Arquivo do mês: maio 2008

O Seu João e o Jornalismo

Minha formatura em jornalismo veio há poucos meses depois de sete anos de ida e vindas da Unisinos. Depois de um monte de entrevistas e trabalhos experimentais. Uma delas, pelo tanto que me fez pensar sobre o que seria minha profissão, virou crônica em fevereiro de 2004. Até personagens ganhou. Todo mês, nos primeiros dias, a Uzina terá um texto meu marcado pelo tempo de faculdade.

Embora estejamos convencidos que nunca o mundo foi tão dinâmico, com mudanças drásticas em todos os campos — a novela das oito com o último capítulo em um sábado, quem diria? –, contraditoriamente, há muito no jornalismo que continua exatamente como era. No mínimo, como há quatro anos. Boa leitura.

 

O Seu João e o Jornalismo

Marcele, a mais nova, casou na semana passada. E casou bem. Um cara legal, bacana e bem de vida. Foram morar num condomínio desses novos lá na zona norte. O Juarez, o do meio, engajou no exército e sonha com uma vida estabilizada. Acho que, fora a política, ser militar é a única coisa garantida nesse país, justifica Juarez sempre que lhe perguntam do quartel. A Martinha, a mais velha, trabalha na prefeitura há anos. Já tentou casar uma centena de vezes e nunca deu certo. O pequeno Betinho é a lembrança de um desses relacionamentos. É um guri sapeca. Faz cinco anos domingo que vem. Aconteceu. Foi no namoro com o Evandro. Conheceu-o quando estudava Legislação pra prestar prova pro concurso da prefeitura. Ele ainda mora ali pertinho da quitanda e às vezes vem buscar o Betinho pra algum jogo do Zequinha.

A quitanda é do seu João. O pai da Marta, do Juarez e da Marcele. Não consegue ficar parado. Logo que se aposentou como Encarregado de Manutenção, resolveu alugar uma pecinha na esquina perto de casa e montar uma quitanda. Dessas que vendem frutas e verduras fresquinhas e de vez em quando até tem preços mais baixos que o supermercado.

Seu João aprendeu a ser vendedor e a entender de frutas e verduras quando morava com os pais em Farroupilha há uns 53 anos. 54, para ser exato. Ele costuma contar que o seu pai foi o primeiro agricultor de lá a conseguir vender alguma coisa aqui pra capital. Diz que costumava vir com o pai vender as coisas na Ceasa. Conhecia todos e conversava com todos. O seu Osmar das rosas, o seu Jorge das beterrabas, dos aipins e das batatas. Lembra do velho Rui que já tinha uns 80 e lá vai paulada e continuava firme vendendo suas maçãzinhas que trazia de Vacaria. A dona Maria e o seu Alípio vinham de Bento vender uva na capital. Esse era o mais gente boa. Quando seu João ia embora sentia a barriga graaande… cheia de uva… tudo bondade do seu Alípio. Uva da boa.

Hoje, seu João vive de vender suas próprias frutas. E ensina ao Betinho a arte de ser um bom vendedor. Assim como era o teu bisavô, Betinho. Seu João acorda cedo. Três vezes por semana, compra as frutas e verduras na Ceasa ainda antes de muita gente acordar. Nos outros dias, sete horas já está abrindo a quitanda. Escolhe as frutas melhores e joga pra cima das mais passadinhas. Até o movimento aumentar, seu João aproveita pra dar uma lida no jornal. Diário Gaúcho. Ah, é melhor, diz ele. Uma que é mais barato e outra que a gente vê coisa da vida da gente, né? Outro dia eu li sobre o meu vizinho que foi preso. Ele era traficante e eu nem sabia, conta, enquanto exibe, sem se dar conta, a prótese dentária que ganhou da filha ano passado.

