Arquivo do mês: agosto 2008

Espelho meu: Lizi, Jac e Sa


As Olimpíadas deste ano acabaram no último domingo de manhã. No mesmo dia, três meninas especiais e vencedoras acordaram diferentes. Não, mais do que com ressaca. Com medalhas no peito. Acordaram formadas. Nem ouro, nem prata, suas medalhas são feitas de um minério de valor inestimável, desconhecido por grande parte dos brasileiros, que o tempo não rouba, nem a traça da sociedade corrupta corrói. O conhecimento é isso.

Colocar lado a lado os jogos olímpicos, as medalhas que eles concedem e os diplomas de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda de Jac Oliveira, Liziane Cordeiro e Samanta Lançanova de Moura tem bons motivos.

Vocês viram, mesmo que no jornal ou revista, o estádio Ninho de Pássaro? Viram o Cubo D’Água? Poisentão. Pra mim, mesmo toda a suntuosidade desses dois monumentos, o avanço na beleza das cerimônias de abertura e encerramento dos jogos e as moderníssimas técnicas de medição de resultado não são páreos para a principal atração das Olimpíadas: a capacidade humana de superar seus limites.

Sa, Lizi e Jac começaram a faculdade, há quatro, cinco, seis ou sete anos, como favoritas. Como o Phelps na natação ou os quenianos nas provas de resistência. E como eles, as três confirmaram o favoritismo. Mas como o Phelps ou as seleções mais fortes, o favoritismo não admite fraqueza. Não é menor aos favoritos a entrega, a luta, a perseverança. Não é menor o mérito. A As, minha namorada, recebeu os sonhados chapéu e canudo na noite do dia 22 de agosto, minutos antes de cantar, orgulhosa, o hino riograndense bem alto, para todo mundo ouvir. Inclusive seu pai, mãe, avó e avô. A Lizi e a Jac colaram grau juntas, no dia seguinte, um sábado. O sol estava alto quando tocou Quando o sol bater na janela do teu quarto pra Jac desbravar o quarto, melhor, o palco, rumo à grande conquista. E a Lizi. Bom, a Lizi carregava no rosto feliz daquela tarde a fisionomia de quem venceu. Não sei se um algoz, não sei se o tempo, não sei se a lógica. Só sei que a Lizi venceu todos.

Tive o privilégio de estar na formatura das três e ver a alegria das três. E ver o orgulho dos pais das três enquanto batiam palmas e ofuscavam a visão com lágrimas. O que pensavam os pais? Não sei. Isso não se escreve. Foi bonito, isso eu juro que foi.

Tive o privilégio de ser o namorado de uma e o convidado das outras duas para esse momento memorável. De realização pessoal, de conquista, de vitória. Parabéns!

Com vocês, as formadas.


Liziane Cordeiro, jornalista

Lizi

Lizi

– A palavra mais bonita da língua portuguesa: saudade
– A mais feia: maldade
– O pior defeito da nossa sociedade: injustiça social
– Como achas que os outros te vêem? cara-de-pau
– Qual tua idéia de domingo perfeito? com sol e chimarrão
– O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo daqui 60 anos? com 86? espero, primeiro, estar viva! o lugar não importa, mas junto com a minha família, filhos e netos… 
– Qual tua memória mais antiga? tenho tantas, mas não sei qual é mais antiga que qual. lembro de cantar uma música que inventei em cima de uma mesa, gritando, e todo mundo em volta olhando e rindo. não sei se tinha 2 ou 3 anos. lembro até um pouco da letra “é por isso que eu canto, é por isso que eu grito”. composição das melhores!
– Qual tua idéia de felicidade? ter satisfação nas pequenas coisas, fazer o que se gosta, estar perto de quem se gosta
– Onde gostarias de viver hoje? no Rio de Janeiro
– Onde gostarias de passear agora? em Buenos Aires, bem acompanhada
– O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? deixaria de ter contato com muitos amigos, fato propiciado pela internet
– Se pudesses eternizar alguém, quem seria? ninguém
– O que é a morte pra ti? algo que um dia vai acontecer comigo e com todo mundo, portanto, no stress
– O que tu fazes que te dá muito prazer? sexo? Hehehe, to brincando! gosto muito de assistir a um bom show! fotografar…
– O que fazes para espantar a tristeza? faço piadas sem graça de tudo, até na pior das desgraças
– Um filme: across the universe
– Um livro: o estrangeiro
– Um som/música: Nando Reis
– Um lugar: Rio de Janeiro
– Um site: www.clicrbs.com.br?  não! www.unisinos.br? não! hehehe E o site é: www.google.com.br
– Uma coleção (que tens ou ja tiveste): gibi
– Um doce: chocolate
– Uma bebida: coca-cola
– Um prato: pizza!
– O que já cozinhou de mais extravagante (da torrada com orégano ao pato ao molho de laranja)? ovo frito
– O conselho que nunca esqueceu: não sou boa de lembrar conselhos, nunca aceitei muito bem receber conselhos. sou mais de um bom papo argumentativo, que me faça pensar e rever as coisas
– Um pensamento: é fuçando que se aprende (criei ontem)

