Arquivo do mês: julho 2006

Par ou ímpar?

Tem coisas que são par. Outras são únicas.

Oito, oito e pouco. Caminho desviando de alguns. Quando chove, as goteiras da parada de ônibus ali da Farrapos pegam bem em mim. Um saco. O telhado não termina na calçada, termina antes. Uma droga. Ando, paro e me viro de costas para ver os ônibus que se aproximam. O meu é um azul, com letreiro digital, vai pra Sertório. Faço sinal, ele pára, eu entro e agradeço, quase sempre. Dou a fichinha, procuro um lugar e sento. Isso é par. Acontece quase todo dia assim, igualzinho.

Marcaram para as três da tarde de sexta-feira a saída para o Cenáculo de Maria. A edição 109 de Porto Alegre. Cristo morreu às três também. Viajamos até Salvador do Sul e todas as horas que se seguiram até às 23h de domingo, quando cheguei em casa, foram todas únicas, ímpares. Havia muito tempo que eu não sentia coisas tão boas tão intensamente. Estava com pessoas das quais gosto muito, fiz coisas das quais também gosto muito. Durante todo o dia de sábado a casa onde estávamos ficou cercada por uma neblina espessa. A sensação de que estávamos em algum lugar parecido com o céu foi, portanto, além de sensorial, também visual. No domingo, o sol abriu e o dia terminou encoberto. Terminou com pessoas diferentes. Aquelas que desceram dos ônibus na sexta à noite não eram mais as que voltavam. Lavagem cerebral? Magia negra? Regressão a vidas passadas? Que nada. De uma forma extremamente simples, apenas fomos incentivados a olhar pra dentro de nós mesmos e admirar-nos com a beleza que Deus criou em cada um. Isso, só isso. Três dias assim, como esses que vivi, nunca tinha vivo antes e nunca mais se repetirão. Isso é ímpar, é único.

A vida fica tão valorizada que quase ganha forma quando estamos vivendo momentos únicos. Parece que não tá mais só dentro de nós e de coisas. Parece que dá pra pegar. Os momentos pares, por outro lado, nos arremessam na rotina da vida, onde segundo copia segundo e horas são cópias de horas que se repetem a todo instante. Nada é novo e não há motivo para seguir em frente a não ser para não interferir na cópia dos dias. O único é diferente. Dá sentido à existência. É como o nascimento de um bebê. É como aquela flor que não estava assim, aberta, ontem quando vim aqui. É como o e-mail aquele que não tinha chegado com o beijo dela ontem quando conectei. É o abraço e o valeu com o qual o chefe nos surpreendeu no final do dia.

Você não tem tido momentos únicos? Faz assim. Transforma os pares em ímpares. Percebe que cada vez que o ônibus chegar as pessoas estarão dispostas de forma diferente na calçada e adorarão receber um sorriso e um bom dia. O motorista e o cobrador então, ihh, nem se fala. A senhora aquela cheia de sacolas vai gostar muito que você ofereça o lugar ou segure as coisas pra ela. Uma oração para o colega aquele que não tem jeito. Um feliz aniversário para o cara da outra área que mal você cumprimenta vão fazer a diferença pra eles naquele dia. Complicado fazer a vida repleta de momentos únicos?

Que nada. De novo é uma questão de escolha.

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Pra esquecer.

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Isso aconteceu?

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“O mundo estah ao contrario e ninguem reparou.” Parte de “Relicario”, de Nando Reis.

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Especial Copa do Mundo: Nosso patriotismo.

Em épocas como a que estamos vivendo descobrimos um sentimento guardado dentro de nós: o amor pelo nosso país. Sentimos orgulho pelas cores que um dia escolheram para nos representar. Amamos a bandeira, esse hino maravilhoso.

Inexplicável é a razão que o patriotismo tem de se manifestar apenas na Copa do Mundo, quando 11 seres humanos tentam de toda forma colocar, com os pés ou com a cabeça, uma bola de couro dentro de um quadrado de grama e ferro, plantado nos dois extremos de um grande retângulo. Inexplicável.

Vou considerar uma hipótese: isso que sentimos não é patriotismo. Não é sentimento de quem ama a pátria e procura servi-la, como diria o Aurélio. Não é.

Se fosse, estaríamos também plantados em frente à tevê, assistindo o final da CPI dos Correios. Ou à votação daquela emenda que poderia pôr fim à falta de transparência no uso do dinheiro público. Ou atentos à Consulta Popular (aliás, você, gaúcho, votou?) ou aos passos do deputado estadual, aquele que você ajudou a eleger na última eleição.

Vou mais além.

Se quando o seu Olavo, a dona Jandira, a vó Laura e toda a família Costa, que não gosta tanto assim de futebol, se veste de verde-amarelo para acompanhar a Seleção, eles não estão exercendo seu patriotismo, estão fazendo o que?

