Arquivo do mês: julho 2010

Só por hoje

Há uma camiseta de tecido claro estendida no chão da entrada do salão do Centro de Recuperação Imaculada Conceição, em Gravataí, no Rio Grande do Sul. Ela é pisada por todos os que entram no local, rapazes dependentes químicos, seus monitores e visitantes. Molhada e completamente tomada por uma fina areia marrom, poucos se dão conta da sua presença. Embora ela tivesse sua função, com a umidade e a chuva do último sábado, seria inútil qualquer tentativa de manter o salão seco e limpo. Mas ela permaneceu ali, imunda, durante todo o dia, enquanto rezávamos, partilhávamos experiências de vida e plantávamos esperança no coração de 38 adictos em recuperação.

Já era escuro, meus olhos inchados e embaçados de emoção, quando reparei a primeira vez na tal camiseta, enrolada no piso frio e escorregadio por onde passávamos. Alguns se despediam, prometendo voltar, outros, agradeciam pelo dia e, sem dizer, nos revelavam, pelo brilho do olhar, que aquele era, mais uma vez, o primeiro dia de suas vidas.

A camiseta suja serviu de metáfora do que vivemos no 1º Retiro do Movimento Cenáculo de Maria na CRIC, casa que acolhe cidadãos que desejam limpar seu organismo e libertar sua alma das drogas. Chegam ali como aquela camiseta, tomados pela sujeira da falta de dignidade, desprezados por uma sociedade avessa aos valores cristãos e com quase nenhuma esperança. Muitos deles, conhecendo a pobreza e a dificuldade, fizeram da droga uma tentativa de fuga da realidade. Outros, como o rapaz que nos deu seu depoimento e com quem conversei, ascenderam financeiramente e despencaram ao fundo do poço. Restaram alguns reais para pagar a triagem e cobrir os custos mensais com o Centro. “Tinha uma esposa, um filho, abri um negócio próprio, cheguei a ter 15 funcionários, e perdi tudo”, contou-me. A decisão pela recuperação veio dentro de um motel, enquanto consumia, sozinho, a última quantidade de cocaína que levava nos bolsos. “Olhava para os espelhos e não me via. Tive tudo, mas faltava-me Deus”, concluiu.

A CRIC é apadrinhada pela paróquia Imaculada Conceição, da Igreja Católica, localizada no bairro Rio Branco, em Canoas. O movimento Cenáculo de Maria, da mesma paróquia, do qual participo, foi quem idealizou o retiro. A ligação do Cenáculo com as drogas já contei aqui. Graças a isso, tínhamos também entre nós, no sábado, cenantes que livraram-se da dependência química e hoje visitam a CRIC pra testemunhar que há, sim, dias iluminados fora do túnel do vício. “Eu nunca vi eles tão felizes, cara, nunca. E pra mim, que já estive aqui, então, isso está sendo maravilhoso”, ouvi de um deles.

Durante os nove meses de tratamento na CRIC, os jovens e adultos em recuperação estudam a Bíblia, trabalham na horta, na ordenha dos animais, na manutenção da estrutura e na preparação das refeições. De todas, a tarefa mais exigente, certamente, é olhar pra si próprio. “Acordo todos os dias e tenho que me encarar, admitir que fiz tudo errado e recomeçar”, disse um dos residentes, que já está no Centro pela segunda vez, depois de ter ido embora e recaído na primeira tentativa.

Sempre que tive oportunidade, parabenizei uma daquelas pessoas pela coragem. Não é fácil tomar a decisão de ir até a fazenda. Menos fácil é dizer para si, a cada manhã, só por hoje não vou mais pecar. Porque lá, eles vivem um dia de cada vez. Como nós vivemos, sem nos dar conta. Para emagrecer, para passar no concurso, para construir uma carreira bem-sucedida. Cada uma dessas conquistas, como para largar o vício, requer coragem de viver um dia de cada vez. Mas mais vital do que qualquer objetivo que tenhamos aqui fora, lá na CRIC só o que eles querem é merecer suas vidas de volta. E como querem.

Bem no início do dia que passamos juntos, sentei-me num dos primeiros bancos do salão, depois de uma das primeiras palestras, e ouvi-os cantar junto conosco. Mas não cantei. Porque não pude. Era forte e bonito demais ouvir a voz de cada um deles transformada em uma só, preenchendo o ar daquele salão. “Lágrimas são suor de almas que lutam só. Só Deus pode entender o que lhe causa dor. (…) Pare de se maltratar, não queira os outros culpar e diga: ‘por hoje não. Por hoje eu não vou mais pecar'”, cantavam eles.

