Um Kaiser nas Nações Unidas


Kaiser Konrad

O cara é uma reunião de coisas incomuns. A começar pelo nome: Kaiser Konrad. O primeiro, quer dizer imperador e o outro, conselheiro audacioso. Vira as noites de sexta-feira acompanhando o corpo de bombeiros de Porto Alegre, fotografando acidentes, incêndios e situações inusitadas. O Iraque é lugar onde ele gostaria de estar nesse momento. Tendo como sonho a carreira de correspondente de guerra, o país é quase a sua ilha paradisíaca. E pra completar, agora veio com uns papos de que esses dias tornou-se o primeiro estudante de jornalismo do Brasil a conhecer a Antártida. Pior que ele confirma tudo na entrevista aí embaixo.
Entre as comunidades das quais participa no Orkut estão “fotógrafos aéreos”, “eu amo jornalismo”, “exército brasileiro”, “falem mal, mas falem de mim”, “correspondentes internacionais” e “belas sim! fúteis não!”. O entrevistado desta edição tem qualidades “que vão desde a força de um general à oratória de um político, da cultura de um artista ao humanismo e racionalidade de um filósofo”. Se pra modesto ele não serve, na boa, dá pra chamá-lo de um camarada verdadeiro. Bacana pra se conversar sobre tudo.

O Kaiser é a terceira geração de vizinhos que habitam a casa ao lado de onde moro, na rua Nações Unidas. É um pouco estranho. Ele é meu vizinho, mas não mora ali. A casa é uma espécie de casa de campo da família. Não pelas vacas, nem pelo açude. Não tem nada disso. É que eles vêm muito de vez em quando, se reúnem para um churrasco, pra tomar um chimarrão no fim do dia e pra cortar a grama. Lembro dos papos que tínhamos há muito tempo, quase sempre na véspera de ano-novo. Quase sempre, falávamos de coisas meio malucas, que inclusive acho que ele não me autoriza a contar aqui. O cara ficou barbudo e os papos amadureceram também. Foi numa dessas conversas, de pé, no ônibus que nos leva de Canoas à capital, que o Kaiser me falou da ida à Antártida. Disse da expectativa e da grana que estava juntando para arcar com algumas despesas, como alimentação e roupas, que parecem ser baratas lá.

Dias depois, na volta da viagem, resolvi entrevistá-lo, por e-mail.

Uzina Quem estava junto contigo lá?
Kaiser Eu acompanhava uma comitiva composta por Oficiais-Generais, cientistas e parlamentares brasileiros.

Narcisista de certa forma, pois como sempre digo: “se não me vender bem quem
irá me comprar?”. É bom saber que possuímos certas qualidades.

Uzina O objetivo da viagem?
Kaiser Realizar uma reportagem sobre a importância da presença brasileira no continente gelado.

Uzina O objetivo da FAB era?
Kaiser Realizar o transporte de carga e pessoal necessários à manutenção e visitação da Estação Antártica Comandante Ferraz, treinar a tripulação em pouso no gelo e efetuar lançamento de carga aérea sobre a estação brasileira.

Uzina Quem é o Kaiser? Narcisista mesmo?
Kaiser O Kaiser é um jovem de 21 anos que mora em Canoas. Uma pessoa séria mas ao mesmo tempo brincalhona, estudante de jornalismo da Unisinos, é repórter do site Defesanet e repórter fotográfico do Corpo de Bombeiros de Porto Alegre. Amante de aventuras, principalmente se têm riscos. Almeja se tornar um correspondente de guerra. Narcisista de certa forma, pois como sempre digo: “se não me vender bem quem irá me comprar?”. É bom saber que possuímos certas qualidades.

Para me preparar, li muitas reportagens, livros e estudei mapas para
garantir que nada iria passar despercebido.

Uzina O que está lendo agora?
Kaiser Estou com uma pilha de mais de 70 livros que ainda não tive tempo pra ler. Atualmente, estou lendo Minha Vida, a autobiografia de Bill Clinton; Boa Vida e Guerras Alheias – do Fidalgo Mr. Pyle e o Pêndulo de Foucault. Sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo.