Respondo. Estão tentando pintar de colorido – não necessariamente de verde e de amarelo – o seu sofrido dia-a-dia. Cheio de contas pra pagar, choro pra acalmar, ansiedade e preocupação pra combater. Estão fazendo daquele momento também um ritual de torcida pelas suas próprias vidas nesse país. Dá a impressão de que a cada gol e a cada belo lance, a vida aqui tende a melhorar. Tende a ficar mais fácil, mais vitoriosa. Enrolados na bandeira, de corneta na mão e ao som do inconfundível timbre de Galvão Bueno, é inadmissível aos 180 milhões em ação que a vida depois do Hexa continuará assim, tão difícil. Está comprovado, depois do Hexa, tudo será diferente.

Isso justifica também a intervenção nos ambientes. Nas empresas, enfeitaram salas, penduraram balões e bandeiras do país. Sinal de patriotismo? De paixão pelo futebol? Que nada. Fuga dessa vida maluca. Só isso.

Quer uma prova?

Quando tudo acaba. O juiz apita o final do jogo e a Seleção está fora da Copa. E-li-mi-na-da. Isso mesmo. E de novo pra França. Agora, só daqui quatro anos, uma imensidão de tempo. Silêncio na sala da família Costa. Pasmos, olham pra tela e tentam acreditar, entender, voltar o tempo e alongar os acréscimos do juiz. Mas como? Como perdeu? E agora? Todas perguntas que ecoam no íntimo do ser de cada um. No silêncio. De novo, vai parecer exagero de minha parte, mas quando as respostas parecem ser trágicas, a sensação é de que a vida perdeu todo o sentido. Tudo acabou. Tudo está consumado.

De pronto, tentam achar alternativas. Vá lá, agora vamos todos torcer pelo Felipão, disse um, por acaso?

Enfrentemos a dura realidade: com ou sem o Hexa nossa vida será sempre essa mesma. Cheia de oportunidades, com momentos alegres e tristes, alheia aos resultados do time do Parreira. Com ou sem a Copa, os rumos da nossa vida continuarão, hoje e sempre, sendo definidos por nós mesmos, os torcedores tão esperançoso pelos dribles do Ronaldinho Gaúcho ou pela leveza do Fenômeno.

E sem jogo do Brasil na próxima quarta, ou no domingo, nos resta perceber a beleza da vida nas coisas reais. Na natureza, na conversa com os amigos, no colo da mãe, nas sábias palavras da avó.

Eu, no dia seguinte à eliminação da Seleção, quero enxergar a vida em cores, ao vivo. Enfrentando os problemas reais e celebrando minhas próprias conquistas.

E, claro, torcendo por Portugal. Vai lá Felipão! Acaba com o Zizou!
Porque pra quem gosta de futebol, a Copa continua sendo o máximo.

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Especial Copa do Mundo: Boa Noite e Boa Sorte.

Peguei pra ver o filme “Boa Noite e Boa Sorte”. Entre outras coisas, ele expõe um problema da televisão já existente no início do século XX: a despreocupação com a informação, com a cultura e o culto ao entretenimento, à bobagem.

Incluo essa crítica à cobertura que a Rede Globo faz da Copa do Mundo da qual a Seleção já não faz mais parte. Tomando um pouco de distância do momento atual da televisão, olhando de longe isso tudo, é incrível como passam os tempos e o ser humano é ludibriado da mesma forma, sem muita novidade. Em 25 de outubro de 1958, em discuro, o apresentador da CBS, Ed Murrow, diz que “se houver historiadores daqui a 50 ou 100 anos, e se houver material de uma semana das três emissoras haverá provas em preto e branco e em cores da decadência, alienação e falta de cobertura da realidade que vivemos”.

Abaixo, está um trecho do filme que fiz questão de, entre pauses e plays, copiar a legenda e transcrever pra pôr aqui na Uzina. Em outras palavras, leiam porque vale a pena.

Nós estamos ricos, gordos, seguros, complacentes
Em 1935, Ed Murrow começou sua carreira na CBS. Quando estourou a Segunda Guerra, foi sua voz que nos informou sobre a batalha da Grã-Bretanha, no programa de rádio “This is London”. Ele começou como muitos dos que estão aqui hoje, quando a televisão estava apenas começando, com seu programa de documentários “See It Now”. Ele criticou e expôs gente importante. Segregação, exploração de imigrantes, o apartheid, J. Edgar Hoover, sem esquecer sua luta histórica contra o senador McCarthy.

“O que vou dizer não deve agradar a ninguém. No fim, algumas pessoas acusem este repórter de cuspir no próprio prato e a organização talvez seja acusada de acolher idéias hereges, perigosas. Mas a complexa estrutura das redes de tevê, publicidade e patrocinadores, não será abalada ou alterada. É meu dever usar de certa franqueza pra falar com vocês, mensageiros, sobre o que está acontecendo no rádio e na televisão. Se o que eu disser for responsabilizado sou eu o único responsável pelas minhas declarações. A nossa história é o resultado do que fazemos atos. Se houver historiadores daqui a 50 ou 100 anos, e se houver material de uma semana das três emissoras haverá provas em preto e branco e em cores da decadência, alienação e falta de cobertura da realidade que vivemos. Atualmente, nós estamos ricos, gordos, seguros, complacentes. Somos inclinados a evitar informações desagradáveis e perturbadoras. A nossa mídia reflete essa atitude. Mas, exceto se esquecer os lucros e reconhecer que a televisão está sendo usada para distrair, enganar, entreter e nos isolar, então a tevê e os que a patrocinam, assistem e que nelam trabalham terão uma visão bem diferente, mas tarde demais.”

