Nossos modelos, parte 2

Dias atrás fui conversar sobre modelos positivos e negativos com um pessoal num bairro próximo de onde moro, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. A maioria estudante, de uns 14, 15 anos. Estavam reunidos porque participam de um grupo de jovens da Igreja Católica.

Falamos a respeito de modelos, para principalmente tratar do modelo de fé e de silêncio que é Maria, a mãe de Jesus Cristo, em especial para os católicos. A intenção era perceber como um pouco mais de fé, de oração e de recolhimento nos ajuda no dia-a-dia. Foi bem produtivo. Falamos dos modelos que a TV nos apresenta, dos modelos de beleza, de crença, de comportamento. Discutimos a questão do discernimento, de sabermos a hora de optar em seguir o bom exemplo e o exemplo não tão positivo assim.

Antes disso, pedi para que todos escrevessem, sem se identificar, quem gostariam de ser, se não fossem eles mesmos.

– Se eu não fosse eu mesmo, gostaria de ser meu pai. Para ser guerreiro, fiel, bom e trabalhador.

– Eu gostaria de ser eu mesma, porque há pessoas em situações piores e que não podem ter o que eu tenho.

– Se eu não fosse eu, gostaria de ser meu pai, ser honesto, trabalhador e bondoso.

– Seria eu mesmo, porém com uma nova maneira de viver, novas atitudes e cada vez mais fé e perseverança.

– Eu queria ser John Lenon. Porque sim.

Horas depois, veio a certeza do tamanho do privilégio que têm esses jovens. O Fantástico, da Rede Globo, apresentou para o Brasil parte do documentário Falcão – meninos do tráfico. Um soco no estômago, como disseram alguns. Dias depois, o jornal Zero Hora fez uma cobertura da versão gaúcha desse drama.

– Se eu morrer amanhã? Aí depois de amanhã vai fazer dois dias que eu morri. Simples assim.

– O pai sabe e dá conselho, mas não adianta. Ele às vezes visita a boca, tenta me levar. Acho que tá desistindo.

– No crime a gente só sabe do dia de hoje.

– Tenho uma filha pequena. Quero um futuro bom pra ela O que vou dizer pra ela? Pretendo estar morto quando ela crescer. Já ter matado para estar morto. Não quero parente meu nisso daí.

O contraste flagrante entre os dois grupos de crianças que conheci é a triste e deprimente realidade desse país. De semelhante, os dois grupos têm apenas o tempo de vida vivido. São desiguais na qualidade e na quantidade das horas que ainda restam nessa terra.

Se para muitos, a educação precária oferecida pelo Estado já era um aviso do futuro semi-analfabeto que espera pelas crianças brasileiras, a vida escassa dos meninos do tráfico esgotou mais um pouco da esperança.

Tidos como os piores vilões há décadas, o analfabetismo e o conseqüente desemprego foram postos em segundo plano. Está em evidência no país o horror da vida dos garotos que vivem do crime, brincando com armas de fogo, no país inteiro.

Mais uma vez, o problema é passar do discurso para a ação. Movimento que o país vem esperando com angústia (mas com notável otimismo) já há muito tempo.

Mas não tem nada não. Esse é ano de Eleições e de Copa do Mundo. Mais alguns meses e toda essa realidade intragável estará novamente esquecida. Tragada.

É só uma questão de tempo.

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3 Comentários

Arquivado em Genéricos

3 Respostas para “Nossos modelos, parte 2

  1. Tiozão

    Infelizmente meu amigo, este povo sofrido é tão perceverante que consegue encontrar em simples coisas energia para seguir sobrevivendo, e assim acaba por engolir a realidade imposta a ele, e não usa a força que tem, ou por não conhece-la ou por falta de exemplos, como disse, para se colocar diante de toda essa d…

  2. É. Temos uma fonte inesgotável de energia dentro de nós. Percebo isso a cada dia que passa. Eu a chamo de Deus… bom se todos fossem apresentados pra ela.

    Que barbaridade! Tá ficando qualificada minha audiência da Uzina, hem?

    Bração!

  3. Anonymous

    quando descobrirmos a força da não-violência,
    quando aprendermos a nos respeitar e a nos querermos bem,
    quando esse povo descobrir que está sendo humilhado e que pode lutar e vencer,…
    eu quero ver acontecer!
    Roberto, pará, Brasil

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