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Espelho meu: Carla Maria Beal

Desde muito cedo, Páscoa pra mim significa liberdade. Não a liberdade de quem saiu de uma penitenciária; nem a liberdade de quem deixou de trabalhar em um regime análogo ao escravo. Liberdade mesmo. Como cristão, procuro aprender com o comportamento de Jesus Cristo, que, vencendo a morte, nos deu provas de que é possível vencermos coisas bem menores que ela, como a insegurança, o medo, a tristeza, a preguiça, a intolerância, o desrespeito, o preconceito. Pode-se viver apesar de tudo que nos faz mal e faz mal a quem está ao nosso redor. Isso é liberdade.

E sabe porquê essa introdução está aqui, neste post em que entrevisto minha dinda Carla Maria Beal? Porque a minha dinda Carla, até antes da Páscoa, quando a Páscoa ainda era só chocolate pra mim, a Carla já era um símbolo de liberdade. Minhas memórias são da infância. E a memória de uma criança deve ser tão sincera quanto a própria criança. A Carla é liberdade pra mim pelo seu jeito, pelas escolhas que fez, pelas filhas que criou, pela pessoa que é, pela massa ao pesto que cozinha.

Este verão, tive o prazer de revê-la depois de muitos anos. Acho que eu ainda era só uma criança quando tínhamos nos encontrado pela última vez. E comprovei que a memória dos pequenos é mesmo muito honesta.

Não conheço a fé da minha dinda; nem sei se é a mesma que a minha. Isso minha memória não guardou. Mas este é o meu post de Páscoa. Porque Páscoa é, antes de tudo, acima de tudo, liberdade. Uma liberdade que te faz bem e que faz bem aos outros. Uma liberdade que faz acreditar que está nas nossas mãos o rumo das coisas ao nosso redor.

Ah, o aniversário da Carla, comemorado neste Sábado de Aleluia, foi o motivo que me fez tirar da gaveta essa entrevista inédita concedida pela Carla à Uzina em fevereiro de 2010, quando ainda morava na Itália.

Boa leitura!

***

Minha dinda Carla

Nome completo:
Cala Maria Beal

Idade:
45 anos, 46 em 23/04/2010

Onde nasceu:
Luzerna, antigo distrito de Joaçaba, hoje município (uau!).

Onde mora hoje:
Mini apartamento na Via Picà, n. 2, Santo Andrea, Castelfranco Veneto, Italia.

Porque a Itália pra morar?
Pelo desejo de mudar tudo, encontrar alguém dentro de mim e dar valor a esse.

Há quanto tempo estás fora do Brasil?
Dois anos (dois verões e um inverno que parece não ter fim).

Pretendes voltar para morar aqui no Brasil? Onde?
Sim. Desejo uma casa com varanda, flores na janela, vizinhos simpáticos pra conversar. SC, Ceará, não sei meu futuro. O presente é incerto.

O que já conheceste aí? Que países? Que lugares bonitos?
Na Itália, visitei cerca de 50 pequenas cidades ou vilas (sempre de bike). Estive na Croácia e amei as montanhas de lá, o vento frio, água do mar limpinha, organização e higiene. Visitei “Luzerna” na Suíça, me senti em casa e feliz. Fui na Alemanha, Immenstad. A grama deles é bem mais verde que a nossa!

E o que de bom já comeste?
Na Italia: a pizza, onde quer q vc vá a pizza á boa de doer. Na Croácia: arraia assada na grelha e verdura refogada (bem diferente da nossa, mas boa). Na Suíça: brezel, rosca crocante, saborosa e cheia de sal grosso grudado. Na Alemanha: wurstel (salsicha cozida na água), boa mesmo!

O que significa Luzerna pra ti?
Ponto de partida, ninho, fogão à lenha, escola de primeiros voos.

Se fechas os olhos e pensas na paz, que lugar vês?
Vejo um lugar onde todos são iguais, onde não existe fome, nem dor. Onde a justiça não se discute, existe e pronto.

E a minha avó, a dona Araci, que lembranças tens dela?
Papos longuíssimos, histórias incríveis e irresistíveis. Aventuras de menina q sabia o que queria e fez o que quis, no seu possível. Tive o carinho e a atenção dela, retribuí na mesma moeda. Saudade, tanta.

A palavra mais bonita da língua portuguesa:
Alimento. Abundância dele e distribuição igualitária.

