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Para os que gostam do futebol

Para estes, encantados como eu por este esporte, quero contar-lhes uma tese que tenho. Sim, porque sou treinador de futebol como tantos milhões nesse país e me reservo ao direito de ter uma tese sobre futebol (como já publiquei aqui uma explicando porque o Inter vence Grenais).

Bem, a tese é a seguinte:

Quero explicar aqui porque o futebol, e não o basquete, não o remo, não o ciclismo, é o esporte que pára o mundo quando sua competição mundial acontece. O que leva as pessoas de todo planeta para os estádios, para a frente da tevê ou para o radinho para acompanhar uma partida de futebol? De certo, já é o esporte que mais dinheiro acumula de patrocinadores. Claro que sabem desse nosso facínio. De certo, é o que mais leva gente às suas arenas. De certo é o que mais recebe atenção dos veículos de comunicação. Mas porquê?

E aqui está a minha tese.

Porque o futebol, mais do que qualquer outro esporte – será porque este se joga com os pés? –, o futebol arruína a maior conquista do homem em todos os tempos: a previsibilidade. Com cálculos, o homem mantém de pé prédios com toneladas de concreto, eletrodomésticos e sapatos femininos. Com cálculos, o homem faz uma caixa de lata levantar vôo com algumas centenas de pessoas dentro. E os levar a atravessar o Atlântico. E sabe que hora chegará, a menos que saia do Brasil. O tempo e a temperatura também já podem ser previstos. A morte já pode ser adiada graças à medicina moderna e a evolução do seu entendimento de nosso corpo. Há pouco em nossa vida que já não esteja previsto. Temos horário para acordar, para levantar e dead-line para sair. Temos dias determinados para descansar e período específico para tirar férias de tudo. Temos o mesmo trabalho todos os dias. Se casamos, quero pensar que temos a mesma mulher ou o mesmo homem todos os dias. A previsibilidade criou, já que lembrei do casamento, criou a rotina. E ela, a repetição, é o mal de muita coisa, não é?

Menos do futebol.

O futebol é imprevisível.

No futebol, não se pode reduzir para deixar o colega de equipe, mas adversário de prova, receber a bandeirada em seu lugar. No futebol, nunca o tecido da vestimenta – seja de pele de tubarão ou de outro qualquer fruto do mar – será o que determinará a derrota.

Mas há falcatruas no futebol, dirão.

Dirão que o Ronaldo Fenômeno entregou a Copa de 1998. Que o juiz aquele determinou o campeão do Brasileirão de que ano mesmo? Que o Ricardo Teixeira está escolhendo o técnico mais rentável e não mais competente para dirigir a Seleção. Que o Leandro só joga no Grêmio porque há uma cláusula contratual para que ele jogue.

Dirão barbaridades de toda ordem.

Mesmo se tudo isso tivesse alguma chance de ser verdade, mesmo se todas essas coisas improváveis tivessem nos feito de palhaços, nenhuma delas seria capaz de diminuir no futebol o seu senso de imprevisibilidade, o seu encanto. Nenhuma.

Filme um lance e tente encontrá-lo em algum outro jogo de qualquer outro país. Tu não encontrarás.

Chute saindo do mesmo centímetro de grama, bola voando na mesma velocidade e encontrando a mesma fibra do cordão da rede presa na goleira? Ah, não encontrarás.

Tente negociar com os dirigentes de Gana e Uruguai que o jogo deverá ser assim: aos 15min da prorrogação, haverá um entrevero na pequena área do Uruguai. Soarez tirará o gol com a cabeça e, em seguida, impedirá a bola de entrar com a mão. Escancarado. Já combinamos que o chute deve ser fraco e pra cima. O juiz dará pênalti e expulsará Soarez. Deu trabalho convencê-lo de ficar fora do jogo contra a Holanda. Como sabemos que é a Holanda. Sabemos, oras. Gyan deverá bater o pênalti por Gana. Ele acertará o travessão e não fará o gol, mesmo que a bola volte pro campo – o que não deve acontecer, pelo combinado. O jogo irá pros pênaltis e Gana deverá perder. Disso, eles não sabem – e nem devem saber.

