de explorar o mundo e suas infinitas possibilidades.

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Temos o mundo inteiro no nosso quintal

Lembro como se fosse agora. Eu brincava de Comandos em Ação e sempre que havia algum tiroteio ou uma bomba explodisse, eu piscava os olhos. Mas piscava numa velocidade inimaginável para os adultos, abrindo e fechando os olhos, enquanto o inimigo era destruído, aniquilado. Minhas bochechas inchavam de ar e minha boca produzia os efeitos sonoros do bombardeio. Enquanto meus olhos piscavam. Ininterruptamente. Era o efeito precursor do efeito três dê. Som e luzes na maior batalha daquele turno de aventuras. E como eram emocionantes minhas brincadeiras com os Comandos em Ação. Como eram.

Meu afilhado e sobrinho Bento, com seus dezenove meses de adaptação a este mundo, já pode dizer que possui cinco grandes amigos – além, é claro, do Prendedolho e do Ventoso: o Pablo, um pinguim azul – a quem o Bento, intimamente, resolveu chamar de “pá” –; o Tyrone, um alce cor de alce; a Uniqua, um bicho cor-de-rosa sem definição de espécie, que instiga a criançada a começar a pensar em extraterrestres; a Tasha, que não é uma segunda filha da Xuxa, mas uma simpática hipopótama amarela; e o canguru Austin. Os cinco amigos são personagens do desenho animado Backyardigans, conhecido também como série musical, sensação entre as crianças deste nosso tempo. E sabem o que fazem os Backyardigans para encantar as crianças e os pais das crianças? Brincam no quintal de sua casa. E piscam os olhos e enchem a boca de ar. E imaginam um mundo que, aparentemente, não existe.

Qual a tua relação com o mundo? E como tu te relacionas com as pessoas? E o que significa a natureza e as inúmeras outras cenas com as quais tu te deparas diariamente? Muitos anos depois da última brincadeira com os Comandos em Ação e bastante tempo antes também de segurar o Bento nos meus braços pela primeira vez, fui apresentado ao documentário Quem Somos Nós.

O documentário, produzido em 2004, ensina física quântica. Mas não do jeito complicado com que tu deves estar imaginando. A sua principal lição é que, constantemente, podemos piscar os nossos olhos ininterruptamente e encher nossa boca de ar para produzir imagens e sons diferentes. Ele prega que podemos ir até o quintal de nossas casas e transformá-lo em uma nave da Nasa, em um navio de piratas ou em um campo de futebol do Brasileirão. Tudo com a imaginação.

Mas a mente não produz só imaginação.

A nossa mente, como bem sabemos, comanda tudo. Nossa relação com o mundo, nossa relação com as pessoas, nossa relação com a natureza e com todas as cenas com as quais nos deparamos. Nossa mente tem o poder de criar, de transformar, de multiplicar possibilidades. Ela tem o poder, se quisermos, de captar uma das milhares de possibilidades que passam à nossa frente a cada instante e torná-la realidade.

E pra que serve isso? Para sermos mais felizes, basicamente. Os Comandos em Ação, os Backyardigans e o Bento, com pouco mais de um ano de sabedoria, são sinais de felicidade para mim. Tudo porque, querendo ou não, sendo bom ou não pensar assim, minha mente é completamente responsável pelo que sinto, por como vivo.

O lugar onde estás nesse momento, lendo este texto, certamente possui um significado para ti. De um lugar agradável, de um lugar agitado, de um lugar pouco aprazível. Seja lá qual for, não importa. O que importa é que este significado está sendo produzido pela tua mente. Tu, involuntariamente, atribuis um significado a tudo o que vês, a todos que conheces, a tudo o que vives. Tu escolhes o significado para tudo.

E, por isso, tudo pode ser diferente, nos ensina Pablo, o pinguim criativo dos Backyardigans.

De mais uma crônica sobre a primeira infância do meu amado afilhado Bento, isso aqui virou um texto de auto-ajuda, alguns pensarão. Pode ser. E não gostarão deste texto. Também pode ser. Porque ninguém gosta de auto-ajuda. E eu sei bem porquê.

Porque todos, me incluo, preferimos, não sei a razão, vivermos no entediante quintal de nossa casa, sem piscar os olhos e sem encher as bochechas de ar. Preferimos deixar nossa mente imaginar o que quiser, com o pessimismo que é próprio dos animais, atentos à próxima ação de seu predador. Em geral, as pessoas desdenham livros de auto-ajuda. Estranhamente, essas pessoas são as mesmas que nunca puseram em prática nenhuma das absurdas sugestões do autor.

