Porque o Inter vence os Grenais

Posso ver o aparelho nos dentes do Luiz Fernando reluzir. Faz uma década e meia já. Eu jogava na escolhinha de futebol do Inter (sim, do Inter) e naquela tarde fomos treinar no Gigantinho por causa da chuva. Batemos bola na quadra e também em volta dela. Até na arquibancada tinha gente fazendo os exercícios com bola que o professor havia recomendado. No final, fomos todos reunidos num lugar sem luz elétrica, com pedaços de claridade no chão e nas mobílias, refletidos pelas frestas das basculantes. O aparelho dental do Luiz reluzia com o reflexo do sol do fim de tarde. Eu podia imaginar o quanto aquele momento representava pros outros guris pelo silêncio que eles faziam. Nem no saco de bola eles ousavam tocar. Tudo o que mais gostavam de fazer ficara em segundo plano. O mais importante era o anúncio que o professor faria. Da lista do semestre com atletas que comporiam a seleção do Inter. A convocação pra seleção era o momento mais grandioso. Nem o gol de virada no final do jogo-treino, nem o título de goleador do campeonato interno, nem o elogio do pai que assistia da arquibancada. Nem. A convocação para a seleção era o que havia de mais aguardado. Ela separava os fora de série dos medianos e medíocres. Premiava os talentosos e colocava os esforçados à margem. Mas tinha uma característica, uma só, que me diferenciava do Luiz Fernando mais do que todas as outras, e que seria decisiva para que o seu nome composto, com seus dois sobrenomes e mais o Júnior do final fossem sonoramente pronunciados naquela tarde: a auto-estima. O Luiz era um cara que acreditava em si, e que jogava bem também por causa disso. Jogava com as mãos na cintura, ora arrumando as meias, ora dando um grito de ordem aos companheiros. Posso vê-lo fazendo isso. Chamavam-no de Dunga. E com razão. Era mais que um guri que tratava bem a bola, o Luiz era um líder dentro de campo.  As coisas aconteciam ao natural para o Luiz. O chute com direção, o lançamento à distância, a roubada de bola sem falta, o gol e a convocação para a seleção da escolhinha. Eu? Eu era só um mediano, que sequer acreditava que podia se sair melhor. O Luiz não era um craque. Chamavam-no de Dunga, ora. O Luiz tinha auto-estima. Foi pra seleção, mudou de horários e eu perdi minha carona para sempre.

O que faz o Inter ganhar os Grenais não é nada mais do que a sua tremenda auto-estima. Méritos para Fernando Carvalho, o atual vice-presidente de futebol, e presidente do Inter quando o clube sagrou-se Campeão de Tudo. Isso, de Tudo. Em 2006, ganhou a Libertadores e o Mundial da Fifa. Em 2007, a Recopa e, em 2008, a Copa Sulamericana. Por causa da sequência de títulos importantes — e internacionais — botou o departamento de Marketing a trabalhar até que cunharam o tal predicado Campeão de Tudo. Não ganharam duas Libertadores como o Grêmio, nem quatro Copas do Brasil. Nem têm a maior torcida do Rio Grande do Sul, nem o título intercontinental mais antigo. Mas o título da Sulamericana, a desprezível Copa Conmebol no passado, credenciou seus publicitários a criarem o invejável Campeão de Tudo. Qual torcedor não quer torcer para um Campeão de Tudo? Quem, em sua rotina de trabalho duro não se sentiria, no fim da tarde, radinho na mão, o mais orgulhoso dos torcedores se o seu time fosse um Campeão de Tudo? Quem?

Voltando ainda à época do título mundial do Inter, lembro de um jantar promovido pela direção com motivos nipônicos. Nossa, o tal jantar foi o assunto por onde se andava. Pude ver fotos e fiquei impressionado. Há poucos dias, o mesmo Campeão de Tudo lotou o seu Beira-Rio para comemorar o centenário do clube. Trouxeram Ivete Sangalo e Zeca Pagodinho. Soube de gremistas que venceram o orgulho e deram o braço a torcer: os caras sabem fazer festa. Foi o que disseram. Eu disse o mesmo.

O que fez o Grêmio com seu título mundial em 1983 a não ser andar aos choros em um caminhão de bombeiros e dar entrevista no Jornal do Almoço (se é que foram)? O que fez o Grêmio ao vencer pela segunda vez a Libertadores a não ser barganhar junto a alguma Secretaria Municipal a autorização de pintar os cordões da calçada de parte de Porto Alegre de azul, preto e branco? O que fez o Grêmio de seu centenário, há setes anos, a não ser produzir camisetas comemorativas e adesivos que foram parar nos carros e nos cadernos de capa dura?

