Arquivo do mês: novembro 2005

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Entrevista: No olho do Wilma

Tinha telhas de pé, fincadas na grama, pra tu teres uma idéia da velocidade que elas estavam. (…) O jardim ficou completamente destruído. Ficaram apenas o talo das flores, e todas as folhas foram arrancadas. Mas isso é o de menos, né?”

“Bom, acordei na madrugada de segunda-feira, às 7 da manhã (sim, pra mim isso é
madrugada!), com chuva já. A casa já estava toda fechada, como tu já tinha visto
no domingo que eu mostrei minha janela, lembra? Bom, como o meu despertador é a
TV, acordei e já botei no Weather Channel… daí já fiquei meio assustada, pois
o furacão já estava em terra e estava vindo em nossa direção!”

O relato acima foi enviado por e-mail para o Brasil por uma gaúcha que o meu amigo Gustavo me apresentou. Ela mora no sul do estado da Flórida, nos Estados Unidos. Sua cidade, West Palm Beach, foi escolhida pela natureza para estar exatamente no olho do furacão Wilma, que atingiu o país na manhã do dia 24 de outubro. Com duração de pouco mais de sete horas, ventos superiores a 200 km/h e intensidade registrada na categoria 3 da escala Saffir-Simpson, o furacão matou sete pessoas, causou enchentes e destruição e deixou milhões de pessoas sem energia elétrica. Letícia Gomes Kovalski, 19 anos, era uma dessas pessoas.

“Chegamos na loja pelas 7 horas da tarde (horário que devíamos estar em casa por
causa do toque de recolher), mas conseguimos o último gerador a gasolina da
loja. Achamos o gerador e meu irmão e meu pai ficaram sentados em cima da caixa,
como cães de guarda, enquanto meu outro irmão ia buscar um carrinho. Enquanto
ele buscava, um casal chegou na frente do meu irmão que estava com o gerador. O
casal olhou para o meu irmão, olhou pro gerador, olhou pro meu irmão de novo,
largou o carrinho e foi embora. Nós tínhamos conseguido o último gerador!”

Por e-mail, conversei com ela uns cinco dias depois da passagem do furacão para tentar ter idéia da forma como essa destrutiva reação da natureza influencia no dia-a-dia, nos hábitos e no comportamento dos seres humanos.

As fotos, ao longo da entrevista, foram tiradas pela própria Letícia. São recortes da realidade vivida por ela, pela sua família e pelos outros tantos americanos naquela manhã. Sem montagens e sem manipulação.

Uzina: O que levou a tua família a se mudar do Brasil?
Letícia: Minha mãe sempre quis morar fora do país. A princípio, ela queria morar na Alemanha, mas ela se inscreveu na loteria do Green Card, pois viu o anúncio na Zero Hora e fomos sorteados de cara. É claro que não “ganhamos” o Green Card (visto de residência permanente nos EUA), eles apenas nos deram a oportunidade de pagar pra obter o visto. Como eu tenho uma tia que mora aqui na Flórida (fazia 15 anos que ela morava aqui na época que nos mudamos pra cá), resolvemos tentar a vida na terra do Tio Sam e esse também foi o motivo por termos escolhido a Flórida, porque minha tia mora aqui e ficaria mais fácil pra ela nos dar uma mãozinha no início.

Uzina: Como é o teu dia-a-dia? A chegada do Wilma alterou a tua rotina e da tua família?
Letícia: O furacão alterou a rotina de todos porque ficamos sem faculdade, sem trabalho, sem água, sem luz, sem mercado, sem nada! Mesmo o furacão só chegando na segunda, já não tínhamos aula desde sexta e o pessoal não trabalhou desde sábado (os americanos não conhecem fim de semana, na maioria dos lugares trabalham de segunda a segunda). Até hoje, muitos lugares estão sem luz, até mesmo supermercados e postos de gasolina, que no momento são extremamente requisitados.

Uzina: Como tu ficaste sabendo da chegada do furacão? Pela TV, jornal ou internet?
Letícia: Ficamos sabendo dos furacões pela internet e pela TV. Toda hora estão falando dos ventos aqui perto, que podem acabar formando um furacão. E como estamos na temporada de furacão, tá todo mundo de olho sempre. Mas quando o furacão está passando, ou já passou há pouco tempo, só resta escutar pelo rádio o que está acontecendo. Como a maioria das casas fica sem luz, os canais de TV “tomam conta” das estações de rádio.