A mais bonita em italiano?
Auguri! (saudação que deseja sorte, felicidade)

A mais feia:
Cattiveria (maldade)

O pior defeito da nossa sociedade:
Desrespeito aos direitos humanos. Acabei de ler sobre campos de extermínio. Não durmo bem depois disso.

Como achas que os outros te vêm?
Alguns me vêem como alguém solar (alegre) e riem comigo, outros só me veem de leve, não me ouvem, não têm tempo pra perder, têm pressa, mal sabem eles q vamos em círculo, melhor rir de nós mesmos e com os outros. O tempo passa voando, é bom aproveitar a brisa.

Qual tua idéia de domingo perfeito?
Acordar com as galinhas, ir à missa à pé. Cantar e meditar. Voltar pra casa, comer churrasco e maionese com amigos e família

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos?
Quero estar andando de bike numa estrada segura, com mto vento na cara. Pode ser na China.

Como desejas que as Pupis estejam com a idade que tu tens hoje?
Felizes, saudáveis e cheias de ideias coloridas, barulhentas e risonhas.

O que é o amor?
É olhar nos olhos, sentir com os olhos, tocar com os olhos.

Qual tua memória mais antiga?
Um filme q não lembro quase nada, mas eu tava com meu pai no cinema em Luzerna, feliz da vida, era domingo e chupei picolé na saída.

Qual tua idéia de felicidade?
Ter trabalho, fazê-lo com prazer, ganhar pra fazê-lo e fazer sempre.

Onde gostarias de viver hoje?
Num lugar onde eu nunca fui, mas ter comigo quem é feliz perto de mim.

Onde gostarias de passear agora?
Em Viena, numa praça cheia de história.

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse?
Usaria mais o telefone, gastaria mais créditos pra falar com meus amores do Brasil.

Se pudesses eternizar alguém, quem seria?
Eternizaria a memória, a consciência coletiva. Sei que ninguém é eterno.

O que é a morte pra ti?
Ritual de passagem obrigatória, onde as lágrimas lavam a dor da saudade.

O que tu fazes que te dá muito prazer?
Faço paredes de papel. Tinjo lençóis e fronhas. Estendo roupas pra secar. Adoro varais cheios ao sol e ao vento.

O que fazes para espantar a tristeza?
Ando de bike em velocidade, adoro adrenalina natural produzida por mim.

Um filme:
Forrest Gump

Um livro:
Il treno dell’ ultima notte (Dacia Maraini, fortíssimo)

Um cheiro:
Basílico (Mangericão)

Um lugar:
A vista da minha janela, cruzamento em frente à minha casa.

Um site:
Google, meu parceiro fiel.

Uma coleção (que tens ou já tiveste):
Gravuras, fotos da expressão facial feminina.

Um doce:
Doce de abóbora, que fazia minha vó.

Uma bebida:
Cerveja Franssiscanner, uma alemã q se bebe aqui, é a melhor q já bebi até hoje.

Um prato:
Pizza di radicchio di treviso. É incrível como uma verdura na pizza pode ficar fantástica assim!

O que já cozinhou de mais extravagante?
Pé de porco com repolho refogado. É feio, mas é bom!

O conselho que nunca esqueceu:
“Com a verdade não se engana ninguém!”, dizia sempre meu velho pai, Paulo Beal

Um pensamento:
“Quem tem boca vai a Roma, Paris, Nova York… mas, em boca fechada, não entra mosca!”

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Espelho meu: Nina Flores

Essa é mais uma edição do quadro Espelho meu aqui na Uzina. Espelho meu está trazendo de tempo em tempo uma entrevista rápida com algum famoso no meu círculo social. Uma foto, uma breve explicação e a entrevista. Está sendo uma experiência interessante. Afinal, sempre é bom saber com quem a gente anda. 

***

Estimo muitíssimo conhecer e ser contemporâneo de algumas pessoas deste mundo. A Srta. Nina Flores, a Aline Priscila Ebert, é uma delas. E, neste caso, posso dizer que ainda mais depois da entrevista ali de baixo.

