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Bilhete apaixonado

 

– Bom dia.

– Bom dia.


– Bom dia.

– Bom dia.

 

– Bom dia.

– Bom dia.

– Moça, não é essa passagem.

– Ai, desculpa. Ó.

– Obrigado.

 

– Bom dia.

– Oi, bom dia.


– Oi, bom dia.

– Bom dia. Oi.

– E esse calor?

– Insuportável.


– Bom dia.

– Bom dia.

– Tudo bom?

– Tudo, oi.


Ninguém sabe ao certo como o Lúcio e a Zu se conheceram. Ela, contadora daquela firma ali na Farrapos e ele, cobrador de ônibus. Da Vicasa. Mas a linha dele não passa na Farrapos, pelo menos hoje não passa. Estão juntos há uns três anos. Ou mais até. Se gostam que é uma beleza. Parece q se conheceram anteontem, de tanto que se gostam e ficam se olhando às vezes. Mês passado, nasceu o terceiro herdeiro da família: o Jonas. A cara do pai, admite a mãe, faceira. Tão morando em Alvorada, uma meia-hora de Porto Alegre. De aluguel, ainda não deu pra juntar pra comprar a tal moradia própria. O seu Valdemar até já ofereceu mais de uma vez a casa essa onde eles vivem pra o Lúcio comprar. Não dá, seu Valdemar, ainda não dá, segura tua onda, diz o Lúcio. O salário dos dois juntos dá pra comida, pro aluguel, roupas de vez em quando, pra poupança e pra ver corrida em Tarumã no domingo, às vezes. É o que o Lúcio mais adora. A Mariana e a Monique aprenderam a gostar também. A Zu acompanha e fica cuidando do Jonas. Não é muito de corrida, acha perigoso demais. O Lúcio não participa, só assiste. De Alvorada pro Tarumã, em Viamão, eles vão de ônibus mesmo. Parece que ano que vem o Lúcio quer comprar um carro. Fez até promessa pra Monique e pra Mariana, gêmeas idênticas. O papai-noel que vai trazer o Fiat Uno, disse pras duas. Lúcio tem 32 e a Zu, 28. Casaram na Igreja. A Lurdes, mãe da Zu, fez questão. Seu Antônio, o pai, obrigou. Nada de se enrabichar e não casar. Isso é coisa de malandro. Com a minha filha, só casando. Até parece que o Lúcio não queria. Era o sonho do cara. Pelo menos desde o dia que viu a Zu pela primeira vez.

 

Isso, desde aquele dia. Tá bom, vou contar como foi. Foi no ônibus. Aquela época, o Lúcio era cobrador do ônibus que fazia o trecho de Canoas pro centro de Porto e o contrário também. A Zu já trabalhava na firma onde ela tá hoje. Bom, resumindo, o Lúcio era cobrador do ônibus que a Zu pegava pra ir pra casa, em Canoas. Todo dia o Lúcio via a Zu de longe. Logo depois da curva do Xis Dogão, a calçada se formava e lá tava ela, na parada do ônibus, a Zu. Puta merda, essa guria é muito gata, ele lamentava. Lamentava, sim. Sempre brincava com a gurizada lá em Tarumã que não olhava mais mulher  bonita. Eu fico triste, nem olho mais, dizia. Bom, no início, olhar pra Zu subindo no ônibus era ficar triste também. Saber q nunca ia ficar com ela e saber q tinha algum rabudo pegando. Era um saco pro Lúcio. Ela subia e nunca lembrava de pegar a passagem antes na bolsa. Aí tinha q parar na frente do Lúcio, puxar a bolsa pra frente dos seios e procurar a fichinha da passagem. Todo dia era assim.

 

– Bom dia.

– Bom dia.

 

Isso com todos. O Lúcio gostava de cumprimentar todo mundo. Sempre tem uns q de manhã cedo já tão de cara amarrada e o Lúcio faz questão de dizer bom dia. Só pra ver a reação. Todo mundo responde. Uns olhando pra roleta, outros nem olham. Uns olham pro Lúcio e respondem, olhando no olho. Assim era com a Zu. Ela parava na roleta pra pegar a passagem e o Lúcio disparava: Bom dia. Ela parava de procurar, olhava pro Lúcio e respondia: Bom dia. Encontrava a fichinha, colocava no balcão e passava. Sentava sempre do lado esquerdo. O contrário do sol. O Lúcio ficava olhando. Escutava o bom dia até ela sentar. Todo dia era assim.

 

– Bom dia.

– Bom dia.

 

Teve um dia que o Lúcio teve q rir. Não sei por que a Zu tava com uma outra passagem na bolsa, um outro tipo, de papel. Parou na frente da roleta, como sempre, tirou a tal passagem de papel e colocou no balcão.

