Arquivo do mês: maio 2010

O medo muda pessoas e times de futebol

No futebol, um time pode perder pelo medo ou vencer pelo medo. Mas mesmo vencendo, não terá eliminado o principal: o sentimento do medo.

Eu, por exemplo, conheço gente que vence pelo medo. Gente que, por circunstâncias da vida, gente que, por herança genética, gente que, por padrão familiar, é, assim, que nem o Grêmio. Gente que não leva desaforo pra casa. Gente que estufa o peito sempre que fala, e seja o que for que fala, fala de si mesmo. Gente que se orgulha de ser o que é, que se orgulha muito de qualquer feito que realiza. Gente que, embora não despreze os outros, vive como se vivesse só neste mundo, admirando suas qualidades e dando de ombros pros defeitos que ouviu dizer que possui. É gente forte essa gente. Gente que parece grande, que parece uma fortaleza. Mas que no fundo sente medo.

Você conhece gente assim. Sei que conhece. Gente que parece ser o que não é. É gente que tem sofrimentos por dentro, que têm feridas que ardem no peito. São gente, essa gente, que são assim, donas de si, porque às vezes esse é a única forma de se manter de pé. É gente que não fica na defesa esperando o pior voltar. É gente que, pra vencer a batalha dura de cada dia, está sempre no ataque. É gente que, no fundo, tem medo.

É como o Grêmio.

Mais do que imortal, mais do que proprietário de uma alma castelhana, o Grêmio é hoje um clube no qual habita o medo. Eu já disse aqui porquê o Grêmio perde seus Grenais. Porquê perde a maioria dos Grenais que disputa. O Grêmio não é só um time com baixa auto-estima, é muito mais, é um time com medo. Com medo até de sua própria sombra.

Mas o Grêmio tenta conviver com esse seu medo — ao invés de eliminá-lo. Contratou Silas, um técnico que joga pra frente, estilo próprio dos times ousados. Recebeu o Santos no Olímpico, pelas semifinais da Copa do Brasil e sentiu medo. Tomou logo dois a zero por puro medo. E virou também graças ao medo que sentia e graças a Silas. Sabia que se não fosse logo ao ataque e usasse a qualidade que tem, não precisaria nem voar pra São Paulo jogar o jogo de volta. Foi ao ataque e descobriu que pode jogar: venceu por quatro a três. Deixou o Brasil de boca aberta com o futebol que apresentou. Corajoso, veloz, hábil, agressivo, destrutivo. Assim foi o meu Grêmio naquela noite contra o Santos, no Olímpico. Na Vila, Silas prometeu e cumpriu. O Grêmio fez de sua defesa o ataque mais uma vez. Por quê? Porque estava louco de medo. Fez errado? Não. Talvez essa fosse a única forma mesmo de conter o time paulista. Mas o time que joga pra frente não porque acredita que pode, não porque é até um pouco arrogante de tanto orgulho que tem de si, esse time não vai longe. Na volta pro segundo tempo de zero a zero, o Grêmio desconcentrou, lembrou do medo que sente por qualquer time que o ameaça, lembrou que pensa que é inferior aos demais, e o seu medo agigantou-se. O Grêmio viu a cara feia de seu medo. Levou gol por cobertura, gol driblando o goleiro. Viu dancinha. Três a um e o fim do sonho do título.

Uma semana depois, o Grêmio joga com um Palmeiras em crise, com técnico interino e sem os dois melhores jogadores — Robert e Diego Souza. E perde. Esquece dos jogos que fez contra o Santos quando quis jogar. Esquece de suas capacidades. O Grêmio não é mais um time só com problemas de auto-estima. É também um clube medroso, que não se faz respeitar. Vence o melhor time do país por causa de seu medo, e perde para um Palmeiras fraco e em crise também por medo.

Diferentemente de qualquer outro clube, o Grêmio não devia mais preocupar-se com vitórias ou derrotas. Devia preocupar-se com seu orgulho, sua auto-estima e com o medo que sente em seu íntimo.

