Arquivo do mês: novembro 2007

Chancela

Aos navegantes: o autor desse blog foi dormir outro esta noite. Seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo foi aprovado com distinção pela banca examinadora.

Enfim, tô só alegrias.

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A passoquinha hamburguesa

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Ao longo do tempo, parte da história das pessoas e da sociedade vem sendo contada pelos objetos. No interior do Estado, isso é bem comum. Mais ligados às origens, os moradores da zona rural revivem o passado colocando o olho numa ferradura amassada, numa colher retorcida, num modelo de rádio que deixou de ser fabricado na adolescência dos nossos pais. Mas não só os velhos. A gurizada hoje em dia também fica se enchendo de lembranças quando se fala na bala Soft, nos Comandos em Ação ou na professora aquela que, privilegiada pela robustez de partes do corpo, era papo certo no fim da aula, na caminhada de volta pra casa.

Mas a minha relação com a passoquinha hamburguesa é mais do que isso. Ela é quase um amuleto comestível – e afrodisíaco, dada a quantidade de amendoim – que acompanha meus estudos há anos. Hamburguesa é a naturalidade de quem nasce ­– ou vive? – em Novo Hamburgo, cidade longe de Porto Alegre uns 30 e poucos quilômetros. É fabricada pela Adam & Krummenauer Ltda. há muito tempo. No mínimo, uns dez anos. Ela é assim: dentro de um plástico transparente de 9 cm por 11,5 cm, estão 60g de amendoim em formato de paçoca – um tipo de compensado, sabe? Bom, o gosto? Ah, gosto é ruim de explicar. Só de explicar. É maravilhosa. É doce, bem doce. Sabe quando a garganta arde? Assim.

Mesmo tendo quase certeza absoluta de ela ter me sido apresentada no primeiro grau, as lembranças que ela traz são do ensino médio, no colégio Cristo Redentor, em Canoas. Olho pra passoquinha e sinto na parte de baixo do fim do braço o gelado do mármore da soleira da sacada do colégio, que ficava logo na saída da sala de aula. Ficávamos ali, escorados, batendo papo até o sinal tocar e a aula recomeçar. Só saíamos dali pra comprar a passoquinha – ou o prensado, lembra, Maiquel? A passoquinha desempenhava bem o seu papel como opção econômica ao prensado – leia-se pão de cachorro-quente com margarina, presunto e queijo, prensado na chapa quente. Era uma duas ou três vezes mais em conta. A grana do prensado, portanto, dava garantia de meia semana de intervalo com a deliciosa passoquinha. (Agora a cena congela, eu apareço sentado na minha mesinha da sala de aula, entre todos os colegas, olhando pra cima, meio sorriso no rosto e trilha sonora com mais volume.) Ái, a passoquinha. Os minutos que antecediam o intervalo corriam devagar quando eu começava a imaginar aquele sabor de amendoim bem doce, denso, escorrendo pela garganta. A cada mordida, a tristeza quase superava a satifação. Tristeza de ver que a mordida apressava o fim da hamburguesa. Ái, a passoquinha. (Corta trilha.) Que exagero.

Bom, a memória do mármore gelando a parte inferior do braço enquanto, inclinados, víamos as gurias lá embaixo no pátio e discutíamos os algoritmos de programação das aulas de informática já tem quase dez anos. Nossa, nem tinha me dado conta. Dez anos.

Fui remontar esse monte de história antiga e lembrar da hamburguesa semana passada, minutos depois de ter entregado na secretaria da universidade meu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo. Precisamente no dia 12 de novembro de 2007. Andei com três cópias do tcc debaixo do braço pelo pátio e, meio bobo, me dava conta de que mais um ciclo ficava pra trás. Exibido, tinha vontade de responder pra todo mundo que perguntasse:

– Sim, é o meu tcc.

Com um pedaço de papel carimbado, que comprova que o trabalho foi mesmo entregue, fomos comer, beber e celebrar essa conquista. Eu e uns três ou quatro colegas do curso, ali no bar da frente da Unisinos. Larguei a mochila e o casaco na cadeira e peguei a carteira. Tirei uma nota de dez e fui fazer o pedido.

– Me vê um xis salada partido ao meio e uma cerveja.

Precisava de um doce pra depois, pensei. Olhei em volta do mal-humorado que atendia. Chiclete não dá por causa do aparelho. Bala, não. Senti o frio do balcão na parte de baixo do fim do braço. Sem sorrir, sorri.

– Ah, me vê também uma passoquinha hamburguesa.

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Na terra

Tirei aquele fim de tarde para conferir a exposição No ar, que comemora os 50 anos da RBS – retransmissora da Rede Globo no RS e SC – com impressionantes recursos multimídia de resgate da história do jornalismo, da teledramaturgia e da publicidade. Além de conferir, traria dali alguma idéia de texto pra postar aqui. Nada disso aconteceu.

O que marcou aquele dia foi a visita que fiz ao Padre Roberto Heming, missionário, recém de volta de uma missão de evangelização em Moçambique, na África. Voltou antes do previsto, enfraquecido por duas contaminações de malária e complicações financeiras.

Antes da África, o Roberto já tinha ficado anos no Pará, no norte aqui do país. Experimentou a terra sem lei que já tratou de acabar com a vida de muitos missionários que se aventuraram em busca da paz e da justiça para aquele povo. O caso mais recente e emblemático foi de Dorothy Stang, religiosa norte-americana, morta a tiros na volta de uma de suas sessões de evangelização e de luta pela justiça social.

O Padre Roberto fala dessa irmã e do trabalho dela como seus próprios ideais de vida. Assim como fala com satisfação do tempo em que esteve na África. Em condições subumanas, em favor do próximo.

No quarto simples onde vive atualmente, na sede da Igreja Católica em Porto Alegre, não há luxo, ali não mora o material. No máximo algumas lembranças de madeira, trazidos das mãos hábeis dos moçambiquenhos. Como no quarto, no semblante desse moço parece não haver preconceito, na fala dele não há desejo de riqueza, não há capricho, não falta coragem e obstinação para fazer o bem – mesmo depois das ameaças de morte no Pará e das malárias brasileiras e africanas.

Já postei aqui entrevista com ele quando estava em missão no Pará. Alguns anos depois, a obstinação por fazer o bem continua a mesma. Durante a semana, entre uma oração e outra, com alegria busca forças para recuperar a saúde e driblar outros problemas mais.

A impressão última que fica é que o lugar dele não é aqui. A certeza que se tem é que Deus existe e que coloca na formação genética de algumas pessoas o desejo incansável de servir e de consumir sua vida pelo bem do outro. Pra mim, isso soa como uma pergunta incisiva sobre a minha parte nisso tudo. Por que minha felicidade ainda depende exclusivamente do meu próprio bem-estar?

No dia que No ar estava na pauta, o desejo missionário do Padre Roberto ganhou capa. Na terra. Não tem outro jeito, parece que é lá que o meu amigo precisa estar para ser feliz.

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