Vou puxar pela minha magérrima memória. Acho que conheci essa moça na primeira disciplina de Jornalismo, no inverno de 2001, na Unisinos, em São Leopoldo – onde a Nina mora hoje, e um pouco mais perto de Porto Alegre do que Taquara, onde nasceu. A suposta prova disso é uma “foto na lata” que guardo até hoje como recordação de Introdução ao Jornalismo, com o professor José Carlos Hoffmeister. O problema é que o que dá valor artístico a uma “foto na lata” é a mesma falta de nitidez que hoje me impede de decifrar um por um na imagem preto e branca.

A estima pela Nina veio – e confirma-se até então – pelo seu jeito dissonante. Dissonância esta que está na expressão de suas idéias não-convencionais, nos hábitos de alimentação e no seu jeito de vestir-se. Porque é tão difícil ser diferente hoje em dia.

A vida acadêmica nos separou bastante, deu algumas boas voltas, fez reencontrarmo-nos algumas vezes para simpáticos, mas curtos, bate-papos, e jogou-nos, vejam vocês, na mesma turma de formandos em Jornalismo no dia primeiro de março do ano passado – há exato um ano desta postagem.

Bom, a Nina. Posso dizer que ela é jornalista e, diferente de muitos, sabe bem a que veio. É chique, mas não serve nem pra fútil nem para símbolo de um capitalismo artificial. E é – agora vem o que me dá mais gosto de reconhecer – alguém que pretendo que esteja por perto sempre.

Nina Flores, em foto de Cecilia Ferreira Leites

Nina Flores, em foto de Cecilia Ferreira Leites

Nome completo

Aline Priscila Ebert

Idade

25 anos

Onde nasceu

Taquara (RS)

Onde mora

São Leopoldo (RS)

Porque Flores no Nina?

Nina é um apelido que veio de casa quando pequena, algo carinhoso. Não só algo ligado à Aline, mas também pequenina, niña…

A junção com Flores foi para criar o nome do blog, em 2003. Vi um senhor vendendo flores pela janela, e virou “Nina Flores”. Hoje é nome de site, mas também codinome para alguns trabalhos.

O que é fazer jornalismo de moda?

São seis anos produzindo jornalismo de moda, mas também não deixando de fora outros tipos em meus fanzines. Muitos outros temas me interessam. No jornalismo de moda, no meu caso (existem vários tipos) é escrever para a indústria da moda, e não para quem a consome, ou seja, público final. Faço notícias, reportagens e entrevistas com temas ligados a vestuário, calçados, bolsas e acessórios, dos gêneros feminino, masculino e infantil, além de visual merchandising, negócios e comportamento ligado à moda.

O que dizer aos críticos que chamam este campo de fútil, de vazio?

Tudo depende da forma que é abordada. Todas as pessoas gostam mais de uma moda do que de outra, mesmo sem perceberem. Uma camiseta de x cor, um tênis de y estilo, uma calça com z modelagem. As marcas que criam coleções ajudam a construir/complementar o estilo de todos nós, como queremos nos mostrar para a sociedade. Moda não está só nas vitrines e na mídia, está nas pessoas e não só numa ligação monetária, mas de atitudes comportamentais mesmo.

O jornalismo de moda que faço vem contar as histórias dessas pessoas que tem o dom da criação de moda, de dirigir uma indústria têxtil, de costurar numa fábrica de calçados, de desenhar estampas que enchem os olhos… Um produto que é gerado e vai para a feira/desfile, depois para as vitrines e finalmente para as ruas. E vão ultrapassar anos, uns sendo ícones de épocas, outros sendo doados ou revendidos num brechó, reconstruídos por outras pessoas.

Jornalismo de moda em revista e na internet. Tem diferença?

No caso de onde trabalho atualmente, tem. As notícias na web, pelo contrário do que o jornalismo online indique, pode render reportagens em mais de uma parte, sem número limite de caracteres, gerar galerias com muitas imagens, fazer com que algo esteja no mundo em minutos. A revista é mais maturada, tem a diagramação a cada nova, a prova, o tempo de rodagem até chegar no leitor. Nesse, valoriza-se conteúdos menos factuais (exceto os relacionados a temporadas), abusa-se das fotografias grandes e de impacto… Porém, a mesma essência para a escrita está nos dois.

Qual foi teu primeiro passo no mundo da moda?

