Arquivo do mês: dezembro 2008

Eu já comi cocô

Já mesmo. E me lambuzei. Sério, tenho provas fotográficas do feito. Mostro a quem tiver estômago.

Eu tinha meses.

Pelo que constam nos autos da minha infância, fazia calor naquela tarde de domingo. Suponho que tratava-se de domingo porque havia algum desocupado disposto a registrar em foto o saudoso momento da tal degustação, digamos assim. Porque minha mãe, que estava sempre comigo nos dias de semana, nunca meteu-se com essas tecnologias. Bem, pelo que soube, não usei o dedinho. Usei uma chave. Segurei-a dentro da minha então mão-bisnaguinha e levei-a até… bom, o resto é presumível. Só foram perceber a mancha escura em minha cútis germânica tarde demais. Tudo estava consumado.

O que vale dizer aqui – se é que há algo ainda a ser dita e se é que alguém ainda aí do outro lado do monitor – é que, naquela época, valia tudo pra satisfazer o que há de mais elementar na natureza das crianças, desde que saem sangrentas do meio de suas mães: a busca pelo novo.

Mesmo depois que crescemos e já reconhecemos o som da nossa própria mão batendo em objetos sólidos e que não rimos mais das caretas abobalhadas do nosso pai, essa descoberta continua. Só que, ao contrário das crianças, achamos que o adulto, junto de todas as chatices da idade, recebe de Deus o poder de desviar do que é novo, de ignorá-lo, de fingir que ele não precisa mais fazer parte da sua vida. Bobagem!!!

Neste 2009 entrante, desejo a todos os que passam de vez em quando aqui pela Uzina, um ano de coragem e de desprendimento. Para descobrir sem medo tudo de novo que se desenhar em nossa frente. Que enxerguemos as milhares de outras possibilidades que passaram raspando as astes dos nossos óculos e não as vimos porque não estávamos suficientemente abertos.

Também são esses os meus propósitos para 2009, se querem saber. Desejo do fundo da minha alma que eu tenha essa disposição para encarar de cara limpa tudo aquilo que temo sem conhecer. Quero ver lugares que ainda não vi, conversar por um tempo com pessoas que ainda não conversei, sentir o que ainda não senti, fazer coisas que ainda não fiz. E conservar o essencial.

Quero ser, de novo, aquele baixinho gordo e ruivo que, de descoberta em descoberta, ia se admirando com a beleza do mundo a sua volta. Não com o laptop do ano, com a pendrive de dezesseis giga, nem com as protuberâncias femininas. Mas com tudo. Com o reflexo do sol, o rasgo no estofamento do carro ano 76, com a plantinha que quebrada vazava leite, com o bichinho que empurrado virava bolhinha.

Quero ser, de novo, aquele poeta de pouca idade que se admirava com tudo.

Que não tinha medo de experimentar nem a sua própria produção fecal, que não receava a surpresa. Meu Deus, como desejo ser como ele.

E antes que perguntem: pelo que me contam, não gostei do meu próprio excremento, tá? E, embora não me arrependa, isso não desejo repetir em 2009.

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Façamos um bem

O desejo de mudar o mundo destruiu nossa vontade de fazer o bem.

E tem tanta gente que cruza os braços com a desculpa da impotência.

Venham cá, vocês lembram da historinha do menino salvador de estrelas? É assim:

Conta que um gurizinho passava o dia inteiro na beira da praia recolhendo da areia as estrelas que haviam sido largadas ali pela espuma da onda no mar. Reza a lenda que não se via um grão de areia naquela praia tal era a quantidade de estrelas que sofriam ali, morrendo no calor daquele solo salgado. O piá tirava as estrelas do chão e, uma a uma, jogava de volta ao mar. E ficava alguns segundos parado, admirando o movimento da água e o mergulho da estrela. 

E as estrelas nunca acabavam. Pelo contrário. A areia estava sempre cheia, mais e mais, de estrelas sedentas do mar. No que um sábio aproximou-se do rapaz e perguntou o que ele achava que estava fazendo. Com a razão que lhe tomava a mente, afirmou ao garoto que nunca, nem até o fim de sua jovem vida, ele salvaria todas as estrelas. Nunquinha. Já-mais.

