A pauta está errada!

No jornalismo, dizemos que a pauta está errada quando uma matéria aborda um assunto pelo  ângulo menos importante do acontecimento. Como se, ao final de uma partida de futebol, um jornalista da editoria de esportes deixasse de informar o resultado e o melhor jogador em campo para avaliar a qualidade do gramado e as condições das redes que são presas às traves e que seguram a bola na hora do gol. A menos que os buracos no campo tenham influenciado muito no resultado do jogo; e o time vencedor tenha feito seu gol furando a rede, o que teria posto em dúvida a validade do lance. Só se fosse assim, a notícia principal seria a grama e as redes. Se não, sempre, o mais importante da fala de um repórter ao final de um jogo é o placar o impacto deste placar na campanha dos clubes ao longo do campeonato.

Para mim, jornalista e cristão, a pauta sobre a Igreja Católica está errada.

Talvez pelo que houve de mais repugnante na sua história, como as cruzadas e a inquisição. Talvez porque ela tenha em seus dogmas um conservadorismo polêmico. Talvez porque ela se manifeste publicamente nos momentos mais inconvenientes. Talvez por tudo isso, hoje, infelizmente, a Igreja Católica virou notícia no Brasil não pelas seus incontáveis benefícios à sociedade, mas pelas suas contradições.

Sou contra o aborto, como a Igreja, porque sou contra matar. Mas sou a favor dele, em caso de risco de vida para a mãe e da impossibilidade natural dela levar adiante a gravidez e o desenvolvimento do bebê. Acho que, neste caso, se temos tempo, pelo menos um precisa ser salvo. Acho que foi para isso que Deus me diferenciou dos macacos, permitindo-me pensar. E mais: se não pudesse realizar um milagre para salvar os dois, tenho a impressão que Deus não discordaria desta minha opinião. Agora, não consigo admitir que matar um bebê inocente possa ser a solução para um crime dessa natureza. Não consigo aceitar que matar um bebê inocente possa ser o único jeito de livrar a mãe da lembrança daquele dia. Nem que matar seja a única forma de evitar que tenhamos entre nós mais uma criança lesada psicologicamente. Não consigo.

Sou contra a proibição da camisinha. Mas a propósito da opinião da Igreja sobre o assunto, fico sempre me perguntando no efeito moral que a distribuição dela aos montes pode causar na cabeça daqueles que não sabem o que é o sexo. No Carnaval, por exemplo. Não, o sexo não é um lazer como qualquer outro. Se fosse assim, se ele fosse um playground, não teríamos tantos dedos para falar sobre ele com as crianças, com os filhos, e, às vezes, até com pessoas adultas, próximas de nós. Se ele fosse como um escorregador ou uma gangorra de uma pracinha, não teríamos tanta gente grande nesse país traumatizada porque um adulto brincou de sexo com ela em uma idade inadequada. Sexo precisa de responsabilidade, precisa de entendimento, de sensatez, de sobriedade, de maturidade. E para quem for praticá-lo munido de todos esses princípios – se for com a pessoa que ama, melhor ainda –, esse, sim, deveria poder optar pela camisinha e tê-la ao seu alcance. Que seja em um pedágio em direção à praia ou às mãos de um agente no Ministério da Saúde ao lado de um trio elétrico.

O que eu lamento, como jornalista e cristão, é que a Igreja Católica somente vire notícia no Brasil quando a pauta não é a seu favor e a favor do que tenta ensinar; quando a pauta põe a sua importância em xeque, põe os seus benefícios vitais em discussão. 

Nasci, cresci e me tornei jovem frequentando a Igreja. E hoje, sentado em frente ao computador na empresa onde trabalho, em uma sinaleira ou em uma balada, às vezes tenho insights de como seria correto agir em determinadas situações. Sou levado a pensar como Jesus Cristo agiria em determinados momentos. Como um cristão deve agir. E quase sempre, depois de resolvida uma situação, me sinto um privilegiado por ter no meu currículo o aprendizado da fé.