Comprar revistas jovens como Capricho e recortar as imagens que me interessavam, seja um look de uso nas ruas, seja de lugares, objetos. Gostar de moda é gostar de estética. Tudo pode ser inspiração para criar ou vestir algo. Daí veio a escolha pelo vestibular. O gostar de escrever e o gostar de criar. Passei em Moda e Estilo na UCS (Universidade de Caxias do Sul), mas acabei optando por Jornalismo na Unisinos. Numa oportunidade de estágio por acaso, acabei juntando jornalismo e moda. Depois também criei bolsas com minha mãe numa época e hoje tenho um brechó com peças que garimpo em muitos lugares.

Moda sustentável é só mais uma modinha?

Ainda mais modinha, espero que vá alterando. Minha família usava sacola de tecido há 20 anos, mas hoje ainda não conseguiu se  regular para lembrar de voltar a carregá-la. Vou no “super” (gíria gaúcha para supermercado) com minhas sacolas de tecidos há cerca de 2 anos, mas dificilmente encontro uma única pessoa com outras também. Esse é só um dos exemplos.

Tem que se policiar e questionar em tudo que se consome (marcas que testam em animais, líderes em transgênicos, se a pecuária é algo sustentável para o mundo, se não teria como diminuir meu consumo de energia e água. Não precisa se tornar um expert do assunto, que vira um chato, mas, sileciosamente, observar as coisas, pensar sobre o que se faz.

Tenho informações interessantes do Sindicato dos Calçadistas de Três Coroas que recicla todo o material produzido pelas fábricas; da marca Goók que cria calçados com os 2 milhões de pneus que reciclou desde 2004 quando foi criada; da Meltex que cria roupas a partir de garrafas PET e as sobras doa para confecção de edredons numa comunidade de Porto Alegre…

Mas também nem todos precisam ir no caminho do mostrar que é sustentável como marketing, mesmo que verdadeiro, mas também rever a forma de transporte dos produtos (combustível), diminuição da produção de lixo, a forma que faz uma embalagem, entre outros.

Site, fanzines e brechós. Três hobbies?

Três outras atividades como a oficial (jornalismo), tudo no mesmo patamar de interesse. Fanzines é na troca de cartas, produção de alguns e notícias sobre eles para o www.ninaflores.net/fanzine. O meu endereço pessoal www.ninaflores.net é um resumo das coisas que faço, com um blog. E o brechó é essa atividade de garimpar peças antigas para venda e locação, no www.ninaflores.net/modadebrecho.

 ***

A palavra mais bonita da língua portuguesa: educação

A mais feia: individualismo

O pior defeito da nossa sociedade: desisteresse

Como achas que os outros te vêem? acolhedora

Qual tua idéia de domingo perfeito? com sorrisos

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? Onde meu coração me levar

O que é o amor? doação e reciprocidade

Qual tua memória mais antiga? Pequenina, todo final de semana do verão indo para Tramandaí de ônibus, com a mãe e uma boneca, pois o pai trabalhava nessa época num açougue lá.

Qual tua idéia de felicidade? Com paz interior, mais silêncio, menos opinião, mais ação.

Onde gostarias de viver hoje? Num lugar de ruas mais limpas e de caminhares menos apressados.

Onde gostarias de passear agora? Bolívia

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? jornalismo online, conversas com pessoas via e-mails, conhecer coisas que estão longe de mim.

Se pudesses eternizar alguém, quem seria? Quero deixar claro que são perguntas difíceis para mim, nunca pensei sobre escolher alguém. Oscar Niemeyer é uma pessoa maravilhosa, de princípios.

O que é a morte pra ti? Inicialmente medo, mais filosoficamente, uma das passagens. Se as pessoas pensassem sobre voltar como algo que hoje desprezam, agiriam diferente.

O que tu fazes que te dá muito prazer? Cozinhar em casa, ter boas idéias e escrevê-las no “my fake moleskini”, me sentir produtiva.

O que fazes para espantar a tristeza? Saio para andar e olho a arquitetura das casas.

Um filme: Um só é difícil. Still Crazy, Com Licença Eu Vou a Luta, Lucía Y el Sexo, Central do Brasil, Não Por Acaso, Cine Paradiso, documentários, curtas, adoro vê-los…

Um livro: Quando Nietzsche Chorou foi o mais recente e que me clareou muitas idéias. Leio mais revistas e fanzines mesmo. Tenho vários livros por ler.

Um som/música: Outro que um só é difícil. Minha casa é bastante musical. Pronto, Lacertae é algo muito lindo que entrou na minha vida. Mas curto rock, metal, rap, punk, regional, muitas ramificações de tudo isso.

