Arquivo do mês: junho 2006

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Uma foto do celular, de manh� cedo. O motivo do texto abaixo.

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Pastel de frango, folhado

Uma parada de ônibus. Início de mais uma manhã de inverno. Pessoas indo e vindo. Carros e ônibus passam de um lado para outro. Atrás de mim, um elemento estranho à paisagem. Um pastel de frango, folhado, jaz no alto de uma haste de ferro do ponto de ônibus. Um pequeno mistério se cria. O vento sopra, aumentando a sensação de frio daquela manhã. Os desconhecidos ultrapassam uns aos outros, indiferentes à cena. Frio, ele permanece ali, imóvel, no alto da haste de ferro, como se estivesse sendo oferecido, servido. A mordida em uma de suas pontas denuncia o ato covarde. O pobre fora desprezado e largado ali. Talvez há meia hora. Talvez há dez minutos. Talvez durante a madrugada. Poucos percebem a sua presença. Mesmo os que permanecem parados, de costas, à espera da condução. Poucos saberiam explicar como ele foi parar ali, e por que, assim, ignorando a presença e a função da lixeira, há poucos metros dali. Certamente fora comprado próximo dali, ainda quente, pelo próprio insano. Ou teria o irresponsável carregado o pobre de casa até o local a aí o deixado? Ou seria um código, um sinal? “Combinado? Você me espera na parada que tiver um pastel de frango, folhado, no alto de uma das hastes de ferro da estação.” Pouco provável. Teria sido ele deixado por um mendigo que, desconfiado de bondade alheia, preferiu abandonar o alimento com medo que lhe fizesse mal?
Ou seria o caso de pormos em uma criança a culpa de tal sacrilégio? Tomada pela gula, esperneou até sua mãe deslocar-se até a lancheria mais próxima para adquirir o tal pastel de frango, folhado. Atendido e satisfeito, o filho mimado teria percebido que, na verdade, não era fome que tinha. A mãe também não o quis. Largam o lanche no alto de uma haste de ferro da parada e, atrasados, correm para alcançar o ônibus já em movimento. Sobem e somem em instantes. Teria sido assim? Ou teria sido a legislação do município a culpada. “Senhor. Senhor. Não pode entrar com alimento no ônibus. São regras. Desculpe.” Carteira de identidade em uma das mãos e atrasado para a consulta no posto do INSS, o senhor teria rapidamente largado o pastel de frango, folhado, na primeira haste de ferro que encontrou. Teria ficado constrangido de jogar no chão um pastel novinho, logo na frente de um mendigo, que se escorava na armação da estação. Será? Mas e a história de o pastel de frango, folhado, fazer parte de um plano? Um plano… Mas plano pra quê? Talvez a lotérica aquela da esquina. Pouco movimento naquele horário, grana acumulada, um alvo fácil. Mas quando o roubo aconteceria? E por que não chegariam juntos, os ladrões? Por que um chegar primeiro e depois o outro, conduzido por um pastel de frango, folhado? Não, não deve ser isso.
Tinha mais cara mesmo de ter sido deixado de madrugada. Daquele jeito, quase inteiro, pesado, não cairia dali tão facilmente. Vai vê, fora deixado por algum boêmio, no final do Baile dos Solteiros, do clube aquele atrás do ponto de ônibus. Bateu a fome aquela de fim de festa, o sujeito abordou o vendedor ambulante na saída do salão, comeu um, dois e não agüentou mais de uma mordida do terceiro. Declinou e largou o pastel de frango, folhado, em cima da haste de ferro da parada de ônibus. Mesmo mais desperto que todos naquele início de manhã, o festeiro nem se deu conta do que fazia, pegou o ônibus e escafedeu-se. Afinal, em que circunstâncias o pastel de frango, folhado, teria saído da mão de alguém para ir parar ali, no alto de uma haste de ferro da parada de ônibus?

Meu ônibus. Fiz sinal e embarquei.