Tente combinar o que quiser, tendo o dinheiro que tiveres. O facínio pelo futebol está em ser jogado com os pés. Está em sua imprevisibilidade.

Esta é a minha tese sobre o futebol. Uma entre tantas milhares de outras por aí. De que o futebol é o nosso ópio porque nos atrai para o mundo do imprevisível. Atrai pessoas simples para um mundo onde o imprevisível pode lhes trazer a alegria e a realização, sentimos estes que já não existem mais na vida lógica que levam. O futebol nos joga para dentro de uma realidade sobre a qual não se tem controle, quando estamos cansados de viver em um mundo regido por padrões de comportamento, por unidades universais de medida do tempo e do espaço, por avançadas técnicas para redução do risco, do inesperado, do imprevisível.

E mesmo que nossos cartolas já tenham seus mais sujos acertos, eu e minha tese apostamos numa final de Copa do Mundo, na África do Sul, completamente imprevisível.

(Atualizado às 20:38 de 11/7)
Parabéns, Espanha!

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Minha campeã da Copa

Era a Alemanha. Porque ela apresentou nesta Copa, em surpreendente quantidade, o que lhe faltava: a técnica. Jogadores jovens, habilidosos e rápidos. Arrasou a Inglaterra, humilhou a Argentina. E o que ela sempre teve?

Lembro de um casal de amigos q contou sobre a viagem q fez à Alemanha um tempo atrás. Eu pasmo enquanto eles tentavam me convencer que lá, no país de onde vieram os avós dos meus avós maternos, lá as pessoas usavam o trem e depositavam a passagem em dinheiro em uma espécie de roleta sem que ninguém os cobrasse e sem que a roleta os travasse.

É isso que a Alemanha sempre teve: a disciplina. A mesma disciplina que os fez perder hoje.

Posso ver a conversa entre os jogadores e o técnico comedor de meleca no intervalo do jogo:

– Vocês continuarão sem atacar. Aguardarão o contra-ataque, como já mandei que façam – mandou o treinador.
– Mas eles estão marcando nosso contra-ataque… – diria Ozil, respeitosamente.
– Não atacarão.
– O time deles está por todo campo… – tentou Schweinsteiger, olhar vindo de baixo, enquanto era interrompido.
– Não atacarão.
– Eles acabarão fazendo gol… – Cacau tentou em português.
– Não atacarão.
– E se fizerem gol? – ocorreu a Klose.

O juiz apita para o segundo tempo, a Espanha faz o gol e classifica-se para a final pela primeira vez na história.

A Espanha deve ser a campeã. Continuo acreditando na disciplina do polvo alemão.

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O medo muda pessoas e times de futebol

No futebol, um time pode perder pelo medo ou vencer pelo medo. Mas mesmo vencendo, não terá eliminado o principal: o sentimento do medo.

Eu, por exemplo, conheço gente que vence pelo medo. Gente que, por circunstâncias da vida, gente que, por herança genética, gente que, por padrão familiar, é, assim, que nem o Grêmio. Gente que não leva desaforo pra casa. Gente que estufa o peito sempre que fala, e seja o que for que fala, fala de si mesmo. Gente que se orgulha de ser o que é, que se orgulha muito de qualquer feito que realiza. Gente que, embora não despreze os outros, vive como se vivesse só neste mundo, admirando suas qualidades e dando de ombros pros defeitos que ouviu dizer que possui. É gente forte essa gente. Gente que parece grande, que parece uma fortaleza. Mas que no fundo sente medo.

Você conhece gente assim. Sei que conhece. Gente que parece ser o que não é. É gente que tem sofrimentos por dentro, que têm feridas que ardem no peito. São gente, essa gente, que são assim, donas de si, porque às vezes esse é a única forma de se manter de pé. É gente que não fica na defesa esperando o pior voltar. É gente que, pra vencer a batalha dura de cada dia, está sempre no ataque. É gente que, no fundo, tem medo.

