Arquivo do mês: abril 2009

Rebento!

Digamos que eu esteja vivendo aqui neste planeta com vocês há exatos 9.836 dias. Não é fácil fazer essas contas. Mas suponhamos que seja este o número de dias de vida que coleciono até aqui. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o milhares de vezes em cada um desses dias. Sem parar um dia só, um minuto sequer. Digerindo alimentos, expulsando excrementos, dormindo, distinguindo cores e formas, ouvindo sons e vozes. Tudo com a autonomia que chamamos de vida, com a energia gerada pelo meu próprio corpo, utilizando meus próprios recursos, nascidos comigo no dia em que a natureza me trouxe pra cá porque entendia que eu estava pronto.

O Bento está pronto.

Meu sobrinho nasceu às 7h55 do dia 15 de abril, com 3,215kg e 48cm.

E comprovar isso, com os meus próprios olhos, fez surgir em mim uma sensação que só não é melhor do que a que a minha irmã deve estar sentido. Assim mesmo, o que eu senti é inenarrável, é indescritível. O que eu senti é algo que se sobrepõe à razão pelo simples fato de que nem mesmo a razão sabe lidar com isso. Eu não soube, o dia todo, o que fazer com aquilo que estava dentro de mim, na região do peito. Dei o nome de alegria. Porque é assim que convencionalmente chamamos aquilo que é bom de sentir. Mas não é como se formar, ver um time de Porto Alegre ser bicampeão da Libertadores pela primeira vez ou praticar uma boa ação. É melhor que isso. Não, não é melhor. É outra coisa. É o que põe os animais a lamber as crias quando nascem. E se eu o tivesse lambido? Nem assim ficaria em paz. Nem assim. Naquele dia, no décimo quinto dia do mês de abril, naquele quarto de hospital, eu, criatura racional, com polegar opositor e tudo, não soube lidar com o sublime.

E vê-lo do alto, cabeça pequenina, e ir me aproximando até encostar lábios e ponta do nariz nos cabelos raros, e sentir o cheiro da sua pele fina, e perceber o seu calor vital, isso tudo, assim junto, quase me fez chorar. Contive. Como agora, enquanto escrevo e meus olhos se umedecem. Devia ter chorado eu acho. Já que não lambi, devia ter chorado. Homens e mulheres choram quando a alegria é demasiada. Mas nem isso me ocorreu. Porque nada me ocorria. As coisas ocorrem quando se pensa. E eu não pensava, eu sentia. E alguma coisa com a qual eu não sei lidar.

No dia que soube que o Bento havia nascido, antes de vê-lo, escrevi um texto para postar aqui na Uzina. Pra compartilhar com vocês. Um texto racional. Sobre o que representava pra mim o nascimento desse guri. Há poucos minutos, apaguei quase tudo para reescrever o que vocês lêem agora. Porque assim como não é possível explicar o que se sente, tampouco há chance de antever. Nunca entendi porquê temos nítidas, gravadas na nossa mente, algumas cenas antigas da vida. Como fotografias. Por que estas marcaram e outras, aparentemente mais importantes, não? Continuo sem saber isso. Mas sou capaz de apostar que o que vi no quarto daquele hospital, ao entardecer daquele dia, me acompanhará para sempre.

Pra completar, sou dindo do Bento. Aí foi alegria mesmo. Receber o título e ver a Samanta chorar de emoção foi bonito, foi alegre. Sou padrinho de Batismo dele. Do sacramento da Igreja Católica que inicia o crente na vida em comunhão com Deus. Este mesmo Deus que deu condições para que o meu afilhado estivesse pronto nesse momento. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o. Digerindo o leite materno, expulsando excrementos e dormindo. Baita responsabilidade.

O que é verdade também, é que tudo isso me deixou meio egoísta. Como se o Bento fosse o primeiro e o único a nascer. Sinto-me como se ele fosse mais do que só diferente de tudo e de todos, mas o único a surgir assim, desse jeito, nessa cor e nesse formato. Com os órgãos todos que funcionam como uma máquina nova. E ele ali, comandando tudo aquilo sem saber. Puro, orgânico, sem as influências, toxinas, sotaques e eletroportáteis dos humanos maus.