É a ferida de ter ido duas vezes à Segunda Divisão? É trauma pela traição de Ronaldinho Gaúcho? É saudades do Felipão? É a inveja de ter um concorrente na mesma cidade que se intitula Campeão de Tudo e tem seu amor próprio inflado por um título mundial na hora certa em que o departamento de Marketing estava pronto para tirar o melhor proveito possível da conquista? Não sei a razão que leva o meu Grêmio ao divã.

Uma pessoa pode escolher viver mascarando e protegendo seus medos por inúmeras circunstâncias da vida, mas um clube de futebol, esse não pode.

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A barriga dos homens e a nossa fé

Na média, todos os homens que conheço perseguem, ao longo de suas vidas, uma solução existencial para ao menos duas coisas, além da morte: para a fé e para suas barrigas. Dentre meus colegas de gênero, não há um de quem nunca tenha escapado um comentário insatisfeito sobre sua a fé – ou sobre seu ceticismo – ou sobre sua barriga – e gorduras abdominais e afins. Não há um.

E o que mais põe à prova nossa hombridade, nossa virilidade, ao lidar com a barriga e com a fé, é a nossa submissão a elas duas. Contra a barriga e contra a fé, somos seres impotentes. E pior: as duas têm a ver com a morte. A primeira pode nos levar mais rápido a ela e a outra, define o que será de nós depois do dia D. E não há nada que se possa fazer de imediato. Funciona como se tivessem vida própria. Alimentam-se por conta própria e seguem ali, desafiando o que nos resta de orgulho.

E, digo-vos, só há uma solução para apascentar tal sofrimento masculino. Só há um caminho para confortar no coração do homem a angústia causada pela fé e pela barriga. Só um. Um só.

***

Era uma tarde de meia temperatura na sala da minha casa, em Canoas. Não lembro bem qual era minha idade. Mas posso dizer que me regozijava na mais prazerosa das idades: a idade sem compromissos. Estudava pela manhã, assistia ao Chaves e aguardava o entardecer para jogar uma bola com os amigos que tinha aula à tarde. Essa era, em linhas gerais, minha rotina estafante da época. Mas tinha algo que já me incomodava: a minha barriga. No que um dia, num belo dia, eu resolvi que poria fim a ninguém mais, ninguém menos, que a eles, meus pneuzinhos brancos. Eles que me acompanharam desde sempre. Companheiros de todas as horas e de todos os banhos. Desde a descoberta dos pelos até o fim da puberdade. Poria fim a eles. Minha barriguinha e seus pneuzinhos companheiros seriam eliminados.

E tratei de buscar alternativas.

O Nescau. Tiraria o Nescau da minha vida. E exercícios? Pensei em correr, em caminhar, em jogar mais bola. De algum lugar surgiu a convicção pelo abdominal.

Acontece que eu tinha um aparelho específico para o movimento e almofadinhas e tals. Mas na tal tarde, não usei nada disso. Preferi ir no seco mesmo, ali, no assoalho da sala de casa. Cinquenta abdominais no primeiro dia. Acho que foi esse o número. Cinquenta. Parei porque nem minha coluna, nem minha barriga aguentavam mais. E fui pro espelho. Tive a impressão de ter visto rastros de gordura esvaindo-se pelo suor do meu abdômen. E fiquei satisfeito. Lembro que fiquei bem satisfeito. Nascia ali um novo Juliano.

Mas no dia seguinte, havia algo que não me deixava esquecer de meu propósito um minuto sequer. A dor que tomou meu corpo quase me imobilizava. E a cada passo que dava, a dor repuxava meus músculos na tentativa de me convencer da bobagem que eu tinha cometido ao me propor a perder a barriga. Ela não valia aquela dor.  Ninguém dá bola pra ela, oras. Ela nem é tão visível assim, afinal. Pode ficar aí mesmo onde está. Não seria eliminada. Barriga? Que barriga? A dor muscular me levou a desfazer os entusiasmados planos do dia anterior.

Assim é com a minha .