Um cheiro: de terra molhada pela chuva

Um lugar: com grama

Uma coleção (que tens ou já tiveste): bolsas de tecido, carteiras, sacos, relicários, porta-jóias, tudo que seja para se guardar coisas carinhosas, relíquias.

Um doce: todos bem doces, chocolate, ambrosia, tortas…

Uma bebida: água com gás

Um prato: orientais vegetarianos e todo os outros sem carnes, tenho bom apetite.

O que já cozinhou de mais extravagante? cogumelos bêbados

O conselho que nunca esqueceu: “Dexe di sê besta”

Um pensamento: “En la tierra hace falta personas que trabajen más y critiquen menos, que construyan más, destruyan menos, que prometan menos y resuelvan más, que esperen recibir menos y dar más. Que digan mejor ahora que mañana”. Che.

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Espelho meu: Marcinho

Era uma noite diferente aquela em que o Marcinho nos reuniu na casa do Dudu para contar o seu segredo. A Salete, ao seu lado, jovenzinha também, estava tão ansiosa quanto ele para que soubéssemos daquilo logo de uma vez.

Eles teriam um filho. Essa era a novidade. O Marcinho e a Salete teriam um filho. E, embora preocupados, estavam felizes. Estavam mesmo. E a decisão de casar poucos meses mais tarde, estava sendo tomada com essa mesma alegria. Nós? Ainda estávamos boquiabertos como se o Marcio ainda não tivesse terminado de contar a sua surpresa. “Estamos com vocês, para o que precisarem”, é o que lembro ter ouvido de alguém. 

Pouco mais de três anos depois, o Marcinho é outro rapaz. Leva outra vida. Estabelecido com sua família na casa que sempre imaginou, adquirida há pouco, tornou-se um responsável e competente pai e chefe de família. Quando eu crescer, já disse a ele, quero ser igualzinho.

Mas não é pela casa própria, nem pelos lábios alegres herdados do seu João Luiz. Também não é porque o Marcinho se revelou um superpai, um exemplar chefe de família. Nem pelo ala minuta dele – que é um primor. Nem pela sua apaixonada opção clubística. Nem pelos trambiques superengenhosos que ele inventa para trocar de carro ou trocar de moto. Não é por nada disso. O Marcinho está aqui hoje, na seção dos entrevistados da Uzina, porque o cara revelou-se, prestem a atenção, um exímio administrador de finanças domésticas.

Não, Marcinho, eu te pedi a foto do pescoço pra cima...

Não, Marcinho, eu te pedi a foto do pescoço pra cima...

Eu só fui me dar conta disso esses dias. O Marcinho mandou um e-mail convidando-nos para dar um passeio em Gramado. Planejava levar a Salete e o João num café colonial e para assistir o Natal Luz. Fiquei impressionado. Não que o Marcinho não pudesse se dar esse direito. Não é isso. Nem é nenhum luxo ir para Gramado. Me refiro às circunstâncias. Eu já admirava o fato de, antes mesmo de a Salete trabalhar, o cara encarar o orçamento familiar com o seu modesto salário de técnico em eletrônica. E agora ele vinha com essa de passeio a Gramado? Isso sem mencionar o telefone fixo e a internet banda larga que chegaram à residência dos Moura dias desses.

Não podemos considerar que a família do Marcinho, com seu atual poder aquisitivo esteja inserida na baixa renda. Acho que seria exagero. Também sei que às vezes, para alguma necessidade maior, ambos têm os pais para dar uma força. Sei também. Mas nada disso tira os méritos desse guri. Desse casal. Dar conta de comida, fraldas, roupa, gasolina, lazer, prestação da casa e contas para pagar não é fácil. Enfrentar as tentações do consumo moderno também é outro imenso desafio. E com uma criança. E na idade que João está. Marcinho, tu é o cara.

Bom, não fiquei só na admiração, fui em busca de explicações. Melhor, fui em busca de dicas. Daqui pra baixo, o Marcinho vai oferecer a vocês, ilustres 32 leitores da Uzina, dicas de como gerir com sucesso o orçamento pessoal ou familiar, dando atenção especial a esta época do ano em que as alegrias custam muitíssimo mais caro que em qualquer outro mês. Caneta e papel na mão. Fala, Marcinho!