É curioso como o mais repetido fato social, o mais massificado, o mais batido, que não diferencia classe social, pode ser, ao mesmo tempo, a maior novidade de todas, o que há de mais novo, o fato mais notícia de todos.

No jornalismo, dizem que nada pode ser mais velho do que a notícia de ontem. E o que pode ser mais velho pra nós, ancestrais terráqueos, que o nascimento de um dos nossos? Mesmo assim, pra mim, o Bento é a mais especial de todas as notícias. E olha que já li muitas.

Ele está lá, naquele quarto de hospital, junto do seu pequenino coração, que palpita sem que ninguém dê corda ou recarregue as pilhas. Enquanto dorme, não sei com que sonha, mas já ouvi dizer que relembra o seu último e aconchegante lar. Ele lembrará pra sempre disso tudo. Cada dia que viver. Mesmo que o tenha feito mais de nove mil vezes, como eu. Mesmo assim. Lembrará sempre do seu útero luminoso e confortável.

Além de pronto, Bento é um ser amado. E isso, como o ar que a gente respira, é quase tudo.

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Espelho meu exclusivo: o Bento

Como podem ler no Rebento!, o meu sobrinho Bento nasceu há pouco. E já é um ilustre entre os meus. E por isso já está aqui na série de entrevistados da Uzina. Confiram, abaixo, entrevista exclusiva obtida no seu primeiro dia entre nós, direto do quarto do hospital onde está, em Porto Alegre.

A palavra mais bonita da língua portuguesa
uma que ouço mamãe repetir toda hora para me acalmar: bento

A mais feia
todas as que eu entendo são lindas!

O pior defeito da nossa sociedade
furadeira. é esse o nome daquilo que estava fazendo barulho aqui esses dias, né? não deve ter nada pior que este

Como achas que os outros te vêem?
como eu os verei assim que puder

Qual tua ideia de domingo perfeito?
aquele em que sinto todos à volta, felizes. ao meu redor, tudo muito claro e macio. eles tentam sentir meus chutes, chamando-me pelo nome, enquanto mamãe sorri

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos?
me alimentando ou dormindo, e perto da minha família

O que é o amor?
e o que não é?

Qual tua memória mais antiga?
dindo, pode ter crianças como eu na internet essa hora. creio que não seja adequado eu descrever o que papai e mamãe faziam na minha memória mais antiga

Qual tua idéia de felicidade?
leite, leite, leite

Onde gostarias de viver hoje?
exatamente onde estou

Onde gostarias de passear agora?
que pergunta. que lugares tem lá fora?

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse?
o que se fazia quando ela não existia?

Se pudesses eternizar alguém, quem seria?
só posso eternizar um?

O que tu fazes que te dá muito prazer?
mamo. mamo muito. e flatulo também.

O que fazes para espantar a tristeza?
na falta de alternativas para o momento, mamo.

Um filme
tenho curiosidade em conhecer um.

Um livro
idem.

Um som/música
“o que você faria se soubesse? até onde vai a sua fé?” mamãe escutava todo dia até pouco tempo.

Um cheiro
a pele da mamãe

Um lugar
um? este. dois? este e dentro da mamãe

Um site
não vejo a hora de conhecê-los

Uma coleção (que tens ou já tiveste)
não, ainda não

Um doce
isso é bom?

Uma bebida
adivinha

Um prato
pode ser bebida?

O conselho que nunca esqueceu
não precisei de muitos ainda. mas o que tento seguir sempre é “calma, bento, calma”. juro que eu tento.

Um pensamento
antes de eu nascer, minha mãe costumava ficar pensando em como eu seria. esse era um dos meus pensamentos preferidos.

Bento estreando

Bento estreando

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Parabéns, Porto Alegre!

A luz que vinha do alto iluminava seu rosto. Especialmente seus olhos morenos. Ao lado da janela de vidro, ela maquilava-se. Sempre que podia, jogava sua cabeça de um lado para o outro, acompanhando a música que tocava no rádio e admirando os contornos dos seus olhos e de sua boca. Maquilava-se e cantarolava. E admirava-se. E a batida do som empurrava seu rosto ora pra esquerda, ora pra direita. Na certa, preparava-se para um happy-hour. Não, era mais. Uma festinha, uma balada. Tinha um desses instrumentos delicados na ponta dos dedos e com ele pintava os olhos. Os cílios, o canto do olho. E repetia o procedimento cuidadoso num olho e depois no outro. E ficava mais bela. E cantarolava. E quase dançava.

