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Eu financiei um livro coletivamente

vacaria

Encontro em Vacaria (RS) com mais de 600 jovens do CLJ de 15 municípios da região

A gente só reconhece o que conhece.

Definitivamente. E eu só fui reconhecer a força da equação abaixo quando conheci pessoalmente o seu resultado.

propósito + tecnologia + multidão = realização

Há pouco mais de 60 dias, coloquei no ar uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar a editoração e impressão de um livro que escrevi. Em dois meses, eu precisava juntar R$ 10.915.

Primeiro passo

É preciso dar-se conta que não é porque a internet é esta maravilha toda que a coisa vai ladeira abaixo. Não foi fácil mobilizar as pessoas, sensibilizá-las para a importância, insistir com as taxas de conversão que me desanimavam. Quase sempre 10% ou 20% daqueles que você acha que irão aderir realmente aderem.

Segundo passo

Conte com sua rede mais próxima antes de pôr a campanha no ar. Venda antes o projeto a familiares, amigos e pessoas com mais chances de comprar a ideia. Se achar que merece, crie uma página no Facebook e faça aquele aquecimento. Para você não perder um só dia quando o tempo começar a correr. Eu criei a minha. Avise quando a campanha for ao ar por canais que você tenha certeza que todos ficaram sabendo (ao menos). Cara de pau? Sim, vista-se dela durante o tempo necessário.

Terceiro passo

Seja atencioso, criativo, persistente e mantenha o ritmo. Conheci muita gente boa, criei belos vínculos com uma galera que talvez nunca conheceria. Ouvi e li coisas que me emocionaram profundamente. No entanto, para algumas pessoas, acho que eu fui um grande chato; para outras, também. Mas, desculpa, pessoal, era necessário.

gravatai

Partilha que promovi durante encontro do CLJ da paróquia Nossa Senhora de Fátima, de Gravataí

No final, eu consegui.

É inestimável o valor de uma campanha finalizada, com 118% da meta alcançada e uma comunidade de mais de 500 pessoas mobilizadas e manifestando a todo momento seu carinho, gratidão e apoio ao projeto. Um projeto que nasceu meu e que passou a ser de cada um que contribuiu com qualquer moeda.

finalizadoVirou clichê a frase atribuída a Raul Seixas segundo a qual um sonho sonhado sozinho é um sonho, mas um sonho sonhado junto é realidade. Mas é a mais pura realidade quando se vive o momento que estou vivendo.

Não é novidade que a internet reúne multidões, lota passeatas, ocupa praças e escolas e junta, até em 24 horas, a grana necessária para a cirurgia de uma criança.

Mas é diferente quando a experiência é pessoal.

O financiamento coletivo do meu livro é a concretização da capacidade da internet e de seu modelo que potencializa o coletivo. Seja quem for o seu agente.

E é preciso ter valor.

Não tenho dúvida que consegui expressar com conteúdo o propósito que move este projeto, e que a isso também se deve o sucesso da campanha.

É um marco de vida experimentar a força desta equação. Sem ela, suponho que o livro O CLJ me enganou nunca existiria. Simples assim.

Muito obrigado a todos! De coração.

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40 anos de CLJ

Não venha me dizer que alguém, algum dia, entrou no CLJ para ter a experiência de Jesus Cristo. Para ser convertido. Para ser evangelizado. Ou melhor, para se tornar um líder.

Nem vem.

Os motivos para a primeira tarde deste movimento sempre foram outros. Mais ou menos santos, mas foram outros. Por isso que sempre disse que O CLJ me enganou ao longo desses 40 anos. Você que começou pela insistência de um amigo. Você que entrou para se aproximar daquela guria. Para jogar bola com a turma. Para poder frequentar as aulas de violão. Porque a família toda estava lá — ou só a irmã mais velha. Você que entrou com uma data para sair. Você mesmo. Você que entrou e ficou, você foi enganado. Porque ninguém, no auge dos seus 14 anos, é capaz de supor o que viveria a partir da decisão de ficar. Até porque não foi uma decisão. E até porque com esta idade não se decide nada na vida. Você foi ficando, foi ficando. Até o dia que decidiu sair. Que também não se decide sair. Quando saímos é porque já estávamos fora há algum tempo. Depois do CLJ, do tempo que você ficou lá, você se transformou no que você é hoje. Se já lá o que for. Está bem, no mínimo, a sua espiritualidade é outra. Ou é completamente outra. Como no meu caso.