Um monte de cabos e luzes dentro de uma caixa
“A nossa história é o resultado do que fazemos. Se continuarmos como estamos, a História se vingará e nos fará pagar. Às vezes, exaltemos a importância das idéias e da informação. Vamos sonhar com a possibilidade de, num domingo à noite, no horário ocupado por Ed Sullivan, se faça estudo clínico de educação. E que, uma semana depois, o horário usado por Steve Allen sirva para uma análise da política americana no Oriente Médio. Será que a imagem dos nossos patrocinadores sairia arranhada? Será que os acionistas ficariam revoltados e reclamariam? O que aconteceria? A não ser que alguns milhões de pessoas se informassem mais sobre assuntos que determinam o futuro do país e, portanto, o futuro das nossas empresas. Àqueles que dizem que as pessoas não se interessam, que são complacentes, indiferentes e alienadas, eu apenas respondo que, na minha opinião de repórter, há provas concretas de que essa informação é incorreta. Mas, mesmo que não o seja, o que eles têm a perder? Se estiverem certos e o nosso veículo só servir para divertir e alienar, a televisão está em perigo, e logo veremos que luta foi em vão. Esse veículo pode ensinar. Pode esclarecer e até inspirar. Mas só pode fazer isso se as pessoas o usarem com esse objetivo. Senão será um monte de cabos e luzes dentro de uma caixa. Boa noite e boa sorte.”

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Especial Copa do Mundo: O fogo e o pássaro.

Não sei bem se isso tem relação direta com a Copa do Mundo para merecer estar nesse Especial. Mas tem a ver com a vida e como esta nossa vida só vale existir nesses últimos dias porque é testemunha do maior e mais importante fato futebolístico, creio que sim, este texto tem a ver com a Copa.

Domingo, meio-dia. 25 de junho de 2006. Esperávamos, em família, com ansiedade, pelo jogo da Seleção que começaria às 13h. Até então, o noticiário da tevê, da rádio, do jornal e da internet esforçavam-se para não deixar passar nenhum detalhe despercebido. A escalação, o humor de um jogador, o estado físico de outro e o passe do goleiro que acabara de ser valorizado em alguns zeros. Nas ruas, o ufanismo tomava conta. Também nas empresas, supermercados e qualquer outro ambiente que não quisesse ser considerado alienado. Respirávamos o ar verde-amarelo tremulado pelas bandeirolas. O cenário das ruas dava espaço ainda para as cornetas, camisetas e propagandas canarinho.

Meu pai fazia o fogo na churrasqueira enquanto eu tentava sintonizar o canal da Copa na tevê que viera da cozinha exclusivamente para o maior evento da semana, Brasil e Japão. Estávamos classificados. Mas ái de quem esboçasse uma só reação contrária à importância vital daquela partida. Era como se a existência do orgulho de cada brasileiro pelo seu país estivesse plugada na telinha. A mínima desatenção poria em risco o motivo maior de termos um dia nascido nesta terra. Sim, concordo, parece exagero.

Imagem mais ou menos limpa, som sem ruídos, fui dar uma conferida na churrasqueira. As labaredas que balançavam ali chamaram minha atenção. Senti calor em parte do rosto e as cores quentes distraíram minha visão por segundos. Natural. Senti o natural existindo ali, a poucos centímetros das mãos que agora estavam estendidas. Como se aquilo que existia dentro da churrasqueira submetesse todas as outras tentativas de ser vida, de ser realidade. Qualquer uma. O grito daquele senhor na televisão, o jornal aberto no chão, o rádio sintonizado na Alemanha. A vida real estava ali, dentro da churrasqueira. Sem pilha, sem energia elétrica. Só existia. Assim, simples e inexplicável ao mesmo tempo. Pedaços de lenha, carvão e fogo. Vivo. Vivo como se protegesse uma essência. De algo fora dali, transformado pelo sintético, pelo artificial.

Virei e a poucos metros, na rua, num prato sem flor cheio d’água, divertia-se um pardal batendo asas e molhando grande parte da calçada ao seu redor. Olhava pra nós todos na garagem e continuava a bater asas. Faceiro. Até que voou. Muito provavelmente, indiferente com o outro espetáculo que começaria em minutos naquela tela de luz colorida, ao redor da qual estávamos reunidos, admirados.

Os dois, o fogo e o pássaro, contrastavam com o todo o resto. Todo o resto armado pra dar significado aos minutos e horas que viriam em seguida. Pra mim, o fogo, primeiro, e o pássaro, depois, fizeram claro como o dia uma sensação que tentou se explicar ao longo de todo esse texto, mas que ficou morando naquele dia, dentro da churrasqueira e, molhada, no pote onde o pássaro se divertiu.

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