Uzina O que sabia do lugar pra onde estava indo, antes da viagem? Fez a típica pesquisa como se preparasse pra uma entrevista?

Kaiser Apesar de ter realizado muito turismo, o propósito da viagem era profissional. Então tive que me preparar, estudar a história e a geografia dos lugares para os quais estava indo. Eu deveria saber exatamente onde estava, quando e o que ia fazer lá. Eu não poderia perder tempo. Nessas viagens tudo acontece muito rápido e a oportunidade é única. Para me preparar, li muitas reportagens, livros e estudei mapas para garantir que nada iria passar despercebido.

Fui o primeiro aluno de jornalismo do país a pisar no gelo. Isso foi uma
honra para mim, apesar de estar integrando a comitiva não como um estudante, mas já como um profissional.

Uzina Que história é essa de primeiro estudante de jornalismo a pisar no solo gelado?
Kaiser Somente estudantes das áreas físicas e biológicas vão à Antártida, pois lá existe um ambiente propício à realização de pesquisas científicas. Fui o primeiro aluno de jornalismo do país a pisar no gelo. Isso foi uma honra para mim, apesar de estar integrando a comitiva não como um estudante, mas já como um profissional.

Uzina Como descreve a experiência?
Kaiser Poder dizer que estive na Antártida, perto do Pólo Sul, num ambiente quase lunar, inóspito, gelado e distante, integrando uma comitiva de autoridades brasileiras torna essa viagem uma experiência inesquecível.

Estar só, num ambiente perigoso, ter que correr atrás das informações, procurar
fontes, falar em outra língua, tudo isso agregou uma experiência ímpar à minha
profissão.

Uzina Foi apresentado a algum bichinho exótico?
Kaiser Na Antártida não vi animais, nenhum pingüim, pois eles só vêm no verão. Lá na Patagônia, pude conhecer os famosos Guanacos (Lhamas), belos animais.

Uzina Tirou algum proveito pra profissão?
Kaiser Com certeza. Essa foi minha primeira cobertura internacional. O reconhecimento de que meu trabalho tem importância para o governo (Ministério da Defesa). Estar só, num ambiente perigoso, ter que correr atrás das informações, procurar fontes, falar em outra língua, tudo isso agregou uma experiência ímpar à minha profissão.

Uzina E a matéria?
Kaiser Agora em julho estarei publicando no site Defesanet a reportagem sobre a viagem. O ponto central dela será a importância da presença brasileira no continente gelado, aspectos estratégicos, políticos e científicos.

Uzina Que que rola de papo nas viagens?
Kaiser Se fala de tudo. Cada um conta suas aventuras, o motivo pelo qual está fazendo aquela viagem, por onde passou. A gente sempre sai sabendo alguma coisa nova. Essa troca de experiências é muito positiva no jornalismo.

Uzina Famoso profissional de la prensa brasileña, então?
Kaiser Era nossa última noite no Chile e resolvemos sair para uma festa. Estávamos lá curtindo a música e apreciando um bom vinho chileno quando o locutor leu um bilhete dizendo que um dos mais famosos “periodistas brasileños” estava ali e naquela data fazia aniversário. Como presente gostaria de dançar salsa com uma “tica” chilena. Fiquei completamente constrangido na hora, pois fui pego de surpresa, mas não deixei por menos e encarei a brincadeira com ótimo espírito, nunca tinha dançado salsa antes. Foi bem legal. Quem tinha aprontado comigo foi um Capitão de Mar e Guerra da Marinha (coronel). Gente finíssima.

Não consigo ficar parado em um lugar e gosto de fazer matérias que tenham
uma dose de risco.

Uzina Como vcs se deslocavam por lá e como se alimentavam?
Kaiser Estávamos baseados em Punta Arenas, às margens do Estreito de Magalhães. Nossos deslocamentos era realizados em ônibus e depois locamos uma van para ter maior mobilidade na região. Para a Antártida, fomos com um Hércules C-130 da FAB.