Jacqueline Oliveira da Rosa, jornalista

Jac

Jac

– A palavra mais bonita da língua portuguesa: superação
– A mais feia: mentira
– O pior defeito da nossa sociedade: violência
– Como achas que os outros te veem? vixe, difícil essa… acho que me vêem como alguém forte. Isso não significa que eu me veja da mesma forma.
– Qual tua idéia de domingo perfeito? cinema e passeio na Redenção… ou DVD e edredon (de orelhas)!
– O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? bah, isso tá muito longe. Não faço planos longínquos assim pois posso esquecer de viver o presente.
– Qual tua memória mais antiga? os Natais passados com meus padrinhos em Pelotas…
– Qual tua idéia de felicidade? satisfação profissional e as pessoas que amo perto de mim e, se elas não mais estiverem fisicamente perto de mim, que eu consiga conviver bem com a lembrança que ficar de cada uma delas. Felicidade é, sobretudo, aceitar que nem tudo na vida é como idealizamos.
– Onde gostarias de viver hoje? Porto Alegre estaria de bom tamanho
– Onde gostarias de passear agora? num spa bem relaxante, com banho de ofurô e tudo mais
– O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? ué, tudo o que faço hoje com a internet! Acho que eu seria bemmm mais triste…
– Se pudesses eternizar alguém, quem seria? meu pai
– O que é a morte pra ti? uma saudade que não passa
– O que tu fazes que te dá muito prazer? sexo? hehhe. Fotografar!
– O que fazes para espantar a tristeza? ouço música, converso, durmo, fotografo…
– Um filme: putz, só um? Laranja Mecânica
– Um livro: Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago
– Um som/música: só uma?? Quando o sol bater na janela do teu quarto
– Um lugar: meu quarto
– Um site: www.flickr.com/photos/jacoliveira é claro!
– Uma coleção (que tens ou ja tiveste): latinhas de refrigerante (já tive)
– Um doce: chocolate (forever)
– Uma bebida: água
– Um prato: carreteiro com feijão e salada de alface
– O que já cozinhou de mais extravagante (da torrada com orégano ao
pato ao molho de laranja)? fusilli integral com requeijão, alecrim e presunto
– O conselho que nunca esqueceu: olha, eu esqueço tudo… mas, o importante sempre fica na essência. Então deve ter sido os conselhos de nunca desistir das coisas nas quais acredito.
– Um pensamento:
Valorize o hoje e quem está a seu lado. O amanhã pode não chegar.


Samanta Lançanova de Moura, publicitária

Sa

Sa

– A palavra mais bonita da língua portuguesa: saudade
– A mais feia: maldade
– O pior defeito da nossa sociedade: egoísmo
– Como achas que os outros te veem? sei lá… como vc me vê?
– Qual tua idéia de domingo perfeito? almoço com a família e (parque da) redenção com os amigos
– O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? viajando pelo mundo
– Qual tua memória mais antiga? do meu pai dizendo q era a última mamadeira q ele iria comprar. pq eu quebrava uma atrás da outra, tinha uns 2 para 3 anos. (detalhe: logo depois eles começaram a comprar as mamadeiras de plástico) 
– Qual tua idéia de felicidade? poder trabalhar naquilo q ama, morar perto da família e ter amigos para vida toda
– Onde gostarias de viver hoje? em uma fazenda, cuidando dos meus cavalos.
– Onde gostarias de passear agora? Machu Picchu
– O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? tiraria férias
– Se pudesses eternizar alguem, quem seria? minha mãe
– O que é a morte pra ti? …
– O que tu fazes que te dá muito prazer? trekking
– O que fazes para espantar a tristeza? Eu não a espanto, aproveito o momento de tristeza …deixo ela ir embora sozinha.
– Um filme: todos do Indiana Jones….
– Um livro: O Tempo e o Vento
– Um som/música: Teatro dos Vampiros
– Um lugar: minha cama
– Um site: Google
– Uma coleção (que tens ou ja tiveste): papel de carta
– Um doce: quindim
– Uma bebida: vinho
– Um prato: churrasco
– O que já cozinhou de mais extravagante (da torrada com orégano ao
pato ao molho de laranja)? massa verde (com espinafre) com molho branco de alegrim
– O conselho que nunca esqueceu: faz o q eu digo e não o que eu faço
– Um pensamento: …

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Nosso perene conhecimento

Cônego Engelberto era como todos chamavam o padre grande, velho e inteligente que chefiou a paróquia aqui perto de casa por muitos e muitos anos. Em especial, na minha infância e adolescência. Era também polêmico o Cônego Engelberto. A começar pela pronúncia do seu nome. Os crentes dividiam-se entre os que pronunciavam o jê de Engelberto como jê de gato e os que diziam o mesmo Engelberto com jê de gente. Sabem? Engelberto com jê de gato pra uns, Engelberto com jê de gente pra outros. Era dura a disputa.

Agora, o Cônego Engelberto dividia mesmo opiniões por sua intolerância. E ela aparecia, por exemplo, na sua longa homilia das missas, aquela explicação das leituras bíblicas que os padres fazem. Durante muitos anos, tinha como certo que o sermão, no que há de pejorativo na palavra sermão, tinha nascido ali, na homilia no Cônego. Embaixo de sua enorme careca sardenta, o velho padre ajeitava-se demoradamente na cadeira de estofado bordo, enquanto todos o aguardavam, em silêncio, começar. Isso porque o Cônego Engelberto não gostava de barulhos enquanto falava. Uma vez ficamos nós três, pai, mãe e eu, mais um montão de gente, sentadinhos, aguardando um bebê parar de chorar para recomeçar a ouvir as afadigadas palavras do Cônego Engelberto.

Mas não foi só a intolerância dele que me marcou. Foi o raro conhecimento. Principalmente este. Até hoje, ouve-se falar das inteligentes, das cultas palavras que saíam daquele senhor. Das análises políticas, econômicas e sociais da paróquia, da cidade e do país. O Cônego divagava sobre a importância cultural das telenovelas e falava de religião com propriedade. Mais: conhecia línguas, muitas línguas. Eu nunca tive o prazer de conferir, mas ouvi mais de uma vez dizerem que o Cônego conhecia não-sei-quantos idiomas. Sete? Uma coisa assim, seis ou sete. Incrível.

E isso, que o Cônego Engelberto tinha um grande conhecimento, isso nunca foi polêmico pra ninguém.