Estranhamente, tem gente que prefere acreditar em suas limitações. Tem gente que até prefere pensar que sua vida não tem mais sentido, enquanto ignora dizerem que tem o mundo inteiro em seu próprio quintal.

Os Backyardigans

 

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A lucidez do Bento

Eu vejo divindade nos bebês. Especialmente no meu afilhado Bento, que acaba de completar um ano entre a gente. Desde antes do seu nascimento, falei muito do Bento aqui. Mas nunca disse o quanto admiro a sua lucidez, a sua divindade.

E a divindade do Bento me fez entender que quanto mais crescemos, mais precisamos redescobrir a divindade que está escondida dentro de nós. Divindade esta que, para ser bem ecumênico e atingir a todos, pode ser entendida por alegria de viver, entendimento do nosso universo ou coisa que o valha.

Fica observando um bebê com seu pouco mais – ou pouco menos – de um ano de vida. Observa. Todos os seus hábitos, suas reações e manifestações são incompreensíveis pra nós. Como se eles se relacionassem com a vida e com seus elementos essenciais de um jeito particular. Como se vivessem indiferentes aos nossos padrões de existência. Muitos até chamam isso de inocência.

Observa.

Uma colher não é uma colher como são para nós, adultos, as colheres. É mais. É alguma coisa especial, grande, com curvas engraçadas, que brilha e emite sons divertidos quando batida na mesa ou jogada no chão.

Você chama um bebê e ele não atende. Mas quando você o esquece, ele fixa o olhar em você como se você fosse muito diferente dos demais.

Você faz as suas palhaçadas, tapa e destapa o rosto, planta bananeira e nada detém a atenção do bebê. Mas quando a mãe ou a avó batem palma bem de longe, lá de longe, seu sorriso se enche de gengivas.

A mamãe quer dar-lhe de comer e ele recusa. Recusa porque viu algo de novo em algum lugar da varanda. Algo que merece toda sua energia naquele momento. Ele age como se cada momento fosse nunca mais voltar. Sábio ele, hem?

Sem os nossos vícios de adultos, os bebês gargalham e apontam para os passarinhos. Espantam-se e balbuciam sons sem sentido. Contemplam as flores por meses e meses até crescerem, receberem nossa influência e passarem a preferir os shopping centers e os smartphones. Sem a nossa desconfiança, os pequenos admiram-se com um conjunto de lápis de cor e saem rabiscando formas que fingimos que entendemos – como num teste de psicotécnico – só para recompensar a sua dedicação.

São divinos esses bebês porque enxergam a vida com a lucidez que nós já perdemos. És divino, Bento.

Quando olho pro meu afilhado e faço sinal de positivo, ele só me olha. Enquanto eu espero a repetição do mesmo gesto que consiste em cerrar o punho e esticar o polegar. Ele só me olha. Como se me admirasse.

A vida é duma simplicidade pros bebês! E não será esta a mesma vida que vivemos nós?

Adultos retiram Deus de suas vidas e ficam cegos para as graças que o mundo nos apresenta a cada repetição ímpar do nascer do sol. Adultos preenchem suas horas com coisas quaisquer e nunca têm tempo para o que admitem ser essencial. Adultos são gente estranha procurando entender a dinâmica cerebral dos bebês. Dos bebês e da sua divindade.

Atrás das portas aqui em casa há uma bolinha de borracha presa no chão. Sua função é evitar que a macaneta da porta bata na parede quando aberta repentinamente. Todos os finais de semana, Bento tenta tirar a tal bolinha dali para brincar e não consegue. E não entende. Por que a bolinha não pode vir brincar comigo? Por que, meu Deus?

Quando Bento me ver fazer um sinal de positivo e me devolver o mesmo gesto, vou passar a entendê-lo melhor. Quando Bento entender a razão pela qual aquela bolinha cinza e suja está presa ao chão, Bento terá crescido. Bento será mais previsível, mas menos divino, menos lúcido. Bento será só mais um de nós, crescendo para tornar-se cada vez mais só mais um de nós. Um esclerosado.

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Para o que tu bates palmas?

Escrevo esse texto com uma tristeza alegre, que é como o poeta Fabrício Carpinejar define a saudade. Não vejo o Bento há exatos 20 dias e parece uma eternidade. E ele deve estar fazendo milhões de coisas novas que ainda não presenciei e que, por isso, não pude relatar aqui pra vocês. E não o verei pelo menos nos próximos cinco dias. Ele deve estar um gigante já. Tudo isso é uma lástima. Uma tristeza não ver o meu afilhado Bento. Mas uma tristeza alegre.

