Arquivo do mês: dezembro 2009

Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

Mário Quintana

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Devemos nosso Natal às toalhas de banho

As pessoas vivem nesse mundo movidas pelas teses que criam para si mesmas. Sobre a cerveja preferida, sobre loiras e morenas, sobre o juízo que os outros fazem de nós, sobre a existência de Deus e a inexistência do Papai-noel, sobre o caro e o barato, sobre as razões que impedem nossos sonhos de se concretizarem, sobre o valor do voto em branco, sobre o tamanho das torcida da dupla Grenal, sobre tudo. Para tudo, cria-se teses. E é a crença reta nas teses que criamos para nós mesmos é que nos traz mais ou menos paz.

Acabei de formular mais uma tese pra mim. Sabem qual é? A que afirma que as toalhas de banho com extensas bordas de tecido decorativo são as causadoras de todo o mal capitalista e da infelicidade humana.

E minha tese dirige-se especialmente ao Natal.

Querem ver uma coisa? Olhem bem pro Natal, mas olhem nos olhos, e me digam qual é o seu verdadeiro sentido. Me digam. É uma data cristã, que referencia o nascimento do mais importante de seus homens, Jesus Cristo, e que significa para nós, homens e mulheres, um tempo de renascimento. De reflexão, de fechar-se para balanço. Basicamente, isso. A troca de presentes serve para tornar concreta a intenção de fortificar os laços de afeto entre as pessoas, por isso elas os usam, os presentes, como sinal da amizade, do amor ou até da reconciliação.

Isso, pra quem não sabe, deveria ser o Natal.

Mas e o que é o Natal hoje? Nada. Ele é a borda de 20cm de tecido decorativo localizada na extremidade da toalha de banho. É um nada. Ele é pior do que o nada. Porque o tecido decorativo ou o crochê da toalha de banho não só deixam de secar, como espalham a água pelo corpo. Assim, é o Natal. Decorativo e completamente inútil. “Por mim, podíamos pular o Natal e ir direto pro réveillon.” Ouvi isso dia desses lá no trabalho. Ah, por mim, do jeito que está, também podia. Riscar o 25 do calendário. Porque as pessoas correm, correm e correm no mês mais curto e mais cheio do ano, geralmente para comprar um bem que vale muito menos do que pagam por ele, e presentear sem ao menos olhar nos olhos. E amigos secretos com listas de presente, então? Artificialismo puro. E as tais tradições da mesa, o que são? Quem explica a necessidade quase existencial de servir muito mais do que se pode comer, entre perus, panetones, compotas com creme de leite, salgados e guloseimas especiais?

Nosso Natal virou um nada, recheado com um grande vazio. É isso que ele virou.

Quando tudo não é ainda pior. Porque é nessa época de festas de fim de ano, quando celebramos o nada, que os assaltos a estabelecimentos comerciais aumentam. Trabalho num deles e sei disso. No fundo, bem no fundo, a gente sabe porquê esses assaltos aumentam, né? Porque há milhares que também gostariam de participar conosco dessa gastança e não podem. Por isso, roubam e até matam. Para saciar sua própria fome e a fome dos seus? Nesses dias do ano, não. Cometem toda sorte de delitos como se gritassem, como se suplicassem a nós para que os deixemos participar da celebração do nada.

Por isso, abaixo às toalhas de banho com seus 20cm de tecido decorativo! Sumam com elas de nosso meio! Porque, não secando nossos corpos e cabelos molhados, elas só nos fazem lembrar que há, entre nós, a cultura do inútil, do vazio e das celebrações sem sentido algum.

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O Prendedolho e o Bento

Olá, meu nome, como vocês já desconfiam, é esse troço esquisito: Prendedolho. Chamam-me assim porque, além de ter nascido um simples prendedor de roupas de madeira, eu desenvolvi uma capacidade que me difere dos outros. Digo pra vocês, e sei que posso causar espanto a um ou outro, mas eu posso ver. Isso, enxergar. Distinguir entre um objeto e outro, entre uma pessoa e outra. Taí a razão do meu nome. Prendedolho. E estou aqui, contando essa história pra vocês, porque há exatamente um mês minha vida mudou.

