Arquivo do mês: fevereiro 2011

O sorriso do Jeison

Não lembro exatamente o dia em que escrevi o texto abaixo. Foi por esses dias, três anos atrás. Ele serviu especialmente para marcar a época da minha formatura em Jornalismo e também para participar de um concurso do blog do David Coimbra, da RBS.  E não é que consegui ver minha crônica publicada ? E não é que hoje esse texto me traz inúmeras boas lembranças, de uma conquista única?

Este é o O sorriso do Jeison, em lembrança ao meu colega jornalista Juliano Rocha Rangel. Lá vai!

***

O sorriso do Jeison

Só pra ver como a vida é feita de detalhes. E de bons conselhos. Depois de sete anos e meio e de muitos passos dados, março próximo é o mês da minha formatura em Jornalismo. Em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Formatura essa que começou a acontecer mais ou menos um ano atrás. Era uma noite quente de fevereiro. O nome do cara é Jeison. Falar do cara é falar do sorriso do cara. É sério. Ele é do tipo simpático, sabe? Cumprimenta todos, e a todos mostra seu sorriso. Sorriso alegre, cheio de dentes brancos, espontâneo. De quem gosta da vida. O que mudava sempre era o cabelo do Jeison. Nuns semestres, bem curto. Noutros, comprido. Até lembrava um samurai.Eu já conhecia o Jeison de outras cadeiras lá da Unisinos. Isso porque nunca se estuda sempre com os mesmos. Cursamos duas disciplinas juntos? Três? Se muito. Jeison e eu só éramos próximos na lista da chamada. Não fomos nunca amigos. Sempre que os professores o chamavam, pouco antes de mim, eu já o tinha visto: sorriso largo, falando com outros ao redor, lá estava o Jeison, o cara que seria decisivo pra minha formatura.

Como quase sempre, naquele dia o caminho pelo qual atravessava a região metropolitana de Porto Alegre tinha sido longo demais. Eu estava atrasado pra aula. Saía sempre às 18h30min do trabalho e quase nunca chegava a tempo pra aula. Atrasado e esgotado. O dia em frente ao computador e o trem lotado acabavam com minha disposição.

Procurei no celular a anotação do local onde ficava a sala da aula daquele dia. Sala cheia e porta fechada. Saco. Atrairia a atenção de todos. Uma merda prum tímido como eu. Mas uma merda necessária. Abri a porta. Olhinhos todos vieram em minha direção. Escureceu-se quase tudo. Tinha uma cadeira vaga, iluminada. Sentei e tudo clareou. Ao meu lado, o Jeison. E ele foi logo sorrindo quando sentei e disse a ele opa, beleza? Beleza, ele respondeu. Sorrindo.

A aula ia chata quando Jeison puxou assunto.

— E aí, que cadeiras mais tá fazendo?

— Essa e mais três. Nunca mais. Três é o meu limite.

— Bah, pior. Pra mim também — e sorriu.

— Te forma quando?

— Sem ser no próximo, no outro. 2007… — pensei. — 2007 dois — disse eu.

— Bah, legal, eu também — sorriu o Jeison. — Já tá fazendo o Projeto?

— Não, não. Vou deixar pra fazer só o Projeto e o TCC no último. Muita coisa pra agora.

— Ahn…

Pela primeira vez, o sorriso sumiu da cara do Jeison, que disparou:

— Mas,cara, tem que fazer o Projeto antes. Senão não dá. Tem que ser antes.

— Mas, não… sério? Por quê? Agora nem dá… nem tenho mais dias livres. E nem grana.

— Troca por essa de hoje, ué — resolveu o Jeison. — Faz essa depois.

— Será? — franzi a testa toda.

— Claro, cara. Olha, tem que fazer o Projeto agora pra poder te formar em 2007 dois. É sério.

Vi pelo semblante do Jeison que era sério.

— Bah, vou lá na Central agora. Será q tem vaga ainda? — consultei o Jeison.

— Vai logo, meu.

— Cara, tu salvou minha formatura — brinquei, levantando.