Sabem que um dia ele, o Cônego Engelberto, virou pra mim e me disse uma coisa que nunca esqueci? Olha, essa nunca contei pra ninguém. Estávamos minha irmã e eu na casa paroquial, minha irmã resolvendo alguma coisa do CLJ e eu de metido. Ele virou pra mim e disse:

– E esse menino, quem é? Vai dar um moço inteligente. Essas duas entradas no cabelo, na frente, isso indica que será um moço muito inteligente – e ensaiou um sorriso amigo como só quem o viu sorrindo sabe como era.

Não, não me interpretem mal. Não é só por isso que eu admiro a sabedoria do Cônego Engelberto.

E foi esse senhor, o Cônego Engelberto, que já faleceu há um bom tempo – mais precisamente numa manhã ensolarada de sexta-feira, enquanto o Bacon e eu grampeávamos quadrantes –, que me ensinou o valor do conhecimento. Minha mãe disse um dia e eu nunca mais esqueci:

– Isso não podia ser assim. A pessoa morre e está tudo acabado, tudo perdido. Tudo. O que estudou, o que leu, o que aprendeu, as línguas que fala…

A estupefação da minha mãe me marcou. Sim, porque mães marcam quando ficam estupefatas com coisas naturais da vida. Não com internet ou com o que fazemos no trabalho. Mas com coisas de ordem natural. E com isso ela ficou mesmo admirada e desiludida. Desde lá, desde a morte do Cônego Engelberto, do fim dos seus sábios sermões e da admiração da minha mãe com tudo isso, que passei a valorizar o conhecimento que admiramos. Todo e qualquer. E a perenidade deste conhecimento. E a ter certeza de que ele, junto da fé, é algo que ninguém nos tira. Só a morte, talvez.

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O CLJ me enganou

Eu era um guri verde com os meus quatorze anos. Dentro da minha jaqueta parcá bege, da minha segunda ou terceira calça jeans e atrás da armação dos óculos, eu era um guri verde. E por ser assim, acho que exatamente por ser assim, fui enganado. Ludibriado pelo CLJ durante longos seis ou sete anos da minha vida.

E vou explicar isso pra vocês.

Antes de você continuar, uma novidade: sabia que este artigo virou livro? Sim, o livro O CLJ me enganou encontra-se em fase de pré-lançamento, e neste momento eu preciso da sua ajuda. Como não tenho editora, criei uma vaquinha na internet para arrecadar os recursos necessários para a editoração e impressão da obra. Funciona assim: você acessa o site abaixo, contribui com R$ 30 e já garante o seu exemplar. Acesse, saiba mais e deixe sua contribuição: www.catarse.me/ocljmeenganou

Para quem não o conhece, a sigla quer dizer Curso de Liderança Juvenil. É um movimento de jovens da Igreja Católica do qual participei durante uma longa e marcante fase da juventude.  Já desconfiava faz tempo de toda essa farsa. E a confirmação de tudo começou há algumas semanas. Quando conheci de perto e passei a admirar o trabalho do Movimento Cultural Canta Brasil.

A Jac, amiga minha e colega de trabalho, e eu fomos visitar, em Canoas, o Instituto Movimento Cultural Canta Brasil, no bairro Mathias Velho. O Canta Brasil é uma ONG nascida na periferia da cidade e obcecada em usar a arte para mudar a vida das pessoas. Isso
desde cedo. Desde a infância e adolescência. Na Casa Azul, que tem esse nome porque é uma casa e porque é azul, jovens dos bairros Mathias Velho, Guajuviras e Harmonia, todos de Canoas, recebem aula de dança e de música nos horários em que não estão estudando. Mas as aulas não formam dançarinos, nem formam cantores.

Sabem que muitas vezes eu pensei em não ir mais? Eu, um guri verde, sendo iniciado em um grupo de jovens, com mais de cem desses jovens, com a triste impressão de que acabaria perdendo a minha liberdade de sábados à tarde em troca de horas e horas de oração, de palestras, de exposição a pessoas novas e de oração de novo. Mas precisou de muito pouco tempo para que o Juliano daquele tempo mudasse de idéia, descobrisse que não rezaria demais, nem estudaria tanto assim – embora, mais tarde, eu fosse lamentar a falta de tempo para fazer mais das duas coisas. Demorou pouco tempo para eu pegar gosto por aquela gente, por aquele grupo.

O Canta Brasil tem uma estrutura de trabalho que dá mostras da seriedade com que a coisa é feita. Num primeiro momento, durante variadas oficinas artísticas aplicadas com centenas de crianças e jovens de oito escolas de três bairros, a coordenação, acompanhada por consultores profissionais remunerados, começa a identificar talentos e lideranças em ruelas e casebres onde a lógica, em muitos casos, só daria abrigo a famílias desestruturadas, crianças traumatizadas, adolescentes traficantes e jovens prostituídas. O método aplicado, chamado de tecnologia social, contraria essa coerência.

Fiz muito no CLJ que contrariou minha história de vida de jovem tímido e inseguro. Li em público, falei em público, dei palestras em público. Aprendi a tocar violão, ensinei a tocar violão, cantei, bati palmas e dancei. Liderei grupos de trabalho e coordenei retiros de três dias. Xinguei, fui xingado, magoei, fui magoado. Chorei e também vi muitos chorarem. Uns de alegria, outros de pura decepção. Levei alguns para participar do CLJ e conheci muitos amigos lá. Muitos mesmo. Gente de quem sou amigo até hoje. Vi gente crescer. Entrar novinho e verde como eu e ficar grande. Vi gente ensinar o que aprendeu. Vi gente abraçando desconhecidos e vi gente confidenciando segredos para um rosto que era um sorriso só. Vi a minha mudança e a de muita gente no CLJ.