Mas voltando ao fato de termos sido ludibriados. Se serve de consolo, saiba que nem você, nem eu, fomos seduzidos por um movimento qualquer. “Se este Movimento vem de Deus, ele vai durar e trazer muitas vocações. Mas se não vem de Deus, daqui a pouco nós vamos acabar com isso”, foi o aviso que, em 1975, Dom Zeno ouviu do então Arcebispo de Porto Alegre, Dom Vicente Scherer. Suponho, portanto, que estejamos falando de uma iniciativa de Deus.

E sobre esta obra divina, deixem eu lhes dizer algumas coisas.

Como cristão, participei de movimentos jovens durante mais de 15 anos. E ainda tenho algum contato com eles. Fui me dando conta ao longo do tempo que o jovem precisa honrar suas experiências cristãs alterando o seu comportamento no mundo. A tal “ação” do tripé estudo-piedade-ação e as tais “obras”, a que se refere São Tiago quando diz que sem as quais a fé é morta, não se resumem à caridade, como poderíamos supor. Também são a caridade, mas não só. A experiência com Jesus Cristo nos torna capazes de agir como Jesus Cristo. Em todas as nossas relações. Porque é de relações que a vida é feita, meu caros. Entre amigos, no trabalho, na família, no futsal, na balada. Você aconselha ou se cala? Você aponta o dedo ou se acovarda? Você tolera ou explode? Você julga ou analisa os contextos? Você elogia ou se envaidece? Você compreende seus limites ou os desconhece? Você coopera ou oprime? Você esgota todas as forças ou você se ama?

Olhemos para a história que nos trouxe até aqui. Porque vocês e eu somos produto da história.

No ano de 1974, em plena turbulência política e social do Brasil, quando a Igreja tentava consolidar no país a sua opção pelos pobres, desvinculando-se das classes dominantes, Porto Alegre assistiu o surgimento de um dos mais transformadores grupos de jovens da região Sul do país: o Curso de Liderança Juvenil (CLJ). Depois do Emaús, o CLJ foi um dos primeiros movimentos a reunir novamente os jovens – coisa que o golpe militar proibiu à base de agressões, torturas e matanças – e fazê-los canalizar toda energia pelo anúncio do evangelho e da mensagem de Jesus Cristo.

Em março de 2009, durante entrevista que fiz com Dom Zeno, fundador do CLJ, bispo de Novo Hamburgo e presidente do Regional Sul 3 da CNBB, reconheci a importância histórica deste grupo. Dom Zeno contou-me que ficou todo o ano de 1973 sem distribuir comunhão a jovens. Acredite: nenhum jovem comungara com ele durante todo o ano, na paróquia São Pedro, em Porto Alegre.

Não havia jovens na missa. Nem, sequer, um.

E parte da explicação está aqui: a Igreja apoiara a repressão nos anos 60. E tenho a impressão que nem as tentativas de modernização surgidas a partir do Concílio Vaticano II, em 1962, e da II Assembléia Geral da Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medelin, na Colômbia, em 1968, conseguiram renovar suficientemente a imagem da Igreja Católica, a ponto de fazer a juventude participar novamente – como o fizera na Ação Católica e na JUC (Juventude Universitária Católica), por exemplo.

Mas os jovens voltariam a se reunir em torno de Jesus Cristo.

E vejam a coincidência dos números: 74 crismandos, em 1974. Foi por meio da Crisma, que Dom Zeno reaproximou a juventude de Deus. Um retiro com crismandos, realizado em 14 e 15 de julho de 1974, com poucas adesões, transformaria para sempre a cara da Igreja jovem no Rio Grande do Sul. Mesmo com o relato quase emocionado do padre, continuei intrigado.

– O que os fazia voltar? – perguntei.

Quase não terminei de perguntar e já ouvia a resposta de Dom Zeno. Aquilo não estava só na ponta da língua, como dizemos, era uma convicção.

– A descoberta de Jesus Cristo – disse ele, taxativo.

E dali, não parou mais de listar razões que lhe eram tão verdadeiras como se aqueles 19 jovens estivessem à sua frente naquele momento.

– A possibilidade de poder conversar com ele diretamente e ao vivo. E se ele está aqui, vivo, diziam, então valia a pena. Aquele Jesus era uma novidade fantástica para eles. Eles acreditavam em um Jesus morto na cruz, de uma morte que aconteceu há dois mil anos e que não tinha mais nada a ver com eles. Conheciam um Cristo sofrido. Mas o Cristo que está vivo no sacrário, conversando conosco, desse eles não tinham ideia. Quando eles descobriram este outro Cristo, eles se empolgaram por ele.