Uzina Quantos rolos de filme?
Kaiser Fiz dez rolos de 36 poses cada. As belezas eram tantas que eu estava sempre clicando.

Uzina Como foi ter perdido o maior furo jornalístico da carreira que não começou?
Kaiser Uma nevasca atingiu os Andes, deixando isolado um batalhão inteiro do exército chileno. Lá só se falava nisso. Havia um estado de comoção nacional. Eu não poderia imaginar que essa notícia sairia do Chile e fosse correr o mundo todo. Eu era o único repórter brasileiro na região. Tinha a possibilidade de realizar uma cobertura in loco para a imprensa brasileira, mas só fui saber que aqui se falava sobre a tragédia quando retornei. Que infelicidade.

Uzina A mãe, sobreviveu à viagem? (conta a história)
Kaiser Casualmente, quando aconteceu a tragédia com os militares chilenos, eu iria fazer um segundo vôo à Antártida, cancelado devido ao mau tempo na região. Meus pais sabiam todo o meu programa de viagem, então quando viram na TV que uma tragédia tinha acontecido naquela região, ficaram muito preocupados comigo. E para piorar as coisas, fiquei dois dias sem me comunicar com o Brasil. Imagina então como a mamãe ficou?

Uzina As viagens do Kaiser páram por aí? O teu negócio mesmo é viver trancado numa redação que eu sei….
Kaiser Toda a minha formação acadêmica é voltada a ser um correspondente de guerra. Não consigo ficar parado em um lugar e gosto de fazer matérias que tenham uma dose de risco. Minha próxima viagem, ainda sem data, deve ser ao Haiti para realizar uma reportagem sobre a missão de paz brasileira naquele país.

Clique aqui para conhecer o itinerário do Kaiser na viagem e ver algumas fotos.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Um Kaiser nas Nações Unidas

  1. Não tenho muito que dizer. Não sou o dono das letras. Deixo o espaço para o Juliano Rigatti e o Kaiser. O Juliano não conheço, mas escreve muito bem e acaba de ganhar um fã de seu site. Já o Kaiser, o conheci na sétima série, quando ele ainda sonhava em ser piloto e investigador de UFOs.
    Ele sempre teve um jeito excêntrico, diferente, às vezes motivo de chacota. A culpa não era dele, mas nossa. Não entendíamos a sua política de “vender sua imagem”. Enquanto ficávamos conspirando contra nossos maus professores ele não perdia tempo construindo sua imagem de “formador de opinião”. Muitas vezes achei que ele era só um metido querendo aparecer, outras alguém incompreendido.
    Mas a verdade se descortina com o tempo (Essa frase saiu agora. É minha. Se usarem favor deixar claros os direitos autorais). Hoje ele está conquistando o seu espaço, enquanto que nós, os zombadores, estamos correndo para, no mínimo, não ficarmos no esquecimento.
    Acredito que já disse isso pra ele pessoalmente numa ocasião, na qual nos encontramos na Estação Canoas, que estava muito feliz pelo o que havia conquistado, ao passo que assistimos às pessoal de nossa idade perdendo tempo e oportunidades por aí.
    Fica aqui minha homenagem, se é que posso chamar assim, ao meu amigo Kaiser. Alguém de quem nunca fui tão próximo, mas que dá a todos nós, daquela turma de 2001, uma grande lição: que não há limite para os nossos sonhos.
    Kaiser você não foi apenas o cara certo, na hora certa. Você foi o cara certo, na hora certa, com a bagagem certa.
    Parabéns pela viagem a Patagônia e pelas próximas conquistas que certamente virão. Estarei torcendo.

  2. Que homenagem! Legal Eglô.
    As coisas seriam bem melhores e mais fáceis pra todos se declarássemos o quanto estimamos as pessoas. Temos que rever sempre no modo de viver… merecendo, todos precisam do nosso elogio, nossa motivação e nosso reconhecimento. Sempre.
    Sabe por que? Porque a verdade se descortina com o tempo. (by Eglô da Silva)

    Abraço.

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