Fiquem com a última evolução que pude presenciar no meu sobrinho: ele agora bate palminhas.

***

Minha memória é seletiva. Terei leitores rindo essa hora, sei. Dirão que ela não selecionou nada até hoje. Mas a verdade é que, embora eu também desconfie da primeira frase, tem vezes que me surpreendo com flashs que me veem do nada, contando alguma situação relevante do passado. A última ocorrência disso foi na tarde de um sábado quente desses aí.

O aniversário de um ano do Miguel, filho do Léo, meu ex-chefe e grande pessoa, me fez lembrar do dia em que recebi vizinhos taiwaneses aqui em casa, bem no início da minha faculdade. Sim, vizinhos made in Taiwan. Precisava entrevistá-los para um trabalho. O que me lembro porque me marcou foi quando eles disseram que no país deles — e em toda cultura oriental — eles não festejavam as crianças como nós o fazemos. Mas os idosos. Para eles, a pessoa digna de ós e de salvas de palmas é, sim, senhoras e senhores, o velho. Aquele que viveu a vida, que sofreu, que enrugou-se, e que contraiu sabedoria, o maior de todos os bens humanos. Não a criança e sua paupérrima compreensão da vida. Não a criança e seus passinhos sôfregos. Não a criança e seu idioma de meia dúzia de vocábulos molhados de baba. Não a criança e seus livros repletos de figurinhas.

Mas a criança ocidental ela é lucrativa. Porque movimenta-se em torno de um mundo de cores e de formas, ela tem curiosidade, ela consome e quer as coisas pra ela. E mais coisas pra ela são fabricadas. Até que ela deseje mais e deixe seu pai frustrado por não poder saciar sua sede. E ela tem futuro, diferentemente do velho. A criança é, portanto e ao mesmo tempo, um bom cliente e um investimento de curto, médio e longo prazo. A criança é a sustentabilidade da economia. E isso movimenta a roda dessa mesma economia. E gera empregos e renda. Para que os pais tenham condições de serem felizes e de comprar mais coisas que as crianças querem. É por isso, portanto, que fazemos festas de um ano e batemos palmas para as crianças. Elas são nosso sustento.

Bater palmas, diga-se, é uma coisa que gostamos de fazer. É o principal símbolo da concordância, do elogio, da condescendência.

E o Bento, o meu sobrinho e afilhado de quase dez meses, começou a bater palmas esses dias. Começou a fazer festa praquilo que aprova. Em sua ingênua forma de fazer juízo de valor, mas é isso: o Bento já aprova as coisas de seu mundo com uma desengonçada salva de palmas.

Fico aqui pensando, de trás dos meus óculos antigos (há quanto tempo não troco meus óculos!), para o que o Bento baterá palmas quando puder fazer avaliações do tipo que eu faço, que, nós adultos, fazemos? Haverá guerras para o Bento se recusar a aplaudir? E Bento baterá palmas para o casamento homossexual? E para o BBB 22? E para a volta do Roth, com a idade do Zagallo, vindo treinar o Grêmio? E Bento concordará com a lipo da namorada? E com a promoção do chefe que não faz nada?

E você, no alto de sua envergadura moral, para o que você bate palmas atualmente?

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O Prendedolho e o Bento

Olá, meu nome, como vocês já desconfiam, é esse troço esquisito: Prendedolho. Chamam-me assim porque, além de ter nascido um simples prendedor de roupas de madeira, eu desenvolvi uma capacidade que me difere dos outros. Digo pra vocês, e sei que posso causar espanto a um ou outro, mas eu posso ver. Isso, enxergar. Distinguir entre um objeto e outro, entre uma pessoa e outra. Taí a razão do meu nome. Prendedolho. E estou aqui, contando essa história pra vocês, porque há exatamente um mês minha vida mudou.