O fato é que os jovens conheceram um Jesus Cristo humano, próximo. E gostaram de revê-lo toda semana, gostaram de se reunir em torno dele. Os movimentos prosperaram e se multiplicaram. Nessas qiuatro décadas, só no CLJ, milhares de adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer o evangelho e a receita de felicidade ensinada por Jesus Cristo.

Mas a juventude se acomodou.

Sem entrar na discussão das inclinações políticas presentes nos movimentos populares da Igreja nas décadas de 60 e 70, precisamos voltar nosso olhar para aquela época e perceber que só faremos a diferença se formos ao encontro de quem precisa e se vivermos de acordo com os valores que pregamos. Jesus Cristo não veio para os fortes, mas para os doentes. Não ficou em sua terra natal, mas viajou ao encontro dos necessitados. Não fez pelos apóstolos, mas os ensinou a pescar. Não foi condescendente, mas firmou o pé em suas convicções.

Pense no seu grupo.

Como os jovens se comportam em casa depois de voltarem saltitantes de um retiro? Em que aspecto as relações no trabalho melhoram depois de três dias olhando para dentro de si e revendo atitudes? Não é fácil viver a lógica do amor, mas é o único caminho. Sei que já existem realidades que me contrariam, mas tenho certeza que a provocação é oportuna.

Deixo aqui trecho da segunda carta de São Paulo ao Tessalonicences, escrita provavelmente no ano 70:

“Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder; Para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja em vós glorificado, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.”

É urgente que Deus no faça dignos de nossa vocação, como pede São Paulo. Como Zaqueu, que subiu em uma árvore para ver Jesus Cristo, porque alguma coisa o chamava, precisamos também ouvir esta voz que chama e fazer o esforço da subida. Há milhares, milhões, precisando de nós. Há gente sem ter o que comer, há gente satisfeita com a vida egoísta que leva, há gente sem motivos de ver o sol do dia seguinte nascer, há gente dependente de susbstâncias químicas para ter algum prazer na vida. A messe é grande e ocasião não nos falta. Há muita gente precisando de nós. Precisando da juventude e da Igreja do futuro, que está sendo construída agora. Rezemos para que Deus entre na vida de nosso movimentos, mexa na estrutura, sare as feridas da acomodação, da hipocrisia, e os coloque à buscar. Mais 40 anos.

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LIVRO: O CLJ me enganou

NOVIDADE! Antes de você ler este post de 2014, tenho uma novidade: o livro O CLJ me enganou é uma realidade! Ele encontra-se em fase de pré-lançamento, e neste momento eu preciso da sua ajuda. Como não tenho editora, criei uma vaquinha na internet para arrecadar os recursos necessários para a editoração e impressão da obra. Funciona assim: você acessa o site abaixo, contribui com R$ 30 e já garante o seu exemplar. Acesse, saiba mais e deixe sua contribuição: www.catarse.me/ocljmeenganou

Em agosto de 2008, escrevi uma crônica sobre o CLJ, movimento católico que completa 40 anos em 2014. Tentei reproduzir, no texto, meu sentimento de admiração e gratidão por algo que foi essencial durante seis anos da minha vida. Para minha surpresa, a identificação das pessoas com ele foi grande. Recebi muitos comentários emocionados e até hoje, seis anos depois, a proposta provocadora da crônica repercute.

Em 2009, surgiu a vontade de ampliar o assunto e escrever um livro. Visitei Dom Zeno Hastenteufel, bispo de Novo Hamburgo e criador do CLJ. Tenho mais de uma hora de nossa conversa gravada e grande parte dela já colocada no papel. Guardo com orgulho esse tesouro.

Mas a rotina me engoliu e a ideia do livro ficou pelo caminho.

Esta semana, o incentivo carinhoso de algumas pessoas queridas, somado a alguns bons propósitos que tenho, fizeram a visão de um livro ressurgir, acompanhada de entusiasmadas ideias.

Antes de ir em frente, porém, queria ouvir as pessoas que leram, curtiram o texto e se sentem parte do CLJ, no passado ou no presente. Não pretendo fazer um resgate histórico do Movimento — embora sua história seja riquíssima, com números que impressionam e uma relação com a Ditadura bastante interessante.