– A batata, tá quanto?
– A Branca meia cinco e a Rosa cinqûenta.
– E a banana?
– Caturra um e dez e a catarina um e meio.
– Não tá ruim não a banana… a batata levo amanhã. Vou esperar esse gringo baixar o preço.
– Não chora seu Valdemar, é o preço. Vai ver quanto tá lá no mercadão vai…

Passa o dia na quitanda. De meio dia, vai pra casa. Dona Lurde, esposa de seu João há 25 anos, nunca gostou muito de cozinhar mas nunca ninguém percebeu nada. À tarde, volta pra quitanda e só chega em casa quando o alaranjado do pôr-do-sol começa a aparecer. Sem a quitanda, a vida do seu João seria menos… vida, digamos. Ali ele vê os anos passar enquanto se diverte, trova com os vizinhos, toma chimarrão e lê o Diário. Soube esses dias pelo seu Valdemar, que assina o Correio do Povo, que o Lula anda viajando tanto quanto o FHC. Achou uma pouca de uma vergonha. Passa governo e entra governo e continua tudo a mesma coisa, resmungou. Má não muda nada nunca, sacramento!

“O que é importante pro seu João que está ali na quitanda todos os dias, levando sua vida, vendendo suas bananas?”

A frase é da ex-assessora de comunicação da CUT-RS, Cátia Marco. Nos encontramos ano passado em sua casa. Eu precisava fazer um trabalho sobre Teorias do Jornalismo e ela me atendeu com bastante gentileza. A frase surgiu ali. Ela mencionou o seu João. Assim, sem nada muito bem pensado. Acabou criando o meu personagem. A Cátia é uma jornalista que aprendeu a pensar o Jornalismo da forma avessa. A notícia sindical é, por natureza, assim: Jornalismo pra comunidade. Ela critica o nosso tradicional jornalismo das elites. Onde o mais importante são os índices da Bovespa e a cotação do Euro. E as bananas do Seu João?

“Cátia, o que tu pensas das teorias que dizem que a notícia está subordinada aos capitais políticos, econômicos e sociais?”, perguntei. “Acho que está subordinada, sim”, disse ela. “E isso acaba tornando a notícia distante da realidade de pessoas simples. O que é importante pro seu João que está ali na quitanda todos os dias, levando sua vida, vendendo suas bananas? A Guerra do Iraque pra ele é muito distante. Como tu aproximas as pessoas da notícia?”

A globalização é um dos maiores desafios do Jornalismo nesse século. É exatamente ela que desencadeou um processo que aproxima as pessoas da relevância da notícia. É desse ponto de vista que enxergo as coisas. O desafio está em servir as massas de uma informação que possa importar a todos. Este é um século sem distância, sem espaço de tempo definido e que não tolera desinformação. São toneladas delas que são despejadas sobre nós a cada dia e somos obrigados a incluir em nossa agenda a tarefa de saber tudo. Ou quase tudo.

Na época, até fiquei bastante preocupado com o tipo de Jornalismo que estava me preparando para praticar. Será mesmo um jornalismo das elites? Pra poucos? Confirmava isso vendo o grande público que o Diário Gaúcho conquistava a cada dia. Havia, sim, um público distinto. Um que lia Correio do Povo e ficava satisfeito em saber que a guerra do Iraque acabou e outro que ficou também satisfeito porque o prefeito prometeu fechar o valão que passa do lado da casa de sua sogra. Esse lê o Diário Gaúcho, vamos supor.

E há, ainda, um público bastante distinto. De um deles é que ainda sobrevive (e em abundância) os jornais de apelo popular e os jornais das comunidades.

É histórica a necessidade de um povo de querer ver falarem de si, das suas coisas, dos seus jeitos. Nas primeiras comunidades alemãs que ajudaram a colonizar o Rio Grande do Sul, já se via o velho e bom jornalzinho da comunidade.

O que comecei a pensar de novo nesse jogo é que, com a globalização, a notícia que interessa pro seu João e suas bananas já interessou ao leitor do Correio do Povo há algum tempo atrás. E tende a interessar aos dois no mesmo dia até. Cada vez mais e com mais velocidade, um acontecimento macro gera repercussões práticas no micro. O preço do óleo que o seu João compra pra vender na quitanda é resultado do preço da soja que o cara que faz o óleo pagou. Esse preço da soja é fruto de alta ou baixa das balanças comerciais que, sabe lá, porque cargas d’água resolveram oscilar.

Não que fenômenos desse tipo sejam novidades. Claro que não. O fenômeno que destaco é que parece que a cada dia a velocidade com que esses dois fatos – o micro e o macro – vão influenciar um ao outro é muito grande.