É como o Grêmio.

Mais do que imortal, mais do que proprietário de uma alma castelhana, o Grêmio é hoje um clube no qual habita o medo. Eu já disse aqui porquê o Grêmio perde seus Grenais. Porquê perde a maioria dos Grenais que disputa. O Grêmio não é só um time com baixa auto-estima, é muito mais, é um time com medo. Com medo até de sua própria sombra.

Mas o Grêmio tenta conviver com esse seu medo — ao invés de eliminá-lo. Contratou Silas, um técnico que joga pra frente, estilo próprio dos times ousados. Recebeu o Santos no Olímpico, pelas semifinais da Copa do Brasil e sentiu medo. Tomou logo dois a zero por puro medo. E virou também graças ao medo que sentia e graças a Silas. Sabia que se não fosse logo ao ataque e usasse a qualidade que tem, não precisaria nem voar pra São Paulo jogar o jogo de volta. Foi ao ataque e descobriu que pode jogar: venceu por quatro a três. Deixou o Brasil de boca aberta com o futebol que apresentou. Corajoso, veloz, hábil, agressivo, destrutivo. Assim foi o meu Grêmio naquela noite contra o Santos, no Olímpico. Na Vila, Silas prometeu e cumpriu. O Grêmio fez de sua defesa o ataque mais uma vez. Por quê? Porque estava louco de medo. Fez errado? Não. Talvez essa fosse a única forma mesmo de conter o time paulista. Mas o time que joga pra frente não porque acredita que pode, não porque é até um pouco arrogante de tanto orgulho que tem de si, esse time não vai longe. Na volta pro segundo tempo de zero a zero, o Grêmio desconcentrou, lembrou do medo que sente por qualquer time que o ameaça, lembrou que pensa que é inferior aos demais, e o seu medo agigantou-se. O Grêmio viu a cara feia de seu medo. Levou gol por cobertura, gol driblando o goleiro. Viu dancinha. Três a um e o fim do sonho do título.

Uma semana depois, o Grêmio joga com um Palmeiras em crise, com técnico interino e sem os dois melhores jogadores — Robert e Diego Souza. E perde. Esquece dos jogos que fez contra o Santos quando quis jogar. Esquece de suas capacidades. O Grêmio não é mais um time só com problemas de auto-estima. É também um clube medroso, que não se faz respeitar. Vence o melhor time do país por causa de seu medo, e perde para um Palmeiras fraco e em crise também por medo.

Diferentemente de qualquer outro clube, o Grêmio não devia mais preocupar-se com vitórias ou derrotas. Devia preocupar-se com seu orgulho, sua auto-estima e com o medo que sente em seu íntimo.

É a ferida de ter ido duas vezes à Segunda Divisão? É trauma pela traição de Ronaldinho Gaúcho? É saudades do Felipão? É a inveja de ter um concorrente na mesma cidade que se intitula Campeão de Tudo e tem seu amor próprio inflado por um título mundial na hora certa em que o departamento de Marketing estava pronto para tirar o melhor proveito possível da conquista? Não sei a razão que leva o meu Grêmio ao divã.

Uma pessoa pode escolher viver mascarando e protegendo seus medos por inúmeras circunstâncias da vida, mas um clube de futebol, esse não pode.

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Porque o Inter vence os Grenais