O livro seria importante em quê? Que conteúdos ele poderia trazer? Com o que vocês podem contribuir? Posso contar com vocês para colher depoimentos e informações?

Comentem aqui mesmo. Espero vocês.

Um abraço,
Juliano Rigatti

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O jovem e a Igreja

Volto da missa no último domingo do mês de outubro de 2010, dia em que foi comemorado o Dia Nacional da Juventude, e alguns fatos históricos, e outros bem práticos, me fazem pensar.

Como cristão, participo de movimentos jovens há 14 anos. Fui aprendendo ao longo do tempo que o jovem precisa honrar sua vivência por meio do tripé estudo, piedade e ação. Não é possível que saiamos pelas ruas fazendo algo em nome do bem comum, se não tivermos nossa experiência com Jesus Cristo e não formos convencidos das motivações de nossos gestos. A missão não durará muito. Igualmente – e mais grave –, é inconcebível que estudemos nossas raízes cristãs, partilhemos nossas histórias de vida e nos aproximemos da Eucaristia, mas não façamos nada pelo outro. Repito: é inaceitável. Aprendi isso com o tempo. Aprendi que o jovem cristão precisa abastecer-se no grupo, seja ele qual for (CLJ, Cenáculo de Maria, Emaús, EJC, etc.), para sair às ruas e transformar o pequeno mundo que o cerca.

No ano de 1974, em plena turbulência política e social do Brasil, quando a Igreja tentava consolidar no país a sua opção pelos pobres, desvinculando-se das classes dominantes – Porto Alegre assistiu o surgimento de um dos mais transformadores grupos de jovens da região Sul do país: o Curso de Liderança Juvenil. Depois do Emaús, o CLJ foi um dos primeiros movimentos a reunir novamente os jovens – coisa que o golpe militar proibiu à base de agressões, torturas e homicídios – e fazê-los canalizar toda energia pelo anúncio do evangelho e da mensagem de Jesus Cristo.

Em março de 2009, durante entrevista que fiz com Dom Zeno, fundador do CLJ e então arcebispo de Novo Hamburgo, reconheci essa importância histórica deste grupo. Dom Zeno contou-me que ficou todo o ano de 1973 sem distribuir comunhão a jovens. Acredite: nenhum jovem comungara com ele em 1973, na paróquia São Pedro, em Porto Alegre.

Os jovens simplesmente não iam à missa.

E parte da explicação está aqui: a Igreja apoiara a repressão nos anos 60. E tenho a impressão que nem as tentativas de modernização surgidas a partir do Concílio Vaticano II, em 1962, e da II Assembléia Geral da Conferência Episcopal Latino-Americana, em Medelin, na Colômbia, em 1968, conseguiram renovar suficientemente a imagem da Igreja Católica, a ponto de fazer a juventude participar novamente – como o fizera na Ação Católica e na JUC (Juventude Universitária Católica), por exemplo.

Mas os jovens voltariam a se reunir em torno de Jesus Cristo.

E vejam a coincidência dos números: 74 crismandos, em 1974. Foi por meio da Crisma, que Dom Zeno reaproximou a juventude de Deus. Um retiro com crismandos, realizado em 14 e 15 de julho de 1974, com poucas adesões, transformaria para sempre a cara da Igreja jovem no Rio Grande do Sul. Mesmo com o relato quase emocionado do padre, continuei intrigado.

– O que os fazia voltar? – perguntei.

Quase não terminei de perguntar e já ouvia a resposta de Dom Zeno. Aquilo não estava só na ponta da língua, como dizemos, era uma convicção.

– A descoberta de Jesus Cristo – disse ele, taxativo.

E dali, não parou mais de listar razões que lhe eram tão verdadeiras como se aqueles 19 jovens estivessem à sua frente naquele momento.

– A possibilidade de poder conversar com ele diretamente e ao vivo. E se ele está aqui, vivo, então valia a pena. Aquele Jesus era uma novidade fantástica para eles. Eles acreditavam em um Jesus morto na cruz, de uma morte que aconteceu há dois mil anos e que não tem mais nada a ver comigo. Conheciam um Cristo sofrido. Mas o Cristo que está vivo no sacrário, conversando contigo, desse eles não tinham ideia. Quando eles descobriram este outro Cristo, eles se empolgaram por ele.