Até hoje, sempre que vejo o Jeison agradeço pelo toque e digo, às brincas, que ele salvou minha formatura. A última dessas foi no dia em que a turma tirou as fotos para o convite. Lá na Unisinos. O Jeison, sabe o que o Jeison fez? Só sorriu.

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Porquê os gaúchos amam a Freeway

Sem exageros. Vivi um verdadeiro pesadelo na noite do dia 23 de fevereiro deste ano, quando voltava para Porto Alegre das minhas férias em Santa Catarina. O cenário foi a BR-101 e os cerca de 400 quilômetros que separam Florianópolis do início da BR-290, a Freeway, já no Rio Grande do Sul. Saímos da capital catarinense às seis da tarde. Com o fim do horário de verão, a noite chegou cedo, pouco depois das sete horas, e junto com ela veio a chuva. Fraca na maioria das vezes, só aumentada pelo volume de água arremassada pelos pneus dos caminhões que me fizeram companhia ao longo da viagem. Não vou reclamar das obras inacabadas da 101. Com tanta pressão da sociedade e da imprensa, deve haver alguma razão bem plausível para os atrasos. Deve haver. A principal razão deste  meu manifesto é a inacreditável ausência de sinalização básica de trânsito ao longo de todo o trajeto. Não, não há exagero aqui. Como disse, o sol se foi lá pelas sete da tarde. Junto com ele, também se foram os sinais luminosos do asfalto, os postes de iluminação e, na maioria das vezes, as listras que delimitam as faixas de trânsito. A minha sorte é que os demais veículos e seus faróis acesos permaneceram. Graças a muitos deles, é que estou aqui, são e salvo. (Se você estava voltando de Floripa para a capital gaúcha neste mesmo horário e está me lendo agora, muito obrigado, viu?)

Se não fosse dramático, seria libertador. Há trechos da BR-101, à noite, nos quais você pode trafegar onde quiser: mais pra direita, mais pra esquerda, no centro, no acostamento, no matagal. Sem pintura que possa ser vista, você é um motorista livre. Num dado momento, eu me senti tão livre que só fui interrompido por dois faróis altos de um caminhão que vinha em minha direção e me avisava que eu estava na contramão. A sensação de liberdade é tamanha que eu por pouco não peso meu veículo de passeio. Isso mesmo, eu e outro desorientado usuário daquela estrada entramos junto numa área de pesagem de caminhões. Só não fomos atendidos porque resolvemos não parar e nem diminuir a velocidade num local onde também imperava o completo breu. Os mais experientes dirão: “mas e por que não ligaste a luz alta?”. Juro que tentei. Mas entre diminuir o meu risco de acidente e cegar o irmão que vinha no sentido contrário, preferi seguir minha ideologia cristã e tratar o próximo como eu gostaria de ser tratado. E os engenheiros de trânsito dirão: “mas e as placas grandes e laranjas que colocamos para avisá-lo dos desvios?” Ah, sim, as placas. É estarrecedor que haja maior preocupação das autoridades em avisar onde não é permitido trafegar do que o contrário. No meio da noite, com chuva, o que você mais quer saber é por onde IR e não por onde NÃO IR. Ou estou errado? Agora, teve um momento que, embora não tenha relaxado um minuto sequer, eu sorri. Havia — eu juro que havia — no meio do nada, no escuro, sozinha, iluminada pelos meus tímidos faróis, uma placa que dizia: “Obedeça a sinalização”. Juro, eu sorri.

Você que lê estas linhas neste momento pode ver que cheguei ao meu destino diferente de quando parti do outro Estado. Ao invés de morto, como pensei que seria referido no jornal do dia seguinte, me encontro com as energias renovadas depois das férias, indignado com a situação absurda da BR-101 e com uma nova e elucidativa certeza nesta vida: hoje entendo porquê todo gaúcho ama a Freeway.