Mais de três mil crianças e jovens já passaram pelo Canta Brasil desde o seu início há nove anos. Atualmente, são quase 600. Muitos hoje estão na faculdade, muitos fazem inglês, freqüentam academia. Muitos melhoraram seu aproveitamento no ensino fundamental e no ensino médio. Muitos outros permitiram que a ONG entrasse até em casa, envolvendo pais e irmãos na missão de ganhar dignidade e transformar a sociedade. No mínimo, da sociedade pequenininha da qual fazemos parte. Do nosso círculo de amigos e vizinhos. Alguns do Canta Brasil hoje são quase artistas. Cantam, dançam, compõem com gente famosa. Jovens que um dia foram beneficiados pela tecnologia social que os transformou. Levam adiante uma corrente do bem que não se paga, que não tem preço, mas que ao mesmo tempo muda destinos em uma sociedade movimentada pelo capital. “Aqui, a arte não os ensina apenas a serem artistas. Aprendem sobre disciplina, sobre ética, sobre cidadania, sobre auto-estima, sobre dignidade, sobre estética, sobre bons modos”, contou-nos uma das profissionais consultoras do Canta Brasil quando Jac e eu estivemos na Casa Azul. Como eu, eles também são enganados.

Durante seis ou sete anos fiz parte de uma sociedade paralela, que acontecia na maior parte do tempo nas tardes de sábado, em um salão paroquial de alguns poucos metros quadrados. Sempre disse isso pra mim mesmo e para alguns mais chegados. Porque o CLJ era uma sociedade, sim senhor. Para viver ali era preciso perdoar, era preciso não mudar de opinião, era preciso fazer diferente de todo mundo, para mostrar o verdadeiro valor de alguma coisa. Era preciso consolar, engolir sapos, entusiasmar, cantar e fazer silêncio, um profundo silêncio muitas vezes. Foi preciso valorizar as pessoas por mais que elas insistissem em mostrar novos defeitos, por mais que elas não tivessem a mesma opinião sempre, o mesmo comportamento que o meu. Também foi preciso fazer primeiro. Liderar pela palavra e liderar pelo exemplo. Tivemos que planejar muitas coisas e tivemos que riscar muita idéia no papel. Corremos muito para ficar tudo pronto, improvisamos e esquecemos de cumprir muita promessa. Vimos a sala sempre cheia e também a vimos com alguns gatos pingados. Valorizamos os que estavam e reclamamos da cadeira vazia. Vi muitos de quem eu gostava e até admirava deixar o CLJ. Tinham envelhecido ali e a vida os tirava de nós. Outros chegavam para continuar o trabalho. Vi o movimento se renovar exatamente dessa forma.

O que o Canta Brasil me fez lembrar do CLJ é que tanto o Canta Brasil quanto o CLJ são ferramentas de transformação social. Eu fui um transformado socialmente. Milhares de outros jovens que já passaram pelo CLJ também foram transformados. Hoje são professores, são médicos, são jornalistas, são advogados, são pais e mães de família, são padres, são empreendedores, são palestrantes, são criaturas humanas, são cidadãos. Como as crianças do Canta Brasil. Um movimento que trouxe do AfroReggae, do Rio de Janeiro, um jeito de fazer as coisas serem diferentes para os seres humanos. Sem cirurgia, sem penitenciária, sem cadeia, sem ganhar na megasena.

Por isso que, sem saber, eu e você, que já foi do CLJ, fomos enganados. Achamos que estávamos ali para aprender a rezar, para entender a importância do sete dons do Espírito Santo, do exemplo de Maria, a mãe de Jesus. Pensei que aquele curso lá no seminário de Viamão fosse para converter jovens e reforçar a fé deles em Jesus Cristo e na igreja católica. Pensei que me elegeram para coordenar o movimento ali da paróquia para fazê-lo crescer, para receber mais jovens, e para dar continuidade ao grupo. Que nada! Mesmo que hoje eu reze e que converse com o mesmo Jesus Cristo que me apresentaram um dia no CLJ, há mais de 12 anos, me sinto enganado. Um idiota.

Como o Canta Brasil também não existe apenas para formar artistas, o CLJ não nasceu para ensinar a rezar ou inflar as missas estado a fora. Mais do que participar de reuniões intermináveis, aprendemos a fazer gestão de pessoas; mais do que fazer silêncio, aprendemos a pensar na vida; mais do que fazer diferente, bolar uma coisa legal e escrever um texto que tocasse as pessoas, estávamos sendo pedagogos, publicitários, jornalistas, estávamos sendo criativos! Mais do que confira no pedido feito em silêncio na capelinha, aprendemos a valorizar a fé. Mais do que fazer primeiro, aprendemos a liderar.

O próximo sábado vai celebrar, com uma janta na paróquia Nossa Senhora das Graças, em Canoas, os 30 anos do Movimento Curso de Liderança Juvenil, o CLJ, dessa cidade. Mesmo não estando, todos as centenas de milhares de jovens que emprestaram parte de suas vidas a grupos do CLJ país afora estarão jantando conosco. Muitos de nós hoje, mesmo enganados, ludibriados, podemos olhar pro canto esquerdo de cima do olho, lembrar do tempo bom que não volta nunca mais e dizer, a si mesmo, com orgulho, que fez o mundo um pouco melhor porque nele viveu e porque por ele passará.

Em foto clássica, retiro do CLJ da minha irmã, de quem recebi o convite para fazer parte do CLJ

Em foto clássica, retiro do CLJ da minha irmã, de quem recebi o convite para fazer parte do CLJ

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O fim do volante de contenção

Rafael, a invenção gremista

Rafael, a invenção gremista

Mesmo que a imprensa do centro do país atribua a magnífica campanha do Grêmio no Campeonato Brasileiro a simples obra do acaso – um campeonato sem times imbatíveis fica mais fácil de ser vencido, segundo eles –, é difícil de acreditar na realidade que os olhos gremistas estão vendo. O time fez 15 gols em casa e inacreditáveis 20 fora – 11 em apenas dois jogos longe de Porto Alegre. É o melhor ataque. Mais de 70% de aproveitamento. Goleiro menos vasado. Na defesa, há três torres gêmeas – essa expressão também vem dos colegas paulistas – e um goleiro com má formação. Tem reflexo e membros superiores anormais. Mas está no meio de campo o pulo do gato do tricolor gaúcho: O clube decretou o fim do centro-médio que passava 90 minutos fungando na nuca e pisando no calcanhar do meia de armação do time adversário. Eduardo Bueno, atenção: no atual time do Grêmio não há volantes de contenção! Nosso primeiro homem de marcação do meio de campo é Rafael Carioca.

