Arquivo do mês: maio 2009

O que há de mais bonito nas mulheres

Alguns domingos atrás, parei pra ler no jornal uma matéria de moda que falava da paixão das mulheres pelos sapatos. Parei pra ler, sim, senhores. Afinal de contas, minha namorada é uma dessas românticas. Preciso conhecer esse universo. Muita coisa bem útil já deixou de entrar no quarto dela por causa do espaço privilegiado que ocupam os seus inúmeros pares. Eu mesmo tenho receio de sobrar qualquer hora dessas, pra vocês verem.

E sabem que uma das entrevistadas da matéria sobre sapatos femininos que eu estava lendo matou a charada? Disse que as mulheres se interessam tanto por esse adorno por causa do democratismo dele. Taí! Pé não engorda, pé não sai de forma, não perde as medidas, não tem celulite. Nunca vi uma mulher em frente ao espelho, reparando no pé. Nunquinha. O pé é o que há de mais previsível, beleza garantida. Um pé bem cuidado não tem classe social, não tem pontas que ressecam, não tem raízes descoloridas, não tem gordurinha pra esconder. Por isso, porque o pé é a salvação, as mulheres buscam garantir sua beleza a partir deles. Não que as colecionadoras de sapatos não tenham o corpo bonito. Deus do céu, nada disso! Mas tenho que concordar com a entrevistada da matéria que li. Ela matou.

Agora, se eu não tivesse parado naquela noite de domingo, com a melancolia de todo domingo de noite, e lido a tal matéria, eu nunca saberia. Eu nunca saberia que as mulheres depositam nos sapatos tal parcela do seu desejo de estarem bonitas. Seu desejo de parecerem bonitas.

Porque pra mim, há uma coisa nas mulheres que é infinitas vezes mais bonita. Só uma. Vou contar qual é.

O Patrick era da turma mais velha que eu, o Dudu, o Bacon e o Marcinho. Ele andava com os guris mais crescidos, com barba na cara, pêlos nas pernas e no peito. Eram gente boa eles. Eu curtia ficar por ali, ouvindo eles falar das gurias. Eles, que eram mais rodados, entendiam desse troço de guria. Como eu jogava bola com eles, acabava ficando por ali depois do jogo, aprendendo sobre o mundo das mulheres. E foi num desses dias em que aprendi o que das mulheres eu devia amar para o resto da minha vida.

Depois do jogo daquele domingo à noite, no ginásio das freiras, fomos todos pro apartamento do Patrick. Eles falavam do jogo, dos gols perdidos e das gurias. Elegiam a mais gata das pequenas arquibancadas do ginásio. Sempre ficavam entre duas ou três. Eu concordava com todas as opções. Os guris tinham bom gosto. Quase nunca dava meu palpite. Ficava só ouvindo. E aprendendo. No que o Patrick, querendo dar credibilidade aos seu conhecimento de mulheres, abriu o maleiro do guarda-roupas e apontou lá pra dentro: a coleção de Playboy do Patrick! Eram muitas, eram diversas as Playboys do Patrick. O Patrick tinha mais Playboy do que a prateleira da biblioteca do colégio tinha livros da coleção Vagalume e mais do que hoje tem sapatos a minha namorada.

E o Patrick começou a entregar, bem generoso, pra nós, suas revistas. Cada um ficou com umas três ou quatro Playboys no colo. E riam, e apontavam e regozijavam-se. “Caaaaara, olha essa”, um dizia e eu espichava o pescoço pra conferir. “Meeeeeeu, e essa?”, dizia outro. Até que um deles sentenciou: “agora, vocês vão concordar comigo”, iniciou, em tom de discurso, depois de folhear umas três ou quatro Playboys do Patrick. Ele tinha o ar da experiência, da liderança. “É ou nao é verdade que a melhor coisa numa mulher é o cabelo?”. Nem sequer um segundo de pestanejo. A resposta foi unanime que sim. E gargalharam.

Eu fiquei sem entender.

Entre tudo aquilo que víamos dentro das brochuras daquelas revistas pecaminosas, entre tudo o que era mais belo e formoso, eles preferiam o cabelo. Eu fiquei perplexo. Mas logo o cabelo? E a fulana, eu pensava, quer dizer que tudo o que a fulana lá do grupo de jovens tem debaixo do cabelo, nada é mais belo que o seu cabelo? Mas como? O que ele tinha a ponto de fazer com que os guris preterissem todas as outras partes femininas? Eu não podia lembrar do cabelo de nenhuma das gurias do grupo. Eu havia sido enganado esse tempo todo.

Voltei pensativo pra casa aquele dia. Ainda tinha que tomar banho, jantar e preparar a mochila para uma semana de aula. Os dias se passaram e eu me peguei muitas vezes pensando em todas aquelas mulheres dentro do maleiro do guarda-roupas do Patrick. Tinha bom gosto mesmo o Patrick. Eu pensava nelas e tinha que fazer força pra lembrar só dos seus cabelos.

Considerem que eu praticamente formava naquela época minhas inclinações sexuais. E ouvir dos guris, deles que já namoravam e tal, que conheciam cada parte de uma mulher, ouvir deles que o melhor delas era o cabelo, aquilo foi chocante.

Desde aquele dia, até hoje, eu preciso que saibam de uma coisa: eu só olho para os cabelos das mulheres.

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Só o Bento salva

Estou longe de ser pai, mas sabem que esses dias eu pensei na sensação que deve ter um bebê? Nas coisas boas de se ter um, claro. Estava eu no mictório do banheiro da empresa, indo embora, quando lembrei do Bento, o meu sobrinho. Minha cabeça quase latejava de tanta preocupação, com tanta coisa que não dera certo, que me deixavam desgostoso com a vida. E lembrava do Bento a cada pouco. E pensava em vê-lo quando chegasse em casa. Mesmo que soubesse que ele não estaria lá, me esperando, pensar no Bento e na forma como ele leva a vida, me transportavam dali.

Com pouco menos de um mês entre a gente, o Bento vive para sustentar o seu corpo e – por que não dizer? – a sua mente. Para o Bento, este mundo novo é habitado por apenas dois únicos seres: o seio da minha irmã – ah, se ele desconfiasse que são dois! – e as cólicas do seu tubo digestivo. Chora, porque é a sua única forma de comunicação, e logo vê seu desejo ser atendido. Dorme e sonha com alguma coisa que eu nem desconfio o que seja. Meu palpite é que ele veja um seio, bem grande e farto de leite. Porque às vezes, enquanto dorme, sem saber, o Bento sorri.

Gente, o Bento ainda nem sabe que suas mãos existem. E não sabendo que tem mãos e que tem pés, tampouco tem noção de seus pensamentos. Quando eu olho pro Bento e tenho a convicção que nada mais passa pela sua mente ao não ser o desejo de se alimentar, confesso que dá uma inveja boa.

Porque será que em algum trecho da nossa vida, alimentamos nosso cérebro com a noção do caos? Por que será que sempre as coisas têm a possibilidade de darem errado? Por que o nervosismo antes da prova ou antes da apresentação, mesmo nos casos em que você tem a plena convicção de que domina o conteúdo? Por quê? Sei que há explicações da ciência, da psiquiatria e da psicologia que dão conta de quase tudo. Mas tenho direito de desejar que um dia meus pensamentos trabalham apenas a meu favor, assim como trabalham pra mim minhas mãos e minhas pernas.

Volta e meia me pego pensando no Bento. No quanto o amo e no quanto invejo o estágio da sua existência. Nos dias em que nada dá certo e que a cabeça não ajuda, penso no Bento. Nesses dias, só o Bento e a sua singular forma de existir salvam.

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