Neste exato momento, de noite ou de dia, enquanto você está aí confortavelmente sentadito um uma cadeira em frente à este modernoso equipamento, um padre ou um irmão religioso ou irmã religiosa estão em alguma periferia do mundo, realizando um ato de total doação, arrancando um sorriso ou um olhar de alívio e de esperança de algum ser humano como você e eu. Mas que nasceu desprovido de dinheiro, de saúde e de educação. Este cristão deixou para trás uma família, um projeto pessoal e o conforto de sua terra para cuidar de alguém que precisa. (Tenho a honra de conhecer dois desses — e sobre um deles até já falei aqui). E só porque ele não está excomungando, não está proibindo o uso da camisinha ou do aborto, ele não existe para todo o resto da humanidade que lê jornal, assiste televisão ou faz buscas no Google.

Infelizmente, para muitos, a Igreja Católica, essa pedagogia das lições de vida de Jesus Cristo, ainda é só um conjunto de dogmas arbitrários, irracionais, atrasados, contraditórios e inúteis.

Infelizmente.

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5 Comentários

Arquivado em Genéricos

5 Respostas para “A pauta está errada!

  1. “Agora, não consigo admitir que matar um bebê inocente possa ser a solução para um crime dessa natureza. ”

    Quem disse que é? Acho que a questão não é essa. Não é fazer uma coisa para amenizar outra. Se fosse isso, não precisaria haver justiça. Todo mundo sabe que prender um assassino não traz o morto de volta. Então fazer um aborto não fará o tempo voltar e desfazer o estupro. A questão realmente não é essa… A questão é pessoal. Sim, pessoal. E a mulher tem que ter direito a esta decisão.

    “O que eu lamento, como jornalista e cristão, é que a Igreja Católica somente vire notícia no Brasil quando a pauta não é a seu favor e a favor do que tenta ensinar; quando a pauta põe a sua importância em xeque, põe os seus benefícios vitais em discussão. ”

    Como eu disse há uns dias, a igreja tá mal de assessoria de imprensa! fora a brincadeira, já pensaste que isto é um reflexo das atitudes da própria igreja?

    Respeito a tua opção, mas não consigo entender como podes conviver com tantas contradições. São elas, as contradições, que me incomodam sobremaneira nas religiões… a fé pode existir sem a religião.

  2. Débora - Dedé

    Tenho uma visão muito clara sobre tudo isso. Sobre o assunto em pauta hoje na mídia e sobre o teu texto e o comentário a seguir.

    Vejo a Igreja defendendo o que poucos defendem: a VIDA! E a vida em plenitude. Alguém tem que fazer isso! Tem que orientar para a Verdade, porquê e para quê estamos vivendo! (Não vivemos para uma vida vazia em si, mas para uma vida depois dessa! Essa é a fé cristã!). E esse alguém acaba sendo sempre a Igreja. Às vezes muito ‘atravessada’ (por causa de seus representantes humanos e cheios de erros e exageros), mas sempre em favor da vida.

    Sou contra o aborto. Ponto.

    Especialmente porque acredito que o sofrimento de hoje nos levará para a Ressurreição amanhã; assim como o sofrimento de Cristo O levou.
    Talvez, para a menina de Olinda, a vida de seus filhos (consequentemente, o sofrimento ou a morte dela) seria a sua vida eterna. Talvez a morte natural deles seria também a vida para ela. Talvez essas crianças, se pudessem viver e a menina também, fossem motivo de alegria futura para toda família… (sem essa história hipócrita de que ao olhar pra elas a mãe ia lembrar do terrível acontecimento – ela vai lembrar sempre… independente das crianças vivas ou nã0 – então, por que matar?).

    Mas essa é uma questão de fé. E fé na Essência.

    Sugiro que eduquemos as crianças. Que valorizemos a família. Que tratemos com dignidade toda humanidade.
    Vamos prevenir para não remediar.

    (Vou te mandar um email contando toda a história desta menina, vivida por alguém que esteve lá, conversou com ela e com os pais. É uma versão da história que a mídia não conta. Afinal, “não é interessante”).

