Arquivo do mês: março 2006

Fagulha

“Nada é mesmo o que parece ser.
O mar, de longe, é azul, de perto, verde e por dentro, transparente.
Aparentemente, tudo é diferente do que realmente é…
Eis então o segredo para não julgar: em vez de olhar o mar de longe, mergulhar!”

Crédito: coisas da Jac.

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Nossos modelos, parte 1

Assim como essas letras, que saem todas umas atrás das outras, imitando cor, tipo, tamanho e direção, assim também somos nós. Assim como essas linhas que saem poucas e logo são muitas, imitando uma as outras sua forma, seu comprimento e seu senso de limite e de distância entre a anterior, assim também somos nós. Seguimos, desde o nascer, modelos que nos são apresentados.

A menos que eu tenha agora um baita defeito no teclado ou um bug aconteça no Word. Daí é possível que as saiam uma de cada cor e uma de cada tipo. A primeira Arial, a outra Comic Sans e a terceira, quem sabe, Impact. Uma negrito, a outra itálico e a última sublinhada. Uma gritando pontos de exclamação quando somente deveria seguir o exemplo da que veio atrás, mesmo que aguardando ansiosa o fim da frase, o desfecho da idéia. Convenhamos, isso nunca acontece. Nem as linhas fazem assim. Imaginem uma em cada direção, uma por cima da outra, sem nenhum critério de distância, nem de consciência de até onde pode ir. Se elas, letras e frases, não fazem assim, muito menos nós o faremos.

Não somos assim tão parecidos, com hábitos tão similares, por simples coincidência ou herança genética. Desde o primeiro choro e o primeiro e doído brilho de luz nos olhos, somos influenciados por modelos que existem desde antes de nós.

Qual foi a primeira palavra que você disse? Que gíria você mais usa e de onde você a tirou? Esse jeito de amarrar os tênis aprendeu com quem?

Provavelmente tenha sido mamãe ou papai a sua primeira demonstração fonética. Talvez bebê. Isso porque, certamente, era a palavra que seus pais ou quem cuidou de você mais dizia. Era o modelo que você tinha. Era o único que você conhecia e porque teve que falar, foi assim mesmo que falou.

Com o passar do tempo, passamos dessa fase. Passamos a conviver com alguns modelos a mais. Além de engatinhar, sabemos agora caminhar e correr. Além de sentar e ficar em pé, sabemos ajoelhar. Tiramos uma das rodinhas, depois a outra e logo conduzimos a bicicleta assim como o vizinho mais velho aquele faz. Igualzinho.

O tempo passa mais um pouco e já precisamos escolher que modelo queremos seguir. A sociedade e a televisão, alimentada por ela (ou será o contrário?), nos apresentam infinitos modelos. Modelos de consumo, modelos de beleza, modelos de moda, modelos de comportamento, modelos de felicidade, enfim, modelos de vida.

Passamos, então, a conjugar o discernimento. Alguns tombos nos ensinam a optar por isto ou por aquilo. Pelo modelo positivo ou pelo modelo negativo. Até que configuramos nossa personalidade, antecipando escolhas por modelos positivos e negativos. Alguns bem fáceis, outros nem tanto de escolher.

Ghandi para todos é um modelo de humanidade. Martin Luther King para os mesmos é um modelo de luta contra o racismo. Madre Teresa de Calcutá é um modelo de desprendimento do mundo material, de dedicação ao mundo espiritual e de caridade. Maria, a mãe de Jesus, é, para os católicos, modelo de fé e de silêncio. O próprio Jesus, para os cristãos, é um modelo de perseverança, de humildade e de sabedoria.

Já ouvi, já disse aqui e repito: somos resultados de nossas escolhas. Dia a dia. Somos resultados das escolhas de nossos modelos. O que vamos seguir. Que caminho tomar. Gritar ou calar. Ajudar ou ignorar. Ligar ou esquecer. Doar ou esbanjar. Comer ou evitar. Assim mesmo, coisas simples. Imitamos sempre algum modelo que já conhecemos. E, assim mesmo, no simples, vamos configurando nosso jeito de ser.

Sofrido o caminho daqueles que, apesar da oportunidade que têm para escolher, preferem o modelo negativo. Como se não bastasse a morte ser a certeza de todos, para estes, o medo, a tristeza e a miséria de espírito serão os companheiros até o final previsto.

Felizes os que podem ainda discernir. Escolher entre um e outro. Triste é o mundo daqueles que não tiveram essa chance. Triste é o destino daqueles que nunca tiveram o bom e o ruim, lado a lado, para optar. Um Estado (ou os dois) que convive com a falta de um modelo positivo para suas crianças desenvolvem a cada dia um case de sucesso na construção de um país com um futuro doente. Que, muitas vezes, um a um, vai morrendo até mais cedo do que a própria morte previa.

Falcão – meninos do tráfico é um retrato em preto e branco da doença de nosso país.

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Nossos modelos, parte 2

Dias atrás fui conversar sobre modelos positivos e negativos com um pessoal num bairro próximo de onde moro, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. A maioria estudante, de uns 14, 15 anos. Estavam reunidos porque participam de um grupo de jovens da Igreja Católica.

