Arquivo do mês: setembro 2008

Mais enganados pelo CLJ

Sorte nossa ter mais jovens sendo enganados pelo CLJ.

Escrevo esse texto perto das 15h de um sábado. Nesse mesmo horário e dia da semana, há alguns anos já me preparava para sair de casa, violão nas costas, para viver parte do meu sábado em função dessa causa. Enganei-me muito com esse movimento. E ganhei muito com isso.

Agora vejo que mais jovens estão nessa.

Aos sábados à tarde, salões paróquias de centenas de cidades neste e em outros Estados estão repletos de gente engajada nessa causa nobre: levar a mensagem da fé, da esperança e da caridade para mais pessoas. Neste final de semana, em Salvador do Sul (RS), mais um Cenáculo de Maria acontece. Mais de cem jovens voltarão de lá de ânimo renovado e com roteiros do caminho do bem.

Sorte da sociedade. Sorte do nosso futuro e dos filhos dessa geração. Com a desestruturação da família, muito mudou. Muito mais ainda mudará. Nos lares dos ricos, os pais precisam trabalhar e pouco tempo dedicam para a criação adequada de seus filhos. Deixam-nos com alguém para cuidar. Nas casas dos pobres há menos tempo ainda para coisas elementares como diálogo, afeto e compreensão. A necessidade de ter com o que preencher o prato no dia seguinte é a prioridade de pais e mães, com seus filhos numerosos. “É ruim acordar de madrugada pra vender bala no trem. Se eu puidesse eu não seria um problema social”, já ouvimos do Seu Jorge em Problema Social.

A perspectiva divulgada na imprensa essa semana de que já estamos tendo famílias menores é um alento. Talvez aumente a dedicação para preparar os pequenos para a vida. Não há perspectiva de melhora se a educação não acontece. “Não dá pra plantar mandioca pra nascer jabuticaba”, já diria Luiz Vieira, poeta e cantor brasileiro.

Soma-se a isso a educação risível que temos na maioria das escolas do país. O resultado são jovens agindo com pouco limite ético, cada vez mais vulneráveis às armadilhas das drogas, da violência e do crime.

Dia desses participei de um jantar em Canoas pra comemorar os 30 anos do CLJ aqui na cidade. Da geração da internet, dos shopping centers, dos mp3 players ou da necessidade de trabalhar, o movimento ainda consegue reunir mais de uma centena deles. Quase não cabiam na foto final. Sorte da sociedade ter iniciativas como essa e outras como aliadas. Na ausência da família, são eles que preparam exércitos de voluntários para uma guerra moral que é travada todos os dias nas escolas, nas ruas, nas salas de estar, nos quartos fechados. Batalhas e batalhas já põem em trincheiras opostas a virtude e a ganância, a honestidade e a individualidade, a solidariedade e o egoísmo. Sorte dos pais que têm seus filhos no caminho do bem. Sorte deles. Sorte da sociedade. Mais sorte que juízo.

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Abaixo, alguns depoimentos que recebi do exército do bem. Se quer ler mais, clica aqui.

Marla
Ai, Ju, coisa boa te ler sobre o CLJ – sim, eu também fiz! E realmente foi muito legal.
Adorei!
Bjão 

Adriele Feix
oiiii!
estava fazendo uma pesquisa no Google e encontrei teu texto!
levei um grande susto ao ler o título, mas fiquei muito feliz ao terminar de lê-lo!!!
texto maravilhoso!!!
escrito por um ser iluminado pelo Espírito Santo!!!
parabéns!!!
participo do CLJ da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, de Estância Velha, Diocese de Novo Hamburgo…
fica com Deus!
que Ele te projeta e guie teus passos sempre!!!
abraço!
Shalom!

Naná
A Paz de Cristo!!!
Olá!!!

Estava querendo ver uns cantos de outros movimentos e encontrei o seu texto.
fiquei pensando o que será que levara uma pessoa a pensar assim????
Por curiosa resolvi ler, mas fiquei muirto feliz ao terminar de lê-lo!
Eu não conheço o Canta Brasil, mas o CLJ conheço bem, a pouco tempo fez 7 anos que estou nele, e concordo com o que você escreveu, sendo que é bem parecido com o que eu já fiz, tirando a parte de ensinar violão, e colocando a meia-lua.
Faço parte do CLJ da Paróquia São Cristóvão, de Estrela, recentemente Diocese de Montenegro.
Fique na paz, e continue a fazer esse trabalho maravilhoso, que é de levar o Cristo para todos.