Como se o tal senhor não estivesse ali, ao seu lado, dizendo aquelas palavras duras no seu ouvido, o garoto abaixou-se, desgrudou mais uma estrela enferma do chão e lançou-a ao mar com ainda mais ânimo. De forma que ela foi parar muito mais longe do que todas as outras. Esperou o buraco fechar-se na água, voltou a por-se de pé, restabeleceu o fôlego e disse ao velho, como quem analisa e orgulha-se de cada palavra: “Para esta últim estrela, meu senhor, eu tenho certeza que fiz a diferença”.

De fato, o jovem nunca terminou o seu trabalho lá, na beira daquela praia. E nunca mais, ao longo dos tempos, ouviu-se falar do velho sábio.

Este jovem da bonita história que relembrei nunca usou como desculpa sua importência em salvar todas as estrelas. Nunca sequer ousou deixar com que a dificuldade da missão esmorecesse a sua vontade de fazer o bem, de salvar a vida de uma única estrela.

Lá na empresa onde trabalho, este Natal foi mais um exemplo de como cada um pode sempre fazer um bem. Um só. Um só bem para alguém. Porque o todo, bem, o todo todos farão.

As árvores de Natal lá do trabalho tinham pendurados em seus ramos nomes de crianças carentes, ligadas à alguma entidade beneficente de Porto Alegre. Qualquer um que quisesse, poderia ir até a árvore, pegar um papel e adotar simbolicamente uma criança. Até uma data determinada, todos tinham trazido de volta o nome do pequeno com um presente ou uma roupa. Não vi ninguém que tenha pego todos os papéis de uma árvore. Assim mesmo, as árvores ficaram todas vazias.

Fazer um brinquedo, uma roupa nova ou um prato de comida quente chegar a um pequeno nunca será um gesto perdido. Mesmo que seja um. Mesmo que nem todas recebam este bem. A quentura de um pedaço de pão, o colorido de um pedaço de plástico, de um pedaço de pano. Todos terão devolvido para aquela pequena estrela, sem ela saber, a sensação inestimável da esperança.

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Travessia para o Ano-Novo

 

Por Nilson Souza, articulista do Segundo Caderno do jornal Zero Hora
Publicado em 20/12/2008

Dois-mil-e-nove já nos espreita na esquina enfumaçada do tempo. Aguarda, pacientemente, a sua hora de entrar em cena. Ninguém sabe que cara terá, se será bonito ou feio, se será suave ou truculento, se entrará no palco atirando beijos ou lançando impropérios e sapatos. A única coisa certa é que virá, inexoravelmente, e será o protagonista de nossas vidas por 365 dias. Então, só nos resta uma atitude: fazer dele aquilo que quisermos que ele seja. Para começar, não devemos esperá-lo. Nós é que devemos ir até ele. Tomemos, pois, a iniciativa.

Em vez de ficarmos contando os dias que faltam para a virada do calendário, que tal preenchê-los com esperança? Ainda dá tempo. Amanhã é domingo e todos os domingos são tingidos de exuberância, como esses flamboaiãs floridos que enfeitam as calçadas de Porto Alegre. É um dia abençoado, que sempre nos reserva alguma surpresa agradável. Digo-o por experiência recente: no domingo passado, resolvi dar um passeio de carro com duas crianças da família e tomei uma estradinha de terra lá pelas bandas de Gravataí. Andávamos devagar, num lugar pouco habitado, com árvores dos dois lados. De repente, uma borboleta fluorescente, de um azul intenso, passou a nos acompanhar, como se nos escoltasse pelo caminho desconhecido. Nunca tinha visto uma borboleta daquela cor, com aquele brilho e com aquela disposição de encantar olhares infantis. Foi ela que me vez pensar nesta travessia para o ano que nos espera.

Aproveite, portanto, este domingo que ninguém ainda usou e que pode ser todo seu. Durma até mais tarde, cante no chuveiro, dê flores para quem você ama, abrace um amigo e deseje bom dia para o passante anônimo. Talvez ele retribua com o seu melhor sorriso.

Próxima parada: Natal. Será na quinta-feira, mas já podemos vislumbrar desde agora a noite encantada com suas luzes coloridas, músicas de harpa e fogos de artifício competindo no céu estrelado. Logo estaremos neste cenário de sonhos. Ninguém precisa se apressar, nem dar corda demasiada na bússola das horas. Basta seguir a estrela da manhã. Ou a borboleta.

