Cê-cedilha

A vida da gente é uma constante reedição. Fazemos leituras do mundo a nossa volta, reconhecemos pessoas, as que estão bem perto e as de longe, e ajustamos as coisas. Como refazer a cama, reorganizar os objetos do quarto, restabelecer critérios para as roupas do roupeiro. Reeditamos versões de nós mesmos para agradar nossa própria auto-crítica, para sentirmo-nos aceitos por nós mesmos e pelos outros. Por acreditar que sempre, invariavelmente, acordo uma nova edição todo santo dia, reedito textos aqui na Uzina. Esse, renasceu por ocasião dessa data: 12 de junho. Feliz Dia dos Namorados, Srta. Lançanova.

Cê-cedilha

Meu dicionário é um senhor de meia idade. Fechado, onde as folhas se juntam, a inscrição ‘1996′ — que eu mesmo fiz — se forma. Tem, portanto, uns onze anos. No mínimo. Boa idade para um dicionário. Idade suficiente para desconsiderar alguns vocábulos que devem ter surgido nessa década que se passou. Claro que não vou arriscar aqui nenhum deles. Não entendo de vocábulos. Faço uso deles às vezes, eles me saciam às vezes, os admiro, mas não entendo deles. Conheço poucos, aliás.

Cê-cedilha, por exemplo. Um cê em que se pôs cedilha, como diz meu velho Aurélio.

Como é curioso escrever o nome das letras. Zê. Ême. Tê. Ainda mais pela primeira vez. Cê-cedilha. Lembro de pouca coisa dessa vida, mas isso tenho certeza que ainda não tinha feito. Escrito cê-cedilha.

Mas foi importante pra minha formação como pessoa Me deixa mais completo. Mais letrado.

Como conhecê-la. Ela que leva cê-cedilha no nome. Me deixa mais completo. Não, não podia ser ésse, nem ésse-cê. Ela mesma protesta:

– Ainda tem uns que escrevem com ésse…

Tinha que ser cê-cedilha no nome dela. Não me peçam pra explicar. Na rua que me leva ao trabalho tem um prédio escrito padaria com tremas nos as. Isso, tremas, como de freqüente. Só que nos as. Alguém explica?

Assim como o cê-cedilha no nome dela. Tinha que ser cê-cedilha. Porque tem o som da força que ela não sabe que transmite, da espiritualidade e do afeto que ela sabe que carrega consigo.

Descobri-la é como encontrar o cê-cedilha entre tantas outras palavras nas páginas velhas do velho Aurélio. Páginas vividas, amadurecidas pelo tempo, transpassadas pelas traças e cupins. Ela que sempre esteve ali, abaixo do cecear e acima do ceceio.

Ah, cecear é o verbo do substantivo ceceio. De falar com a língua entre os dentes, o defeito de fala que aflige alguns por aí. Eu conheço uns tantos que ceceiam e nem sabem.

Cê-cedilha. Desvendá-la é como escrever cê-cedilha pela primeira vez. É soletrar o tempo e sentir o som de cada letra no momento certo, como se fosse nova, apesar de estar ali desde sempre, guardada no amarelado e sábio dicionário Aurélio.

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