Arquivo do mês: junho 2005

Extra! Uzina entrevistada

Um desses dias atrás teve um toque de inusitado. Uma colega do curso de jornalismo da Unisinos me ligou e pediu se eu aceitava dar um depoimento sobre a Uzina. Eu? Sobre o quê? Isso.

O que falei sobre este blog foi publicada no boletim Instituto Humanitas Unisinos – IHU junto com outros tantos colegas da universidade na edição 145 (da semana entre os dias 13 e 20), cujo tema de capa era Weblogs: narrativas do eu e novas experiências de informação.

Legal, né?

A Uzina está na página 8 do IHU. Clica aqui para conferir.

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Um Kaiser nas Nações Unidas


Kaiser Konrad

O cara é uma reunião de coisas incomuns. A começar pelo nome: Kaiser Konrad. O primeiro, quer dizer imperador e o outro, conselheiro audacioso. Vira as noites de sexta-feira acompanhando o corpo de bombeiros de Porto Alegre, fotografando acidentes, incêndios e situações inusitadas. O Iraque é lugar onde ele gostaria de estar nesse momento. Tendo como sonho a carreira de correspondente de guerra, o país é quase a sua ilha paradisíaca. E pra completar, agora veio com uns papos de que esses dias tornou-se o primeiro estudante de jornalismo do Brasil a conhecer a Antártida. Pior que ele confirma tudo na entrevista aí embaixo.
Entre as comunidades das quais participa no Orkut estão “fotógrafos aéreos”, “eu amo jornalismo”, “exército brasileiro”, “falem mal, mas falem de mim”, “correspondentes internacionais” e “belas sim! fúteis não!”. O entrevistado desta edição tem qualidades “que vão desde a força de um general à oratória de um político, da cultura de um artista ao humanismo e racionalidade de um filósofo”. Se pra modesto ele não serve, na boa, dá pra chamá-lo de um camarada verdadeiro. Bacana pra se conversar sobre tudo.

O Kaiser é a terceira geração de vizinhos que habitam a casa ao lado de onde moro, na rua Nações Unidas. É um pouco estranho. Ele é meu vizinho, mas não mora ali. A casa é uma espécie de casa de campo da família. Não pelas vacas, nem pelo açude. Não tem nada disso. É que eles vêm muito de vez em quando, se reúnem para um churrasco, pra tomar um chimarrão no fim do dia e pra cortar a grama. Lembro dos papos que tínhamos há muito tempo, quase sempre na véspera de ano-novo. Quase sempre, falávamos de coisas meio malucas, que inclusive acho que ele não me autoriza a contar aqui. O cara ficou barbudo e os papos amadureceram também. Foi numa dessas conversas, de pé, no ônibus que nos leva de Canoas à capital, que o Kaiser me falou da ida à Antártida. Disse da expectativa e da grana que estava juntando para arcar com algumas despesas, como alimentação e roupas, que parecem ser baratas lá.

Dias depois, na volta da viagem, resolvi entrevistá-lo, por e-mail.

Uzina Quem estava junto contigo lá?
Kaiser Eu acompanhava uma comitiva composta por Oficiais-Generais, cientistas e parlamentares brasileiros.

Narcisista de certa forma, pois como sempre digo: “se não me vender bem quem
irá me comprar?”. É bom saber que possuímos certas qualidades.

Uzina O objetivo da viagem?
Kaiser Realizar uma reportagem sobre a importância da presença brasileira no continente gelado.

Uzina O objetivo da FAB era?
Kaiser Realizar o transporte de carga e pessoal necessários à manutenção e visitação da Estação Antártica Comandante Ferraz, treinar a tripulação em pouso no gelo e efetuar lançamento de carga aérea sobre a estação brasileira.