Todo ser humano nascido na última divisão do mapa político do Brasil, ao extremo sul, é conhecido por seu antagonismo. Não, o prefixo não faz nenhuma referência a animais. Quero dizer que somos reconhecidos (também por nós mesmos) como seres habituados com duas forças que se opõem. A mais famosa delas é a dupla de times de futebol. A outra vem da histórica forma de conduzirmos a política por aqui. E tem também a Guerra dos Farrapos, que colocou de um lado os sulinos e de outro o Império. E uma bem contemporânea é a que envolve o Rio (Lago?) Guaíba. Resiste por aqui uma estranha ideia de que os porto-alegrenses devam viver eternamente separados do seu mais belo cartão postal por um muro. Essa, ninguém entende.

Ou seja, minha gente, estamos acostumados com as polêmicas. E um povo assim, teimoso em ser partidário deste ou daquele lado, quando escolhe sua posição, o faz de forma vigorosa. Quero dizer que também temos consensos por aqui. Ah se temos. Um deles é a estátua do Laçador, que recebe nossos visitantes bem na entrada da cidade. Outro, é o pôr-do-sol do mesmo Rio Guaíba: há quem prove que veio de alguma universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, o veredicto de que ele é o mais belo do mundo. Há também a bombacha, o hino riograndense, o chimarrão e uma infinidade de coisas igualmente glamourosas. Mas, por fim, indo logo ao epicentro deste artigo, digo-vos que uma das grandes convicções do gaúcho é o seu amor pela Freeway, a BR-290, que liga Porto Alegre às praias do Estado. Isso, há um povo neste país que tem em seu coração uma rodovia.

Mas não porque por ela todo gaúcho já passou ansioso para rever as namoradinhas da orla; não pela sardinha frita pescada na ponde de Imbé; não porque queria rever os locais de gravação de Houve Uma Vez Dois Verões, do Jorge Furtado; nem porque não via a hora de sentir de novo, depois de um ano de estudos, a agradável brisa apelidada de Nordestão. Por nenhum desses motivos (e outros inúmeros e hilários que estão no Pegunte ao Crepe) a Freeway é idolatrada pelos gaúchos. Por nenhunzinho deles.

O gaúcho ama a Freeway porque ele conhece a BR-101.

A ama pela sua qualidade. Porque sabe exatamente quantos minutos são necessários para percorrê-la; porque seus  congestionamentos são igualmente calculados; porque nela pode botar cenzinho por hora; porque ela é sinalizada; e porque, à noite, ela é muitíssimo bem iluminada.

Na noite do dia 23 de fevereiro, a noite do meu pesadelo, quando os pneus dos meu carro tocaram a Freeway, o dia amanheceu às onze da noite. Eu sorri pela segunda vez porque agora estávamos, eu e meu automóvel, limitados por duas faixas de sinais luminosos, presos aos asfalto. Eu podia ter certeza por onde andava. Eu podia antever, no tempo certo, a existência de uma curva, de um acesso, de um retorno ou de um local para paradas de emergência. Passei a sentir meus ombros novamente, até então tencionados pelo temor de dirigir na BR-101. Meu pé esquerdo também existia, percebi. Ao final dela, no pedágio, quis pagar mais do que R$ 3,70, mas não permitiram.

A Freeway, este extenso pedaço de asfalto, que nos liga às mais ensolaradas lembranças do verão, só é idolatrada pelos gaúchos por causa do antagonismo de seu povo. Porque aqui todos amam o oposto daquilo que odeiam. Tão somente por isso. Amamos a Freeway por causa da existência de uma rodovia chamada BR-101.


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PS.: Na boa, nunca tive pretensão alguma que um texto meu virasse uma corrente de e-mails. Nunca mesmo. Mas esse aqui, pelo interesse público que tem, por causa de sua causa, merecia. Tomara que alguém o copie e o mande para os e-mails de todos os seus amigos. E que a corrente cresça, cresça, cresça, e chegue à até à presidenta Dilma. Amém.

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Eu acho que as mídias sociais darão certo

Não sei aí onde você está, mas aqui onde eu estou, a moda que pegou – e até já enjoou – é a de colar adesivinhos na parte traseira do carro com desenhos que representam as nossas famílias. Famílias felizes. Tem de um tudo, como diz um amigo meu. Homem de mãos dadas com uma mulher. Rapaz de mão com uma guria. Rapaz com rapaz. Rapaz só. Guria com guria. Pai e mãe com uma ou mais crianças no meio. Casais com tartarugas, peixinhos no aquário, cachorros e gatos. De um tudo.