O fato é que os jovens conheceram um Jesus Cristo humano, próximo. E gostaram de revê-lo toda semana, gostaram de se reunir em torno dele. Os movimentos prosperaram e se multiplicaram. Nesses 36 anos só de caminhada do CLJ, milhares de adolescentes tiveram a oportunidade de conhecer o evangelho e a receita de felicidade ensinada por Jesus Cristo.

E o advento das mídias sociais ampliou de forma incrível as possibilidades dos jovens se encontrarem. Só uma grande transformação política nos impediria novamente de compartilhar nossos pensamentos, de unir nossa vontade de mudar o mundo. Já viram a quantidade de jovens cristãos usuários de redes como Orkut, Facebook e Twitter? Mesmo que não vá à reunião do grupo de jovens, os integrantes se falam e permanecem conectados à causa. Isso tudo é muito positivo.

Mas a juventude se acomodou.

Sem entrar na discussão das inclinações políticas presentes nos movimentos populares da Igreja nas décadas de 60 e 70, precisamos voltar nosso olhar para aquela época e perceber que só faremos a diferença se formos ao encontro de quem precisa. Jesus Cristo não veio para os fortes, mas para os doentes. Não ficou em sua terra natal, mas viajou ao encontro dos necessitados. Se transformarmos nossos movimentos em clubes de jovens, que só se divertem juntos e se preparam o ano inteiro para dois retiros anuais, estamos fazendo pouco, estamos fazendo muito pouco.

Deixo aqui trecho da segunda carta de São Paulo ao Tessalonicences, escrita provavelmente no ano 70, lida na missa deste dia 31/10/2010, Dia Nacional da Juventude:

Por isso também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação, e cumpra todo o desejo da sua bondade, e a obra da fé com poder;Para que o nome de nosso Senhor Jesus Cristo seja em vós glorificado, e vós nele, segundo a graça de nosso Deus e do Senhor Jesus Cristo.

É urgente que Deus no faça dignos de nossa vocação, como pede São Paulo. Como Zaqueu, que subiu em uma árvore para ver Jesus Cristo, porque alguma coisa o chamava, precisamos também ouvir esta voz que chama. Há milhares, senão milhões, precisando de nós. Há gente sem tem o que comer, há gente sem ter com o que sonhar, há gente sem motivos de ver o sol do dia seguinte nascer. Por onde passamos, há dependentes químicos, há gente com câncer, há pessoas com esquizofrenia, há colegas de aula e de serviço com depressão. Trabalho e motivo não nos falta. Há muita gente precisando de nós. Precisando da juventude e da Igreja do futuro que estamos fazendo agora. Rezemos para que Deus entre na vida de nosso movimentos, mexa na estrutura, sare as feridas da acomodação, da hipocrisia, e os coloque à caminhar, à evangelizar.

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra Te ver, olhar para Ti
E chamar Sua atenção para mim
Eu preciso de Ti Senhor
Eu preciso de Ti, oh Pai
Sou pequeno demais
Me dá Tua paz
Largo tudo pra Te seguir
Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a Ti
Porque o Senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim

Shalom!

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O CLJ e sua história de enganação

O CLJ – Curso de Liderança Juvenil é um movimento jovem da Igreja Católica, fundado em Porto Alegre, em 1974, e é voltado à evangelização e à vivência dos valores cristãos. Participei deste movimento durante intensos seis anos de minha adolescência e juventude. E não fui mais o mesmo desde lá. Fui enganado. E o enganei muitas vezes.

Se você também foi enganado, se você também enganou, deixe aqui seu relato, dê seu testemunho, conte sua história, junte-se a esta causa!

Para filiar-se a esta causa, há grupos de discussão no Facebook e no Orkut. Passa lá!

Facebook: http://www.causes.com/causes/538716/about?m=c43c201e
Orkut: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=107518305

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Só por hoje

Há uma camiseta de tecido claro estendida no chão da entrada do salão do Centro de Recuperação Imaculada Conceição, em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Ela é pisada por todos os que entram no local, rapazes dependentes químicos, seus monitores e visitantes. Molhada e completamente tomada por uma fina areia marrom, poucos se dão conta da sua presença. Embora ela tivesse sua função, com a umidade e a chuva do último sábado, seria inútil qualquer tentativa de manter o salão seco e limpo. Mas ela permaneceu ali, imunda, durante todo o dia, enquanto rezávamos, partilhávamos experiências de vida e plantávamos esperança no coração de 38 adictos em recuperação.

