Minha trágica experiência em um estádio de futebol

Sexta-feira, o David Coimbra, escritor e cronista de Zero Hora, tocou no assunto das brigas entre torcidas. E com a peculiaridade que lhe é peculiar, com o perdão da repetição. Vale ler.

Sabem que eu já vivi a violência nos estádios? Em um deles, especificamente. Mas em um tempo em que era praticamente inimaginável tentativas de homicídio em jogos de futebol. Na mesma proporção em que era inadmissível assistir à partida de pé. Um cara de pé no estádio e um tiro, duas imensas improbabilidades daqueles tempos. Ficar de pé significava exclusivamente estar vivenciando o maior de todos os momentos do espetáculo: a iminência do gol. Sincronizados, todos punham-se de pé para acompanhar o lance. Não se confirmando, todos sentavam-se. Claro que sempre sobrava o mais distraído ou o tipo esperançoso, que sempre acreditava na roubada de bola e na arrancada inesperada e veloz em direção ao gol. Sempre tinha um. “Olha o mijoooooooo!”, era o que gritavam lá de cima. Da arquibancada superior. Umas tantas vezes a ameaça não foi só uma ameaça. Dava dó.

Foi nesses tempos, no tempo em que ir ao estádio de futebol apresentava menos riscos, que eu vivi a mais trágica das minhas experiências. 

O fato sucedeu-se no primeiro e último Grenal que assisti no Beira-Rio. Eu devia ter os meus dez ou doze anos. Não lembro qual era o placar quando aquele cidadão de preto, lá no meio daquele gramado verde, imenso e ensolarado ergueu o braço e encerrou o primeiro tempo. O intervalo era a hora de ficar de pé, de esticar as canelas, de comer pipoca e tomar aqueles refris que sempre vinham quentes e pela metade. Meu pai geralmente não levantava pra não perder o lugar. Ficava ali, sentado no seu jornal, descascando e comendo amendoim. Comíamos, juntos, uns quatro daqueles saquinhos. 

Mas naquele dia, no tal dia do Grenal no estádio do Internacional – que ainda era regional naquele época – eu quis comer um cachorro-quente. Cachorros-quentes eram uma extravagância para aqueles tempos. Isso porque tinha que sair do lugar, com o enorme risco de não encontrá-lo mais depois, ultrapassar a multidão para alcançar as lancherias dos estádios. Deixamos o nosso lugar e vencemos a multidão.

Só que a experiência que tive aquele dia, na lancheria do Beira-Rio, ficou gravada na minha lembrança. 

Meu pai pediu o lanche e o pôs nas minhas mãos. Sem dúvida, devia ser do tamanho que são hoje os cachorros-quentes.Nada de anormal. Feitos naquele pão meio-doce, de porte mediano. Para mim, era maior. Era enorme. Minhas pequenas mãos desapareceram debaixo do pão e eu fiquei ali, observando aquele molho e aquela salsicha enquanto meu pai pagava pelo pedido. Não estava sendo fácil administrar, mesmo com as duas mãos, aquele pão gigantesco. Assim mesmo, arrisquei duas ou três mordidas. “Ô meu, me dá um pedaço disso”, fui em seguida abordado. O menino não parecia estar querendo só um pedaço, além do que, era incomum os torcedores dividirem seus cachorros-quentes uns com os outros. Bem incomum. O fato é que eu havia resolvido que daria mesmo um pedaço do lanche para ele. Juro que daria. Não tivesse ele afundado repentinamente sua mão suja no meio do meu cachorro-quente e dado o fora dali. Assim, do nada, sem pena nem piedade. 

E eu fiquei ali, estático, assistindo a cena posta na minha frente. Minha generosidade cristã havia determinado que, sim, eu daria um pedaço do meu cachorro-quente a aquele menino que devia estar faminto. Sim, eu juro que eu daria. Mas porquê ele agiu assim, eu não podia compreender. 

Por um motivo mais do que justificado, nunca mais voltei ao Beira-Rio para assistir a jogos de futebol. Nunca mais. 

Agora, o que devem pensar nesse momento o jovem gremista que salvou-se da tentativa de homicídio dias atrás? E os jovens que participaram de tal barbaridade e experimentaram dormir em uma cela no Presídio Central? E a mãe de um deles que ligou desesperada para o David Coimbra esses dias suplicando pela liberdade do seu filho? Todos tiveram suas vidas marcadas pela violência instalada nos estádios. Que não ocorre só lá, seu sei. Acontece que o crime encontrou na multidão dos estádios e na cumplicidade das organizadas o que precisava para cometer com empáfia os seus pecados. E, convenhamos, já passou do limite. Os temidos não são mais eles, os lançadores de sacos de mijo e os larápios, roubadores de cachorros-quentes.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Minha trágica experiência em um estádio de futebol

  1. Bacon

    Nossa! Impressionante o fato ocorrido com você! Mas me diga uma coisa: Naquele tempo ainda misturavam as torcidas? Ou cada um ia em uma lancheria? Se os torcedores de cada time iam em uma lancheria diferente, é muito provável que o rapazinho da mão suja fosse um “irmão em time” teu! Sendo assim, cuide com quem estás, e não onde estás!

    Abraços.

  2. Justo. Era um “irmao em time”, sim. Como nesse caso recente de quase-morte entre torcedores do mesmo time. To dizendo, é tudo criminoso disfarçado de torcedor. Seja lá qual for o clube.

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