Rafael Carioca é o que há de mais moderno no raçudo futebol gaúcho.

Quase nunca escrevo sobre futebol aqui na Uzina. Sou ótimo expectador e um péssimo entendido de táticas e estratégias futebolísticas. Mas dessa vez não me agüentei. Isso porque comecei admirando o Rafael quando ele ainda jogava na meia. É o tipo de jogador que tu reconheces só pelo caminhar ou pelo toque na bola. Lembro do burguês, meu amigo burguês, que anda pelas bandas de Chapecó, quando descrevia essa última virtude. Uma vez, no primeiro grau, o burguês veio me dizer:

– Cara, o Artur (digamos que seja Artur) joga muita bola. – e eu percebia como era difícil pro burguês admitir aquilo. – Tu vi que quando ele toca na bola não dá barulho? Faz só um p. – dizia-me o burguês enquanto imitava estupefato o som de um pê mudo.

Por essas e outras, estranhei quando o Rafael Carioca sumiu dali, da armação do time, e apareceu na frente da zaga. E desfilava como se nunca tivesse saído dali.

O Grêmio marca de uma forma que chega a constranger. O Rafael Carioca é rápido suficiente para acompanhar o mais driblador do time adversário e é rude na medida para dar duro e tirar a bola sem violência. O zagueiro da sobra, fruto do esquema 3-5-2, é outro achado. Quando algum ávido atacante vence a marcação dos outros nove gremistas – porque todos marcam no time gremista – Pereira ou só acaba com a festa ou já arma mais um contra-ataque. E esse, o contra-ataque, tem em Rafael Carioca um voluntário veloz, com visão de jogo e um passe de trivela que eu muito dei nos meus tempos de pelada na pracinha da Figueira. Portanto, tenho propriedade para avaliar: é um baita toque de trivela esses do Rafael Carioca!

Li em um jornal daqui que o Grêmio teme o desgaste. São muitos jogos repetindo o time e – mentira! – não há peças de reposição. Talvez eu até concorde que o Rafael Carioca não tenha reserva hoje. Para as demais posições, porém, os banco atual não só dá conta do recado como causa grande insegurança nos titulares.

No fim desse meu primeiro ensaio boleiro, deixo a dúvida de um pessimista nato: qual será o defeito do Grêmio que ainda não foi descoberto? Qual a fraqueza ainda não revelada, capaz de arruinar uma campanha nunca antes vista em campeonatos brasileiros?

Será a inconstância do Roth? Será o grosseiro Marcel? Será uma eventual lesão do Rafael Carioca? Será uma expulsão e punição de Tcheco? Será a ruína do projeto da Arena? Será a derrota no Grenal da Sulamericana?

Deve haver algo.

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Sotaque e esforço: ilustres passageiros há 18 anos

Pois então. Esse é o quinto texto da série de textos meus do tempo de faculdade. Tempo esse de muitas observações e de muitas novas experiências lúdicas que só a academia pode proporcionar ao ser humano. O texto abaixo foi escrito sob inspiração de uma dessas novas experiências, neste caso o Jornalismo Literário. A proposta da professora era que passássemos um dia inteiro com alguém sobre o qual tinhamos resolvido escrever. Meu vida profissional estava intensa em outubro de 2003 e não pude passar um dia inteiro com o tio Roque, kombista em Canoas há muito, muito tempo. Mas o que está abaixo fala com honestidade sobre a vida deste homem. Fiquem à vontade.

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Sotaque e esforço: ilustres passageiros há 18 anos

Canoas, 2003. Região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Seu Roque espera o relógio marcar 5h40. Logo está de pé para tomar seu chimarrão e zelar pela horta e pelas muitas espécies de árvores frutíferas que cultiva no fundo do pátio onde mora, na rua Expedicionários, a poucos metros da escola Espírito Santo. Atrasados pelo horário de verão, só uma hora depois é que os primeiros raios de sol começam a pintar no chão de basalto as sombras das árvores cultivadas ao redor da grama, no meio das flores. Pontualmente, seu Roque aciona o portão eletrônico, enquanto conduz sua Topic prefixo 35. Da garagem até a ponta do pátio, um longo caminho de pinheiros-ouro o acompanha. O portão abre passagem à esquerda e acena para mais uma viagem. Este mês, tio Roque, como é chamado por uma de suas alunas, completa 57 anos de vida e 18 de transporte escolar. Com o forte sotaque da língua alemã, que falou até a juventude, orgulha-se. “Fez 18 anos em agosto que eu trabalho no transporte escolar e eu não faltei um dia. Nem na morte da minha mãe. Minha mãe morreu na quinta de noite e fizemos o enterro só no sábado de manhã. Porque eu não posso falhar e deixar as crianças. E, em 18 anos, nunca nenhuma delas se machucou nas minhas Kombis.” Em agosto de 1985, com uma Kombi ano 1976, prefixo 06, seu Roque fez seu primeiro transporte escolar.

São Paulo, 1822. A proclamação da independência, em 7 de setembro, tinha gerado o desagrado não só junto às autoridades em Portugal como dentro do Brasil. No entendimento da Coroa Portuguesa, nosso país deveria voltar à condição de simples colônia. Com a preparação das forças militares portuguesas para invadir o Brasil, nosso exército teve de ser reforçado. Não tínhamos homens suficientemente preparados. Para ocupar as cerca de 4.000 vagas abertas nos Batalhões de Estrangeiros, apenas 200 soldados rasos haviam se apresentado. Era necessário, portanto, trazê-los do exterior. Johann Anton von Schaeffer foi o homem recomendado pela Imperatriz D. Leopoldina para transportar os primeiros soldados e colonos alemães para o Brasil.