Falamos a respeito de modelos, para principalmente tratar do modelo de fé e de silêncio que é Maria, a mãe de Jesus Cristo, em especial para os católicos. A intenção era perceber como um pouco mais de fé, de oração e de recolhimento nos ajuda no dia-a-dia. Foi bem produtivo. Falamos dos modelos que a TV nos apresenta, dos modelos de beleza, de crença, de comportamento. Discutimos a questão do discernimento, de sabermos a hora de optar em seguir o bom exemplo e o exemplo não tão positivo assim.

Antes disso, pedi para que todos escrevessem, sem se identificar, quem gostariam de ser, se não fossem eles mesmos.

– Se eu não fosse eu mesmo, gostaria de ser meu pai. Para ser guerreiro, fiel, bom e trabalhador.

– Eu gostaria de ser eu mesma, porque há pessoas em situações piores e que não podem ter o que eu tenho.

– Se eu não fosse eu, gostaria de ser meu pai, ser honesto, trabalhador e bondoso.

– Seria eu mesmo, porém com uma nova maneira de viver, novas atitudes e cada vez mais fé e perseverança.

– Eu queria ser John Lenon. Porque sim.

Horas depois, veio a certeza do tamanho do privilégio que têm esses jovens. O Fantástico, da Rede Globo, apresentou para o Brasil parte do documentário Falcão – meninos do tráfico. Um soco no estômago, como disseram alguns. Dias depois, o jornal Zero Hora fez uma cobertura da versão gaúcha desse drama.

– Se eu morrer amanhã? Aí depois de amanhã vai fazer dois dias que eu morri. Simples assim.

– O pai sabe e dá conselho, mas não adianta. Ele às vezes visita a boca, tenta me levar. Acho que tá desistindo.

– No crime a gente só sabe do dia de hoje.

– Tenho uma filha pequena. Quero um futuro bom pra ela O que vou dizer pra ela? Pretendo estar morto quando ela crescer. Já ter matado para estar morto. Não quero parente meu nisso daí.

O contraste flagrante entre os dois grupos de crianças que conheci é a triste e deprimente realidade desse país. De semelhante, os dois grupos têm apenas o tempo de vida vivido. São desiguais na qualidade e na quantidade das horas que ainda restam nessa terra.

Se para muitos, a educação precária oferecida pelo Estado já era um aviso do futuro semi-analfabeto que espera pelas crianças brasileiras, a vida escassa dos meninos do tráfico esgotou mais um pouco da esperança.

Tidos como os piores vilões há décadas, o analfabetismo e o conseqüente desemprego foram postos em segundo plano. Está em evidência no país o horror da vida dos garotos que vivem do crime, brincando com armas de fogo, no país inteiro.

Mais uma vez, o problema é passar do discurso para a ação. Movimento que o país vem esperando com angústia (mas com notável otimismo) já há muito tempo.

Mas não tem nada não. Esse é ano de Eleições e de Copa do Mundo. Mais alguns meses e toda essa realidade intragável estará novamente esquecida. Tragada.

É só uma questão de tempo.

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Nossos modelos, parte 3

“Eu não sei o que vai acontecer. O que eu não gostaria que acontecesse é que esse projeto virasse um caso de polícia, objeto de exploração política ou simplesmente um grande espetáculo. Faço parte da Central Única das Favelas, a Cufa, que vem dando uma contribuição significativa sobre essa questão. Esse documentário é um exemplo. Mas, ainda sim, é muito pouco, diante do que toda a situação necessita. Se o Brasil estava esperando chegar no fundo do poço para refletir sobre esse problema, o momento é esse”, defende MV Bill.

“Eu vi nesse documentário algumas das cenas mais chocantes que eu já tinha visto em toda a minha vida. Uma realidade extremamente cruel, sem retoque nenhum, e da qual eu não sabia realmente. São todos infelizes, marcados e sabem que têm uma vida muito curta. O que me dá medo é não achar que haja uma geração perdida, é achar que haja mais do que uma, talvez duas, talvez três”, lamenta o autor de novelas Manoel Carlos.

“Eu acho que nunca foi feito nada parecido no Brasil, pelo menos com esse detalhamento. Alguém foi, mergulhou naquele inferno e voltou com um relatório, terrível. Eles sabem bem o destino deles, uma espécie de fatalismo. É culpa de uma situação que vem de anos e é um trabalho também para vários anos e que vai envolver todo mundo”, acredita o escritor Luís Fernando Veríssimo.

“Eu acho que a importância de se ver esse documentário é de resgatar a humanidade que há dentro de nós, mesmo que seja pelo choque mesmo que seja um soco no estômago”, aponta a atriz Camila Pitanga.

“Ninguém está falando em nome deles. São eles que estão falando em seu próprio nome. É como se a favela fosse um problema do Brasil. Ao contrário, o Brasil que é um problema dessas pessoas. Quando você vive nessa situação limite, a vida perde a importância. A existência perde os seus valores fundamentais”, observa o cineasta Cacá Diegues.

“O que fica sublinhado é o absoluto abandono em que vive essa população. É um gueto, uma terra de ninguém. É muito difícil para uma família criar um filho dizendo que o crime não compensa quando o estado mostra todo dia, através da benevolência das leis, de coisas desse gênero que o crime compensa sim. A consciência daquela mãe, o
desespero, essa angústia que eu sinto com ela, quando ela diz isso. ‘Eu quero mostrar pro meu filho que o mundo não é só isso’. Chega de discussões teóricas. Vamos partir para a ação”, pede a autora de novelas Glória Perez.

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