Arquivo do mês: julho 2009

Bento é bento

Bento, já bento

Bento, já bento

Quase podia ouvir as paredes e o chão da igreja trincarem naquela manhã fria de 29 junho, na paróquia Santa Flora, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Eu já tinha decidido que sairia dali para movimentar meus músculos endurecidos e colocar uma barrinha de cereal no meu estômago oco. Já tinha decidido por isso. Não sabia o quanto mais podia aguentar. A voz daquele leigo à minha frente já soava sem sentindo tanto era o frio que eu sentia. Ele dizia palavras sem nexo e eu podia ver minhas mãos gelarem.

O Bento estava em paz, ora no colo da avó, ora no colo da mãe. Adormecia, aquecido por uma angelical roupa de tricô branca, preparada exatamente para esta ocasião, o seu batismo.

Quando fomos orientados a nos aproximar da pia batismal, eu levantei aliviado por ainda poder sentir com normalidade cada um dos meus membros. E o Bento em pouco tempo tornar-se-ia mais do que filho de Deus e membro da Igreja. Ele seria, logo após a água daquela jarra de vidro molhar o seu sensível couro cabeludo, um ser humano premiado.

Porque o Bento, meu sobrinho Bento, nascido há pouco mais de dois meses, agora é, sim, um ser premiado.

O Bento é um brasileiro premiado por ter a sua volta pais, avós, tios-avós e dindos — este quem vos posta é um deles — preocupados em iniciá-lo em um caminho que, mais tarde, na vida adulta do Bento, poderá ser decisivo. Porque, no mínimo, quem está em Deus, como o Bento está desde as 11h30 daquele domingo, respeita a instituição família, fundamento da sociedade, respeita a si próprio e a existência do outro. No mínimo isso — e, convenhamos, só isso que entregamos ao Bento já fará uma baita diferença na sua vida e na vida desse país. Ele poderá até não aceitar, mais tarde, a religião católica. Ate poderá. Mesmo assim, Bento será um privilegiado, será um premiado. Duvido que deixe de crer em Deus, duvido que deixe de sentir no seu íntimo o desejo de viver a beleza da vida e poder enxergá-la além dos computadores, além dos expedientes de trabalho, além do extrato do banco, além dos blogs e do twitter, além da rotina cinza dos dias. E se tu esqueceres desses vitais desejos, meu afilhado Bento, quero estar vivo para poder, com voz trêmula, te dar aqueles conselhos de engenheiro de obra pronta, sabe?

Bento, tu ainda nem fala e mal pode diferenciar a sacada e o banheiro, mas já é bento. E desde já, a tua existência nos abençoa com este simples, mas grandioso lembrete: Deus está aqui.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Bento

Uma verdade sobre o futebol

Veron não amarelou

Veron não amarelou

Dia desses ouvi um dos nossos oportunistas comentaristas de futebol afirmar que a função mais importante de um técnico de futebol é animar seu elenco. É só mais uma opinião no momento oportuno em que o time voltava pro segundo tempo demonstrando nova disposição, pensei.
Estava enganado.

Como todo guri brasileiro, com minha pouca idade, eu desejava ser um jogador de futebol. E não só desejada. Posso dizer que investi em mim mesmo. Fiz escolhinha de futebol, acordava cedo no sábado pra jogar bola quase que profissionalmente. Posso sentir o cheiro daquele ginásio na Vila Ideal, em Canoas. Fiz mais: joguei na escolhinha do Grêmio e, antes disso, — acreditem! — na do Inter. Aproveitava a carona do avô de um colega do primeiro grau e lá ia eu, de vermelho e branco, tentar a vida nos gramados sem grama da capital gaúcha. Como era do lado do hipódromo, eu acho q eles botavam os cavalos a alimentar-se no nosso campinho durante a noite. Só podia. Aquele areião todo. Só podia.

Agora, a verdade: eu nunca joguei nada. Não que não soubesse jogar, não que não cobrasse bem um escanteio, não que não batesse na bola razoavelmente bem. Não que eu não driblasse. Mas eu amarelava. Confesso pra ti que eu amarelava. Eu sentia, abaixo da nuca, o peso da expectativa. Do treinador, do meu pai. A minha expectativa. E de quem quer que seja que esperasse algo de mim.

Lembro de um gol, de ter marcado um único gol em todo meu tempo de escolinha. Somando Grêmio e Inter. Um golaço. Eu no meio da área, o cara cruzou no chão, bola rasteira, pulou num, pulou noutro morrinho de terra até que eu evitei que ela passasse para o companheiro do meu lado direito. Dominei-a e bum!, ela estufou a rede, no alto da goleira. Devem ter sido mais os meus gols, mas por alguma razão, pelos lances perdidos, pela bola que mordia e pela chuteira q não deixava a bola dormir no meu pé, por tudo isso, eu esqueci de todos os outros gols que fiz.

Mas o que me faz achar que revelo aqui uma verdade sobre o futebol é uma única lembrança: a de entrar em casa ofegante, depois de uma pelada no asfalto da frente casa, goleiras de chinelos, e jurar para quem pudesse ouvir que eu era, simplesmente, o Viola. Ele mesmo. Aquele centroavante que rebolava e que conquistou a torcida do Corinthians com um gol espírita em final de campeonato, em que a bola, saindo ao lado da trave, no alto, voltou ao campo pelo pé de Viola e Viola, perna espichada no ar, botou-a nas redes. Acho q foi num Corinthians e Palmeiras. Numa final. Imaginem! E eu era exatamente esse cara, o Viola. Eu não jogava mal. Não me destacava, mas não jogava mal. Tinha bons fundamentos, pouca velocidade, boa liderança e nenhuma tolerância em campeonatos da Igreja em que o meu time era roubado. Era quase um Tcheco, portanto. Não um Veron, mas um Tcheco. E como o Tcheco, podia agora estar ganhando algumas dezenas de milhares de reais e já estar planejando que parte do mundo iria conhecer quando parasse de jogar bola. Eu podia estar jogando pelo Grêmio e ouvir a Geral cantar meu nome. Mas não estou.

Eis uma verdade sobre o futebol: futebol é cabeça, é psicológico.

E aqui está a explicação para o sucesso do técnico motivador, para eu não estar hoje ouvindo a torcida do Grêmio gritar meu nome e para o Cruzeiro não ser o campeão da Libertadores nos próximos 12 meses: futebol é ca-be-ça.

Ou não fez diferença o time argentino do Estudiantes não desistir do jogo enquanto perdia, partir pra cima, fazer dois gols e sagrar-se o atual melhor time sulamericano de 2009? Mineirão com 80 mil hostis torcedores? Fez todinha. Te digo que a cabeça de cada um daqueles argentinos fez todinha a diferença.

Há, portanto, uma única desigualdade entre eu e o Estudiantes, campeoníssimo, com passagem já comprada pra Dubai: é que eu amarelei.

2 Comentários

Arquivado em Futebol