Com o major Schaeffer – um senhor de 42 anos – no comando da operação iniciada em 1823, no porto de Hamburgo, 27 expedições chegaram ao Brasil entre 1824 e 1829. O embarque dos alemães nos veleiros de três mastros, que o próprio major havia providenciado, só acontecia quando a embarcação estivesse devidamente adequada para o transporte de pessoas. Para a época, os navios eram confortáveis, equipados com tudo que é necessário para cuidar da saúde e da higiene dos passageiros. Mortes durante as viagens eram inevitáveis, mas nunca foram causadas por má alimentação ou falta de condições de higiene. Nesses primeiros anos, o major Johann Anton von Schaeffer esteve sempre à frente do processo migratório. O primeiro veleiro, chamado Argus, saiu do porto de Hamburgo em 27 de julho de 1823 e chegou ao Rio de Janeiro, trazendo 284 imigrantes, em 7 de janeiro de 1824.

Neto de um alemão, Cacildo Roque Weschenfelder, o seu Roque transporta crianças para escolas e creches de Canoas faz 18 anos. Há pouco menos de dois séculos, major Schaeffer era o responsável pelo transporte dos primeiros alemães ao nosso país. Dois homens unidos por providência da História e pela semelhança de seus ofícios.

6h40 em ponto. Enquanto sobe a rua Expedicionários, o barulho do motor parece despertar o sol e as centenas de sabiás que dormem nas copas das árvores crescidas na calçada. “Olha aquelas duas senhoras ali caminhando. Sempre encontro elas. E sempre no mesmo horário. Na volta, encontro elas de novo”, conta seu Roque, apontando para as duas senhoras, enquanto deixa à direita a escola Espírito Santo.

Até as 7h30, ele precisa embarcar, ao todo, nove crianças. A menor fica na creche municipal vovó Babali, algumas delas na escola Espírito Santo, e o restante no colégio Cristo Redentor. Nos turnos da tarde e da noite, seu Roque faz transporte ainda para as escolas municipais Duque de Caxias e Farroupilha, e para escola estadual Protásio Diogo de Jesus. O primeiro aluno da manhã é Israel, 12 anos. Estuda na sexta série do Ensino Fundamental do Cristo Redentor. Mora no bairro Estância Velha. Para seu Roque, mais um dia começou.

Em Canoas, 45 veículos – Kombi ou similares – estão autorizados a fazer transporte escolar, segundo informações da Secretaria de Transportes do município. Ao todo, cerca de 800 crianças utilizam o serviço. O valor cobrado pelos kombistas é sempre resultado do acordo entre os pais do aluno – ou ele mesmo – e o prestador. Desde 1985, já passaram pelas Kombis do tio Roque mais de 2.000 alunos. Hoje, ele transporta 40, divididos entre o turno da manhã, da tarde e da noite. Diante da grande responsabilidade própria do ofício, seu Roque não esconde o desgaste: “Puxar aluno é um sofrimento muito grande. Às vezes, penso em parar. É muita preocupação. Eu durmo cinco horas por noite. E, chegando aos cinqüenta, tu vais sentindo o cansaço, e começa a sentir o peso da idade, como se diz. Ainda semana passada eu estava que não agüentava mais meu nervo ciático”.

Segue a viagem. seu Roque já está no bairro Estância Velha, a poucas quadras da casa de Israel. Ele diminui a velocidade e olha para a calçada. “Está vendo aquele ipê-amarelo ali?”, pergunta, esticando o braço direito. “Fui eu que plantei, em 1971, quando morava naquela casa ali. Lembro que daqui pra frente era tudo açude. Morei cinco anos naquela casa.”

Seu Roque nasceu no dia 19 de novembro de 1946, na Comunidade de Piedade, distante 70 km de Porto Alegre. Filho do casal Francisco José Ebelhalb Weschenfelder e Rosalina Isabela Atz Weschenfelder, ouvia sempre de seu pai que o avô e um tio-avô vieram da Alemanha para o Brasil. A Comunidade de Piedade, hoje com 1.400 moradores, quase todos descendentes de alemães, pertence aos municípios de Bom Princípio e São Vendelino, ambos a cerca de 80 km da capital do Rio Grande do Sul.

Passou a infância inteira em Piedade. Em 1º de maio de 1967, com 20 anos, convidado pela irmã, seu Roque mudou-se para Canoas para tentar uma vida melhor. O primeiro emprego na cidade durou 10 meses. Trabalhou como ajudante do ônibus da escola Maria Auxiliadora, no centro de Canoas. Foi ainda em 1967 que seu Roque conheceu Neuza Mariotto, com quem se casou em 2 de outubro de 1971. Dos sete filhos que tiveram, quatro são falecidos. Os outros são Ana Márcia, 30 anos, Jorge Alexandre, 27, e Marcos Alexandre, 22. Seguindo o ofício do pai, Marcos e Ana Márcia também trabalham com transporte escolar. “A Márcia ficava na minha Kombi desde seis, sete aninhos. Ela tem vocação pra criança. Ela, com aquela idade, já ficava comigo, ela abria e fechava a porta, cuidava dos alunos e eu tinha a maior confiança nela.”

Antes de entrar para o transporte escolar, seu Roque trabalhou ainda como pedreiro. Também foi encarregado de serviços gerais durante 14 anos na escola Espírito Santo, onde teve sua primeira experiência conduzindo uma Kombi.