Bastou aparecer nos jornais a gravidade da crise da italiana Parmalat que já se ouviu rumores que o preço do leite iria baixar. E baixou mesmo. Foi uma medida adotada pela Parmalat Brasil para se ver livre dos estoques. A queda dos preços acirra a concorrência e só quem ganha são os consumidores. Como o seu João.

Foi a galinha oriental dar o primeiro espirro que a esposa do seu João, a dona Lurde, foi logo pensando que o quilo do frango ia baixar e ela ia aproveitar pra congelar bastante. Ouviu da vizinha que tinha alguma coisa a ver com as exportações brasileiras. Parece que o frango brasileiro é bem mais limpinho e não tem problema de pegar gripe, é uma coisa assim, explicava a vizinha.

– Bom dia, seu João. Quanto tá a batata gringo?
– A Branca setenta e a Rosa cinco cinco.
– Má tá mais caro que ontem? Má que gringo sem-vergonha, tchê!
– Te acostuma, seu Valdemar, te acostuma. A coisa tá feia… é o Euro subindo, a inflação alta, Nasdaq em baixa e as exportações do jeito que o diabo gosta…
– Hein?!

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13 de maio

Confesso pra vocês que sempre, desde a infância, questionei se ter nascido no dia da abolição da escravatura brasileira tinha algum significado. Para os céticos, óbvio, não tem nada a ver. Não sou cético nem um pouco. A pulga nunca saiu daqui de trás da orelha.

Eu acho que todo aniversário é uma forma de abolição. Você se desamarra do ano que passou. Você se desamarra das burrices que cometeu, das oportunidades que perdeu. Você se desamarra de quanto foi imaturo, inexperiente, inoportuno.  Você se desamarra do preconceito, da preguiça, da cobiça. Se desamarra da fraqueza, do medo.

O medo. Os negros escravos assim que deram de cara com a liberdade sofreram. O desconhecido assusta. Nós também sofremos e pensamos em voltar para o conforto da escravidão. Mas não podemos. O medo não pode nos escravizar.

A vida foi feita para ser desbravada por nós. Livres.

Hoje, 13 de maio, meu vigésimo sexto ano de vida deve ter mais algumas pequenas lições a me ensinar. Deve ter mais algumas pequenas amarras a desatar. Amém.

A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil.
Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte…
É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.

(Noites do Norte. Composição: Caetano Veloso/Joaquim Nabuco)

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Espelho meu: minha mãe

Essa é a estréia desse quadro aqui na Uzina. Espelho meu trará de tempo em tempo uma entrevista rápida com algum famoso — no meu círculo social. Uma foto, uma breve explicação e a entrevista. Será uma experiência interessante. Afinal, sempre é bom saber com quem a gente anda. Ah, e presta a atenção nas perguntas. Nunca se sabe quem será o próximo.

O primeiro Espelho meu é sobre a homenageda do último domingo, minha mãe. Também porque essa semana que começou marca mais um ano da minha ilustre passagem por esse mundo. Todos os anos, por uma obviedade lógica do calendário, essas duas datas se encontram, o dia dela e o meu dia. Portanto, por ter sido ela a primeira pessoa que conheci — e que amei — aqui está. Com vocês, Ema Maria Rigatti.

Minha mãe

A ciência e a religião ainda divergem sobre o dia exato em que eu e ela nos conhecemos. O fato é que fomos apresentados há pouco mais de duas décadas, mais precisamente no inverno de 1981. Embora eu tenha minimamente idéia de como tenha sido, desconheço as circunstâncias do encontro. Passamos a conviver intimamente até que um dia dei as caras nesse mundo. Nunca me disseram se nasci de olhos abertos ou fechados — já nascem de olhos abertos hoje, né? –, mas arrisco dizer que, sim, trocamos nosso primeiro olhar às 15h30 do dia 13 de maio do ano seguinte, uma quinta-feira, em Porto Alegre, no hospital Fêmina. Ao contrário de mim, ela não é uma gaúcha. Filha de Araci e Wilibaldo, descendentes de alemães, e mana de Nelsi, Mirna, Rudi e Paulo — só a primeira mais velha — a dona Ema nasceu em oito de junho de 1946 na cidade de Luzerna, no oeste de Santa Catarina. Hospital?

— Que hospital! — ela acabou de rir de mim. — Nasci de parteira.