Já era escuro, meus olhos inchados e embaçados de emoção, quando reparei a primeira vez na tal camiseta, enrolada no piso frio e escorregadio por onde passávamos. Alguns se despediam, prometendo voltar, outros, agradeciam pelo dia e, sem dizer, nos revelavam, pelo brilho do olhar, que aquele era, mais uma vez, o primeiro dia de suas vidas.

A camiseta suja serviu de metáfora do que vivemos no 1º Retiro do Movimento Cenáculo de Maria na CRIC, casa que acolhe cidadãos que desejam limpar seu organismo e libertar sua alma das drogas. Chegam ali como aquela camiseta, tomados pela sujeira da falta de dignidade, desprezados por uma sociedade avessa aos valores cristãos e com quase nenhuma esperança. Muitos deles, conhecendo a pobreza e a dificuldade, fizeram da droga uma tentativa de fuga da realidade. Outros, como o rapaz que nos deu seu depoimento e com quem conversei, ascenderam financeiramente e despencaram ao fundo do poço. Restaram alguns reais para pagar a triagem e cobrir os custos mensais com o Centro. “Tinha uma esposa, um filho, abri um negócio próprio, cheguei a ter 15 funcionários, e perdi tudo”, contou-me. A decisão pela recuperação veio dentro de um motel, enquanto consumia, sozinho, a última quantidade de cocaína que levava nos bolsos. “Olhava para os espelhos e não me via. Tive tudo, mas faltava-me Deus”, concluiu.

A CRIC é apadrinhada pela paróquia Imaculada Conceição, da Igreja Católica, localizada no bairro Rio Branco, em Canoas. O movimento Cenáculo de Maria, da mesma paróquia, do qual participo, foi quem idealizou o retiro. A ligação do Cenáculo com as drogas já contei aqui. Graças a isso, tínhamos também entre nós, no sábado, cenantes que livraram-se da dependência química e hoje visitam a CRIC pra testemunhar que há, sim, dias iluminados fora do túnel do vício. “Eu nunca vi eles tão felizes, cara, nunca. E pra mim, que já estive aqui, então, isso está sendo maravilhoso”, ouvi de um deles.

Durante os nove meses de tratamento na CRIC, os jovens e adultos em recuperação estudam a Bíblia, trabalham na horta, na ordenha dos animais, na manutenção da estrutura e na preparação das refeições. De todas, a tarefa mais exigente, certamente, é olhar pra si próprio. “Acordo todos os dias e tenho que me encarar, admitir que fiz tudo errado e recomeçar”, disse um dos residentes, que já está no Centro pela segunda vez, depois de ter ido embora e recaído na primeira tentativa.

Sempre que tive oportunidade, parabenizei uma daquelas pessoas pela coragem. Não é fácil tomar a decisão de ir até a fazenda. Menos fácil é dizer para si, a cada manhã, só por hoje não vou mais pecar. Porque lá, eles vivem um dia de cada vez. Como nós vivemos, sem nos dar conta. Para emagrecer, para passar no concurso, para construir uma carreira bem-sucedida. Cada uma dessas conquistas, como para largar o vício, requer coragem de viver um dia de cada vez. Mas mais vital do que qualquer objetivo que tenhamos aqui fora, lá na CRIC só o que eles querem é merecer suas vidas de volta. E como querem.

Bem no início do dia que passamos juntos, sentei-me num dos primeiros bancos do salão, depois de uma das primeiras palestras, e ouvi-os cantar junto conosco. Mas não cantei. Porque não pude. Era forte e bonito demais ouvir a voz de cada um deles transformada em uma só, preenchendo o ar daquele salão. “Lágrimas são suor de almas que lutam só. Só Deus pode entender o que lhe causa dor. (…) Pare de se maltratar, não queira os outros culpar e diga: ‘por hoje não. Por hoje eu não vou mais pecar'”, cantavam eles.

Rezarei para que daqui nove meses nenhum deles esteja mais na CRIC. Que estejam reescrevendo a história. Que nasçam de novo nessa segunda gestação. E pelo trabalho que é realizado na CRIC, não serão só cidadãos limpos nossos amigos de sábado. Serão multiplicadores da receita da felicidade revelada por Deus a nós desde os 10 Mandamentos. Felizmente, daqui nove meses, teremos mais gente por aí dizendo que, embora o mundo nos faça chorar, Deus nos quer sorrindo.