Seu Roque acena para a mãe de Israel. Arranca a Topic. Os próximos a embarcar serão João, 11 anos, Alda e Franciele, ambas com 14. João estuda na quinta série do colégio Cristo Redentor. As gurias, na oitava série da escola Espírito Santo. “Faz tempo que tu andas com o seu Roque, Alda?”, pergunto. “Desde a quarta série”, lembra a guria. “E você, Franciele?” A resposta demora um pouco. Vem baixinha do fundo da Topic: “Sexta, eu acho”.

Depois de Israel, João, Alda e Franciele, seu Roque pára na rua José Bonifácio, bairro Nossa Senhora das Graças. Desce da Topic para pegar o seu passageiro mais novo da manhã. Pedro, 6 anos, recebe um beijo da mãe para, em seguida, segurar a mão de seu Roque. Logo está sentado. De casa até a creche vovó Babali nada se ouve dele. “Já fazia dois anos que eu levava ele e ainda não tinha ouvido a voz dele. Mas dizem que na creche é um terror”, conta seu Roque, enquanto senta, fecha a porta da Topic e afivela o cinto de segurança.

Logo após levar Pedro à creche, seu Roque pega Mateus, 12 anos, aluno da sexta série da escola Espírito Santo. Às 7h15, pára em frente ao colégio Cristo Redentor para o desembarque dos primeiros três. Dali, a viagem continua até o bairro Cidade Nova, onde embarcam os irmãos Caroline, 10 anos, quinta série, e Jorge, 7, primeira série. Ambos estudantes da escola Espírito Santo. Na rua Santa Maria, seu Roque pára em frente à casa do último aluno e, como de costume, buzina e aguarda. Sem resposta, sai da Topic e, em segundos, retorna. “O Lucas não vai.” “Ele está doente?”, pergunta uma das crianças. “Não sei… acho que sim, a mãe disse que ele não vai”, responde seu Roque.

Às 7h25, cinco minutos antes do início da aula, a Topic prefixo 35 chega à escola Espírito Santo. Os mais velhos logo descem, despedem-se e somem. Os mais novos são conduzidos por seu Roque pela faixa de segurança. Quando chegam na calçada, logo saem correndo e desaparecem no meio das outras crianças.

Fechada a porta da Topic, às 7h30 sobrevém o conhecido sentimento do dever cumprido. Em alguns instantes, o sinal sonoro da escola Espírito Santo vai indicar o início de mais um dia de aula. Mesmo sem as crianças na Topic, seu Roque continua a andar devagar, com prudência. Antes de dobrar à esquerda, no final da quadra, aguarda a passagem de um carro e reencontra as duas senhoras que também apontam na esquina, retornando de sua caminhada matinal.

Como de costume, seu Roque pára na padaria para comprar os pães pro café da família. Às 7h40, chega em casa. O portão eletrônico cumpre o ritual de recepção. Em seguida, a Topic prefixo 35 está novamente estacionada na garagem, ao lado da Kombi, ano 1997, prefixo 39.

Quando o relógio da cozinha marcar 11h, uma delas estará só novamente. Para seu Roque, o dia terá começado mais uma vez.

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Espelho meu: a Ana


Para chegar no nome do próximo entrevistado, a Uzina sempre se utiliza de um princípio bem jornalístico: ser notícia. Ou seja, sempre acontece alguma coisa significativa que me levou a praticamente despir alguém na frente de todos, por meio de uma longa sessão de interrogatório. O argumento de que “é notícia” perde força porque, diriam alguns, a vida dos entrevistados não interessam para um graaaande número de pessoas. Oquei. Mas interessa aos convivas do entrevistado e para os – pasmem! – vinte e dois leitores da Uzina (segundo levantamento feito há poucos dias na comunidade “Eu leio a Uzina” do site de relacionamento Orkut e contabilizado até às 21h02 do dia três de agosto). Isso justifica.

Well (vejam o curso de inglês trazendo resultados!), digamos que neste caso a notícia da vez é que a minha irmã agora é doutora! Não, não. Não formou-se em medicina nem passou na prova da OAB. Recebeu pela PUC-RS o título de doutora em Letras.

O fato merece comemoração e a minha irmã merece os méritos. Pelo esforço, pelas virtudes, pela simplicidade. E falando neste último, nada melhor do que fazer o registro do feito aqui, na Uzina, local este que há coisa de um mês orgulhava-se por ostentar a marca de três assíduos leitores.

Boa leitura!

***

O Irmão Elvo Clemente sorriu naquela manhã.

Digo isso porque o cenário montado ao acaso para a apresentação da defesa da tese de doutorado da minha irmã explicaria mais tarde a singularidade daquela manhã. Os resultados encontrados na pesquisa não mereceriam ser especiais somente para a minha irmã, para nossa família, para o curso de letras, para os envolvidos no trabalho e para a área de pesquisa, deveria significar muito para toda a educação brasileira.

O Cenário

O Cenário

O conteúdo dos slides que se seguiriam estavam antecedidos pela foto ampliada da minha priminha Julia, de Luzerna, Santa Catarina. Roupa de dormir, braços escorados na escrivaninha, a Julia parecia empenhada em alguma tarefa escolar num desses cadernos pequenos de capa mole, com desenhinhos na capa. O sorriso da Julia para a máquina fotográfica dava indícios de que, primeiro, aprender é uma tarefa que precisa ser feita com alegria, com satisfação e, segundo, de que aquela pesquisa carregava consigo uma dose de emoção e entrega que a diferenciaria.