Tinha uma rotina era de um prendedor de roupas qualquer. Tenho até hoje como habitat natural uma grade, em formato de elos de corrente, que decora uma estreita janela ao lado da porta de uma cozinha. Em Canoas. Vivo aqui desde sempre. E gosto bastante deste lugar. Percebo que sou útil, sabe? E como é bom sentir-se útil… A dona Ema, avó do Bento, aquele do título ali de cima, é quem mais convive comigo. Isso, claro, até o seu neto nascer, desenvolver-se e chegar ao sétimo mês. Coisa que contarei a vocês com mais detalhes daqui a pouco. Bom, sou útil para a Dona Ema porque volta e meia ela precisa de um prendedor de roupas para prender roupas no varal (óbvio!) ou para funções um pouco mais nobres. Posso dizer, com orgulho, que já atuei como prendedor para pacotes de biscoito, para pacotes de erva-mate e até – morram de inveja! – para decorar a cozinha da dona Ema. Verdade. Uma vez ela pôs em mim umas bonitas flores de biscuit e eu tornei-me uma espécie de bibelô da dona Ema. Ela pendurava-me a um bonito pano de prato, com bordas de crochê, em cima da pia da cozinha. Mas foi só uma fase. Depois, voltei ao anonimato da minha grade preferida. Volta e meia, pegavam-me de novo para evitar que o ar entrasse dentro dos pacotes de biscoito ou de erva-mate. No caso do biscoito, o ar o amolece, e no da erva-mate, pelo fato de ela ser muito leve, ela pode voar se a embalagem ficar aberta. Sempre culpa do ar. Quando eu ocupo o meu posto mais tradicional também o faço para evitar que o ar, neste caso mais conhecido como vento, impeça as roupas de cair. Já aconteceu uma vez. Um irmão meu quebrou e o vento jogou uma calça jeans na grama. Tinha chovido e aquela calça, além de não secar, teve de ser lavada de novo. Quando isso acontece, pra nós prendedores, é o pior dos mundos. É como se fracassássemos, sabe? E como vocês, humanos, temos dificuldade de lidar com o fracasso.

Coisa que o Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, começou a exercitar neste sétimo mês. Deixem-me falar pra vocês sobre o Bento e sobre minha relação com esse piá. Falando nisso, ele completa oito meses hoje, 15/12, viram? Bom, essa bela criança, de pernas e braços brancos e compridos, me descobriu dia desses. Estava ele no colo da dona Ema, a dona Ema de pé, quando eu o vi me mirando. Tentei desviar o olhar, fazendo que não era comigo, mas foi em vão. Ele me olhou reto, começou a fazer biquinho com a boca, esticou o braço em minha direção e começou a balançá-lo. Braços e pernas em grande entusiasmo. Fiquei apreensivo, quase assustado. Embora estejamos sempre em contato com mãos humanas, eu fiquei amedrontado com aquela pequena pessoa que olhava pra mim de um jeito estranho e fazia gestos como se quisesse me fazer algum mal. Só mais tarde descobri que não era pra tanto. Acabei descobrindo que pessoas como vocês, quando estão nessa idade, com seis ou sete meses, precisam pegar com as mãos todo tipo de coisa e, mais: levá-las ate à boca. Foi isso que o Bento passou a fazer comigo todos os dias que vinha visitar sua avó, a dona Ema, aqui em Canoas. Todos os dias. Ele entrava na cozinha e vinha direto me pegar. Era até divertido, sabem? Ele me pegava, olhava pra mim, me balançava um pouco e logo me colocava em sua boca molhada. E ficava ali, me melecando todo com sua saliva.

Até que o tempo passou, o Bento cresceu e não contentou-se em pegar-me e levar-me ao encontro de sua língua. Foi desse dia em diante que descobri que havia algo de ruim em poder ver. Digo pra vocês que desenvolvi medo de altura. Pode? Eu que sempre vivi no alto de um varal com medo de altura! Mas foi isso. Culpa do Bento. Essa criaturinha sem noção. Tá bom, eu sei que ele não tem culpa. Mas e eu? Como eu fico? E a acrofobia?

Meu drama começou quando o Bento completou sete meses. Naquele dia, o Bento pegou-me, como sempre, mostrou-me o seu biquinho, como sempre, e levou-me à sua boca. Tudo como sempre. Até que o Bento descobriu que podia fazer mais do que isso. E me usou. Descobriu que o Prendedolhozinho aqui podia ser ainda mais divertido. Perguntem se ele me consultou, perguntem! Que nada. Sabem o que ele passou a fazer desde lá? O Bento e os seus perversos dedinhos de unhas minúsculas passaram a soltar-me do alto do colo de sua avó. Sem dó, sem piedade, sem o mínimo de noção do perigo. E seu eu me quebrar todo? E se o ferro que sustenta meu corpo e garante minha profissão se soltar? Mas, não. Ninguém se preocupa comigo. Querem mesmo é ver o tal Bentinho se divertindo às minhas custas. É só o querem. Humanos.

Já estou acabando meu desabafo. Sabem o que mais eu ouvi esses dias? Sabe qual foi a desculpa que eles estão dando para esse mais recente passatempo do Bento? Que faz parte do desenvolvimento da criança a capacidade de pegar e soltar as coisas. De lidar com a perda, com o fracasso. Que ele precisa realizar a experiência de causa e efeito. Que mesmo quando um objeto está longe do seu campo de visão, continua existindo e pode voltar às suas mãos. Ora, façam-me o favor! E não podia ser de uma distância menor? Não podia ser em cima daquele seu cobertor fofo? E não podia ser com um daqueles seus brinquedos coloridinhos, de plástico? Não podia?