Há três semanas, participei do 140º Cenáculo de Maria da Arquidiocese de Porto Alegre. O Cenáculo é um movimento de jovens e adultos da Igreja Católica que prega a espiritualidade de Maria, a mãe de Jesus Cristo, como forma de vivência da fé. Posso dizer que, em 14 anos de caminhada na Igreja, talvez este retiro tenha sido o mais importante de todos. Talvez não o mais bonito, nem o mais marcante. Mas o mais relevante para minha fé.

Uma das razões que me fazem classificar desta forma o 140º Cenáculo foi a participação de meia dúzia de pessoas especiais entre os mais de 70 jovens e adultos que faziam o retiro pela primeira vez. Refiro-me a cidadãos dependentes químicos em recuperação. Tive a sorte de sentar perto de um durante os três dias e poder ouvir as suas histórias. São uns heróis esses homens e mulheres que vencem a droga! “Vou dormir todos os dias agradecendo pelo dia e acordo todos os dias sabendo que terei que matar alguns leões”, ouvi de um deles no sábado seguinte, quando nos reunimos para conversar a respeito do retiro. Um deles nos contou que tinha emprego em uma multinacional, esposa e filhos. Por causa da bebida, perdeu tudo, a ponto de não ter para onde ir. Perdeu tudo. Ficou sem nada. E reergueu-se. E estava lá, do meu lado naquele retiro, sem nenhuma pinta de herói, mas disposto a servir de exemplo de esperança.

Saem do retiro em vantagens esses cinco ou seis homens, cujas vidas foram atropeladas pelas drogas. Porque com a fé e com aqueles que querem perder suas barrigas, o desafio é o mesmo: alguns leões precisam ser mortos a cada dia.

Costumo dizer que retiros são para a fé assim como feriadões do verão são para o trânsito. Infelizmente, não voltaremos a ver alguns daqueles que pegaram a estrada conosco. É inevitável. Embora tomados pela emoção todos confessem o desejo de mudar de vida e passar a valorizá-la de outra forma, muitos serão vencidos pelos leões da semana seguinte na vida real.

E não são poucos os leões. Eu diria que quase todo dia há um novo leão para enfrentarmos. Não preciso elencar aqui tudo o que nos tira do caminho do bem, como a indiferença, a competição e a vaidade, né?

O que esquecemos é que atrás de nossos leões aguardam por nós pessoas como nós. Pessoas que sofrem porque nunca ninguém chegou até elas e apontou para o lado onde a vida é mais colorida, as possibilidades são variadas e a dignidade é possível. Voltei pra casa depois da missa que encerrou nosso encontro de três dias com uma frase de uma canção na cabeça: “tu, pescador de outros lagos, ânsia eterna de homens que esperam”. São eles, os homens que sofrem atrás dos leões que estão nos aguardando! Numa ânsia eterna, numa angústia interminável.

Por que o 140º Cenáculo de Maria foi tão importante? Porque descobri que, como a morte, há outra coisa certa nessa vida: os leões e a angústia dos homens sempre existirão. E estarão sempre à espera de alguém disposto a transmitir a paz.

Retiro de três dias podem nos levar para o céu, mesmo estando na terra. Mas acabam. As lágrimas evaporam. E se não soubermos lidar com essa avalanche de sensações novas dentro do peito, se não soubermos lidar com as dores musculares de quem quis acabar com a barriga no primeiro dia, se não soubermos lidar com tudo isso, se não formos perseverantes, ficaremos pelo caminho.

***

Só há um caminho para a realização da fé e só há um caminho para o fim da barriguinha indesejável: a perseverança. Para o homem que deseja alcançar uma barriga de tanquinho e para o homem que almeja desfrutar de uma fé robusta, que não dorme satisfeita enquanto não alegra alguém, a receita é uma só: perseverar. Matar alguns leões a cada dia. Sem fraquejar, sem deixar-se levar pela rotina da acomodação, do satisfazer-se com o ter, poder e prazer passageiros das coisas fúteis. Como perder a barriga, por exemplo.