Posso ver o aparelho nos dentes do Luiz Fernando reluzir. Faz uma década e meia já. Eu jogava na escolhinha de futebol do Inter (sim, do Inter) e naquela tarde fomos treinar no Gigantinho por causa da chuva. Batemos bola na quadra e também em volta dela. Até na arquibancada tinha gente fazendo os exercícios com bola que o professor havia recomendado. No final, fomos todos reunidos num lugar sem luz elétrica, com pedaços de claridade no chão e nas mobílias, refletidos pelas frestas das basculantes. O aparelho dental do Luiz reluzia com o reflexo do sol do fim de tarde. Eu podia imaginar o quanto aquele momento representava pros outros guris pelo silêncio que eles faziam. Nem no saco de bola eles ousavam tocar. Tudo o que mais gostavam de fazer ficara em segundo plano. O mais importante era o anúncio que o professor faria. Da lista do semestre com atletas que comporiam a seleção do Inter. A convocação pra seleção era o momento mais grandioso. Nem o gol de virada no final do jogo-treino, nem o título de goleador do campeonato interno, nem o elogio do pai que assistia da arquibancada. Nem. A convocação para a seleção era o que havia de mais aguardado. Ela separava os fora de série dos medianos e medíocres. Premiava os talentosos e colocava os esforçados à margem. Mas tinha uma característica, uma só, que me diferenciava do Luiz Fernando mais do que todas as outras, e que seria decisiva para que o seu nome composto, com seus dois sobrenomes e mais o Júnior do final fossem sonoramente pronunciados naquela tarde: a auto-estima. O Luiz era um cara que acreditava em si, e que jogava bem também por causa disso. Jogava com as mãos na cintura, ora arrumando as meias, ora dando um grito de ordem aos companheiros. Posso vê-lo fazendo isso. Chamavam-no de Dunga. E com razão. Era mais que um guri que tratava bem a bola, o Luiz era um líder dentro de campo.  As coisas aconteciam ao natural para o Luiz. O chute com direção, o lançamento à distância, a roubada de bola sem falta, o gol e a convocação para a seleção da escolhinha. Eu? Eu era só um mediano, que sequer acreditava que podia se sair melhor. O Luiz não era um craque. Chamavam-no de Dunga, ora. O Luiz tinha auto-estima. Foi pra seleção, mudou de horários e eu perdi minha carona para sempre.

O que faz o Inter ganhar os Grenais não é nada mais do que a sua tremenda auto-estima. Méritos para Fernando Carvalho, o atual vice-presidente de futebol, e presidente do Inter quando o clube sagrou-se Campeão de Tudo. Isso, de Tudo. Em 2006, ganhou a Libertadores e o Mundial da Fifa. Em 2007, a Recopa e, em 2008, a Copa Sulamericana. Por causa da sequência de títulos importantes — e internacionais — botou o departamento de Marketing a trabalhar até que cunharam o tal predicado Campeão de Tudo. Não ganharam duas Libertadores como o Grêmio, nem quatro Copas do Brasil. Nem têm a maior torcida do Rio Grande do Sul, nem o título intercontinental mais antigo. Mas o título da Sulamericana, a desprezível Copa Conmebol no passado, credenciou seus publicitários a criarem o invejável Campeão de Tudo. Qual torcedor não quer torcer para um Campeão de Tudo? Quem, em sua rotina de trabalho duro não se sentiria, no fim da tarde, radinho na mão, o mais orgulhoso dos torcedores se o seu time fosse um Campeão de Tudo? Quem?

Voltando ainda à época do título mundial do Inter, lembro de um jantar promovido pela direção com motivos nipônicos. Nossa, o tal jantar foi o assunto por onde se andava. Pude ver fotos e fiquei impressionado. Há poucos dias, o mesmo Campeão de Tudo lotou o seu Beira-Rio para comemorar o centenário do clube. Trouxeram Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho. Soube de gremistas que venceram o orgulho e deram o braço a torcer: os caras sabem fazer festa. Foi o que disseram. Eu disse o mesmo.

O que fez o Grêmio com seu título mundial em 1983 a não ser andar aos choros em um caminhão de bombeiros e dar entrevista no Jornal do Almoço (se é que foram)? O que fez o Grêmio ao vencer pela segunda vez a Libertadores a não ser barganhar junto a alguma Secretaria Municipal a autorização de pintar os cordões da calçada de parte de Porto Alegre de azul, preto e branco? O que fez o Grêmio de seu centenário, há setes anos, a não ser produzir camisetas comemorativas e adesivos que foram parar nos carros e nos cadernos de capa dura?