    Um abraço,
    Dedé – sou mulher e não tenho o direito de decidir sobre a vida de ninguém, muito menos de quem não pode se defender –

  3. Kelen

    Longe de querer te convencer de alguma coisa, mas não penso que os abortos permitidos em lei sejam considerados uma solução para esse problema, mas sim a justa possibilidade de escolha de uma mulher (seja ela menor de idade, ou não) que não havia se preparado para ser mãe e que, por isso, é bem provável que não disponha de todas as condições necessárias para garantir o desenvolvimento daquela criança. E olha que essas condições não são poucas. Tem a questão financeira, afetiva, psicológica, etc, etc, fora questões que muitos nem consideram antes de pensar em ter um filho, como disponibilidade, tempo, paciência, doação, etc e etc (de novo). A minha maior impressão sobre os “problemas da humanidade”, digamos assim, é essa falta de preparo que muitos têm antes de resolverem ser mães ou pais. E aí vemos famílias com 7, 8 filhos, passando fome, ou mesmo famílias com boas condições financeiras, mas que largam seus filhos em creches e mal sabem como eles passaram o dia… Enfim, se pais que se consideram preparados para serem pais, muitas vezes, não alcançam bem isso, o que se poderá esperar de alguém que sequer havia cogitado essa possibilidade?
    Bem… fora isso, concordo com essa questão de a pauta sobre a Igreja Católica estar errada. Mas, infelizmente, já é bem sabido que a busca pela audiência faz dessas coisas.

  4. roberto

    Juliano,
    valiosas tuas considerações.
    quem pode refletir, que reflita.

    em tempo, no site ZENIT, uma esclarecedora entrevista com o presidente da Pontificia Academia para a Vida,
    grande abç

  5. Clá (:

    Sábias palavras, caro Juliano.

    Compartilho da tua fé, e da tua opinião em plenitude.

    É lamentável ver que, todos os dias, a Igreja Católica seja posta em xeque pelo ataque da mídia sobre a nossa fé.
    Existe um grande lobby contra a Igreja Católica que está por trás dos meios de comunicação, da política, e de todas as segmentações de atividades no nosso país.
    Existe também, e é inegável, um lobby pró-aborto (anti-vida) que difunde a cultura da morte no nosso país, e este também é financiado pela mídia.
    Se o Jornal Nacional consegue veicular em 30 segundos uma matéria onde chama a Igreja de arbitrária e atrasada, acusando o arcebispo de ter excomungado os médicos, mãe e demais envolvidos no procedimento do aborto, como não acreditar que exista mesmo um lobby anti Igreja Católico, e anti-vida?
    É fato que o aborto gera automaticamente exclusão da comunidade católica, e portanto a excomunhão. Também automaticamente os médicos, familiares, e até mesmo os expectadores que concordaram com essa atitude deveriam se sentir afastados de Deus. Não foi, portanto, o arcebispo que excomungou os envolvidos no caso. Foi o próprio ato, em si, que afastou os mesmos de Deus. E sinceramente, quem concorda com essa decisão, quem apóia, financia e realiza o aborto, não deve se sentir em paz com Deus, e como católico, deveria buscar o sacramento da Confissão.
    Deus, em sua onisciência, já sabia do que a sua criação era capaz, e ainda assim nos deu o livre arbítrio, porém em seus mandamentos (que vieram muito antes do aborto) já nos disse: “Não Matarás”.
    E é alicerçada neste mandamento que a Igreja Católica não é e nunca será a favor do aborto.
    Mesmo que tramite leis no congresso nacional para legalizar o aborto até o nono mês de gestação, mesmo que a mídia continue com seus ataques ofensivos contra a nossa Igreja. Mesmo que me julguem arbitrária, atrasada, ‘por fora’, nunca seremos a favor do aborto, NUNCA!
    SEMPRE EM FAVOR DA VIDA! A VIDA É DOM DE DEUS, E NÃO CABE AOS HOMENS DECIDIR SOBRE ELA.

    “ Eu vim para que todos tenham vida. Que todos tenham vida plenamente”

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