Uzina Quem é o Kaiser? Narcisista mesmo?
Kaiser O Kaiser é um jovem de 21 anos que mora em Canoas. Uma pessoa séria mas ao mesmo tempo brincalhona, estudante de jornalismo da Unisinos, é repórter do site Defesanet e repórter fotográfico do Corpo de Bombeiros de Porto Alegre. Amante de aventuras, principalmente se têm riscos. Almeja se tornar um correspondente de guerra. Narcisista de certa forma, pois como sempre digo: “se não me vender bem quem irá me comprar?”. É bom saber que possuímos certas qualidades.

Para me preparar, li muitas reportagens, livros e estudei mapas para
garantir que nada iria passar despercebido.

Uzina O que está lendo agora?
Kaiser Estou com uma pilha de mais de 70 livros que ainda não tive tempo pra ler. Atualmente, estou lendo Minha Vida, a autobiografia de Bill Clinton; Boa Vida e Guerras Alheias – do Fidalgo Mr. Pyle e o Pêndulo de Foucault. Sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo.

Uzina O que sabia do lugar pra onde estava indo, antes da viagem? Fez a típica pesquisa como se preparasse pra uma entrevista?

Kaiser Apesar de ter realizado muito turismo, o propósito da viagem era profissional. Então tive que me preparar, estudar a história e a geografia dos lugares para os quais estava indo. Eu deveria saber exatamente onde estava, quando e o que ia fazer lá. Eu não poderia perder tempo. Nessas viagens tudo acontece muito rápido e a oportunidade é única. Para me preparar, li muitas reportagens, livros e estudei mapas para garantir que nada iria passar despercebido.

Fui o primeiro aluno de jornalismo do país a pisar no gelo. Isso foi uma
honra para mim, apesar de estar integrando a comitiva não como um estudante, mas já como um profissional.

Uzina Que história é essa de primeiro estudante de jornalismo a pisar no solo gelado?
Kaiser Somente estudantes das áreas físicas e biológicas vão à Antártida, pois lá existe um ambiente propício à realização de pesquisas científicas. Fui o primeiro aluno de jornalismo do país a pisar no gelo. Isso foi uma honra para mim, apesar de estar integrando a comitiva não como um estudante, mas já como um profissional.

Uzina Como descreve a experiência?
Kaiser Poder dizer que estive na Antártida, perto do Pólo Sul, num ambiente quase lunar, inóspito, gelado e distante, integrando uma comitiva de autoridades brasileiras torna essa viagem uma experiência inesquecível.

Estar só, num ambiente perigoso, ter que correr atrás das informações, procurar
fontes, falar em outra língua, tudo isso agregou uma experiência ímpar à minha
profissão.

Uzina Foi apresentado a algum bichinho exótico?
Kaiser Na Antártida não vi animais, nenhum pingüim, pois eles só vêm no verão. Lá na Patagônia, pude conhecer os famosos Guanacos (Lhamas), belos animais.

Uzina Tirou algum proveito pra profissão?
Kaiser Com certeza. Essa foi minha primeira cobertura internacional. O reconhecimento de que meu trabalho tem importância para o governo (Ministério da Defesa). Estar só, num ambiente perigoso, ter que correr atrás das informações, procurar fontes, falar em outra língua, tudo isso agregou uma experiência ímpar à minha profissão.

Uzina E a matéria?
Kaiser Agora em julho estarei publicando no site Defesanet a reportagem sobre a viagem. O ponto central dela será a importância da presença brasileira no continente gelado, aspectos estratégicos, políticos e científicos.

Uzina Que que rola de papo nas viagens?
Kaiser Se fala de tudo. Cada um conta suas aventuras, o motivo pelo qual está fazendo aquela viagem, por onde passou. A gente sempre sai sabendo alguma coisa nova. Essa troca de experiências é muito positiva no jornalismo.