 

EQUILÍBRIO FINANCEIRO, por Marcinho Mettler de Moura

Como será a ceia de Natal?

Faremos pratos baratos e estaremos nas casas de nossos pais, assim a economia é maior. 

Como reabastecer a geladeira?

Marcinho Mettler de Moura

Marcinho Mettler de Moura

 

Felizmente, recebemos vale-alimentação e cesta básica. Muito pouco do nosso orçamento é afetado nas compras. Mas sugiro o de sempre: comprar o mais essencial e pesquisar o preço.

E a escolha dos presentes?

Os presentes escolhidos são os mais simples e baratos, mas nem por isso menos importantes.

Dá para presentear a todos?

Como os presentes são mais baratos, todos podem, sim, ser presenteados.

Você aconselha cartão de crédito ou de débito?

Nosso cartão de credito é bloqueado, para evitar gastos. Comprem somente com dinheiro ou cartão de débito.

O dilema: levar ou não o filho ao supermercado?

Leve-o sim. Mas ensine que ele não pode ter tudo o que vê. 

 

DICAS DO MARCINHO

A dois

Faça a contabilidade sempre com a sua companheira. Assim, os dois sempre saberão o que podem ou não comprar.

Papo

Sempre dialogue com sua companheira e façam uma previsão de gastos extras que podem ocorrer

O plus a mais

Procure fazer coisas que te tragam renda extra.

Social

Vá a lugares que vocês possam, ao mesmo tempo, se divertir e gastar pouco.

Precaução

Sempre previna as contas como água, luz e telefone e quando receber o seu salário deixe o dinheiro guardado para elas. Mesmo que passem do previsto, é possível fazer previsões de gastos comparando com a do mês anterior.

Ajudinha sagrada

Tenha Deus sempre ao seu lado.

Nota do editor: embora pareça mais uma das piadas do Marcinho, não é. A fé do cara é outro valor importante a ser considerado.

 

A ENTREVISTA

A palavra mais bonita da língua portuguesa: vida

A mais feia: desgraça

O pior defeito da nossa sociedade: Diferenças das classes sociais

Como achas que os outros te veem? Não tenho opinião sobre isso

Qual tua idéia de domingo perfeito? Com a família e amigos, num dia de sol

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? Com 60 anos penso ter uma condição financeira mais estável, talvez já aposentado e vivendo com a minha família no lugar conquistado durante estes anos

Como desejas que o João esteja com a idade que tu tens hoje? Desejo que ele esteja formado nos estudos, com uma carreira já traçada, e se esforçando para ser melhor do que o pai dele.

O que é o amor? Tudo para a minha vida

Qual tua memória mais antiga? Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos, nós morávamos em Poa e meus pais compraram uma casa em Canoas. Lembro muito da mudança que fizemos…

Qual tua idéia de felicidade? Ter Deus e a minha família sempre por perto

Onde gostarias de viver hoje? Eu já vivo no lugar onde sempre imaginei

Onde gostarias de passear agora? Por cidades onde não conheço, como Rio de Janeiro ou na Espanha

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? Eu não teria muitos problemas… mas talvez perderia o contato com pessoas distantes

Se pudesses eternizar alguem, quem seria?  Meu avô

O que é a morte pra ti?  É a tristeza da perda

O que tu fazes que te dá muito prazer? Dar risadas com meus amigos

O que fazes para espantar a tristeza? Fico próximo a Deus

Um filme: Dois filhos de Francisco

Um livro: não tenho o costume de ler

Um som/música:  3×4, do Engenheiros do Hawai

Um cheiro: perfumes suaves

Um lugar: minha casa nova

Um site: grêmio.net

Uma coleção (que tens ou já tiveste): carrinhos de brinquedo (tipo hot wheels) que hoje o meu filho brinca

Um doce: doce de leite (mumu)

Uma bebida: 1º Coca-cola e 2º Ceva

Um prato: Ala minuta

O que já cozinhou de mais extravagante? Não tenho nada de muito extravagante, só faço ala minuta, carreteiro, e massa com molho

O conselho que nunca esqueceu: sempre tratar as pessoas com respeito, educação e seriedade. E ainda ser honesto sempre

Um pensamento: a vida é cheia de obstáculos, mas nenhum é tão grande que não possa ser vencido por nós