É claro que me incluo no meio de vocês, como mais um que precisa aprender a matar seus leões. Três semanas depois do 140º Cenáculo de Maria e alguns anos depois daquela tarde de abdominais, no meu peito ainda mora a angústia pela barriga que não perdi e pela fé cuja chama preciso aprender a manter acesa todos os dias.

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A lucidez do Bento

Eu vejo divindade nos bebês. Especialmente no meu afilhado Bento, que acaba de completar um ano entre a gente. Desde antes do seu nascimento, falei muito do Bento aqui. Mas nunca disse o quanto admiro a sua lucidez, a sua divindade.

E a divindade do Bento me fez entender que quanto mais crescemos, mais precisamos redescobrir a divindade que está escondida dentro de nós. Divindade esta que, para ser bem ecumênico e atingir a todos, pode ser entendida por alegria de viver, entendimento do nosso universo ou coisa que o valha.

Fica observando um bebê com seu pouco mais – ou pouco menos – de um ano de vida. Observa. Todos os seus hábitos, suas reações e manifestações são incompreensíveis pra nós. Como se eles se relacionassem com a vida e com seus elementos essenciais de um jeito particular. Como se vivessem indiferentes aos nossos padrões de existência. Muitos até chamam isso de inocência.

Observa.

Uma colher não é uma colher como são para nós, adultos, as colheres. É mais. É alguma coisa especial, grande, com curvas engraçadas, que brilha e emite sons divertidos quando batida na mesa ou jogada no chão.

Você chama um bebê e ele não atende. Mas quando você o esquece, ele fixa o olhar em você como se você fosse muito diferente dos demais.

Você faz as suas palhaçadas, tapa e destapa o rosto, planta bananeira e nada detém a atenção do bebê. Mas quando a mãe ou a avó batem palma bem de longe, lá de longe, seu sorriso se enche de gengivas.

A mamãe quer dar-lhe de comer e ele recusa. Recusa porque viu algo de novo em algum lugar da varanda. Algo que merece toda sua energia naquele momento. Ele age como se cada momento fosse nunca mais voltar. Sábio ele, hem?

Sem os nossos vícios de adultos, os bebês gargalham e apontam para os passarinhos. Espantam-se e balbuciam sons sem sentido. Contemplam as flores por meses e meses até crescerem, receberem nossa influência e passarem a preferir os shopping centers e os smartphones. Sem a nossa desconfiança, os pequenos admiram-se com um conjunto de lápis de cor e saem rabiscando formas que fingimos que entendemos – como num teste de psicotécnico – só para recompensar a sua dedicação.

São divinos esses bebês porque enxergam a vida com a lucidez que nós já perdemos. És divino, Bento.

Quando olho pro meu afilhado e faço sinal de positivo, ele só me olha. Enquanto eu espero a repetição do mesmo gesto que consiste em cerrar o punho e esticar o polegar. Ele só me olha. Como se me admirasse.

A vida é duma simplicidade pros bebês! E não será esta a mesma vida que vivemos nós?

Adultos retiram Deus de suas vidas e ficam cegos para as graças que o mundo nos apresenta a cada repetição ímpar do nascer do sol. Adultos preenchem suas horas com coisas quaisquer e nunca têm tempo para o que admitem ser essencial. Adultos são gente estranha procurando entender a dinâmica cerebral dos bebês. Dos bebês e da sua divindade.

Atrás das portas aqui em casa há uma bolinha de borracha presa no chão. Sua função é evitar que a macaneta da porta bata na parede quando aberta repentinamente. Todos os finais de semana, Bento tenta tirar a tal bolinha dali para brincar e não consegue. E não entende. Por que a bolinha não pode vir brincar comigo? Por que, meu Deus?

Quando Bento me ver fazer um sinal de positivo e me devolver o mesmo gesto, vou passar a entendê-lo melhor. Quando Bento entender a razão pela qual aquela bolinha cinza e suja está presa ao chão, Bento terá crescido. Bento será mais previsível, mas menos divino, menos lúcido. Bento será só mais um de nós, crescendo para tornar-se cada vez mais só mais um de nós. Um esclerosado.

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