Uzina Famoso profissional de la prensa brasileña, então?
Kaiser Era nossa última noite no Chile e resolvemos sair para uma festa. Estávamos lá curtindo a música e apreciando um bom vinho chileno quando o locutor leu um bilhete dizendo que um dos mais famosos “periodistas brasileños” estava ali e naquela data fazia aniversário. Como presente gostaria de dançar salsa com uma “tica” chilena. Fiquei completamente constrangido na hora, pois fui pego de surpresa, mas não deixei por menos e encarei a brincadeira com ótimo espírito, nunca tinha dançado salsa antes. Foi bem legal. Quem tinha aprontado comigo foi um Capitão de Mar e Guerra da Marinha (coronel). Gente finíssima.

Não consigo ficar parado em um lugar e gosto de fazer matérias que tenham
uma dose de risco.

Uzina Como vcs se deslocavam por lá e como se alimentavam?
Kaiser Estávamos baseados em Punta Arenas, às margens do Estreito de Magalhães. Nossos deslocamentos era realizados em ônibus e depois locamos uma van para ter maior mobilidade na região. Para a Antártida, fomos com um Hércules C-130 da FAB.

Uzina Quantos rolos de filme?
Kaiser Fiz dez rolos de 36 poses cada. As belezas eram tantas que eu estava sempre clicando.

Uzina Como foi ter perdido o maior furo jornalístico da carreira que não começou?
Kaiser Uma nevasca atingiu os Andes, deixando isolado um batalhão inteiro do exército chileno. Lá só se falava nisso. Havia um estado de comoção nacional. Eu não poderia imaginar que essa notícia sairia do Chile e fosse correr o mundo todo. Eu era o único repórter brasileiro na região. Tinha a possibilidade de realizar uma cobertura in loco para a imprensa brasileira, mas só fui saber que aqui se falava sobre a tragédia quando retornei. Que infelicidade.

Uzina A mãe, sobreviveu à viagem? (conta a história)
Kaiser Casualmente, quando aconteceu a tragédia com os militares chilenos, eu iria fazer um segundo vôo à Antártida, cancelado devido ao mau tempo na região. Meus pais sabiam todo o meu programa de viagem, então quando viram na TV que uma tragédia tinha acontecido naquela região, ficaram muito preocupados comigo. E para piorar as coisas, fiquei dois dias sem me comunicar com o Brasil. Imagina então como a mamãe ficou?

Uzina As viagens do Kaiser páram por aí? O teu negócio mesmo é viver trancado numa redação que eu sei….
Kaiser Toda a minha formação acadêmica é voltada a ser um correspondente de guerra. Não consigo ficar parado em um lugar e gosto de fazer matérias que tenham uma dose de risco. Minha próxima viagem, ainda sem data, deve ser ao Haiti para realizar uma reportagem sobre a missão de paz brasileira naquele país.

Clique aqui para conhecer o itinerário do Kaiser na viagem e ver algumas fotos.

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O Kaiser partiu da Base Aerea de Canoas (RS) no dia 15 de maio com destino a Pelotas (RS). De Pelotas, foi ate Punta Arenas, na provincia de Magalhanes, sul do Chile. Depois foi de Punta Arenas a Ilha do Rei George, no Arquipelago das Shetlands do Sul, na Antartida. Retornou a Punta Arenas, de onde partiu para Torres Del Paine, atravessando uma parte da Patagonia, cruzando por varias cidades, entre elas Puerto Natales. De volta a Punta Arenas, retornou a Pelotas dia 21 de maio.

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Ponto.

Dois pontos: nascemos. Chega o primeiro dia de irmos à escola. Aprendemos a ler, a escrever, a somar, a subtrair. Pedro Álvares Cabral e Tiradentes. Os anos passam. Aprendemos como ler melhor, escrever melhor. Somar e subtrair de outras formas. E mais e mais gente. E mais e mais datas descobrimos. Chegamos à faculdade. Nos formamos na faculdade. E o problema persiste. Não sabemos pontuar.

Não, não é tão simples como vislumbrar o final, falar mais algumas coisas e pôr um ponto aqui. Nem tão simples como separar duas idéias diferentes. Essa. Daquela. Nem somente uma parada mais drástica que a vírgula.