E sei bem que aí onde você está e aqui onde eu estou que os programas tipo reality show são um grande sucesso. A versão da Record e a da Globo, especialmente. Muita gente dedica grande parte de sua noite de descanso e convívio familiar para verificar a vida do outro. Para ver o que ele diz, como se veste, se tem boas maneiras para comer, se esconde suas partes íntimas ao tomar banho. Mas aquilo tudo não é a vida do outro, não.

É um espelho.

“As pessoas estão cada vez mais interessadas nelas mesmas”, li outro dia em um suplemento de um jornal dedicado aos adolescentes e jovens. Eles, os jovens, aprenderam conosco: Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade (Eclesiastes 1, 2).

Num mundo de alta concorrência, os seres humanos comparam-se, competem entre si. Foi assim desde sempre entre as espécies que já habitaram este planeta. Competição. Quando levada para o bem, transforma-se em colaboração, network, novas tecnologias, evolução da ciência, construção; quando para o mal, vira inveja, destruição. Mas tudo, no fim das contas, é vaidade.

O que reforça a minha tese: um dos ingredientes das mídias sociais é o desejo pela xeretice da privacidade alheia. Foi assim que o Orkut virou um sucesso, há uns bons anos. Com o pretexto de que queríamos encontrar os amigos antigos, a coleguinha do primeiro grau, bisbilhotávamos a vida alheia. Fizemos mais contatos ainda quando o site restringiu algumas informações ao amigo do usuário. Tínhamos um reality show à nossa frente e salivávamos.

(Mas não tem nada de mal, não, a vaidade. Não se culpe. Somos assim. A psicologia deve explicar direitinho porquê. Comparamo-nos o tempo todo. É bem normal.)

Surgiram Facebook e Twitter. Há menos interesse pela privacidade alheia, dirão. Não, direi. A competição segue. Competimos com a melhor informação, com o melhor link, com o melhor vídeo, com a melhor foto, com maior número de seguidores, com a maior quantidade de mentions, de érretês. Não é à toa que a regra número um das atuais mídias sociais é: seja relevante! Volta e meia damos uma olhadinha de canto na biografia do usuário. Queremos saber como se comporta, que cursos fez, onde trabalha, se tem namorado, quem que segue.

Portanto, se você ainda tinha alguma dúvida, eu lhe trago a salvação: as mídias sociais triunfarão. E jornalistas, relações públicas, publicitários, ou outros profissional da comunicação terão mercado para explorar seus potenciais e capacidades técnicas. Estamos diante de um mundo de vaidades, onde a competição pelo melhor conteúdo gera a colaboração entre redes sociais cada vez mais ativas. As plataformas digitais não param de evoluir. Telas mais finas, mais leves. Nossos dedos, cada vez mais úteis.

E o que fazem aqui os profissionais de comunicação? Eles entram nesse jogo para mediá-lo. Para pôr em prática toda capacidade de lidar com o caos, com a dúvida, com o debate, com o controverso. Para transformar a informação que é compartilhada em conhecimento. Para transformar o relacionamento criado em resultado organizacional.

Mais argumento para minha tese de que tudo é vaidade: não é a nova regra do Marketing que consumidores acreditam menos nas empresas do que no seu semelhante? Quero saber o que a minha rede está comprando, experimentando, desembrulhando. Preciso saber. E quero saber se a minha rede gostou, se elogiou, se criticou, se transformou num viral. Um espelho. Olho para a minha rede e me vejo nela.

E por que somos todos especialistas em Facebook, em Twitter? Porque a cada esquina há um novo curso de dois dias sobre mídias sociais? Porque entendemos bem de vaidades. Desde sempre. Porque entendemos bem de redes sociais. Fizemos parte de uma desde que nascemos. Controlamos a nossa vaidade desde que perdemos a inocência própria de criança.

Falando sério. Eu acho mesmo que as mídias sociais darão muito certo aqui.

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