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Espelho meu: a Ana


Para chegar no nome do próximo entrevistado, a Uzina sempre se utiliza de um princípio bem jornalístico: ser notícia. Ou seja, sempre acontece alguma coisa significativa que me levou a praticamente despir alguém na frente de todos, por meio de uma longa sessão de interrogatório. O argumento de que “é notícia” perde força porque, diriam alguns, a vida dos entrevistados não interessam para um graaaande número de pessoas. Oquei. Mas interessa aos convivas do entrevistado e para os – pasmem! – vinte e dois leitores da Uzina (segundo levantamento feito há poucos dias na comunidade “Eu leio a Uzina” do site de relacionamento Orkut e contabilizado até às 21h02 do dia três de agosto). Isso justifica.

Well (vejam o curso de inglês trazendo resultados!), digamos que neste caso a notícia da vez é que a minha irmã agora é doutora! Não, não. Não formou-se em medicina nem passou na prova da OAB. Recebeu pela PUC-RS o título de doutora em Letras.

O fato merece comemoração e a minha irmã merece os méritos. Pelo esforço, pelas virtudes, pela simplicidade. E falando neste último, nada melhor do que fazer o registro do feito aqui, na Uzina, local este que há coisa de um mês orgulhava-se por ostentar a marca de três assíduos leitores.

Boa leitura!

***

O Irmão Elvo Clemente sorriu naquela manhã.

Digo isso porque o cenário montado ao acaso para a apresentação da defesa da tese de doutorado da minha irmã explicaria mais tarde a singularidade daquela manhã. Os resultados encontrados na pesquisa não mereceriam ser especiais somente para a minha irmã, para nossa família, para o curso de letras, para os envolvidos no trabalho e para a área de pesquisa, deveria significar muito para toda a educação brasileira.

O Cenário

O Cenário

O conteúdo dos slides que se seguiriam estavam antecedidos pela foto ampliada da minha priminha Julia, de Luzerna, Santa Catarina. Roupa de dormir, braços escorados na escrivaninha, a Julia parecia empenhada em alguma tarefa escolar num desses cadernos pequenos de capa mole, com desenhinhos na capa. O sorriso da Julia para a máquina fotográfica dava indícios de que, primeiro, aprender é uma tarefa que precisa ser feita com alegria, com satisfação e, segundo, de que aquela pesquisa carregava consigo uma dose de emoção e entrega que a diferenciaria.

Quando as cortinas de persianas da sala onde estávamos taparam o sol que aparecia pela primeira vez depois de dois dias de chuvas contínuas em Porto Alegre, a quarta avaliadora da banca tomou a palavra. Mostrou-nos o sol, fez-nos rir e espremer os lábios de emoção algumas vezes. Falou bonito enquanto elogiou a tese e a Ana. E fez mais. Chamou a nossa atenção para o fato de que o sorriso da Julia não estava ali sozinho, na projeção de luz da tela branca. Em um quadro nem grande nem pequeno, suspenso na parede bege, lá estava ele, o sorriso espontâneo do Irmão Elvo Clemente. O mesmo que há 20 anos havia desafiado o curso de Letras da PUC a também preocupar-se com a alfabetização, forma primeira por meio da qual as pessoas aprendem a entender os pequenos símbolos que depois nunca mais sairão de suas vidas. E este era exatamente o tema central da tese que minha irmã apaixonadamente teceu ao longo dos últimos três anos e meio. Estava faceiro agora o Irmão Elvo. Realizado até, diria.

“Foste corajosa, Ana Paula. Foste atrevida.” Foi assim que esta última pesquisadora qualificou a escolha que minha irmã fez ao somar conceitos do ensino às informações de uma pesquisa da área de Letras. Em suma – e, confesso, é quase um crime tentar resumir todo aquele material – minha irmã quer que, aprendendo de forma mais eficiente, as crianças se alfabetizem com mais qualidade. E que estejam mais preparados para os ensinamentos do futuro. Que sejam cidadãos mais qualificados, críticos e, por que não, mais íntegros. É o que todos queremos da educação há tempos.

Não que só tivéssemos ouvido elogios durante as quatro horas que ficamos ali, assistindo a argumentação de quatro doutores. Não mesmo. Página a página, cada um deles deteu-se a inúmeros detalhes e pontos de vista dos dez capítulos distribuídos nas mais de 200 páginas. Tão pouco esses comentários todos diminuíram o mérito do trabalho. O oposto.