***

Fé e ação

Talvez o Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas esteja inaugurando uma nova fase dos movimentos de jovens e adultos da Igreja Católica. Tudo começou no 140º Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas. Já falei dele aqui. A presença de uma dezena de jovens dependentes químicos em recuperação entre nós foi a primeira das bênçãos. A segunda, foi poder perceber como o Cenáculo atuou na ressocialização dessas pessoas. Porque quando saem dos Centros de Recuperação não é de emprego que precisam, não é de comida que precisam, não é de sexo que precisam.

Eles precisam de Deus.

E o Cenáculo de Maria, o grupo de jovens iluminados que se reúne aos sábados à tarde na paróquia Imaculada Conceição, em Canoas, este grupo está fazendo o papel de manter viva a chama da fé em nossos amigos.

Os movimentos de jovens e adultos que conheço são todos muito parecidos. Basicamente, repetem a fórmula de conversão de seu público em retiros de um final de semana. O Cenáculo também é assim. Igualmente, cumprem sua função social e cristã de forma transformadora. Já falei aqui no blog de como o CLJ mudou minha vida.

O Cenáculo parece estar indicando o amadurecimento disso tudo. É preciso avançar para águas mais profundas. Aliar a fé com obras, como esse pessoal do Cenáculo está fazendo, pra mim está sendo uma feliz e renovadora novidade.

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A barriga dos homens e a nossa fé

Na média, todos os homens que conheço perseguem, ao longo de suas vidas, uma solução existencial para ao menos duas coisas, além da morte: para a fé e para suas barrigas. Dentre meus colegas de gênero, não há um de quem nunca tenha escapado um comentário insatisfeito sobre sua a fé – ou sobre seu ceticismo – ou sobre sua barriga – e gorduras abdominais e afins. Não há um.

E o que mais põe à prova nossa hombridade, nossa virilidade, ao lidar com a barriga e com a fé, é a nossa submissão a elas duas. Contra a barriga e contra a fé, somos seres impotentes. E pior: as duas têm a ver com a morte. A primeira pode nos levar mais rápido a ela e a outra, define o que será de nós depois do dia D. E não há nada que se possa fazer de imediato. Funciona como se tivessem vida própria. Alimentam-se por conta própria e seguem ali, desafiando o que nos resta de orgulho.

E, digo-vos, só há uma solução para apascentar tal sofrimento masculino. Só há um caminho para confortar no coração do homem a angústia causada pela fé e pela barriga. Só um. Um só.

***

Era uma tarde de meia temperatura na sala da minha casa, em Canoas. Não lembro bem qual era minha idade. Mas posso dizer que me regozijava na mais prazerosa das idades: a idade sem compromissos. Estudava pela manhã, assistia ao Chaves e aguardava o entardecer para jogar uma bola com os amigos que tinha aula à tarde. Essa era, em linhas gerais, minha rotina estafante da época. Mas tinha algo que já me incomodava: a minha barriga. No que um dia, num belo dia, eu resolvi que poria fim a ninguém mais, ninguém menos, que a eles, meus pneuzinhos brancos. Eles que me acompanharam desde sempre. Companheiros de todas as horas e de todos os banhos. Desde a descoberta dos pelos até o fim da puberdade. Poria fim a eles. Minha barriguinha e seus pneuzinhos companheiros seriam eliminados.

E tratei de buscar alternativas.

O Nescau. Tiraria o Nescau da minha vida. E exercícios? Pensei em correr, em caminhar, em jogar mais bola. De algum lugar surgiu a convicção pelo abdominal.

Acontece que eu tinha um aparelho específico para o movimento e almofadinhas e tals. Mas na tal tarde, não usei nada disso. Preferi ir no seco mesmo, ali, no assoalho da sala de casa. Cinquenta abdominais no primeiro dia. Acho que foi esse o número. Cinquenta. Parei porque nem minha coluna, nem minha barriga aguentavam mais. E fui pro espelho. Tive a impressão de ter visto rastros de gordura esvaindo-se pelo suor do meu abdômen. E fiquei satisfeito. Lembro que fiquei bem satisfeito. Nascia ali um novo Juliano.

Mas no dia seguinte, havia algo que não me deixava esquecer de meu propósito um minuto sequer. A dor que tomou meu corpo quase me imobilizava. E a cada passo que dava, a dor repuxava meus músculos na tentativa de me convencer da bobagem que eu tinha cometido ao me propor a perder a barriga. Ela não valia aquela dor.  Ninguém dá bola pra ela, oras. Ela nem é tão visível assim, afinal. Pode ficar aí mesmo onde está. Não seria eliminada. Barriga? Que barriga? A dor muscular me levou a desfazer os entusiasmados planos do dia anterior.