Então, a travessia ficará restrita à derradeira semana do ano velho. Uma semana inteirinha para ser aproveitada de maneira intensa, para ser vivida prazerosamente, para ser compartilhada com as pessoas que habitam os nossos corações. Parece pouco? É o tempo de vida de uma borboleta fluorescente.

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A lição dos Amigos Secretos

Prometam uma coisa. Uma só coisa. Seja no trabalho, entre os amigos, no futebol do marido, na creche da filhinha ou com a família, prometam somente uma coisa neste fim de ano: participem e valorizem os Amigos Secretos – ou os Amigos Ocultos, se preferirem. 

Mais que isso. Façam isso não só neste mês. Valorizem-nos para todo o sempre.

Há uma boa razão. O Amigo Secreto, na sua forma original, lá na nossa infância, no deixou uma fundamental lição. E por isso, pelo legado que ele nos deixou, devemos reverência a ele. O Amigo Secreto nos ensinou, desde cedo, o significado da mais importante mazela da nossa sociedade: a injustiça.

Sei que é quase inacreditável, mas eu lembro como se fosse hoje.

Nunca mais um Amigo Secreto foi o mesmo desde o dia em que um boné verde fosforescente da Colcci – à época em que qualquer um comprava qualquer coisa da Colcci – veio ofuscar a minha visão de guri da quinta série do primeiro grau. Ele era horrível, detestável e, sobretudo, vexatório. Eu não podia acreditar que teria que agradecer e dizer que havia gostado daquele presente estúpido e de inacreditável mal gosto. Eu não podia crer nisso. Pela primeira vez em todas a minha curta vida até ali eu estava sentindo o gosto amargo e repugnante da injustiça. 

Eu que havia comprado um presente de qualidade, escolhido a dedo, daqueles que se escolhe pensando na pessoa, sabe? Eu mesmo tinha sido injustiçado. Por que aquele boné estava ali, na minha mão? O que ele tinha a ver comigo? O que ele queria de mim? O que ele queria me ensinar? Para que servia aquele objeto bizarro e brilhoso senão para ensinar-me a dura lição da injustiça?

Não suportei.

Desejava dizer à Monique, acho que esse era o nome da minha algoz, que eu não gostara do presente. Que, na verdade, eu o detestara. E, amigos, eu o disse. Meio acanhado, mas disse. E dois dias depois ela veio colocar na minha mão a nota fiscal que me autorizada trocar o tal boné. E assim foi feito. 

E sei que isso já aconteceu com todo mundo. Todos, invariavelmente todos, já foram injustiçados na infância por um inocente e bem intencionado Amigo Secreto de final de ano. Todos.

Mesa grande, torta no centro, cachorrinho-quente, refrigerante em garrafa de vidro, brigadeiros, branquinhos, pasteizinhos dourados, cores e mais cores. Em um instante, tudo ia à ruína. Todo o encanto da festinha de final de ano e da surpresa que aguardava o momento das revelações, tudo desmoronava. A realidade se transfigurava enquanto você abria o pacote de presente e de dentro dele surgia uma dessas criaturas repugnantes. Porque era isso mesmo que eu via quando rasgava o papel colorido e avistava um par de meias, ou um baralho, ou um dominó, ou uma carteira do He-Man com figuras reluzentes que se alternam com o movimento do objeto. Repugnantes, era isso que eram aqueles presentes. 

Na maioria das vezes, eu deseja, como toda a energia do meu ser, estar com o presente que eu mesmo havia dado. Sem sombra de dúvida que ele era melhor. Enquanto escolhia o presente, eu ainda conservava a empatia, o carinho e a preocupação com a satisfação do outro. Mas eles não. Eles nunca me respeitavam. Eu era, pela primeira vez, um injustiçado.

Mas teve uma vez, uma única vez, que eu também servi deste veneno. Mas sem culpa. 

Estávamos às vésperas da festinha da escola e eu ainda não tinha comprado o presente do Luiz Fernando. Na real, não imaginava o que dar. Minha mãe veio com a solução. Como ela estava indo para o centro, passaria em uma loja qualquer e compraria uma camiseta. Topei. 

“Mas nós?!”, eu reivindicava uma explicação convincente da minha mãe. Por que ela havia escolhido aquela camiseta que ensinava a fazer nós de marinheiro? Por que, meu Deus? Surf, futebol, marcas, mulheres, tudo bem, mas nós? 