 

– Bom dia.

– Bom dia.

– Moça, não é essa passagem.

– Ai, desculpa. Ó.

– Obrigado.

 

O Lúcio achou engraçado. Deve estar com sono, tadinha. Também, sexta, deve estar cansada da semana. Deve ser corrido pra ela, pensou.

 

– Bom dia.

– Oi, bom dia.

 

Oi. Ela disse oi, bom dia. Ela nunca tinha dito nada diferente de bom dia pro Lúcio. Nada. E nem bem bom dia era. Era uma outra coisa que saia automático da boca dela. E da dele também. Um troço só por educação. Na real, na real, ninguém deseja mesmo que o outro tenha um bom dia. Só quando pensa no que tá dizendo. Só assim. Senão é um monte de letras que falamos por educação. Pra não ficar sem dizer nada. Mas aquele dia foi diferente. Teve o oi. Oi bom dia é mais que só bom dia. O Lúcio tinha sentido mais intimidade. Parou de ficar triste quando via a Zu. Passou a criar uma certa esperança. Uma expectativa. Não deve ser nada. Vai vê ela ficou envergonhada de ter errado a passagem outro dia e agora diz oi pra agradar. Ela acha q eu vou reparar. Na verdade, o Lúcio achou lindo ela ter se enganado. Na real, tudo na Zu o Lúcio achava lindo. Isso, o Lúcio tá caidaço pela Zu.

 

– Oi, bom dia.

– Bom dia. Oi.

– E esse calor?

– Insuportável.

 

Largou a passagem, passou a roleta e se foi. Insuportável. Tadinha. Pra que tem q trabalhar desse jeito? Tão bonita passando calor… o Lúcio tava completamente abobado. Pela Zu.

 

– Bom dia.

– Bom dia.

– Tudo bom?

– Tudo, oi.

 

Deu, tá dado o recado. Ela não é tão inacessível assim, o Lúcio achou. Tinha q arranjar um meio de ela saber do interesse dele. E logo. Mas eu nunca vou chegar nela, aqui, no ônibus. Ridículo. Ela vai dar risada. Vai me dar a passagem e dar risada. Vou escrever. Taí a solução: um bilhete. O Lúcio arquitetou o plano.

 

A Zu sempre passa a roleta e senta ali perto, no banco da frente. Pra onde o Lúcio fica olhando a viagem toda praticamente. No meio do caminho, o Lúcio sempre tem que sair do lugar e cobrar os passageiros que estão de pé ou sentados, antes da roleta. É pra controle e pra se livrar logo. Depois daquele ponto do caminho ninguém mais sobe. Cobrando todo mundo de uma vez o trabalho tá feito e daí é só esperar chegar a garagem. Eis o plano: o Lúcio ia descer do banco dele, ia cobrar os que estivessem de pé e, por trás da Zu, ia alcançar o tal bilhete com o recado. Simples. Sem chances de dar errado.

 

Chegou o dia. A Zu subiu, parou na roleta, respondeu o bom dia, sorriu pro Lúcio, o Lúcio se arrepiou e gelou a barriga, passou a roleta e foi se sentar no lugar de sempre, pertinho, pertinho. O Lúcio desceu do banco com o papel na mão. Cobrou o primeiro passageiro de pé.

 

– Já te entreguei.

– Já? Então tá beleza.

 

O Lúcio nem raciocinava mais direito. Nem lembrava mais q já tinha recebido mesmo a passagem do sujeito esse. Pediu licença pro cara, cutucou o ombro da Zu e entregou o bilhete.

 

“Me liga, se quiser…”

 

Mais eu não consegui ler. Eu era o tal passageiro que já tinha pagado o Lúcio antes de passar a roleta. Na real mesmo, nem sei se o nome do cara é Lúcio. Tão pouco se ela é a Zu. Dei uma viajada porque achei a cena no mínimo interessante. O cobrador desceu do banco e entregou um papel pra aquela moça. Na minha frente. Ela abriu leu o recado, dobrou e guardou na bolsa. Com algum apreço. Não consegui não rir na hora. Quando tempo o cara devia tá planejando fazer isso? Quando tempo o cara devia tá criando coragem? Que cena.

 

As pessoas em busca de seus pares. De quando vem isso? Acho que desde sempre buscamos preencher um vazio. Ou é dividir parte do que está completo? Caçar ou só cultivar o jardim, esperando que as borboletas venham. É impossível ser feliz sozinho, diz a música. É mesmo?

 

E os dois. Como será que vai continuar a história do romeu-cobrador e da julieta-passageira? Eita, vida curiosa.

 

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