Quando as cortinas de persianas da sala onde estávamos taparam o sol que aparecia pela primeira vez depois de dois dias de chuvas contínuas em Porto Alegre, a quarta avaliadora da banca tomou a palavra. Mostrou-nos o sol, fez-nos rir e espremer os lábios de emoção algumas vezes. Falou bonito enquanto elogiou a tese e a Ana. E fez mais. Chamou a nossa atenção para o fato de que o sorriso da Julia não estava ali sozinho, na projeção de luz da tela branca. Em um quadro nem grande nem pequeno, suspenso na parede bege, lá estava ele, o sorriso espontâneo do Irmão Elvo Clemente. O mesmo que há 20 anos havia desafiado o curso de Letras da PUC a também preocupar-se com a alfabetização, forma primeira por meio da qual as pessoas aprendem a entender os pequenos símbolos que depois nunca mais sairão de suas vidas. E este era exatamente o tema central da tese que minha irmã apaixonadamente teceu ao longo dos últimos três anos e meio. Estava faceiro agora o Irmão Elvo. Realizado até, diria.

“Foste corajosa, Ana Paula. Foste atrevida.” Foi assim que esta última pesquisadora qualificou a escolha que minha irmã fez ao somar conceitos do ensino às informações de uma pesquisa da área de Letras. Em suma – e, confesso, é quase um crime tentar resumir todo aquele material – minha irmã quer que, aprendendo de forma mais eficiente, as crianças se alfabetizem com mais qualidade. E que estejam mais preparados para os ensinamentos do futuro. Que sejam cidadãos mais qualificados, críticos e, por que não, mais íntegros. É o que todos queremos da educação há tempos.

Não que só tivéssemos ouvido elogios durante as quatro horas que ficamos ali, assistindo a argumentação de quatro doutores. Não mesmo. Página a página, cada um deles deteu-se a inúmeros detalhes e pontos de vista dos dez capítulos distribuídos nas mais de 200 páginas. Tão pouco esses comentários todos diminuíram o mérito do trabalho. O oposto.

No fim de tudo, os aplausos foram menos sonoros que a nota verbalizada pela orientadora que mediava o encontro e pouco antes nos fizera umedecer os olhos mais algumas vezes. Ficamos com a forte impressão de que a minha irmã não fora só aprovada com louvor pela banca examinadora na manhã do dia 30 de julho de 2008. Suas virtudes como mulher, como educadora, como filha, como esposa – e como irmã – ficaram evidentes. Parabéns, Ana! Pelas possibilidades de educação que provaste serem possíveis e pelo exemplo que dás a todos.

A entrevista:

– do que se trata a tese? realizei uma pesquisa com turmas de alfabetização mostrando que explicitar o nome e os sons que as letras representam e realizar atividades que fazem as crianças pensarem na estrutura das palavras levam a um ótimo desempenho na escrita. Crianças que estariam alfabetizadas apenas ao final do ano letivo (ou até reprovariam!) já estavam lendo e escrevendo no mês de julho. É um trabalho que contribui para melhorar os índices de repetência na 1ª série e aumentar a competência em leitura e escrita nas séries posteriores.

– que caminho percorreste? minha graduação foi em Fonoaudiologia pela Ulbra (em Canoas, RS). O curso tem duração de quatro anos e meio, mas como eu trabalhei durante todo o período (e isso me deu grande experiência), me formei em sete anos. O Mestrado durou 2 anos e o Doutorado (que, em geral leva quatro anos) cursei em três anos e meio.

– A palavra mais bonita da língua portuguesa: criança
– A mais feia: doença
– O pior defeito da nossa sociedade: corrupção

Ana Paula Rigatti Scherer

Ana Paula Rigatti Scherer

– Como achas que os outros te vêem? alguém pacienciosa, estudiosa e simples
– Qual tua idéia de domingo perfeito? de qualquer jeito, passar com as pessoas que se gosta (família, marido…)
– O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos? quero estar ao lado do meu marido curtindo meus netos e ainda lecionando (que é o meu sonho). Quero estar vivendo aqui na Terra, pelo menos…
– O que é o amor? é o que dá gosto à vida
– Qual tua memória mais antiga? meu primeiro dia de aula no jardim de infância: eu e minhas coleguinhas Silvana e Sandra Mara de vestidinho xadrez azul, sentadas numa mezinha redonda.
– Qual tua idéia de felicidade? um dia como hoje (30/7) seria um bom exemplo (defesa de doutorado), pois me realizei profissionalmente e dei um lindo presente aos meus familiares. Mas acho que coisas bem simples podem me fazer feliz, também, como um chimarrãozinho no fim da tarde…
– Onde gostarias de viver hoje? aqui mesmo, estou feliz!
– Onde gostarias de passear agora? no calçadão de uma praia de temperatura bem quente…
– O que deixarias de fazer se a Internet acabasse? de me comunicar tão facilmente com as pessoas.
– Se pudesses eternizar alguém, quem seria? difícil. Acho que todos que amo.
– O que é a morte pra ti? ainda não consegui aceitá-la, ainda acho que é muito triste para quem fica.
– O que tu fazes que te dá muito prazer? falar em público sobre algum assunto que domino e gosto.
– O que fazes para espantar a tristeza? dou um abraço forte no meu marido.
– Um filme: Um lugar chamado Notting Hill
– Um livro: O sucesso é ser feliz (Roberto Shinyashiki)
– Um som/música: todas do Zé Ramalho
– Um cheiro: de mato e fogão à lenha dos fundos da casa da minha avó Araci
– Um lugar: Luzerna (SC)
– Um site: www.aletra-rs.com.br
– Uma coleção (que tens ou já tiveste): papel de carta
– Um doce: figo em calda (caseiro)
– Uma bebida: vinho colonial
– Um prato: sopa de bolas (da minha mãe)
– O que já cozinhou de mais extravagante (da torrada com orégano ao
pato ao molho de laranja)?
nenhum prato extravagante… mas um dia coloquei sal na forma do pudim e não ficou nada bom…
– O conselho que nunca esqueceu:  ouvir tudo o que vem dos pais, eles dificilmente estão errados.
– Um pensamento: “Que o mundo seja um pouco melhor porque nele eu vivi e por ele tu passaste meu irmão” (Canto “Unidos”, do CLJ, Curso de Liderança Juvenil, da Igreja Católica)

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