Arquivo do mês: outubro 2006

Fome Zero: Um

Uma grande mazela de nosso país e o grande foco do programa Fome Zero, como todos sabemos, é o combate à fome. Ponto. É algo que todos sabemos. O que talvez não se perceba é o quanto a fome do nosso povo repercute em nossa linguagem, em nossas expressões, em nossas gírias e em nossos quase dialetos particulares existentes em cada unidade da federação.Explico isso pelo fator cultura que, em oposição às mazelas, é a grande riqueza de nosso povo. A cultura, em pobres palavras, é um conjunto de costumes e características de um determinado povo. Experiências de sofrimento, de dificuldade, de celebração e de sucesso contribuem para a evolução e a preservação dessa cultura. Assim aconteceu com os nossos imigrantes alemães e italianos que, depois de instalados aqui no Estado e agredidos pelo homem e pela natureza, reuniram forças e construíram seus próprios valores e constituíram uma cultura que os protegeu. Hoje, a alegria em poder gozar livremente dessa cultura, a torna ainda mais forte e resistente ao tempo e às pessoas. 

A fome é causadora emergente de muitos problemas sociais no Brasil. É causada pelo desemprego, pela exclusão. Cria a delinqüência, o viciado, o desnutrido e o incapaz. O incapaz gera educação não-aprendida que gera desemprego que novamente gera a fome. O grande círculo viciado e canarinho. 

A fome (apesar de não podermos escapar de sua pejoratividade) é a grande característica da cultura do povo brasileiro. E de uma forma um pouco mais irreverente, essa marca e seus derivados foram sendo incorporados em nossa linguagem e em nossas expressões verbais de modo que passamos todos (beneficiados pelo Fome Zero ou não) a pertencer a uma mesma cultura brasileira da fome.  

Quem de nós, brasileiros, ainda não comeu o pão que o diabo amassou, por exemplo, ou não se viu tentado a colocar mais lenha na fogueira? E quem será que ainda não foi de mala e cuia pra algum lugar e ouviu gente dizer que quase comeu com os olhos algo e que também ficou com água na boca?Também nunca disseram que chorar as pitangas depois do acontecido é, às vezes, o mesmo que chorar o leite derramado. Quem já não reclamou de barriga cheia ou não descascou um abacaxi ou não cuspiu no prato que comeu?Esses sintomas são realmente muito comuns. Para alguns de nós que têm o que comer todos os dias, a vida pode até ser um mamão com açúcar, para outros, é um baita pepino. E assim vai.Quem sabe agora, ao invés de ficar enchendo lingüiça, nos demos conta de que esse problema da fome também é nosso. Nos demos conta que ajudarmos cada um com um pouco é importante porque de grão em grão a coisa se viabiliza: os brasileiros poderão juntar a fome com a vontade de comer. Não é de uma hora para outra, mas aos pouco vamos tomando jeito, aprendendo a participar, aprendendo a pôr a mão na massa, reconhecendo que temos nossa função nesse processo de mudar o Brasil da água pro vinho.

Agora, mais importante que isso tudo é confiarmos na competência e na honestidade do Sr. Lula. É acreditar que ele é, sim, como o vinho. Porque se nos enganarmos nisso, se realmente ele não for quem prometeu ser e esses preços continuarem subindo, nos arriscamos ter feito uma baita confusão na hora de votar. E como diz o povo, vamos ter confundido Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão.

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Redação de vestibular

Era uma vez que nossa vida parecia uma redação de vestibular. Começava assim, despretensiosa e tímida. Logo apresentava os argumentos, as justificativas para viver: enriquecer e ser feliz.

Na primeira parte, tratamos de enriquecer. Não esbanjar. Calcular. Cada centavo vale muito se amontoado com os outros. Dá um monte, se tu cuida. Aplica, investe, não fica com o dinheiro parado. Doa, ajuda, não fica com tudo pra ti. Divide. Mas não dá tudo também, não seja trouxa, trabalhaste pra ganhar. Disciplina. Guarda cada mês um pouco. Pro teu futuro.

Depois, é hora da felicidade. Sejas honesto, cuida da tua saúde, encontra uma esposa bacana pra ti. Que seja o oposto, que seja igual a ti. Parecida. Faça cursos, não pára de estudar, não pára no tempo. Perdoa, não faz inimigos: o mundo dá voltas. Reza, descansa, acredita. A vida acontece antes dentro da tua cabeça. Corre ou caminha. Tens que fazer alguma coisa. Nem come tudo que te colocam na frente. Sobretudo, vive. Tenhas antes medo de morrer do que medo de viver.

Ao final, no último parágrafo da vida, olha pra trás e conclui. O quê? Sem grana e sem amigos? Com a pessoa errada? Mas fizeste tudo como mandou ele. Tudo que te orientou o senso comum. Não tens nada? Nem conjugações fizeste certo? Nem 30 linhas sequer? Então anula. Risca e começa tudo de novo.

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Pastel e circo

Troquem o pastel por pão e a dupla remontará a Roma Antiga. Dizia-se que, dando alimento e diversão ao povo, ele estaria suficientemente satisfeito. Agora, tragam de volta o pastel pro lugar do pão e aumentem uns tantos séculos até chegar aqui. No mundo do Ipod, das eleições apuradas em duas horas e das relações virtuais.

Corremos de um lado pro outro, em busca de nãoseioquê, choramos e sofremos, alegramos e maltratamos, enriquecemos e esbanjamos, dormimos e acordamos. No meio disso tudo, quando menos vejo, estamos ali: nós, pastel e circo. E a nítida e despercebida impressão de que não precisamos de mais nada. Bons pastéis e risadas honestas. Mais nada.

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