Luiz tinha a cara da injustiça no dia seguinte. Certamente, ele se fazia a mesma pergunta que eu havia feito à minha mãe há um dia. Por que nós? Com que cara eu olharei para as pessoas quando, mesmo sem ser um marinheiro, eu estiver vestindo uma camiseta que ensine a fazer nós?

Mesmo sem o peso da culpa, eu havia dado seqüência àquela sina. A de que os Amigos Secretos todos, sem exceção, surgiram na vida das crianças para que elas, desde cedo, aprendessem o gosto amargo da injustiça.

***

Não, gente! Há muitos anos que isso vem sendo diferente. O Amigo Secreto da empresa que revelamos esses dias, por exemplo. A Bel acertou em cheio. 🙂

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Espelho meu: Marcinho

Era uma noite diferente aquela em que o Marcinho nos reuniu na casa do Dudu para contar o seu segredo. A Salete, ao seu lado, jovenzinha também, estava tão ansiosa quanto ele para que soubéssemos daquilo logo de uma vez.

Eles teriam um filho. Essa era a novidade. O Marcinho e a Salete teriam um filho. E, embora preocupados, estavam felizes. Estavam mesmo. E a decisão de casar poucos meses mais tarde, estava sendo tomada com essa mesma alegria. Nós? Ainda estávamos boquiabertos como se o Marcio ainda não tivesse terminado de contar a sua surpresa. “Estamos com vocês, para o que precisarem”, é o que lembro ter ouvido de alguém. 

Pouco mais de três anos depois, o Marcinho é outro rapaz. Leva outra vida. Estabelecido com sua família na casa que sempre imaginou, adquirida há pouco, tornou-se um responsável e competente pai e chefe de família. Quando eu crescer, já disse a ele, quero ser igualzinho.

Mas não é pela casa própria, nem pelos lábios alegres herdados do seu João Luiz. Também não é porque o Marcinho se revelou um superpai, um exemplar chefe de família. Nem pelo ala minuta dele – que é um primor. Nem pela sua apaixonada opção clubística. Nem pelos trambiques superengenhosos que ele inventa para trocar de carro ou trocar de moto. Não é por nada disso. O Marcinho está aqui hoje, na seção dos entrevistados da Uzina, porque o cara revelou-se, prestem a atenção, um exímio administrador de finanças domésticas.

Não, Marcinho, eu te pedi a foto do pescoço pra cima...

Não, Marcinho, eu te pedi a foto do pescoço pra cima...

Eu só fui me dar conta disso esses dias. O Marcinho mandou um e-mail convidando-nos para dar um passeio em Gramado. Planejava levar a Salete e o João num café colonial e para assistir o Natal Luz. Fiquei impressionado. Não que o Marcinho não pudesse se dar esse direito. Não é isso. Nem é nenhum luxo ir para Gramado. Me refiro às circunstâncias. Eu já admirava o fato de, antes mesmo de a Salete trabalhar, o cara encarar o orçamento familiar com o seu modesto salário de técnico em eletrônica. E agora ele vinha com essa de passeio a Gramado? Isso sem mencionar o telefone fixo e a internet banda larga que chegaram à residência dos Moura dias desses.

Não podemos considerar que a família do Marcinho, com seu atual poder aquisitivo esteja inserida na baixa renda. Acho que seria exagero. Também sei que às vezes, para alguma necessidade maior, ambos têm os pais para dar uma força. Sei também. Mas nada disso tira os méritos desse guri. Desse casal. Dar conta de comida, fraldas, roupa, gasolina, lazer, prestação da casa e contas para pagar não é fácil. Enfrentar as tentações do consumo moderno também é outro imenso desafio. E com uma criança. E na idade que João está. Marcinho, tu é o cara.

Bom, não fiquei só na admiração, fui em busca de explicações. Melhor, fui em busca de dicas. Daqui pra baixo, o Marcinho vai oferecer a vocês, ilustres 32 leitores da Uzina, dicas de como gerir com sucesso o orçamento pessoal ou familiar, dando atenção especial a esta época do ano em que as alegrias custam muitíssimo mais caro que em qualquer outro mês. Caneta e papel na mão. Fala, Marcinho!

 

EQUILÍBRIO FINANCEIRO, por Marcinho Mettler de Moura

Como será a ceia de Natal?

Faremos pratos baratos e estaremos nas casas de nossos pais, assim a economia é maior. 

Como reabastecer a geladeira?