Rezarei para que daqui nove meses nenhum deles esteja mais na CRIC. Que estejam reescrevendo a história. Que nasçam de novo nessa segunda gestação. E pelo trabalho que é realizado na CRIC, não serão só cidadãos limpos nossos amigos de sábado. Serão multiplicadores da receita da felicidade revelada por Deus a nós desde os 10 Mandamentos. Felizmente, daqui nove meses, teremos mais gente por aí dizendo que, embora o mundo nos faça chorar, Deus nos quer sorrindo.

***

Fé e ação

Talvez o Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas esteja inaugurando uma nova fase dos movimentos de jovens e adultos da Igreja Católica. Tudo começou no 140º Cenáculo de Maria do Vicariato de Canoas. Já falei dele aqui. A presença de uma dezena de jovens dependentes químicos em recuperação entre nós foi a primeira das bênçãos. A segunda, foi poder perceber como o Cenáculo atuou na ressocialização dessas pessoas. Porque quando saem dos Centros de Recuperação não é de emprego que precisam, não é de comida que precisam, não é de sexo que precisam.

Eles precisam de Deus.

E o Cenáculo de Maria, o grupo de jovens iluminados que se reúne aos sábados à tarde na paróquia Imaculada Conceição, em Canoas, este grupo está fazendo o papel de manter viva a chama da fé em nossos amigos.

Os movimentos de jovens e adultos que conheço são todos muito parecidos. Basicamente, repetem a fórmula de conversão de seu público em retiros de um final de semana. O Cenáculo também é assim. Igualmente, cumprem sua função social e cristã de forma transformadora. Já falei aqui no blog de como o CLJ mudou minha vida.

O Cenáculo parece estar indicando o amadurecimento disso tudo. É preciso avançar para águas mais profundas. Aliar a fé com obras, como esse pessoal do Cenáculo está fazendo, pra mim está sendo uma feliz e renovadora novidade.

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9 Comentários

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Folha em branco

No curso da história
Textos puseram muita gente em espanto
Em mim o drama não é esse
Até quando me assustará uma simples folha em branco?

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Para os que gostam do futebol

Para estes, encantados como eu por este esporte, quero contar-lhes uma tese que tenho. Sim, porque sou treinador de futebol como tantos milhões nesse país e me reservo ao direito de ter uma tese sobre futebol (como já publiquei aqui uma explicando porque o Inter vence Grenais).

Bem, a tese é a seguinte:

Quero explicar aqui porque o futebol, e não o basquete, não o remo, não o ciclismo, é o esporte que pára o mundo quando sua competição mundial acontece. O que leva as pessoas de todo planeta para os estádios, para a frente da tevê ou para o radinho para acompanhar uma partida de futebol? De certo, já é o esporte que mais dinheiro acumula de patrocinadores. Claro que sabem desse nosso facínio. De certo, é o que mais leva gente às suas arenas. De certo é o que mais recebe atenção dos veículos de comunicação. Mas porquê?

E aqui está a minha tese.

Porque o futebol, mais do que qualquer outro esporte – será porque este se joga com os pés? –, o futebol arruína a maior conquista do homem em todos os tempos: a previsibilidade. Com cálculos, o homem mantém de pé prédios com toneladas de concreto, eletrodomésticos e sapatos femininos. Com cálculos, o homem faz uma caixa de lata levantar vôo com algumas centenas de pessoas dentro. E os levar a atravessar o Atlântico. E sabe que hora chegará, a menos que saia do Brasil. O tempo e a temperatura também já podem ser previstos. A morte já pode ser adiada graças à medicina moderna e a evolução do seu entendimento de nosso corpo. Há pouco em nossa vida que já não esteja previsto. Temos horário para acordar, para levantar e dead-line para sair. Temos dias determinados para descansar e período específico para tirar férias de tudo. Temos o mesmo trabalho todos os dias. Se casamos, quero pensar que temos a mesma mulher ou o mesmo homem todos os dias. A previsibilidade criou, já que lembrei do casamento, criou a rotina. E ela, a repetição, é o mal de muita coisa, não é?

Menos do futebol.

O futebol é imprevisível.

No futebol, não se pode reduzir para deixar o colega de equipe, mas adversário de prova, receber a bandeirada em seu lugar. No futebol, nunca o tecido da vestimenta – seja de pele de tubarão ou de outro qualquer fruto do mar – será o que determinará a derrota.

Mas há falcatruas no futebol, dirão.

Dirão que o Ronaldo Fenômeno entregou a Copa de 1998. Que o juiz aquele determinou o campeão do Brasileirão de que ano mesmo? Que o Ricardo Teixeira está escolhendo o técnico mais rentável e não mais competente para dirigir a Seleção. Que o Leandro só joga no Grêmio porque há uma cláusula contratual para que ele jogue.

