Na terra

Tirei aquele fim de tarde para conferir a exposição No ar, que comemora os 50 anos da RBS – retransmissora da Rede Globo no RS e SC – com impressionantes recursos multimídia de resgate da história do jornalismo, da teledramaturgia e da publicidade. Além de conferir, traria dali alguma idéia de texto pra postar aqui. Nada disso aconteceu.

O que marcou aquele dia foi a visita que fiz ao Padre Roberto Heming, missionário, recém de volta de uma missão de evangelização em Moçambique, na África. Voltou antes do previsto, enfraquecido por duas contaminações de malária e complicações financeiras.

Antes da África, o Roberto já tinha ficado anos no Pará, no norte aqui do país. Experimentou a terra sem lei que já tratou de acabar com a vida de muitos missionários que se aventuraram em busca da paz e da justiça para aquele povo. O caso mais recente e emblemático foi de Dorothy Stang, religiosa norte-americana, morta a tiros na volta de uma de suas sessões de evangelização e de luta pela justiça social.

O Padre Roberto fala dessa irmã e do trabalho dela como seus próprios ideais de vida. Assim como fala com satisfação do tempo em que esteve na África. Em condições subumanas, em favor do próximo.

No quarto simples onde vive atualmente, na sede da Igreja Católica em Porto Alegre, não há luxo, ali não mora o material. No máximo algumas lembranças de madeira, trazidos das mãos hábeis dos moçambiquenhos. Como no quarto, no semblante desse moço parece não haver preconceito, na fala dele não há desejo de riqueza, não há capricho, não falta coragem e obstinação para fazer o bem – mesmo depois das ameaças de morte no Pará e das malárias brasileiras e africanas.

Já postei aqui entrevista com ele quando estava em missão no Pará. Alguns anos depois, a obstinação por fazer o bem continua a mesma. Durante a semana, entre uma oração e outra, com alegria busca forças para recuperar a saúde e driblar outros problemas mais.

A impressão última que fica é que o lugar dele não é aqui. A certeza que se tem é que Deus existe e que coloca na formação genética de algumas pessoas o desejo incansável de servir e de consumir sua vida pelo bem do outro. Pra mim, isso soa como uma pergunta incisiva sobre a minha parte nisso tudo. Por que minha felicidade ainda depende exclusivamente do meu próprio bem-estar?

No dia que No ar estava na pauta, o desejo missionário do Padre Roberto ganhou capa. Na terra. Não tem outro jeito, parece que é lá que o meu amigo precisa estar para ser feliz.

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3 Comentários

Arquivado em Genéricos

3 Respostas para “Na terra

  1. roberto

    Juliano, meu irmão !
    Continuamos com fé e
    esperando o melhor !
    Afinal, quando juntos,
    somos mais,
    somos um !

    Em Belém Novo,
    a partir de janeiro,
    renovo minha disposição
    de seguir aprendiz,

    grato pelo artigo,
    apesar de me colocar meio
    acima da realidade..

    o que vale,
    é que tu és bom jornalista,
    e sobretudo,
    um ser humano admirável,

    abraço,
    roberto

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