No fim de tudo, os aplausos foram menos sonoros que a nota verbalizada pela orientadora que mediava o encontro e pouco antes nos fizera umedecer os olhos mais algumas vezes. Ficamos com a forte impressão de que a minha irmã não fora só aprovada com louvor pela banca examinadora na manhã do dia 30 de julho de 2008. Suas virtudes como mulher, como educadora, como filha, como esposa – e como irmã – ficaram evidentes. Parabéns, Ana! Pelas possibilidades de educação que provaste serem possíveis e pelo exemplo que dás a todos.

A entrevista:

– do que se trata a tese? realizei uma pesquisa com turmas de alfabetização mostrando que explicitar o nome e os sons que as letras representam e realizar atividades que fazem as crianças pensarem na estrutura das palavras levam a um ótimo desempenho na escrita. Crianças que estariam alfabetizadas apenas ao final do ano letivo (ou até reprovariam!) já estavam lendo e escrevendo no mês de julho. É um trabalho que contribui para melhorar os índices de repetência na 1ª série e aumentar a competência em leitura e escrita nas séries posteriores.

– que caminho percorreste? minha graduação foi em Fonoaudiologia pela Ulbra (em Canoas, RS). O curso tem duração de quatro anos e meio, mas como eu trabalhei durante todo o período (e isso me deu grande experiência), me formei em sete anos. O Mestrado durou 2 anos e o Doutorado (que, em geral leva quatro anos) cursei em três anos e meio.

– A palavra mais bonita da língua portuguesa: criança
– A mais feia: doença
– O pior defeito da nossa sociedade: corrupção

Ana Paula Rigatti Scherer

Ana Paula Rigatti Scherer

– Como achas que os outros te vêem? alguém pacienciosa, estudiosa e simples
– Qual tua idéia de domingo perfeito? de qualquer jeito, passar com as pessoas que se gosta (família, marido…)
– O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? quero estar ao lado do meu marido curtindo meus netos e ainda lecionando (que é o meu sonho). Quero estar vivendo aqui na Terra, pelo menos…
– O que é o amor? é o que dá gosto à vida
– Qual tua memória mais antiga? meu primeiro dia de aula no jardim de infância: eu e minhas coleguinhas Silvana e Sandra Mara de vestidinho xadrez azul, sentadas numa mezinha redonda.
– Qual tua idéia de felicidade? um dia como hoje (30/7) seria um bom exemplo (defesa de doutorado), pois me realizei profissionalmente e dei um lindo presente aos meus familiares. Mas acho que coisas bem simples podem me fazer feliz, também, como um chimarrãozinho no fim da tarde…
– Onde gostarias de viver hoje? aqui mesmo, estou feliz!
– Onde gostarias de passear agora? no calçadão de uma praia de temperatura bem quente…
– O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? de me comunicar tão facilmente com as pessoas.
– Se pudesses eternizar alguém, quem seria? difícil. Acho que todos que amo.
– O que é a morte pra ti? ainda não consegui aceitá-la, ainda acho que é muito triste para quem fica.
– O que tu fazes que te dá muito prazer? falar em público sobre algum assunto que domino e gosto.
– O que fazes para espantar a tristeza? dou um abraço forte no meu marido.
– Um filme: Um lugar chamado Notting Hill
– Um livro: O sucesso é ser feliz (Roberto Shinyashiki)
– Um som/música: todas do Zé Ramalho
– Um cheiro: de mato e fogão à lenha dos fundos da casa da minha avó Araci
– Um lugar: Luzerna (SC)
– Um site: www.aletra-rs.com.br
– Uma coleção (que tens ou já tiveste): papel de carta
– Um doce: figo em calda (caseiro)
– Uma bebida: vinho colonial
– Um prato: sopa de bolas (da minha mãe)
– O que já cozinhou de mais extravagante (da torrada com orégano ao
pato ao molho de laranja)?
nenhum prato extravagante… mas um dia coloquei sal na forma do pudim e não ficou nada bom…
– O conselho que nunca esqueceu:  ouvir tudo o que vem dos pais, eles dificilmente estão errados.
– Um pensamento: “Que o mundo seja um pouco melhor porque nele eu vivi e por ele tu passaste meu irmão” (Canto “Unidos”, do CLJ, Curso de Liderança Juvenil, da Igreja Católica)

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