Marcinho Mettler de Moura

Marcinho Mettler de Moura

 

Felizmente, recebemos vale-alimentação e cesta básica. Muito pouco do nosso orçamento é afetado nas compras. Mas sugiro o de sempre: comprar o mais essencial e pesquisar o preço.

E a escolha dos presentes?

Os presentes escolhidos são os mais simples e baratos, mas nem por isso menos importantes.

Dá para presentear a todos?

Como os presentes são mais baratos, todos podem, sim, ser presenteados.

Você aconselha cartão de crédito ou de débito?

Nosso cartão de credito é bloqueado, para evitar gastos. Comprem somente com dinheiro ou cartão de débito.

O dilema: levar ou não o filho ao supermercado?

Leve-o sim. Mas ensine que ele não pode ter tudo o que vê. 

 

DICAS DO MARCINHO

A dois

Faça a contabilidade sempre com a sua companheira. Assim, os dois sempre saberão o que podem ou não comprar.

Papo

Sempre dialogue com sua companheira e façam uma previsão de gastos extras que podem ocorrer

O plus a mais

Procure fazer coisas que te tragam renda extra.

Social

Vá a lugares que vocês possam, ao mesmo tempo, se divertir e gastar pouco.

Precaução

Sempre previna as contas como água, luz e telefone e quando receber o seu salário deixe o dinheiro guardado para elas. Mesmo que passem do previsto, é possível fazer previsões de gastos comparando com a do mês anterior.

Ajudinha sagrada

Tenha Deus sempre ao seu lado.

Nota do editor: embora pareça mais uma das piadas do Marcinho, não é. A fé do cara é outro valor importante a ser considerado.

 

A ENTREVISTA

A palavra mais bonita da língua portuguesa: vida

A mais feia: desgraça

O pior defeito da nossa sociedade: Diferenças das classes sociais

Como achas que os outros te veem? Não tenho opinião sobre isso

Qual tua idéia de domingo perfeito? Com a família e amigos, num dia de sol

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? Com 60 anos penso ter uma condição financeira mais estável, talvez já aposentado e vivendo com a minha família no lugar conquistado durante estes anos

Como desejas que o João esteja com a idade que tu tens hoje? Desejo que ele esteja formado nos estudos, com uma carreira já traçada, e se esforçando para ser melhor do que o pai dele.

O que é o amor? Tudo para a minha vida

Qual tua memória mais antiga? Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos, nós morávamos em Poa e meus pais compraram uma casa em Canoas. Lembro muito da mudança que fizemos…

Qual tua idéia de felicidade? Ter Deus e a minha família sempre por perto

Onde gostarias de viver hoje? Eu já vivo no lugar onde sempre imaginei

Onde gostarias de passear agora? Por cidades onde não conheço, como Rio de Janeiro ou na Espanha

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? Eu não teria muitos problemas… mas talvez perderia o contato com pessoas distantes

Se pudesses eternizar alguem, quem seria?  Meu avô

O que é a morte pra ti?  É a tristeza da perda

O que tu fazes que te dá muito prazer? Dar risadas com meus amigos

O que fazes para espantar a tristeza? Fico próximo a Deus

Um filme: Dois filhos de Francisco

Um livro: não tenho o costume de ler

Um som/música:  3×4, do Engenheiros do Hawai

Um cheiro: perfumes suaves

Um lugar: minha casa nova

Um site: grêmio.net

Uma coleção (que tens ou já tiveste): carrinhos de brinquedo (tipo hot wheels) que hoje o meu filho brinca

Um doce: doce de leite (mumu)

Uma bebida: 1º Coca-cola e 2º Ceva

Um prato: Ala minuta

O que já cozinhou de mais extravagante? Não tenho nada de muito extravagante, só faço ala minuta, carreteiro, e massa com molho

O conselho que nunca esqueceu: sempre tratar as pessoas com respeito, educação e seriedade. E ainda ser honesto sempre

Um pensamento: a vida é cheia de obstáculos, mas nenhum é tão grande que não possa ser vencido por nós

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É isso!

“A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original”. (Albert Einstein)

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Minha trágica experiência em um estádio de futebol

Sexta-feira, o David Coimbra, escritor e cronista de Zero Hora, tocou no assunto das brigas entre torcidas. E com a peculiaridade que lhe é peculiar, com o perdão da repetição. Vale ler.

