Jornalistas são moscas enxeridas

Imagina quantas vezes nessa vida tu pretendeste ser uma mosquinha para poder ver alguma cena privada ou escutar alguma conversa alheia?

Imagina quantas vezes.

Há uns meses, participei do 12º Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, em São Paulo, promovido pela Mega Brasil. Faz tempo que queria contar isso aqui. O evento se diz o maior da América Latina a discutir o tema. Das grandes palestras e painéis simultâneos participaram cerca de 700 profissionais de muitos Estados brasileiros. Cada um com sua necessidade e curiosidade específica e todos com uma angústia parecida inquietando a já inconstante rotina de comunicador: como decifrar o novo mundo das redes sociais a ponto de estar apto para lidar com ela?

“Saio traumatizado desse evento”, confessou João José Forni, experiente jornalista gaúcho e especialista em gestão de crises de reputação empresarial. “Depois do primeiro painel sobre mídia social, eu sai correndo para me cadastrar no Twitter”, completou, arrancando risadas da empática platéia que o ouvia na palestra que encerrou o evento.

Claro que também discutimos sustentabilidade, relacionamento com a Imprensa, mensuração de resultados. Mas nada foi tão repetido e despertou tanto a nossa atenção como tema das redes sociais. Este fenômeno não tão recente, conhecido pelos seus aplicativos Orkut, Twitter, WordPress, Myspace, Facebook, dá ao consumidor de informação um poder de influência no mundo real nunca antes visto. Rupert Murdoch, o megaempresário da mídia, com mais de 800 empresas administradas em cerca de 50 países, diz que algo parecido só aconteceu com a informação há cerca de 500 anos, quando o primeiro jornal foi impresso. Naquele tempo, o cidadão misturado às multidões teria tomado o controle e ditado o rumo do jornalismo de massas, o qual conhecemos hoje. Ou conhecíamos ontem.

O que tá pegando é que nem mesmo os especialistas em mídia conseguem precisar o impacto que o YouTube e o Facebook vão causar nas nossas vidas. E nas dos brasileiros, especialmente. Isso porque já há mais brasileiros se informando na internet do que em frente à televisão, sabiam? E que o Google transferiu a administração do Orkut dos Estados Unidos para o interior de Minas Gerais por conta da liderança que exercemos neste site de relacionamentos, sabiam? E que em tempo de permanência no Twitter o Brasil já foi para o topo também, vocês sabiam? E mais: do tempo que um brasileiro passa na web, 34,5% é dedicado à rede social. Sabiam? Há muito mais coisa que ainda não sabemos. E a velocidade com que seremos surpreendidos me assusta.

Quantas vezes mesmo você já pretendeu ser a tal mosquinha para bisbilhotar as coisas do outro?

Pois então seja a tal mosca.

Porque a mídia social tratou de bater um raio x das relações interpessoais, que antes aconteciam na privacidade da comunidade real, de modo que podemos, como um inseto, partilhar e assistir em vídeo, texto ou áudio as confissões de alguém ou de um grupo. “Há uma mudança filosófica em curso: confesso, logo existo”, analisou um dos palestrantes do encontro.

Concordo com quem está pensando que tudo isso não é tão novo assim. Concordo. O que é novo é o tamanho dessa confusão. Em 1997, Alex Primo (reconhecido pesquisador de comunicação e informação na UFRGS) citou Jean Baudrillard e sua obra “Tela total: Mito-ironias da era do virtual e da imagem”, e reproduziu um pensamento seu que dizia “hoje, não pensamos o virtual; somos pensados pelo virtual. Essa transparência inapreensível, que nos separa definitivamente do real, nos é tão ininteligível quanto pode ser para a mosca o vidro contra o qual se bate sem compreender o que a separa do mundo exterior. Ela não pode nem sequer imaginar o que põe fim ao seu espaço”. A publicação de Primo, intitulada “A emergência das comunidades virtuais”, tem, portanto, 12 anos. Época em que o havia de mais revolucionário era o chat.

Aprendemos a escrever um lead. Sabemos que a criação de bons jornais populares no Brasil é significado de prosperidade. Já somos premiados e reconhecidos no exterior pela qualidade e profundidade de nossas reportagens. Exibimos telejornais de alta qualidade – técnica, no mínino. Mas há mais de uma década nós, jornalistas, como moscas enxeridas, batemos cabeça ao procurar entender as mídias sociais e nos aproveitar delas.

Os jornalistas não sabem o que fazer com o Twitter, não sabem se relacionar com o Orkut. Os assessores de Imprensa, menos. Os departamentos de relacionamento com o cliente, tampouco. Bibliografias, teses, dissertações, seminários, workshops e encontros como o que participei, já arriscam fórmulas do tipo “passo-a-passo”. Listam benefícios que a rede social nos traz, assim como riscos e perigos iminentes. Já é um avanço.

Com menos ou com mais pressa, quem é jornalista precisará saber lidar com este novo meio.

Porque ainda não sabe.

Ou sabe?

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