Se eu quisesse tentar justificar os erros administrativos do Grêmio, poderia dizer, com razão, que o Internacional foi campeão do título máximo do futebol mundial na hora certa. O Ronaldinho Gaúcho já começava seu declínio e o marketing esportivo começava a crescer. O Inter soube aproveitar o seu momento. E enriqueceu. Mas o Grêmio, com toda sua grandiosidade, foi um medíocre.

Cheguei a ter compaixão do Inter da década de noventa. Não ganhavam nada, coitados. Não queriam acordar das noites em que lembravam do célebre Célio Silva chutando grama e bola no meio do gol pra levantar a taça de campeão da Copa do Brasil de 1993. Figueroa e Falcão já realizavam testes na UFRGS para serem congelados. Ortiz, craque do futsal, era o único ídolo da massa colorada. Mas isso foi antes de serem Campeões de Tudo. O Inter hoje é um clube revigorado, camiseta branca de gola vê, barba por fazer, sarado e dono de si. É um clube invejável, com recursos, com jogadores que não erram passes, que fazem gol no Victor, que dão janelinhas, com centro-médios que batem e não levam cartão amarelo, com pontas de lança que vencem na corrida até zagueiros de seleção e que dão passe com a nuca. O Inter encontra no interior de qualquer estado brasileiro um centroavante que não erra gol e que é vendido em alguma janela por milhões em meses. O Inter aplica dois 8 a 1, dois anos seguidos, nas finais de um campeonato. O Inter é tudo isso e muito mais: é um time que ganha Grenais. Que amedronta seu único rival e seus torcedores só de entrar em campo. É admirado pelos árbitros, pelos cronistas e pelos narradores radiofônicos. Os gritos da torcida viram música e vão parar em CDs. O Internacional não é um clube invencível, mas — mas! — é um clube com auto-estima. Como era o meu amigo Luiz Fernando.

O Grêmio perde seus Grenais simplesmente porque admira a vaidade de seu adversário e duvida de sua própria capacidade. O Grêmio é um clube submisso, que deixou de ser Campeão Brasileiro em 2008 porque achou que não merecia. Virou um clube humilde o meu Grêmio. Não será São Francisco de Assis o padroeiro daquela capelinha que puseram lá no Olímpico para os gremistas orarem e pedirem perdão por suas vitórias e goleadas pecaminosas?

E ainda dizem que os treinadores é que não têm a cara do Grêmio. Convenhamos. Desde que Dinho e Felipão foram embora e o Inter virou Campeão de Tudo, é o Grêmio que não tem mais a cara do clube pelo qual me apaixonei. O Grêmio não precisa de treinadores com seu semblante, nem um Dinho à frente da zaga, como ouvi desculparem-se pelo último Grenal perdido. O Grêmio, o meu Grêmio, precisa é de um terapeuta. E este terapeuta pode ser a conquista de um título. Que seja o Gauchão. E em cima do Inter e de toda sua auto-estima dos infernos. O Grêmio precisa de algo bem forte, com uma pedra de gelo, que o tire dessa crise de identidade, dessa frouxidão, que o recoloque de pé e orgulhoso de sua história e de seus seguidores. O Grêmio precisa de algo que resgate a sua poderosa auto-estima.

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Uma verdade sobre o futebol

Veron não amarelou

Veron não amarelou

Dia desses ouvi um dos nossos oportunistas comentaristas de futebol afirmar que a função mais importante de um técnico de futebol é animar seu elenco. É só mais uma opinião no momento oportuno em que o time voltava pro segundo tempo demonstrando nova disposição, pensei.
Estava enganado.

Como todo guri brasileiro, com minha pouca idade, eu desejava ser um jogador de futebol. E não só desejada. Posso dizer que investi em mim mesmo. Fiz escolhinha de futebol, acordava cedo no sábado pra jogar bola quase que profissionalmente. Posso sentir o cheiro daquele ginásio na Vila Ideal, em Canoas. Fiz mais: joguei na escolhinha do Grêmio e, antes disso, — acreditem! — na do Inter. Aproveitava a carona do avô de um colega do primeiro grau e lá ia eu, de vermelho e branco, tentar a vida nos gramados sem grama da capital gaúcha. Como era do lado do hipódromo, eu acho q eles botavam os cavalos a alimentar-se no nosso campinho durante a noite. Só podia. Aquele areião todo. Só podia.

