Jornalismo boca suja e debochado

“Na história de Veja, foram muitas as reportagens que alcançaram repercussão
internacional. Entre elas, estão as que detonaram a crise política ora em curso.
Na semana passada, a revista voltou a ser destaque na imprensa internacional.
(…) A reportagem sobre a máfia do apito, da editora Thaís Oyama e do repórter
André Rizek, ganhou o mundo por meio da internet, da televisão e das páginas de
publicações importantes da América do Sul, Ásia, Europa e dos Estados Unidos.”

Grande coisa.

É só o que se fala nas aulas de jornalismo ultimamente quando tocamos no assunto. A Veja deu um baita furo e é a capa que mais vende nas bancas há bastante tempo. Grande coisa. Faz um péssimo jornalismo. Talvez o pior da história de vida de muitos colegas meus. Quase todos nascidos na década de 80, eu sei. Não é muito tempo. Mas tem a sua relevância, sim.

Como todos, estou indignado com a crise política. E como a Veja e outros tantos, sou partidário do não na votação da proibição das armas e munição.

Poderia ser um prato cheio, então. Mas isso não me fez ficar feliz com o que a Veja faz. Para a Academia, é um retrocesso esse tipo de jornalismo. Não são matérias de revista. Não são textos que deveriam traçar um panorama da semana, revelando fatos, apontando suspeitos e deixando a conclusão para o leitor. Isso não acontece. Decididamente.

“Entre tantas perguntas ao vento levantadas pelo estouro da quadrilha de
petistas que assaltava o Estado, é reconfortante saber que pelo menos para uma
delas existe resposta: por que a crise política não detona a economia e o Brasil
parece funcionar até melhor enquanto os políticos estão preocupados apenas em
manter a cabeça sobre o pescoço?” Página 58 de Veja, de 14 de setembro.

“(…) o deslumbramento de alguns de seus (do PT) principais
representantes, que, diante do banquete do poder, lançaram-se sobre os pratos
como porcos magros.” Página 69 de Veja, de 14 de setembro.

São exemplos da abordagem da crise política publicadas pela Veja. Sem aspas. É um texto da matéria da revista. Isso mesmo. Quadrilha de petistas e porcos magros. Quase tudo se confirma na conversa de bar, quando se joga papo fora. Sei que sim. Mas não é coisa que se diga. Não assim. Isso é jornalismo boca suja.

“A pergunta que será feita no referendo das armas é um disparate. Ela ilude o
leitor. É uma trapaça, pois, mesmo que o sim vença por larga margem, (…)”
Página 77 de Veja, de 5 de outubro.

“O povo não pode ser exposto ao
ridículo.” Página 78 de Veja, também de 5 de outubro.

“O desastre é que
o referendo do dia 23 não será um passo na direção dessa utopia. Se vencer o
sim, ele apenas vai desequilibrar ainda mais o balanço de forças entre as
pessoas comuns e os bandidos – a favor dos bandidos.” Página 80 de Veja, também
de 5 de outubro.

“(O referendo) é mais uma oportunidade perdida.” Página
80 de Veja, também de 5 de outubro.

A Veja se declarou logo de cara. Coisa que pode até ser considerada como uma atitude honesta da revista. Ela é contra a proibição de armas e munição. Mas ela é debochada também. O texto é muito mais que um texto com posição. É um texto que ironiza a questão e rebaixa o nível da discussão para os fundos da cozinha. Com gente assim não dá pra conversar, diriam uns.

Cada vez mais o leitor brasileiro precisa de informação. Isenta, objetiva e imparcial. No mínimo, tentativas de realizar isso devem existir. Mas a Veja não quer o desafio. Prefere logo mostrar a cara. E virar um grande e respeitado caderno de opinião jornalística.

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