Este é o último parágrafo. Sim, já estou mais calmo. E quero que o senhor, seu Bento, quando puderes ler isso, que o senhor me valorize. Que valorizes o que eu representei para ti. Quero que saibas que o Prendedolho aqui não foi um prendedor de roupas qualquer. Que participei do teu desenvolvimento como criança. Que fui útil para a articulação dos teus dedinhos, para o amadurecimento da tua fase oral e, mais importante, para a tua noção de desapego. Foi importante tu perceberes que já podias viver sem mim. Sem o Prendedolho querido aqui. E isso, seu Bento, pelo que eu observo desse monte de gente grande, tu terás que fazer muitas vezes ainda na tua vida aqui neste mundo. Ter a capacidade de valorizar a si mesmo e poder despreender-se das coisas e dos objetos será fundamental para a tua evolução. Sem medo da perda ou da derrota. E daí não só como ser humano que nasce, cresce e aprende a caminhar. Mas como uma pessoa mesmo. Que passará a valorizar-se pelo que é e não pelo que possui. Que passará a valorizar o mundo e as pessoas como são e não pelo que têm.

Se cuidarem bem de mim, maneirando nas alturas, eu continuarei aqui. No alto dessa grade, disponível para você e para os demais. Para secar as roupas, para combater as frestas. Eu, o mais especial dos prendedores de roupa que vocês já conheceram.

Abraço forte, Prendedolho.

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A sabedoria do chimarrão

O Vini, o cara que cuida das questões sociais lá da firma, é um baita cara. Sobretudo pelo que ele me ensinou sobre o chimarrão.

Mas antes do chimarrão, quero falar pra vocês sobre velas.

Velas sempre mereceram reflexão da minha parte. Porque a vela, enquanto ela pratica o seu único e essencial ofício, o de iluminar os outros, ela se consome. Não há outro jeito. A cera que a sustenta de pé, que sustenta sua envergadura imponente, que sustenta no seu íntimo o pavil, precisa ser eliminada, enquanto seu cordão interno produz claridade. E não é uma escolha. Faz parte da sua trajetória conosco aqui na terra. A vela morre um pouco a cada instante em que concede, gratuitamente, sua luz. Esta é sua sina.

E poucos sabem que o chimarrão, esta tradicional bebida gaúcha, também precisa morrer um pouco, como a vela, para manter seus convivas felizes. Eu não sabia disso. Poucos sabem. O Vini é um deles.

O Vini é o fazedor oficial de chimarrão lá na nossa área. De origem italiana, ele traz do interior do Rio Grande o costume de preparar o mate bem cedo. E o mate do Vini só ganha elogios. Sabem porquê?

Eu conto porquê.

Porque cada vez que o Vini derrama a água quente da garrafa térmica para dentro da cuia, esta mesma água, antes de repousar no fundo do porongo, leva consigo um pouco da erva-mate. Fica mais forte. Com mais gosto da erva. Para manter o seu amargor, portanto, o chimarrão precisa doar um pouco de si. Necessita morrer um pouco a cada vez. Esta é sua sina.

Esta é a nossa sina.

Vivi pouco ainda. Mas o suficiente para compreender que este também é o nosso fado. O gaúcho e os outros seres humanos, para contribuirem com a paz de seu mundo, para a felicidade dos seus, para darem sentido às suas vidas, precisam morrer um pouco a cada dia, a serviço do outro. Como a vela e como o chimarrão.

Mas diferentemente da vela e do chimarrão, o gaúcho e os demais seres humanos podem escolher se querem preservar suas vidas ou se querem perdê-las. Talvez saibam que quem a preservar, irá perdê-la, e quem a gastar em favor do outro, irá ganhá-la. Talvez saibam. Mas diferentemente da vela e do chimarrão, por poderem escolher, não escolham isso. São livres, ora.

Se a vela não derrete sua cera, é incapaz de iluminar. Claro, concordo, serve como enfeite também. Se o chimarrão não leva consigo a erva, dura uma manhã ou uma tarde inteira, mas perde seu amargor.

Não é possível viver sem deixar um pouco de si. Mas viver de verdade. Se morremos, vivendo para nós, não levamos nada e não deixamos nada. Passamos sem existir.

Diferente da semente, a mais fundamental de todas as formas de vida. Essa é para os que não precisam de uma vela e não tomam chimarrão. Mas conhecem as sementes. Se a semente não morre, se ela não doa sua singular existência, não pode brotar, não pode produzir seus frutos.

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