Se eu quisesse tentar justificar os erros administrativos do Grêmio, poderia dizer, com razão, que o Internacional foi campeão do título máximo do futebol mundial na hora certa. O Ronaldinho Gaúcho já começava seu declínio e o marketing esportivo começava a crescer. O Inter soube aproveitar o seu momento. E enriqueceu. Mas o Grêmio, com toda sua grandiosidade, foi um medíocre.

Cheguei a ter compaixão do Inter da década de noventa. Não ganhavam nada, coitados. Não queriam acordar das noites em que lembravam do célebre Célio Silva chutando grama e bola no meio do gol pra levantar a taça de campeão da Copa do Brasil de 1993. Figueroa e Falcão já realizavam testes na UFRGS para serem congelados. Ortiz, craque do futsal, era o único ídolo da massa colorada. Mas isso foi antes de serem Campeões de Tudo. O Inter hoje é um clube revigorado, camiseta branca de gola vê, barba por fazer, sarado e dono de si. É um clube invejável, com recursos, com jogadores que não erram passes, que fazem gol no Victor, que dão janelinhas, com centro-médios que batem e não levam cartão amarelo, com pontas de lança que vencem na corrida até zagueiros de seleção e que dão passe com a nuca. O Inter encontra no interior de qualquer estado brasileiro um centroavante que não erra gol e que é vendido em alguma janela por milhões em meses. O Inter aplica dois 8 a 1, dois anos seguidos, nas finais de um campeonato. O Inter é tudo isso e muito mais: é um time que ganha Grenais. Que amedronta seu único rival e seus torcedores só de entrar em campo. É admirado pelos árbitros, pelos cronistas e pelos narradores radiofônicos. Os gritos da torcida viram música e vão parar em CDs. O Internacional não é um clube invencível, mas — mas! — é um clube com auto-estima. Como era o meu amigo Luiz Fernando.

O Grêmio perde seus Grenais simplesmente porque admira a vaidade de seu adversário e duvida de sua própria capacidade. O Grêmio é um clube submisso, que deixou de ser Campeão Brasileiro em 2008 porque achou que não merecia. Virou um clube humilde o meu Grêmio. Não será São Francisco de Assis o padroeiro daquela capelinha que puseram lá no Olímpico para os gremistas orarem e pedirem perdão por suas vitórias e goleadas pecaminosas?

E ainda dizem que os treinadores é que não têm a cara do Grêmio. Convenhamos. Desde que Dinho e Felipão foram embora e o Inter virou Campeão de Tudo, é o Grêmio que não tem mais a cara do clube pelo qual me apaixonei. O Grêmio não precisa de treinadores com seu semblante, nem um Dinho à frente da zaga, como ouvi desculparem-se pelo último Grenal perdido. O Grêmio, o meu Grêmio, precisa é de um terapeuta. E este terapeuta pode ser a conquista de um título. Que seja o Gauchão. E em cima do Inter e de toda sua auto-estima dos infernos. O Grêmio precisa de algo bem forte, com uma pedra de gelo, que o tire dessa crise de identidade, dessa frouxidão, que o recoloque de pé e orgulhoso de sua história e de seus seguidores. O Grêmio precisa de algo que resgate a sua poderosa auto-estima.

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14 Comentários

Arquivado em Futebol

14 Respostas para “Porque o Inter vence os Grenais

  1. marcinho

    AEE, Júlio, baita texto. Muito bom mesmo. esse texto tinha que chegar até a direção do gremio, para ver se eles tomam alguma atitude. abração

  2. Marla Gass

    Ai, Ju, é bem isso.
    E acrescento: eu queria um Fernando Carvalho gremista. Um cara com visão, com estratégia, atuando com consciência de onde quer chegar e o que fazer para isso.
    Talvez, com um desses, recuperássemos a autoestima tricolor.

  3. Jo

    Verdade, o gremio não é mais o mesmo.

    E falo isso como colorado.

    A autoestima do gremio ficou tão afetada, que fizeram toda aquela festa em 2005 para um título de segunda divisão.

    Foi impressionante o jogo contra o Náutico, é verdade, mas ganhar a segunda divisão era a obrigação do time que já fora denominado de “imortal”, era uma coisa para fazer e esquecer, sair do limbo que é a série B e ponto.