É mais do que isso. É mais do que simplesmente um conjunto de regras que ensinam a pôr o ponto no lugar certo, aqui. Por exemplo. É a variável associada à segurança e a confiança da qual nos abastecemos ao longo da vida.

A vida passa, se desenrola e dificilmente quando chegamos na metade dela sabemos, de fato, onde pôr o ponto.

Recebi de uma amiga, a seguinte frase, por e-mail: “deixo meus bens à minha irmã não a meu sobrinho jamais será paga a conta do padeiro nada dou aos pobres.”

Assim. Sem nenhum ponto. O e-mail mostrava diversas maneiras de pontuá-la, de forma que ela passasse a dizer coisas completamente diferentes.

Era um e-mail-alerta para a importância do ponto.

A frase era pra ser um a espécie de testamento. A pessoa morreu antes de pontuá-la. Dizia o e-mail que se o padeiro tivesse a oportunidade de pôr os pontos, faria com que a sua conta fosse toda paga, nada sobrando à irmã, nem ao sobrinho, nem aos pobres.

Assim: “Deixo meus bens à minha irmã? Não. A meu sobrinho? Jamais. Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.”

Certamente, tudo depende de onde colocamos o ponto. Tanto no Português. Esses dias, à tarde, falava com um amigo sobre essa coisa de pôr pontos nas coisas da vida. Como na vida.

É difícil sabermos exatamente quando é a hora de pontuar, mostrar que estamos certos, que dali não passamos. É brabo também escolher a hora de só pôr uma vírgula e continuar tocando.

Dizem que a vida é feita de opções. Escolhemos tudo na vida e ela é o resultado das escolhas que fazemos. É mesmo. Mas de uma opção à outra, existem os pontos. Escolhemos o local de cada ponto. Substituímos vírgulas por pontos a todo momento e vamos sentindo, ao longo da vida, e pagamos pelos pontos que pomos.

O mais natural é uma certa covardia. Melhor, uma certa insegurança. A frase começa, as coisas acontecem, gostando ou não, deixamos de botar o ponto, mesmo quando temos a certeza de que ele deveria estar ali. Tem vezes que a certeza não vem. Mas era o momento do ponto. E não pusemos. Vírgulas e vírgulas. Falta ar muitas vezes. E o ponto não vem. Entra segunda e sai sexta e o ponto não vem.

Lembro da professora de Português, ofegante, lendo um texto meu, lá numa das primeiras séries. Estava fingindo, claro. Mas se fez ofegante para dizer que faltava pontos nas minhas frases, no meu texto. “Ái, falta ar pra ler teu texto, Juliano. Tens que pôr pontos, senão não dá pra ler”, advertia a ssora.

Senão não dá pra ler. Senão não dá pra ler. Aquilo ficou ecoando em mim.

Saber o lugar certo pra pôr os pontos da frase. Da vida. Será mesmo que decidimos onde serão postos os pontos de nossa vida? Colocamos os pontos sob nosso próprio julgamento ou os colocam por nós?

O referencial para os pontos no Português, está bem atrás de mim. Deve ter uns trinta anos já, o coitado. Chama-se MiniGramática da Língua Portuguesa. O autor é Domingos Paschoal Cegalla. Ensina a pôr os pontos nas frases. E na vida, qual o referencial que temos?

Ao longo dos séculos, pensadores de todos os tipos devem ter divagado sobre o uso dos pontos na vida. Com base no quê tomamos as decisões. São racionais ou emocionais. Acertamos ou erramos. Fomos fracos ou decisivos. Arrogantes ou medrosos. Destemidos ou acanhados. Éticos ou inconseqüentes.

Nesses tempos pós-modernos, achamos solução fácil pra tudo. Ou fingimos que a solução encontrada resolve nosso problema. Tipo eu agora, olho para o teclado, procuro com sono e com pressa o M… a vírgula… está aqui, o ponto.

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