Agora, a verdade: eu nunca joguei nada. Não que não soubesse jogar, não que não cobrasse bem um escanteio, não que não batesse na bola razoavelmente bem. Não que eu não driblasse. Mas eu amarelava. Confesso pra ti que eu amarelava. Eu sentia, abaixo da nuca, o peso da expectativa. Do treinador, do meu pai. A minha expectativa. E de quem quer que seja que esperasse algo de mim.

Lembro de um gol, de ter marcado um único gol em todo meu tempo de escolinha. Somando Grêmio e Inter. Um golaço. Eu no meio da área, o cara cruzou no chão, bola rasteira, pulou num, pulou noutro morrinho de terra até que eu evitei que ela passasse para o companheiro do meu lado direito. Dominei-a e bum!, ela estufou a rede, no alto da goleira. Devem ter sido mais os meus gols, mas por alguma razão, pelos lances perdidos, pela bola que mordia e pela chuteira q não deixava a bola dormir no meu pé, por tudo isso, eu esqueci de todos os outros gols que fiz.

Mas o que me faz achar que revelo aqui uma verdade sobre o futebol é uma única lembrança: a de entrar em casa ofegante, depois de uma pelada no asfalto da frente casa, goleiras de chinelos, e jurar para quem pudesse ouvir que eu era, simplesmente, o Viola. Ele mesmo. Aquele centroavante que rebolava e que conquistou a torcida do Corinthians com um gol espírita em final de campeonato, em que a bola, saindo ao lado da trave, no alto, voltou ao campo pelo pé de Viola e Viola, perna espichada no ar, botou-a nas redes. Acho q foi num Corinthians e Palmeiras. Numa final. Imaginem! E eu era exatamente esse cara, o Viola. Eu não jogava mal. Não me destacava, mas não jogava mal. Tinha bons fundamentos, pouca velocidade, boa liderança e nenhuma tolerância em campeonatos da Igreja em que o meu time era roubado. Era quase um Tcheco, portanto. Não um Veron, mas um Tcheco. E como o Tcheco, podia agora estar ganhando algumas dezenas de milhares de reais e já estar planejando que parte do mundo iria conhecer quando parasse de jogar bola. Eu podia estar jogando pelo Grêmio e ouvir a Geral cantar meu nome. Mas não estou.

Eis uma verdade sobre o futebol: futebol é cabeça, é psicológico.

E aqui está a explicação para o sucesso do técnico motivador, para eu não estar hoje ouvindo a torcida do Grêmio gritar meu nome e para o Cruzeiro não ser o campeão da Libertadores nos próximos 12 meses: futebol é ca-be-ça.

Ou não fez diferença o time argentino do Estudiantes não desistir do jogo enquanto perdia, partir pra cima, fazer dois gols e sagrar-se o atual melhor time sulamericano de 2009? Mineirão com 80 mil hostis torcedores? Fez todinha. Te digo que a cabeça de cada um daqueles argentinos fez todinha a diferença.

Há, portanto, uma única desigualdade entre eu e o Estudiantes, campeoníssimo, com passagem já comprada pra Dubai: é que eu amarelei.

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Minha trágica experiência em um estádio de futebol

Sexta-feira, o David Coimbra, escritor e cronista de Zero Hora, tocou no assunto das brigas entre torcidas. E com a peculiaridade que lhe é peculiar, com o perdão da repetição. Vale ler.