Tinha uma rotina era de um prendedor de roupas qualquer. Tenho até hoje como habitat natural uma grade, em formato de elos de corrente, que decora uma estreita janela ao lado da porta de uma cozinha. Em Canoas. Vivo aqui desde sempre. E gosto bastante deste lugar. Percebo que sou útil, sabe? E como é bom sentir-se útil… A dona Ema, avó do Bento, aquele do título ali de cima, é quem mais convive comigo. Isso, claro, até o seu neto nascer, desenvolver-se e chegar ao sétimo mês. Coisa que contarei a vocês com mais detalhes daqui a pouco. Bom, sou útil para a Dona Ema porque volta e meia ela precisa de um prendedor de roupas para prender roupas no varal (óbvio!) ou para funções um pouco mais nobres. Posso dizer, com orgulho, que já atuei como prendedor para pacotes de biscoito, para pacotes de erva-mate e até – morram de inveja! – para decorar a cozinha da dona Ema. Verdade. Uma vez ela pôs em mim umas bonitas flores de biscuit e eu tornei-me uma espécie de bibelô da dona Ema. Ela pendurava-me a um bonito pano de prato, com bordas de crochê, em cima da pia da cozinha. Mas foi só uma fase. Depois, voltei ao anonimato da minha grade preferida. Volta e meia, pegavam-me de novo para evitar que o ar entrasse dentro dos pacotes de biscoito ou de erva-mate. No caso do biscoito, o ar o amolece, e no da erva-mate, pelo fato de ela ser muito leve, ela pode voar se a embalagem ficar aberta. Sempre culpa do ar. Quando eu ocupo o meu posto mais tradicional também o faço para evitar que o ar, neste caso mais conhecido como vento, impeça as roupas de cair. Já aconteceu uma vez. Um irmão meu quebrou e o vento jogou uma calça jeans na grama. Tinha chovido e aquela calça, além de não secar, teve de ser lavada de novo. Quando isso acontece, pra nós prendedores, é o pior dos mundos. É como se fracassássemos, sabe? E como vocês, humanos, temos dificuldade de lidar com o fracasso.

Coisa que o Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, começou a exercitar neste sétimo mês. Deixem-me falar pra vocês sobre o Bento e sobre minha relação com esse piá. Falando nisso, ele completa oito meses hoje, 15/12, viram? Bom, essa bela criança, de pernas e braços brancos e compridos, me descobriu dia desses. Estava ele no colo da dona Ema, a dona Ema de pé, quando eu o vi me mirando. Tentei desviar o olhar, fazendo que não era comigo, mas foi em vão. Ele me olhou reto, começou a fazer biquinho com a boca, esticou o braço em minha direção e começou a balançá-lo. Braços e pernas em grande entusiasmo. Fiquei apreensivo, quase assustado. Embora estejamos sempre em contato com mãos humanas, eu fiquei amedrontado com aquela pequena pessoa que olhava pra mim de um jeito estranho e fazia gestos como se quisesse me fazer algum mal. Só mais tarde descobri que não era pra tanto. Acabei descobrindo que pessoas como vocês, quando estão nessa idade, com seis ou sete meses, precisam pegar com as mãos todo tipo de coisa e, mais: levá-las ate à boca. Foi isso que o Bento passou a fazer comigo todos os dias que vinha visitar sua avó, a dona Ema, aqui em Canoas. Todos os dias. Ele entrava na cozinha e vinha direto me pegar. Era até divertido, sabem? Ele me pegava, olhava pra mim, me balançava um pouco e logo me colocava em sua boca molhada. E ficava ali, me melecando todo com sua saliva.

Até que o tempo passou, o Bento cresceu e não contentou-se em pegar-me e levar-me ao encontro de sua língua. Foi desse dia em diante que descobri que havia algo de ruim em poder ver. Digo pra vocês que desenvolvi medo de altura. Pode? Eu que sempre vivi no alto de um varal com medo de altura! Mas foi isso. Culpa do Bento. Essa criaturinha sem noção. Tá bom, eu sei que ele não tem culpa. Mas e eu? Como eu fico? E a acrofobia?

Meu drama começou quando o Bento completou sete meses. Naquele dia, o Bento pegou-me, como sempre, mostrou-me o seu biquinho, como sempre, e levou-me à sua boca. Tudo como sempre. Até que o Bento descobriu que podia fazer mais do que isso. E me usou. Descobriu que o Prendedolhozinho aqui podia ser ainda mais divertido. Perguntem se ele me consultou, perguntem! Que nada. Sabem o que ele passou a fazer desde lá? O Bento e os seus perversos dedinhos de unhas minúsculas passaram a soltar-me do alto do colo de sua avó. Sem dó, sem piedade, sem o mínimo de noção do perigo. E seu eu me quebrar todo? E se o ferro que sustenta meu corpo e garante minha profissão se soltar? Mas, não. Ninguém se preocupa comigo. Querem mesmo é ver o tal Bentinho se divertindo às minhas custas. É só o querem. Humanos.