Assim é com a minha .

Há três semanas, participei do 140º Cenáculo de Maria da Arquidiocese de Porto Alegre. O Cenáculo é um movimento de jovens e adultos da Igreja Católica que prega a espiritualidade de Maria, a mãe de Jesus Cristo, como forma de vivência da fé. Posso dizer que, em 14 anos de caminhada na Igreja, talvez este retiro tenha sido o mais importante de todos. Talvez não o mais bonito, nem o mais marcante. Mas o mais relevante para minha fé.

Uma das razões que me fazem classificar desta forma o 140º Cenáculo foi a participação de meia dúzia de pessoas especiais entre os mais de 70 jovens e adultos que faziam o retiro pela primeira vez. Refiro-me a cidadãos dependentes químicos em recuperação. Tive a sorte de sentar perto de um durante os três dias e poder ouvir as suas histórias. São uns heróis esses homens e mulheres que vencem a droga! “Vou dormir todos os dias agradecendo pelo dia e acordo todos os dias sabendo que terei que matar alguns leões”, ouvi de um deles no sábado seguinte, quando nos reunimos para conversar a respeito do retiro. Um deles nos contou que tinha emprego em uma multinacional, esposa e filhos. Por causa da bebida, perdeu tudo, a ponto de não ter para onde ir. Perdeu tudo. Ficou sem nada. E reergueu-se. E estava lá, do meu lado naquele retiro, sem nenhuma pinta de herói, mas disposto a servir de exemplo de esperança.

Saem do retiro em vantagens esses cinco ou seis homens, cujas vidas foram atropeladas pelas drogas. Porque com a fé e com aqueles que querem perder suas barrigas, o desafio é o mesmo: alguns leões precisam ser mortos a cada dia.

Costumo dizer que retiros são para a fé assim como feriadões do verão são para o trânsito. Infelizmente, não voltaremos a ver alguns daqueles que pegaram a estrada conosco. É inevitável. Embora tomados pela emoção todos confessem o desejo de mudar de vida e passar a valorizá-la de outra forma, muitos serão vencidos pelos leões da semana seguinte na vida real.

E não são poucos os leões. Eu diria que quase todo dia há um novo leão para enfrentarmos. Não preciso elencar aqui tudo o que nos tira do caminho do bem, como a indiferença, a competição e a vaidade, né?

O que esquecemos é que atrás de nossos leões aguardam por nós pessoas como nós. Pessoas que sofrem porque nunca ninguém chegou até elas e apontou para o lado onde a vida é mais colorida, as possibilidades são variadas e a dignidade é possível. Voltei pra casa depois da missa que encerrou nosso encontro de três dias com uma frase de uma canção na cabeça: “tu, pescador de outros lagos, ânsia eterna de homens que esperam”. São eles, os homens que sofrem atrás dos leões que estão nos aguardando! Numa ânsia eterna, numa angústia interminável.

Por que o 140º Cenáculo de Maria foi tão importante? Porque descobri que, como a morte, há outra coisa certa nessa vida: os leões e a angústia dos homens sempre existirão. E estarão sempre à espera de alguém disposto a transmitir a paz.

Retiro de três dias podem nos levar para o céu, mesmo estando na terra. Mas acabam. As lágrimas evaporam. E se não soubermos lidar com essa avalanche de sensações novas dentro do peito, se não soubermos lidar com as dores musculares de quem quis acabar com a barriga no primeiro dia, se não soubermos lidar com tudo isso, se não formos perseverantes, ficaremos pelo caminho.

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Só há um caminho para a realização da fé e só há um caminho para o fim da barriguinha indesejável: a perseverança. Para o homem que deseja alcançar uma barriga de tanquinho e para o homem que almeja desfrutar de uma fé robusta, que não dorme satisfeita enquanto não alegra alguém, a receita é uma só: perseverar. Matar alguns leões a cada dia. Sem fraquejar, sem deixar-se levar pela rotina da acomodação, do satisfazer-se com o ter, poder e prazer passageiros das coisas fúteis. Como perder a barriga, por exemplo.

É claro que me incluo no meio de vocês, como mais um que precisa aprender a matar seus leões. Três semanas depois do 140º Cenáculo de Maria e alguns anos depois daquela tarde de abdominais, no meu peito ainda mora a angústia pela barriga que não perdi e pela fé cuja chama preciso aprender a manter acesa todos os dias.

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