Sabem que eu já vivi a violência nos estádios? Em um deles, especificamente. Mas em um tempo em que era praticamente inimaginável tentativas de homicídio em jogos de futebol. Na mesma proporção em que era inadmissível assistir à partida de pé. Um cara de pé no estádio e um tiro, duas imensas improbabilidades daqueles tempos. Ficar de pé significava exclusivamente estar vivenciando o maior de todos os momentos do espetáculo: a iminência do gol. Sincronizados, todos punham-se de pé para acompanhar o lance. Não se confirmando, todos sentavam-se. Claro que sempre sobrava o mais distraído ou o tipo esperançoso, que sempre acreditava na roubada de bola e na arrancada inesperada e veloz em direção ao gol. Sempre tinha um. “Olha o mijoooooooo!”, era o que gritavam lá de cima. Da arquibancada superior. Umas tantas vezes a ameaça não foi só uma ameaça. Dava dó.

Foi nesses tempos, no tempo em que ir ao estádio de futebol apresentava menos riscos, que eu vivi a mais trágica das minhas experiências. 

O fato sucedeu-se no primeiro e último Grenal que assisti no Beira-Rio. Eu devia ter os meus dez ou doze anos. Não lembro qual era o placar quando aquele cidadão de preto, lá no meio daquele gramado verde, imenso e ensolarado ergueu o braço e encerrou o primeiro tempo. O intervalo era a hora de ficar de pé, de esticar as canelas, de comer pipoca e tomar aqueles refris que sempre vinham quentes e pela metade. Meu pai geralmente não levantava pra não perder o lugar. Ficava ali, sentado no seu jornal, descascando e comendo amendoim. Comíamos, juntos, uns quatro daqueles saquinhos. 

Mas naquele dia, no tal dia do Grenal no estádio do Internacional – que ainda era regional naquele época – eu quis comer um cachorro-quente. Cachorros-quentes eram uma extravagância para aqueles tempos. Isso porque tinha que sair do lugar, com o enorme risco de não encontrá-lo mais depois, ultrapassar a multidão para alcançar as lancherias dos estádios. Deixamos o nosso lugar e vencemos a multidão.

Só que a experiência que tive aquele dia, na lancheria do Beira-Rio, ficou gravada na minha lembrança. 

Meu pai pediu o lanche e o pôs nas minhas mãos. Sem dúvida, devia ser do tamanho que são hoje os cachorros-quentes.Nada de anormal. Feitos naquele pão meio-doce, de porte mediano. Para mim, era maior. Era enorme. Minhas pequenas mãos desapareceram debaixo do pão e eu fiquei ali, observando aquele molho e aquela salsicha enquanto meu pai pagava pelo pedido. Não estava sendo fácil administrar, mesmo com as duas mãos, aquele pão gigantesco. Assim mesmo, arrisquei duas ou três mordidas. “Ô meu, me dá um pedaço disso”, fui em seguida abordado. O menino não parecia estar querendo só um pedaço, além do que, era incomum os torcedores dividirem seus cachorros-quentes uns com os outros. Bem incomum. O fato é que eu havia resolvido que daria mesmo um pedaço do lanche para ele. Juro que daria. Não tivesse ele afundado repentinamente sua mão suja no meio do meu cachorro-quente e dado o fora dali. Assim, do nada, sem pena nem piedade. 

E eu fiquei ali, estático, assistindo a cena posta na minha frente. Minha generosidade cristã havia determinado que, sim, eu daria um pedaço do meu cachorro-quente a aquele menino que devia estar faminto. Sim, eu juro que eu daria. Mas porquê ele agiu assim, eu não podia compreender. 

Por um motivo mais do que justificado, nunca mais voltei ao Beira-Rio para assistir a jogos de futebol. Nunca mais. 

Agora, o que devem pensar nesse momento o jovem gremista que salvou-se da tentativa de homicídio dias atrás? E os jovens que participaram de tal barbaridade e experimentaram dormir em uma cela no Presídio Central? E a mãe de um deles que ligou desesperada para o David Coimbra esses dias suplicando pela liberdade do seu filho? Todos tiveram suas vidas marcadas pela violência instalada nos estádios. Que não ocorre só lá, seu sei. Acontece que o crime encontrou na multidão dos estádios e na cumplicidade das organizadas o que precisava para cometer com empáfia os seus pecados. E, convenhamos, já passou do limite. Os temidos não são mais eles, os lançadores de sacos de mijo e os larápios, roubadores de cachorros-quentes.