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Meu sobrinho já é um feto!

Esta é a primeira vez que escrevo aqui sobre meu sobrinho. Meu primeiro sobrinho. E porque hoje é uma data célebre: ele ultrapassa seu terceiro mês de vida, deixando a condição de embrião para assumir a aspecto semelhante ao adulto e tornar-se um feto.

Meu sobrinho existe em seus aproximados 61mm de vida. Já tem genitália externa – embora não saibamos de qual se trata – estômago, bexiga, massa encefálica, além do esboço da coluna vertebral. Possui características de uma pessoa, rosto de gente. As unhas dos pés e das mãos já começaram a se formar (Catarina, se for você que está aí, já tem com o que se preocupar, portanto). 

Ainda não dorme, não chora, não pensa, não faz cocô, o feto. Mas já vive. Já deve sentir. Há algumas semanas, na primeira foto que tiraram dele, minha irmã dizia que o então ambrião era todo coração. Estava pulsando incessantemente e procurando a cada dia expandir sua singela forma de vida para outros membros, órgãos e tecidos. 

Por enquanto, meu sobrinho, de pouco mais de seis centímetros, é só uma simples manifestação de Deus. Porque só essa força oculta, onipresente, onisciente e onipotente pode fazer com que esse milagre aconteça: com envergadura de um prendedor de roupas, que flutua em uma substancia liquida, que pulsa um minúsculo músculo no seu centro e se transformará em um ser falante, pensante e com polegar opositor em pouco mais de seis meses. Só Deus para depositar nesse desconhecido ser toda sua milenar capacidade de criação mesmo sabendo que tipo de realidade ele vai adentrar. Só Ele.

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Macarrão ao pesto e à amizade

Ao pesto e à amizade

Ao pesto e à amizade

Tem duas mulheres que conheço de quem eu gosto muitíssimo. As conheço a mais de um ano. Bem mais tempo que conheço, por exemplo, o manjericão e a pimenta-do-reino moída. Esses dois, tem coisa de uma semana. Andava eu pelos corredores do meu supermercado preferido (pisc!) atrás precisamente deles dois, além dos familiares nozes, alho, queijo ralado e macarrão. A intenção era preparar o meu segundo prato oficial, baseado numa receita de macarrão ao pesto (aquele molho verde, sabe?), encontrada depois de uma árdua pesquisa de meia dúzia de cliques no Google. Digo, assim, baseado numa receita, porque eu acho que essa é a melhor desculpa para aqueles que tem convicções suficientes para supor que o seu próprio prato dará errado ao ponto de você se permitir dizer que inventou, ao acaso, uma nova receita. Só sua. 

Pois bem. O tal macarrão alimentaria, numa chuvosa noite de fim de inverno, as tais duas mulheres de quem falei, nomeadamente minha namorada Samanta Lançanova e Daniela Astigarraga (já leu esta palavra aqui? poizé). Abre-se aqui um parênteses para explicar que não, definitivamente não, a Dani não estava ali segurando vela. A Dani tinha planos de sair aquela noite. Juro que tinha. Por Deus. Mais que isso eu não posso revelar. Não insistam. Acontece que não rolou, digamos assim, e a Dani não saiu. Sorte nossa que ficou conosco. 

Com exceção das 500g de macarrão, o restante que fui buscar no súper, mais a salsa e o azeite de oliva, que vieram de casa, compõem o molho: uma xícara de chá bem cheia de manjericão, a mesma quantia de salsa picada, meia colher de chá de pimenta-do-reino moída, a mesma quantia de sal, dois dentes de alho amassados e picados, duas colheres de sopa bem cheias de nozes picadas e três quartos de uma xícara de chá de azeite de oliva extra-virgem. Faca a massa como você sempre faz ou peca ajuda se você nunca fez. Lembre-se: ela devera ser salgada também. No liquidificador, coloque todos os ingredientes. Não, a massa não. Misture na primeira velocidade. Um pouco de água — mas bem pouco mesmo — sempre ajuda aliviar o sofrimento do pobre motor. Certifique-se que a mesa esteja posta, a cerveja bem gelada ou o vinho a mão, antes de escorrer a massa e misturar a ela a então pasta verde, mesmo fria. E delicie-se.