Dirão barbaridades de toda ordem.

Mesmo se tudo isso tivesse alguma chance de ser verdade, mesmo se todas essas coisas improváveis tivessem nos feito de palhaços, nenhuma delas seria capaz de diminuir no futebol o seu senso de imprevisibilidade, o seu encanto. Nenhuma.

Filme um lance e tente encontrá-lo em algum outro jogo de qualquer outro país. Tu não encontrarás.

Chute saindo do mesmo centímetro de grama, bola voando na mesma velocidade e encontrando a mesma fibra do cordão da rede presa na goleira? Ah, não encontrarás.

Tente negociar com os dirigentes de Gana e Uruguai que o jogo deverá ser assim: aos 15min da prorrogação, haverá um entrevero na pequena área do Uruguai. Soarez tirará o gol com a cabeça e, em seguida, impedirá a bola de entrar com a mão. Escancarado. Já combinamos que o chute deve ser fraco e pra cima. O juiz dará pênalti e expulsará Soarez. Deu trabalho convencê-lo de ficar fora do jogo contra a Holanda. Como sabemos que é a Holanda. Sabemos, oras. Gyan deverá bater o pênalti por Gana. Ele acertará o travessão e não fará o gol, mesmo que a bola volte pro campo – o que não deve acontecer, pelo combinado. O jogo irá pros pênaltis e Gana deverá perder. Disso, eles não sabem – e nem devem saber.

Tente combinar o que quiser, tendo o dinheiro que tiveres. O facínio pelo futebol está em ser jogado com os pés. Está em sua imprevisibilidade.

Esta é a minha tese sobre o futebol. Uma entre tantas milhares de outras por aí. De que o futebol é o nosso ópio porque nos atrai para o mundo do imprevisível. Atrai pessoas simples para um mundo onde o imprevisível pode lhes trazer a alegria e a realização, sentimos estes que já não existem mais na vida lógica que levam. O futebol nos joga para dentro de uma realidade sobre a qual não se tem controle, quando estamos cansados de viver em um mundo regido por padrões de comportamento, por unidades universais de medida do tempo e do espaço, por avançadas técnicas para redução do risco, do inesperado, do imprevisível.

E mesmo que nossos cartolas já tenham seus mais sujos acertos, eu e minha tese apostamos numa final de Copa do Mundo, na África do Sul, completamente imprevisível.

(Atualizado às 20:38 de 11/7)
Parabéns, Espanha!

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Zunido

Pelo zunido que sinto no meu ouvido esquerdo às noites
Alguém deve estar falando mal de mim há dias
Ou será que escreve a minha biografia?
Procurarei meu otorrino
Ou uma livraria.

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Esse passarinho

Com o Twitter, às vezes, perco tempo
Ele atrapalha o meu caminho
Eu passarei
Ele passarinho.

(com sua licença, Quintana.)

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Minha campeã da Copa

Era a Alemanha. Porque ela apresentou nesta Copa, em surpreendente quantidade, o que lhe faltava: a técnica. Jogadores jovens, habilidosos e rápidos. Arrasou a Inglaterra, humilhou a Argentina. E o que ela sempre teve?

Lembro de um casal de amigos q contou sobre a viagem q fez à Alemanha um tempo atrás. Eu pasmo enquanto eles tentavam me convencer que lá, no país de onde vieram os avós dos meus avós maternos, lá as pessoas usavam o trem e depositavam a passagem em dinheiro em uma espécie de roleta sem que ninguém os cobrasse e sem que a roleta os travasse.

É isso que a Alemanha sempre teve: a disciplina. A mesma disciplina que os fez perder hoje.

Posso ver a conversa entre os jogadores e o técnico comedor de meleca no intervalo do jogo:

– Vocês continuarão sem atacar. Aguardarão o contra-ataque, como já mandei que façam – mandou o treinador.
– Mas eles estão marcando nosso contra-ataque… – diria Ozil, respeitosamente.
– Não atacarão.
– O time deles está por todo campo… – tentou Schweinsteiger, olhar vindo de baixo, enquanto era interrompido.
– Não atacarão.
– Eles acabarão fazendo gol… – Cacau tentou em português.
– Não atacarão.
– E se fizerem gol? – ocorreu a Klose.

O juiz apita para o segundo tempo, a Espanha faz o gol e classifica-se para a final pela primeira vez na história.

A Espanha deve ser a campeã. Continuo acreditando na disciplina do polvo alemão.

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