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O fim do volante de contenção

Rafael, a invenção gremista

Rafael, a invenção gremista

Mesmo que a imprensa do centro do país atribua a magnífica campanha do Grêmio no Campeonato Brasileiro a simples obra do acaso – um campeonato sem times imbatíveis fica mais fácil de ser vencido, segundo eles –, é difícil de acreditar na realidade que os olhos gremistas estão vendo. O time fez 15 gols em casa e inacreditáveis 20 fora – 11 em apenas dois jogos longe de Porto Alegre. É o melhor ataque. Mais de 70% de aproveitamento. Goleiro menos vasado. Na defesa, há três torres gêmeas – essa expressão também vem dos colegas paulistas – e um goleiro com má formação. Tem reflexo e membros superiores anormais. Mas está no meio de campo o pulo do gato do tricolor gaúcho: O clube decretou o fim do centro-médio que passava 90 minutos fungando na nuca e pisando no calcanhar do meia de armação do time adversário. Eduardo Bueno, atenção: no atual time do Grêmio não há volantes de contenção! Nosso primeiro homem de marcação do meio de campo é Rafael Carioca.

Rafael Carioca é o que há de mais moderno no raçudo futebol gaúcho.

Quase nunca escrevo sobre futebol aqui na Uzina. Sou ótimo expectador e um péssimo entendido de táticas e estratégias futebolísticas. Mas dessa vez não me agüentei. Isso porque comecei admirando o Rafael quando ele ainda jogava na meia. É o tipo de jogador que tu reconheces só pelo caminhar ou pelo toque na bola. Lembro do burguês, meu amigo burguês, que anda pelas bandas de Chapecó, quando descrevia essa última virtude. Uma vez, no primeiro grau, o burguês veio me dizer:

– Cara, o Artur (digamos que seja Artur) joga muita bola. – e eu percebia como era difícil pro burguês admitir aquilo. – Tu vi que quando ele toca na bola não dá barulho? Faz só um p. – dizia-me o burguês enquanto imitava estupefato o som de um pê mudo.

Por essas e outras, estranhei quando o Rafael Carioca sumiu dali, da armação do time, e apareceu na frente da zaga. E desfilava como se nunca tivesse saído dali.

O Grêmio marca de uma forma que chega a constranger. O Rafael Carioca é rápido suficiente para acompanhar o mais driblador do time adversário e é rude na medida para dar duro e tirar a bola sem violência. O zagueiro da sobra, fruto do esquema 3-5-2, é outro achado. Quando algum ávido atacante vence a marcação dos outros nove gremistas – porque todos marcam no time gremista – Pereira ou só acaba com a festa ou já arma mais um contra-ataque. E esse, o contra-ataque, tem em Rafael Carioca um voluntário veloz, com visão de jogo e um passe de trivela que eu muito dei nos meus tempos de pelada na pracinha da Figueira. Portanto, tenho propriedade para avaliar: é um baita toque de trivela esses do Rafael Carioca!

Li em um jornal daqui que o Grêmio teme o desgaste. São muitos jogos repetindo o time e – mentira! – não há peças de reposição. Talvez eu até concorde que o Rafael Carioca não tenha reserva hoje. Para as demais posições, porém, os banco atual não só dá conta do recado como causa grande insegurança nos titulares.

No fim desse meu primeiro ensaio boleiro, deixo a dúvida de um pessimista nato: qual será o defeito do Grêmio que ainda não foi descoberto? Qual a fraqueza ainda não revelada, capaz de arruinar uma campanha nunca antes vista em campeonatos brasileiros?

Será a inconstância do Roth? Será o grosseiro Marcel? Será uma eventual lesão do Rafael Carioca? Será uma expulsão e punição de Tcheco? Será a ruína do projeto da Arena? Será a derrota no Grenal da Sulamericana?

Deve haver algo.

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