Giorgino, colega de serviço.
– Bom dia.
– Bom dia. E essa cara de sono?
– Bah, nem fala. Essa sexta demorou.
– Olha essa foto. Na parada de ônibus ali da Farrapos.
– Ehe. Um pastel?
– Aham. De frango, folhado.
– Que viagem. Mas como é que ele foi parar ali?

– Oi?
– O pastel. Como é que ele foi parar ali?
– Onde? Ahn, bah, nem imagino.

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Curiosidade

Por enquanto, só curiosidade.

Olhe ao seu redor. Há algum livro aí perto? Pegue. Abre na página 42 e procure, bem no alto da página, a primeira frase completa da folha. Leia.

Agora clica ali embaixo, no link para comentários e escreve a tal frase ali, no comentário. É fácil.

Muitos vão fazer isso. Vamos ver no que que dá.

Obrigado.

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Dança da vida

A músi-
ca come-
ça a tocar
devagari-
nho. Bai-
xinho. Lo-
go o ritmo
começa a ser percebido,
e logo consigo perceber
a intenção da moça do
lado. Começo pelos om-
bros a acompanhar o ritmo da dança. O ritmo dela.
Em seguida as pernas são contagiadas e tudo fica mais solto, mais natural pra mim. Não pra ela. Ela já dançava quando cheguei.Em seguida a música pára.
Predomina
o silêncio
do salão e as
pessoas todas
me observam
aguardando a
próxima can-
ção começar.
É incrível, mas na vida é exatamente assim.
Deixe a música começar a tocar pra ver co-
mo você aprende muito rápido como seguir
a sua melodia, o seu compasso. É só uma ques-
tão de tempo para você dançar muito bem, sem
nem mesmo perceber que o está fazendo. O tem-
po passa e o movimento não é mais calculado.
Temos essa incrível facilidade, nós, seres huma-
nos, de nos adaptar ao terreno. De dançar com
o ritmo, conforme a música. Passando a perce-
ber nosso espaço e nossa limitação. Esse é o pri-
meiro passo. Adaptados, passamos a querer mais espaço para poder dizer tudo, sem medir tanto as palavras, ter liberdade para ir e vir, completar a frase até a margem da folha, para argumentar, sem receio de falar alguma besteira. A liberdade que a confiança nos dá de ir e vir, sem ter que parar,
esperar o sinal
verde para avan-
çar. Porque is-
so limita nosso
espaço para vi-
ver. Daí não so-
mos mais nós
mesmos. Somos
nós, sim, mas li-
mitados a ponto
de perdermos nos-
as identidade. Aca-
bo concluindo que
a pessoa, o profis-
sional, enfim, o vi-
vente só adquire
sua verdadeira iden-
tidade quando consegue se soltar, dançar conforme a melodia tocada e não parar, mesmo que existam interrupções no caminho.
Que exijam de nós
Reconhecer o terre-
no novamente e vol-
tar a dançar, jogar o corpo para um lado e para outro, no compasso da vida, indiferente ao julgamento alheio, disposto apenas a dançar e a conquistar seu espaço
que antes era assim
reduzido e limitado,
limitando também
a personalidade que
não tem espaço para agir,
para falar, para dançar.
Como nesse texto, é também assim na vida. A começar pelo velho ditado que trata da dança adaptada à música. E, em seguida, pela conquista do próprio espaço. Ambas as fases do desenvolvimento humano são fundamentais para mostrar quem realmente somos. Bailar conforme o compasso não significa sempre repetir os passos de outros, na contramão dos nossos valores, de nossas crenças. Significa saber viver e aprender a agir conforme a vida vai se revelando. Isso afirma nossa personalidade e nos tira
daquela
vida pre-
sa a um
mundo
que nos
limita.
Adaptado e com autonomia para viver, a frase flui com naturalidade e o texto parece ter mais significado, parece chegar e dizer a que veio, convencendo o leitor e fazendo-o entrar na dança. Na dança do olhar. De um lado para o outro, os olhos vão e vem, tentando entender aonde o autor quer chegar ou como ele quer terminar, sem imaginar que ele possa, assim, do nada, acabar assim, aqui.

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