Ela estava sozinha ali. Só ela, aquela luz fraca, bancos vazios e o reflexo do congestionamento no espelho do retrovisor. O mesmo trânsito que a impedia de ver a cor do asfalto no horizonte, a obrigava, entre uma arrancada e outra, a antecipar o cuidado com a vaidade.

Meu carro estava atrás do dela. E atrás dos meus olhos cansados de um dia de trabalho eu lamentava ter percorrido uma dúzia de quilômetros naquele tempo perdido. Eu lamentava estar ali. Lamentava estar perdendo aquela consulta médica tão importante. E oitenta e cinco reais reais. E o meu tempo.

Mas, ao contrário, não me dava conta, eu devia estar era feliz. Porto Alegre está se tornando uma cidade moderna. Com seu trânsito, seus motoqueiros e motoristas entediados. Aos 237 anos, temos que reconhecer, Porto Alegre nunca mais será a mesma.

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O livre arbítrio do Bento

Minha mãe disse à noite passada mais ou menos o seguinte: pra mim, o Bento nasce hoje, hoje de noite. Eu sorri desconfiado enquanto meu pai a advertia: é cedo, Ema, tu sabes que é cedo.

È cedo mesmo. Mas não pelas explicações obstétricas, naturais, fisiológicas e lógicas. Sabem qual a explicação? A seguinte.

Pra quem ainda não sabe, Bento é o nome do meu primeiro sobrinho – e primeiro filho da minha irmã e primeiro neto dos meus pais – que está para nascer por esses dias. Os médicos deram ao Bento um prazo: nove de abril. Daqui cinco dias, portanto.

Minha irmã me disse esta data quando contou que não faria cesariana. Que aguardaria.

Minha irmã aguardará.

Minha irmã transferiu ao Bento o poder de decidir. Bento está experimentando o livre arbítrio.

É estranho dar-se conta de que está tão perto ao mesmo tempo em que ninguém sabe quão perto está. É como brincar de esconde-esconde e sentir a adrenalina quase te paralisar com medo da surpresa de alguém que pode aparecer de qualquer lugar, a qualquer momento. É como mergulhar no escuro do filme de suspense, aguardando a movimentação repentina da câmera e a surpresa do vilão. É como isso.

Ninguém de nós sabe o dia, ninguém sabe a hora. Só sabemos que até nove de abril o Bento, o primeiro entre todos os gaúchos que vibrará igualmente com gols colorados e com gols gremistas, até nove de abril o Bento nascerá.

Ele nos tem nas suas pequeninas mãos. Cada um de nós e as nossas mais íntimas fantasias de como ele será, de quando será. Talvez espere o fim deste final de semana, talvez não. Talvez esteja se preservando do Grenal, talvez não. Talvez esteja aguardando para vir no exato dia do nascimento de sua mãe, segunda-feira, talvez não. Quase posso exagerar e dizer que nem Deus sabe. Apóia e viabiliza a decisão que ele tomar, mas não participa. A sensação que temos é que ele é quem decide. O próprio Bento. O Bento é que nos tem nas suas frágeis mãos.

Tenho vontade de dizer que ele aproveite e fique mesmo até o dia nove. E seja pontual. Porque talvez nunca mais, na sua longa e saudável existência, o Bento ostentará tamanha autonomia. Talvez nunca mais ele possa, com tanta independência, determinar o momento em que dará rumo à sua própria vida. Nem mesmo num emprego que lhe dê carro e uma sala envidraçada com ar-condicionado e apontador de lápis automático. Nem quando estiver solito em seu apartamento, vendo um filme e tomando uma cerveja. Nem a solteirisse aos trinta anos dará ao Bento o que ele possui neste momento. Nem.

É por isso que vos digo: não será hoje. Nem neste final de semana. Deram ao Bento o prerrogativa do livre arbítrio.

Encolhido em frente ao seus grandes pés, o Bento está simplesmente gozando de um direito o qual tentará reconquistar durante boa parte de sua vida aqui: a liberdade.

Pé do Bento

O pé do Bento

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