Uzina: Como é a preparação para a chegada do furacão?
Letícia: A preparação começa com a casa. Temos que fechar todas as aberturas (janelas no caso). Algumas casas têm já instaladas proteções de furacão que são tipo uma sanfona que eles fecham (essas são as mais práticas e mais caras também). Outras casas têm as placas de alumínio, que têm que ser instaladas (parafusadas) manualmente. É bem trabalhoso pra botar e tirar e tem o perigo de estragar as buchas (o que aconteceu com a gente) e causar problemas quando o furacão passa. Ainda tem gente que prega placas de madeira.

Ah, também somos recomendados a comprar suprimentos que dure uma semana, como: água potável, comida enlatada, pão, etc. Também é bom ter um gerador pra preservar a comida na geladeira e poder tomar banho quente (se tiver água), mas todo mundo deixa pra comprar depois que passa o furacão e daí já é muito difícil achar um. Aqui muita gente tem o que eles chamam de grill (uma churrasqueira portátil, mais ou menos), então tem como fazer comida quente nos primeiros dias, antes que estrague tudo. Normalmente, ficamos uns três dias depois que volta a água sem poder usá-la, temos ou que ferver ou usar a água que compramos. Mas o prefeito da cidade liga e nos avisa sobre isso. Algo muito útil também é um telefone que não precise ser ligado na luz. Muitas vezes a eletricidade cai, mas as linhas de telefone não, então é bom ter esse telefone caso as autoridades liguem pra nos atualizar no andamento do furacão e das providências que estão sendo tomadas depois da passagem dele.

Uzina: Que tipo de recomendação vcs recebem do governo ou da polícia antes do furacão? Como é a assistência do governo?
Letícia: Quando uma tempestade forte ou furacão está se aproximando, uma lista fica passando na parte inferior da tela da TV, e em alguns momentos a programação é cortada e aparece um aviso na tela (se o fundo do aviso é azul é apenas tempestade tropical, mas se for preto é mais séria a coisa). Neste aviso diz quais as zonas que serão afetadas e quais zonas de mais ricos que deverão evacuar. Há vários abrigos na cidade, e qualquer pessoa que sentir medo de ficar em casa pode ir para o abrigo, mas especialmente as pessoas em zonas de evacuação mandatória devem ir para abrigos em outras partes da cidade (nós nunca fomos para um desses, então não posso explicar como funcionam as coisas lá dentro). Depois que passa o furacão, o governo ajuda distribuindo comida, gelo e água em vários pontos das cidades. Algumas zonas chegam a ter pontos de distribuição funcionando já no dia depois do furacão.

Uzina: Como funciona o toque de recolher?
Letícia: As pessoas são avisadas por telefone sobre o toque de recolher e ele depende do quanto a cidade foi atingida pelo furacão. Mas todas as cidades atingidas têm um toque de recolher, por alguns dias pelo menos, para que as pessoas não fiquem perambulando na rua e atrapalhando quem está trabalhando pra limpar e arrumar a cidade. Se alguém é pego na rua depois do toque de recolher é preso e tem que passar a noite na cadeira a não ser que esteja indo ou vindo do trabalho. Mas quando tem o toque de recolher, por exemplo, às 8 PM, os poucos estabelecimentos abertos fecham no mínimo uma hora antes pra que os funcionários tenham tempo de chegar em casa antes do toque.

Uzina: Como foi a chegada do furacão? Tu acompanhaste pela TV? Qual a sensação e a mobilização dentro da casa?
Letícia: Nós tivemos sorte de ter luz uma boa parte do tempo. Acompanhamos o furacão pela TV e também pela filmadora que instalamos na porta da garagem da casa. Ela transmite a imagem pela TV tb. Depois faltou luz e nós não tínhamos mais como acompanhar o furacão. Tivemos que sentar e esperar ele passar. Tivemos alguns contratempos, o que tornou a situação bem mais difícil e assustadora.

Uzina: Até onde sei, o momento que o vento pára na primeira vez é porque vc está no olho do furacão. É, ao mesmo tempo, um momento de alívio e de apreensão. Como é isso de saber que tudo pode começar a qualquer momento dnovo?
Letícia: A única coisa boa de o olho ter passado por aqui foi que nós tivemos tempo de arrumar as coisas pra encarar a segunda parte do furacão. Mas, como todos diziam que a parede atrás do olho tem os ventos mais fortes (e, de fato tinha) nós ficamos na expectativa. Não havia muito o que fazer nem pra onde correr mais, então só o que podíamos fazer era esperar e rezar pra que ele não levasse a casa junto.