Já estou acabando meu desabafo. Sabem o que mais eu ouvi esses dias? Sabe qual foi a desculpa que eles estão dando para esse mais recente passatempo do Bento? Que faz parte do desenvolvimento da criança a capacidade de pegar e soltar as coisas. De lidar com a perda, com o fracasso. Que ele precisa realizar a experiência de causa e efeito. Que mesmo quando um objeto está longe do seu campo de visão, continua existindo e pode voltar às suas mãos. Ora, façam-me o favor! E não podia ser de uma distância menor? Não podia ser em cima daquele seu cobertor fofo? E não podia ser com um daqueles seus brinquedos coloridinhos, de plástico? Não podia?

Este é o último parágrafo. Sim, já estou mais calmo. E quero que o senhor, seu Bento, quando puderes ler isso, que o senhor me valorize. Que valorizes o que eu representei para ti. Quero que saibas que o Prendedolho aqui não foi um prendedor de roupas qualquer. Que participei do teu desenvolvimento como criança. Que fui útil para a articulação dos teus dedinhos, para o amadurecimento da tua fase oral e, mais importante, para a tua noção de desapego. Foi importante tu perceberes que já podias viver sem mim. Sem o Prendedolho querido aqui. E isso, seu Bento, pelo que eu observo desse monte de gente grande, tu terás que fazer muitas vezes ainda na tua vida aqui neste mundo. Ter a capacidade de valorizar a si mesmo e poder despreender-se das coisas e dos objetos será fundamental para a tua evolução. Sem medo da perda ou da derrota. E daí não só como ser humano que nasce, cresce e aprende a caminhar. Mas como uma pessoa mesmo. Que passará a valorizar-se pelo que é e não pelo que possui. Que passará a valorizar o mundo e as pessoas como são e não pelo que têm.

Se cuidarem bem de mim, maneirando nas alturas, eu continuarei aqui. No alto dessa grade, disponível para você e para os demais. Para secar as roupas, para combater as frestas. Eu, o mais especial dos prendedores de roupa que vocês já conheceram.

Abraço forte, Prendedolho.

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Sobre a gastronomia do Bento

Meio potinho de sobremesa de mamão bem amassado, seu carrinho em movimentos ritmados e repetidos e, pronto, o Bento já repousa seus olhos fechados sobre suas bochechas brancas e delicadas. Dorme.

Meu pequeno sobrinho e afilhado completa seis meses no próximo dia 15 e fez algo nas últimas semanas de que se lembrará de fazer por toda vida: Bento alimentou-se com comida de adulto. Bento passou a acrescentar frutas à sua dieta de bebê que mama no peito. Já comeu banana, abacate, mamão e chupou minha maçã. E gostou.

Foi assim. Eu vinha da cozinha pra garagem comendo minha maçã, bem belo, quando chamaram minha atenção para o Bento. Ele estava com os bracinhos esticados, lábios em biquinho e olhos concentrados na minha fruta. Eu podia ver aquele círculo vermelho desenhado na íris do pequeno Bento. Segundos depois, graças à generosidade deste que vos escreve, ele já estava com a boquinha encaixada no buraco da minha mordida, dedicando toda sua energia para extrair para si o máximo daquele líquido doce.

Sabem que nos últimos meses o ato de comer, assim como Bento faz um terço do seu tempo de vida, vem me intrigando? Porque muitas vezes, o ser humano não come só para alimentar-se. Óbvio, né? Mas mais. O ser humano também não come só pelo prazer que a comida ou aquela trufa de chocolate cremoso causa em alguma parte do seu complicado cérebro. A gente quer mais do que prazer. Não sei o que agente quer mais. Mas tenho a impressão de que há algo em mim faltando e esse algo será ilusoriamente substituído pela comida. Não te parece? Que às vezes tu comes, comes, comes e a comida ou a fome acabam antes de acabar aquele vazio que tu tens aí dentro? Pensa e me ajuda a responder essa existencial interrogação.

Bem, mas vamos voltar ao que interessa. Eu estava terminando um trabalho da Pós no quarto, quando vieram me chamar. Venha ver o Bento chupar o dedo do pé. Incrédulo, saltei da minha cadeira, dei toda a volta na casa para conferir mais essa desse piá. Pediram-me silêncio. Avancei repousando um pé após o outro para que os meus olhos vissem a cena com toda sua naturalidade. Nem banana, nem mamão, nem abacate, nem a maçã suculenta do tio. O pequeno Bento deliciava-se era com o dedão branco e comprido – sim, de tanto chupá-lo – de seu pé-bisnaguinha direito. Não tirei conclusão alguma. Tem cenas que se justificam só por acontecer. Sorri mais uma vez de admirado que estava com este meu sobrinho.

(Leia mais sobre o Bento clicando aqui).

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