Sabem que eu já vivi a violência nos estádios? Em um deles, especificamente. Mas em um tempo em que era praticamente inimaginável tentativas de homicídio em jogos de futebol. Na mesma proporção em que era inadmissível assistir à partida de pé. Um cara de pé no estádio e um tiro, duas imensas improbabilidades daqueles tempos. Ficar de pé significava exclusivamente estar vivenciando o maior de todos os momentos do espetáculo: a iminência do gol. Sincronizados, todos punham-se de pé para acompanhar o lance. Não se confirmando, todos sentavam-se. Claro que sempre sobrava o mais distraído ou o tipo esperançoso, que sempre acreditava na roubada de bola e na arrancada inesperada e veloz em direção ao gol. Sempre tinha um. “Olha o mijoooooooo!”, era o que gritavam lá de cima. Da arquibancada superior. Umas tantas vezes a ameaça não foi só uma ameaça. Dava dó.

Foi nesses tempos, no tempo em que ir ao estádio de futebol apresentava menos riscos, que eu vivi a mais trágica das minhas experiências. 

O fato sucedeu-se no primeiro e último Grenal que assisti no Beira-Rio. Eu devia ter os meus dez ou doze anos. Não lembro qual era o placar quando aquele cidadão de preto, lá no meio daquele gramado verde, imenso e ensolarado ergueu o braço e encerrou o primeiro tempo. O intervalo era a hora de ficar de pé, de esticar as canelas, de comer pipoca e tomar aqueles refris que sempre vinham quentes e pela metade. Meu pai geralmente não levantava pra não perder o lugar. Ficava ali, sentado no seu jornal, descascando e comendo amendoim. Comíamos, juntos, uns quatro daqueles saquinhos. 

Mas naquele dia, no tal dia do Grenal no estádio do Internacional – que ainda era regional naquele época – eu quis comer um cachorro-quente. Cachorros-quentes eram uma extravagância para aqueles tempos. Isso porque tinha que sair do lugar, com o enorme risco de não encontrá-lo mais depois, ultrapassar a multidão para alcançar as lancherias dos estádios. Deixamos o nosso lugar e vencemos a multidão.

Só que a experiência que tive aquele dia, na lancheria do Beira-Rio, ficou gravada na minha lembrança. 

Meu pai pediu o lanche e o pôs nas minhas mãos. Sem dúvida, devia ser do tamanho que são hoje os cachorros-quentes.Nada de anormal. Feitos naquele pão meio-doce, de porte mediano. Para mim, era maior. Era enorme. Minhas pequenas mãos desapareceram debaixo do pão e eu fiquei ali, observando aquele molho e aquela salsicha enquanto meu pai pagava pelo pedido. Não estava sendo fácil administrar, mesmo com as duas mãos, aquele pão gigantesco. Assim mesmo, arrisquei duas ou três mordidas. “Ô meu, me dá um pedaço disso”, fui em seguida abordado. O menino não parecia estar querendo só um pedaço, além do que, era incomum os torcedores dividirem seus cachorros-quentes uns com os outros. Bem incomum. O fato é que eu havia resolvido que daria mesmo um pedaço do lanche para ele. Juro que daria. Não tivesse ele afundado repentinamente sua mão suja no meio do meu cachorro-quente e dado o fora dali. Assim, do nada, sem pena nem piedade. 

E eu fiquei ali, estático, assistindo a cena posta na minha frente. Minha generosidade cristã havia determinado que, sim, eu daria um pedaço do meu cachorro-quente a aquele menino que devia estar faminto. Sim, eu juro que eu daria. Mas porquê ele agiu assim, eu não podia compreender. 

Por um motivo mais do que justificado, nunca mais voltei ao Beira-Rio para assistir a jogos de futebol. Nunca mais. 

Agora, o que devem pensar nesse momento o jovem gremista que salvou-se da tentativa de homicídio dias atrás? E os jovens que participaram de tal barbaridade e experimentaram dormir em uma cela no Presídio Central? E a mãe de um deles que ligou desesperada para o David Coimbra esses dias suplicando pela liberdade do seu filho? Todos tiveram suas vidas marcadas pela violência instalada nos estádios. Que não ocorre só lá, seu sei. Acontece que o crime encontrou na multidão dos estádios e na cumplicidade das organizadas o que precisava para cometer com empáfia os seus pecados. E, convenhamos, já passou do limite. Os temidos não são mais eles, os lançadores de sacos de mijo e os larápios, roubadores de cachorros-quentes.

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