Uzina: Quais os prejuízos na tua casa e na redondeza?
Letícia: Aqui em casa os únicos prejuízos foram o jardim, que praticamente não existe mais, e a janela do quarto da minha mãe, onde as placas de metal foram arrancadas. O que mais tem de estragos pela região são árvores caídas, postes de luz quebrados no meio ou até em quatro partes, sinaleiras que já não existem mais e as que ainda estão no lugar, não funcionam mais. Também há cercas caídas e alguns prédios que desabaram (o do serviço da minha mãe foi um deles). Acho que o mais grave, mas já era esperado, foram as casas que eles chamam de mobile homes, que são de madeira e foram destruídas. Foi o mais trágico porque há muitas pessoas (gente de idade) que mora nessas casas porque são mais baratas. Essas pessoas não têm dinheiro, já tem muita idade e provavelmente o único dinheiro que tem usam para remédios (aqui os idosos vivem muito mais que no Brasil, e vivem sozinhos também, mas são todos muito doentes). Então eles não têm condições de comprar algo que sobreviva a um furacão e perdem tudo quando um passa.

Uzina: Esse tipo de fenômeno da natureza acaba entrando no hábito das pessoas ou de certa forma tu sente vontade de voltar ao Brasil para não precisar passar por isso?
Letícia: Mesmo morando aqui nos EUA por quase cinco anos, esse foi o nosso segundo ano lidando com furacões. Ano passado foi algo incrível, não sabíamos o que fazer porque era novidade. Fugimos do primeiro, mas logo depois veio outro. Já não tínhamos mais disposição pra levantar acampamento novamente e ficamos. Acho que ano passado não nos surpreendemos tanto com isso porque os furacões que passaram pela Flórida não pegaram a nossa cidade de cara assim como o Wilma. Então os estragos foram poucos já que os ventos mais fortes não passaram por aqui. O Wilma veio de cara pra West Palm (o que não acontecia há 60 anos) e nos atingiu feio. É claro que toda essa destruição é comovente e causa muitos transtornos pra todos, mesmo pra quem não teve muito prejuízo com suas casas. O comércio fica abalado e isso afeta a todos. Mas eu não diria que voltaria para o Brasil por causa dos furacões (por outros motivos que não vêm ao caso talvez, mas não por isso). Acho que todo lugar tem seus problemas, mas temos que aprender a conviver com eles para poder usufruir das coisas boas que eles nos proporcionam. E talvez eu só diga isso porque ainda tenho uma casa para morar. Muita gente decide ir embora daqui depois de perder tudo para não passar por isso novamente.

Uzina: Tu tinhas curiosidade em ver o olho do furacão. Conseguiu? Como é?
Letícia: Sim, eu tinha muita curiosidade em ver o olho do furacão. Sempre fui meio fascinada por furacões e tornados desde pequena. E vi o olho do furacão sim, só que não vi nada! É que na verdade não tinha o que ver, apenas parecia um dia nublado. O olho do furacão é muito extenso, então não tem como ver as paredes dele até porque quando a parede vai chegando mais perto o vento fica cada vez mais forte. Mas quando estamos no olho do furacão não tem chuva nem vento nenhum, é uma calmaria e depois ele vem com tudo de novo, isso se não vier ainda mais forte.

Uzina: As pessoas acabam ficando mais solidárias ou mais agressivas umas com as outras quando o que está em jogo é uma questão de sobrevivência?
Letícia: Eu até pensei que as pessoas fossem ficar mais agressivas, até mesmo desesperadas por conta da falta de luz, comida, água, gasolina e até mesmo casa para morar. Mas não fui testemunha de nenhum ato de agressividade. Muito pelo contrário. Muita gente que tem geradores grandes os divide com os vizinhos. Tem gente que liga para as rádios pedindo ajuda e logo liga outro dizendo que vai ir lá ajudar. As filas nos postos de gasolina e nos pontos de distribuição de comida são tremendamente longas, o que me levava a pensar que muita gente tentaria furar a fila. Mas até agora eu vi muito pouca gente furando, e quando furam os outros se botam neles e eles têm que ir pro fim da fila.

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