Agora, parênteses de novo. Dizem que as relações, todas as relações, perdem o gosto depois de um tempo. Ficam insossos, iguais a cada minutos que gastam. Dizem também que o cozinheiro não acha graça no que ele mesmo prepara. Tudo tem o mesmo sabor, o tempero não funciona mais. Duas graaaandes bobagens. Tua vida tem certezas pregravadas, desde a segurança de que o sol nascerá. Se não cuidas, tu fazes tudo como se a realidade fosse uma só. Ignoras que na ponta do teu nariz correm a cada segundo milhares de possibilidades de você sentir tudo diferente. Aquele beijo e aquele macarrão, por exemplo. 

Quer ver? Afugenta-te da sociedade por algumas horas, reúne quem você gosta, cozinha e come com eles macarrão ao pesto e depois me conta.

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Pais, leiam isso!

Maravilhosamente
Por Fabrício Carpinejar

Vicente gosta de jogar futebol. Vicente gosta de jogar cartas de Supertrunfo. Vicente gosta de cavar a terra com pá e galochas. Vicente gosta de colecionar figurinhas. Vicente gosta de desenhar deitado no tapete. Vicente gosta de ajudar a mãe na cozinha. Vicente gosta de ir ao cinema e comer pipoca para acumular pontos. Vicente gosta de escolher sua roupa e colocar a camisa nova por cima de uma velha. Vicente gosta de jogar farelos para as pombas antes de chegar à escola. Vicente gosta de cortar os cabelos de seus bonecos. Vicente gosta de receber camisetas de times. Vicente gosta de tornear esculturas de argila. Vicente gosta de jogar videogame. Viente gosta de classificar restaurantes. Vicente gosta de dormir no carro. Vicente gosta de tirar fotografias. Vicente gosta de limpar os farelos dos salgadinhos nas calças. Vicente gosta de freqüentar o estádio. Vicente gosta de comer sorvete contornando as beiradas. Vicente gosta da sexta-feira.

Entre tantos gostos, o que meu filho mais gosta?

Observava o guri no final de semana. Com respeito. Como se fosse o pé direito de um quarto. Ele não parava quieto. Sua felicidade no final de semana é narração. Aponta e fala. Fala o que aponta.

Posso estar enganado, mas o que meu filho realmente gosta é de conversar.

Quando não cancelamos os ouvidos para forçá-lo a se ocupar com suas coisas. Não o empurramos ao seu canto e para seus brinquedos. Não o diminuímos diante de nossas leituras e afazeres miúdos.

O que fará uma criança crescer confiante é o tempo que dedicamos para escutá-la. É o tempo que propomos perguntas e a continuidade do raciocínio. O tempo em que legitimamos suas descobertas. O tempo em que não suspendemos sua curiosidade com elogios vadios: que bonito!, ótimo!, é isso mesmo!. Exclamações que pretendem enterrar o assunto e nos liberar para nossas atividades.

Ele se verá importante se eu valorizar o que ele escolhe para dizer, seus rascunhos e vacilações, seu modo de se organizar. Não é enchendo de mimos e presentes. Não é numa semana hiperativa, com passeios emendados e a adrenalina das surpresas. Toda criança tem um acesso estreito de sua imaginação para os pais. Deixará aberto se for usado. É tabuada: nenhuma criança dorme com a porta fechada, por que fechá-la durante o dia?

O autismo vem no momento em que a solidão é maior do que nossa capacidade de explicá-la.

Numa manhã e tarde modorrenta, com chuva intensa, trancados na residência, faltou luz. Escureceu dentro e fora. Acendemos velas e ficamos ao redor de uma mesa, brincando de adivinhar vultos, gesticulando fantoches nas paredes. A cera derretendo dá vontade de pescar sombras. De minha parte, conversava para matar o tempo e espantar o período de exceção. Reagia mais ao tédio do que à vida (mas é somente no tédio que suspiro). Restava a certeza de que era o pior dia do Vicente. Ele não fez nada do que admirava. Não brincou, não alisou o pó de seus carrinhos, não circulou pelo terraço.

Ao cabo da noite, ao apressar as cobertas e a virada do calendário, me confessou que nunca tinha sido tão feliz. Como? Sim, o óbvio é o imprevisível; por um momento contou com a audição de meus cílios. Maravilhosamente, eu olhei o que ouvia, não ouvia como quem olha. Sem querer, não descolamos um minuto da respiração. Um poderia embaçar o rosto do outro, tamanha a proximidade.

Meu filho procura entender o mundo. Posso ajudá-lo. Talvez ele tenha mais chance do que eu.

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Arquivado em Indicados pela Uzina