Vou dizer quem é minha mãe hoje. Ex-professora de Matemática — elogiada por todos os ex-alunos que me encontram quando passeio por sua cidade natal –, canaliza sua energia em Canoas, Rio Grande do Sul, dando aula de catequese — não menos são os fãs –, entretendo-se com palavras cruzadas e sudokus — isso é só um jogo –, cuidando da casa, cozinhando e dando formas muito criativas a tecidos descartados por estofarias. De suas mãos saem enfeites de cuia, jogos de banheiro, tapetes, toalhas e sacolas de pano para compras. Mas não só. O bom chimarrão, que ela faz questão de preparar — ou de “reformar” — sempre antecede momentos de agradável conversa. 

Espelho meu: minha mãe

A palavra mais bonita: saudade
A mais feia: tristeza
O pior defeito: falsidade
O domingo perfeito: com os familiares
O que queres estar fazendo na velhice: com mais de 60 estou fazendo muita coisa que gosto (o destaque é dela)
Idéia de felicidade: quem dera todos a alcancem plenamente
Onde gostarias de viver: onde me sinto bem e respeita pelo que sou
Onde gostaria de passear: qualquer lugar, com pessoas queridas
Memória mais antiga: deitada num banco na varanda de casa, quando tive rubéola com nove ou 10 anos…
Se pudesses eternizar alguém, quem seria? meu pais
O que é a morte pra ti: um grande começo
O que fazes que te dá muito prazer: tudo o que exige criatividade e seja útil
O que fazes para espantar a tristeza: De tudo um pouco…
Um livro: o último que li, o Caçador de Pipas
Um som: hoje não tenho preferências, mas já tive
Um lugar: os verdes campos de minha terra…
Uma coleção que tem ou já teve: já colecionei etiquetas de roupas. Lembro que era menina e entrávamos nas lojas para pedir etiquetas. Mas, imagina, quem ia tirar etiquetas das roupas para nos dar?
Um doce: doce de ameixas de inverno
Uma bebida: vinho
Um prato: sopa de lentilha com bolinhos de batata
O que já cozinhou de mais extravagante: não lembro…
O conselho que nunca esqueceu: o respeito com os mais velhos
Um pensamento:
Nunca digas em dias de ventura
Que teu coração de outra alma é dono
Porque na noite escura
Tua própria sombra te abandona

 

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Crônica dos espaços

Prometi pros milhares de leitores da Uzina que, a cada início de mês – não sei quanto tempo isso vai durar –, colocaria aqui algum texto produzido por mim nos tempos de faculdade. Tempos bons. Aquela atmosfera me fazia bem. Enquanto o trem chacoalhava de uma estação pra outra eu viajava lendo ou pensando. A inspiração de um professor, uma frase perdida de alguém que conversava do meu lado. O silêncio dos passageiros também tinha sua utilidade. O cansaço vinha depois, já em casa. Tarde demais. Alguma coisa minha cabeça já tinha criado.

Bom, o texto a seguir, que recuperei de junho de 2003.

Crônica dos espaços

Onze em ponto era a hora do trensurb chegar na estação. Os vagões traziam gente de todos os tipos, mas em geral estudantes de universidades da redondeza. O trem passava e recolhia em diferentes pontos da região metropolitana, jovens e adultos que, enfim, terminavam mais um dia e retornavam para suas casas.

O ruído agudo que parecia sair de dentro da porta sinalizava que ninguém mais poderia entrar nem sair do vagão.

Retomando o movimento, o trem despedia-se respeitoso de mais uma tarefa cumprida. Aquela multidão de mochilas, pastas, e casacos pisava em solo firme e acumulava-se nos corredores que davam acesso à saída da plataforma. Acho que minha mãe compararia aquilo com um imenso formigueiro. Todos caminhavam triunfantes depois de mais um dia vencido.

O céu, sempre muito escuro, revelava uma bela lua. Estrelas. E muito frio. Era o tipo de dia que fora feito para ninguém sair de casa. Frio mesmo.

Na saída da plataforma, onde se vendem bilhetes para o trem, ali estava aquele senhor. Aparentava seus trinta e cinco, quarenta anos. Nem muito mais nem muito menos. De certo, esperava alguém.

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