Arquivo do mês: janeiro 2008

Dieta, a abominável

Já disse e repito: alguém que deseja uma vida sustentável deve, em primeiro lugar, vencer seus próprios instintos. A teoria que prego é oposta a que nos trouxe até aqui, com polegar opositor, nariz que se projeta em direção ao oxigênio e coluna ereta. A obediência ao instinto não nos faz evoluir. Pelo contrário. Pra mim, o instinto nos leva à ruína, à perdição. Portanto, trate de vencê-lo. E ele está por toda parte.

Imagine-se no rigoroso amanhecer do inverno sulista. O celular toca o alarme das seis da manhã. A ponta gelada do nariz é a primeira parte do corpo a perceber a atmosfera fria. Os olhos abrem, um a um, com sofrimento. Braços e pernas se comprimem e o corpo todo grita pra ficar. É o instinto. Se obedecesse a vontade maior e ficasse na cama mais quinze, vinte minutos, perderia o ônibus. Atrasaria a chegada no trabalho ou na escola. Mas ficar na cama quente significaria minutos preciosíssimos de inigualável conforto e prazer. Você inventa pra si mesmo duas ou três desculpas razoáveis do tipo ah, uma vez na vida também.. não vai acabar o mundo. Ou ah, nem me atrasei essa semana ainda. Mas, no fim das contas, nada disso o tirou do caminho. Você respirou fundo, fez cara de bravo, franziu a testa. Levantou e, em tempo, honrou seus compromissos. Você venceu o instinto.

Tenho mais um exemplo. Há mais de cem páginas a serem escritas. Trabalho de conclusão do curso de fisioterapia. O tempo encurta ao passo que as desculpas para não escrever aumentam. Tudo é motivo pra não começar. Ou a pesquisa bibliográfica não está completa. Ou rendo mais de manhã e já passa do meio dia, agora só voltarei ao texto no dia seguinte. A vontade é de repousar na inércia e gozar o ócio do momento. Nada de esforço. Assim que a batalha entre o dever e o instinto começa a ser travada, surge o diálogo aquele, o apaziguador. Tá bom. Só mais hoje de vadiagem. Amanhã começo afú. É o instinto travestido de meras desculpas. Amanhece e nada. O instinto joga contra a iniciativa, contra a força de vontade, contra a obstinação. Todos, cada um, ingredientes mínimos de uma vida vencedora.

Agora, quer saber qual o maior vilão do instinto? Eu digo. Chama-se dieta. Porque exatamente o alimento é o elemento central da vida da espécie humana. Isso, cen-tral. A necessidade por comida tirou o homem das cavernas, de artista rupestre transformou-o em desbravador, atirou-o à caça. Da diversificação do cardápio, surgiu a agricultura. A genialidade do fogo encontrou a sua maior utilidade no cozimento do jantar. Pouco mudou. O século XXI ficou marcado pelos aniversários comemorados em rodízios de pizza ou pelos churrascos organizados para desvendar os amigos secretos. Onde dois ou mais estão reunidos, lá está ela: a comida. O alimento significa, hoje, pra mim e pra você tudo o que ele representa pra evolução do ser humano através dos tempos todos.

E é com essa arma que o instinto enfrenta, poderoso, a dieta. A mais ávida das batalhas. Por isso é que o homem que espera tornar-se um ser evoluído busca ignorar, com espírito guerreiro, uma travessa de macarronada e bifes à milanesa. E todos comendo e servindo-se à sua volta. Seu objetivo é levantar, vencer o instinto de comer e comer até quase explodir. Até o próprio instinto dizer chega. Sua meta maior é dar as costas para a mesa com bravura. É como se o futuro da espécie humana estivesse em jogo naquele instante.

Decidi ao meio dia de um dia desses das férias ter uma vida sustentável. Vou lutar. Juro que tentarei resistir aos saborosos e aquecidos alimentos, optando, em vez da repetição deles, por mais duas folhas de alface. Tornar-me-ei ­­­um ser evoluído.

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Pela nossa esperança

Quando um novo ano começa o que se vê sempre são as pessoas e as empresas olhando pra trás e quantificando capital acumulado e feitos realizados. São os famosos balanços que ajudam pessoas e empresas a conhecer a fase que a troca de ano deixou pra trás.Chega então o instante de olhar pra frente. Pro novo. Com esperança. Será que este é o ano do fim da ocupação do Iraque? Será que aquele foi o último escândalo de corrupção na política brasileira? Serão as curas todas descobertas em 2008? O Ronaldinho Gaúcho vai voltar a jogar bola de verdade? A paz, enfim, reinará?

Na estrada, de férias, do nada, comecei a cantarolar uma musiquinha que as freiras nos ensinavam no colégio Espírito Santo, lá no primeiro grau. Chama-se Utopia. Estava impressa, em letras garrafais, numa das últimas páginas da agenda estudantil.

“Quando o dia da paz renascer
Quando o sol da esperança brilhar
Eu vou cantar
Quando os muros que cercam os jardins
Destruídos então os jasmins
Vão perfumar”

E seguia. Versos e mais versos falando de esperança. Nós gozávamos. Achávamos um saco aquela cantoria toda. À capela. Nem um violãozinho, nada. Só a voz esforçada da irmã. Por sorte, não tínhamos que decorar a tal letra. No fundo no fundo, a gente tirava sarro daquela música porque ela própria já fazia isso. O mesmo texto que se propunha a nos motivar, a ser um alento, era melancólico. Parecia que debochava da esperança do homem no mundo. Trazia um tom de desilusão, de desânimo na letra. Como se este dia, o dia da paz, de fato, nunca fosse chegar.

Acreditando nisso ou não, no dia da paz, temos que admitir que um dos milagres mais belos da existência humana é essa tal esperança. Acordamos de manhã, pra um dia que tem tudo pra ser igual a tantos outros, com problemas repetidos, com injustiça, com egoísmo. Mas, incrivelmente, estamos dispostos a viver. Um desafio no trabalho, um sorvete no fim dia, o sorriso dela, o chimarrão com o mesmo amargor de sempre. Tudo ganha nova cor. Somos seres movidos pela esperança. Tudo que queremos é uma nova peleia. E, cá entre nós, não temos outra escolha senão acreditar e pelear.

E o mais belo, o mais extraordinário, é que a esperança não é só uma escolha. Ela vem do nada, junto do sol. O sol que nasce e que morre, igual todos os dias. E que, ao se entregar pra noite, se vai com a certeza de que brilhará imponente, de novo, no dia seguinte. Sem importar-se com a utopia.

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