Arquivo do mês: março 2011

Não queira ter filhos

Acho saudável para a nossa sociedade que continue aumentando entre nós o número de casais que não querem ter filhos. Para o bem do nosso futuro, desejo que eles se multipliquem. Mesmo você, que sempre sonhou com a prole, você me dará razão.

Para mim, o princípio disso tudo está nas razões que movem os casais que hoje estão decididos em não procriar. São inúmeros os motivos que ouço. Entre eles, a liberdade, o prolongamento de uma vida a dois, o conforto de uma renda dedicada apenas a dois adultos e até a flexibilidade para mudar-se de Estado, seja por razões pessoais ou profissionais. Mas há outros. Tem jovens que não desejam transformar-se em pais e mães porque não se sentem aptos a formar um cidadão; porque não acham que serão capazes de preparar um filho para este mundo; porque não querem assumir tal responsabilidade. Estes casais são casais de convicção. Conversam, refletem, reúnem argumentos, preparam-se para contrariar a família, o senso comum e a natureza, inclinada à procriação. Aqui está o ponto: a maioria destes casais trata com mais seriedade a possibilidade de colocar uma pessoa neste mundo do que os que a colocam de fato.

Ou você não conhece pais que terceirizam o papel de educadores para a escola? Ou que recheiam a agenda dos filhos com atividades extracurriculares para terem mais tempo? Ou que convencem gritando, que proíbem batendo? Há pais que ignoram o significado do amor, são permissivos em demasia, e esquecem-se de apresentar limites aos seus filhos. E, pior, dão de ombros para o grande mal que estão causando à sociedade. É triste, mas a julgar por muitos desses filhos que se vê por aí, dá até a impressão de que os seus pais não desejaram tê-los.

Os dinks (do inglês, double income no kids), ou casais que trabalham e não têm filhos, cresceram 70% no Brasil entre 2003 e 2009, e já representam 13% da população do Sul do país. Aplauda estes números! Quanto mais eles aumentarem, maior será a probabilidade de você conhecer um dink. E de conversar com um deles. E de ouvir seus argumentos. E de compará-los aos seus. E de repensar seus projetos de vida, recebidos prontos de sua família. Como preparar-se para ter um filho? Como educá-lo depois? Como transformá-lo em um cidadão correto e não só em mais um número que inflará ainda mais nossos índices populacionais? Um casal que não deseja ter filhos o fará pensar sobre tudo isso. E isso é salutar.

Além disso, conta pontos para o Brasil de amanhã o fato de que, dentro deste universo dos convictos em não conceber um filho, sempre haverá aqueles que mudam de ideia. Eu mesmo tenho uma amiga decidida a não ter filhos, que edita o blog Sem Filhos e já escreveu sobre a hipótese de reconsiderar sua posição. No post, escreveu “se minha vida tomar este rumo, pode apostar a sua: haverá pelo menos uma pessoa se entregando dia a dia de o e alma e, se preciso for, com sangue, suor e lágrimas, para fazer deles os indivíduos mais justos e felizes dos quais se possa ter notícia.” Bonito, hem?

O movimento dos dinks é promissor. E minha satisfação se dá por dois motivos: porque isso só aumenta as chances de que casais que querem e casais que não querem os filhos se encontrem pra bater um papo; e porque, com o aumento de pessoas com tal convicção, cresce a possibilidade de os futuros pais terem um dia desejado não ter filhos.

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