    Mas o tricolor preferiu na época dizer que era melhor ganhar a segunda do que ser vice na primeira. E o que o Inter fez no ano seguinte, sendo vice na primeira (nem vou comentar o STJD que tirou o título do colorado): foi campeão da América e do Mundo.

    Em 2007 o grêmio tirou forças do além e chegou até a final da libertadores. Mas com aquele time seria a maior injustiça do mundo ser campeão contra o Boca de Palacios e Riquelme.

    O marketing do Inter tem sido premiado, até. E o gremio não tem se ajudado.

    As promessas de uma arena na zona norte, que seria o estádio para a Copa, mas há anos está só na maquete, também ajuda a dividir a torcida e minar a autoestima.

    A real é que as recentes administrações do gremio tem sido muito boas. Mas para nós, colorados. 🙂

  4. Concordo em parte com o texto. Nos anos 90, o Inter teve time melhor que o Gremio em alguns momentos. Mas na hora do jogo, pipocava e, quase invariavelmente, perdia.

    Mas agora faz tempo que o Gremio não tem time melhor. E o Inter pegou um pouco o jeito de jogar fazendo guerra. E quando os dois times brigam pela bola com a mesma vontade, normalmente vence quem tem mais qualidade.

    Outra coisa… somente ganhar o gauchão não melhora auto-estima de ninguém. As finais do gauchão serão em meio a Libertadores. E o Inter vai com o time reserva, possivelmente.

    Ahh… e em 2006, éramos favoritos e perdemoso o gauchão. A auto-estima do gremio não melhorou. E o Abel parou de inventar e fomos campeões da Libertadores. 🙂

  5. Gustavo Braatz

    Simplesmente fantástico. Melhor do que qualquer crônica esportiva que eu já li. Genial! Manda pro David Coimbra que isso sai fácil na Zero. Abraço, cara!!!

  6. Adri Corrêa

    Muito bom querido Juliano. Ótimo raciocínio. Parabéns mesmo! Vou tentar ser imparcial neste comentário, como tu fostes no teu texto!
    Concordo com quase tudo que tu escreveu, mas tenho que descordar da parte que afirmastes que o Grêmio é humilde. Acho que, justamente, é humildade que falta ao Grêmio, que – como tu mesmo exemplificou ao dizer que tinha pena do Inter -, sempre humilhou o Inter quando nunca havia sido campeão “mundial”, nem havia conqueistado a Libertadores.
    Nós convivemos com essa humilhação por anos. Mas, no momento certo, aconteceu tudo aquilo que descrevestes com maestria, talvez até melhor que eu – colorada vermelha- o faria! Acontece que o humilhado Inter superou o seu rival sendo campeão de TUDO e, nem assim, o Grêmio – fora uma minoria de gremistas coesos como tu – admite isso. Gremistas continuam achando-se melhores que o colorados, pois “acham” que gauchão, conmebol e sulamericana não são campeonatos dignos de seu Clube “Imortal” disputar ou ganhar. Enquanto o Grêmio não perder esta arrogância e ganhar humilde ficará difícil o recomeço para o clube. Espero, siceramente, que o Grêmio tenha esta maturidade, para o bem do futebol gaúcho! claro, sem superar o Inter né!!! Hehehe!! Mas que continue honrando o futebol gaúcho que, sem dúvida, deve muito ao Tricolor!

  7. Ana Paula

    Que coragem, hein, mano? Acho que até os colorados concordam…vou mostrar para o Luís! Não entendo de futebol, mas estando de fora percebe-se que o marketing do Inter é o grande campeão de TUDO.

  8. celso

    Juliano:

    Tens razão.
    Somente uma direção lúcida e corajosa poderá mudar esse quadro triste.
    Abraço.

    Celso.

  9. Ótimo texto! Concordo em grande parte no que você falou, acho que um caneco poderia ajudar muito o grêmio, não basta apenas fazer um trabalho bom tem que ser conquistado algo(como um título) para que aí sim possa ganhar um empurrão ao sucesso. Como colorado espero que isso demore a acontecer, afinal uma hora acontece.

    * campeão da copa do brasil de 1992.

    Abraços, saudações coloradas

  10. Pingback: O medo muda pessoas e times de futebol « Uzina

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  12. Estou lendo o teu texto um ano e dois meses depois, e parece que nada mudou.

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