Arquivo do mês: abril 2005

Oh, Olga.

Foi a minha primeira vez. Na verdade sempre esperei por isso como um guri com boa imaginação. Não pensei que fosse acontecer assim, naquele lugar e naquelas circunstâncias. Ela me pegou de jeito e a partir dali nossa relação não podia, nunca mais, ser a mesma.

Olga, de Fernando Morais, deve ser uma das grandes obras da literatura nacional. Para a minha literatura nacional, pelo menos, ela é incomparável.

Foi numa noite dessas. Estava voltando da universidade de micro-ônibus, e resolvi retomar a leitura de Olga. O marcador de páginas era longo, mas menor que a página, tanto em largura quanto em comprimento. Tinha a inscrição da livraria Cultura em um dos lados. Imagino que tenha sido lá, na Cultura, que a amiga que me emprestou o livro o tenha comprado. No verso do marcador, havia um menino. Estava vestido com uma camiseta de manga longa amarela e tinha uma bolsa vermelha cheia de livros em uma das mãos. Na outra, segurava um livro aberto. Com olhar concentrado, lia, de pé, o seu livro. A ponta do meu marcador revelava as enésimas vezes nas quais ele havia sido puxado ou encaixado numa das tantas páginas.

O micro-ônibus deu mais um de seus saltos. Outro dia pensei que estava sentado na poltrona que fica em cima do pneu. Deveria ser por isso o desconforto. Não era. O troço era ruim de negócio mesmo. A cada pulo que ele me obrigava dar, eu apoiava uma das mãos no banco da frente e a outra não era capaz de impedir que o livro se fechasse.

Mas aquele dia o livro fechou por outra razão. Como dizia, não pensei que aquilo fosse me acontecer assim. Sabem, ler em micro-ônibus e em trem não é nenhuma tarefa fácil. A adversidade causada pelo sono e pelo cansaço de quem atravessa a região metropolitana da universidade para casa, às vésperas do dia seguinte, toma providencias para que a leitura não tenha, digamos, a fruição adequada do leitor. A iluminação também não ajudava. Direcionei os pequenos olhos de luz que saiam do teto para o meio do livro e a cada pouco me ajeitava pra não perder o foco da luz e ter que forçar a vista. Uma penumbra danada.

Esse era, à primeira vista, meu universo. Eu, um marca-páginas judiado e um livro cheio de letras as quais tomavam forma na medida em que o foco dos minúsculos refletores do alto as iluminava.

– Agora quero ver se você fala ou não fala, comunista filho da puta. Nós vamos
assar você por dentro.

O comunista filho da puta era o alemão Arthur Ernst Ewert, vindo de Xangai, na China, após rápida passagem por Moscou, para lutar ao lado de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario na revolução comunista no Brasil. A voz era de um policial alemão, acompanhado de um brasileiro, sob o comando da polícia carioca, em pleno governo Vargas.

Falou e enfiou um palmo de arame dentro da uretra de Ewert. O preso resistia,
mas aí o policial brasileiro apareceu com um pequeno maçarico para solda, com o
bico em chamas. O alemão segurou com delicadeza o pênis de Ewert, como um médico
o faria, e passou a esquentar com o maçarico o pedaço de arame que ficara para
fora. Da garganta de Ewert o único som que os policiais ouviram foi um mugido,
como de um boi. Em seguida, seu corpo desabou, pendurado na grade pelas mãos. O
policial brasileiro parecia feliz em ver alguém tão resistente e riu admirado ao
comentar com o nazista:

– É, doutor… Parece que desses teus
patrícios aí nós não vamos arrancar nada mesmo.

Foi nessa hora. Como ou mais que você, fiquei aterrorizado com a cena que minha imaginação materializava na minha mente. Fitei os olhos no nada e, devagar, fechei o livro. Movimentei a cabeça ao redor. Para a auto-estrada e para os carros que passavam nas duas janelas, uma em cada lado do micro-ônibus. Para as silhuetas das pessoas que viajavam comigo. Na real, não olhava diretamente pra nada. O olhar era profundo. Olhava pra mim também. A narração de Fernando Morais ainda fazia eco.

Aos saltos do micro-ônibus, retomei a consciência. O livro estava fechado no meu peito, quando resolvi continuar. Havia ainda meia hora até em casa e umas duzentas páginas pela frente.

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F A G U L H A S

Veja em 1939

“Tudo que move alguém a atingir objetivos maiores, seja a religião, o socialismo ou a democracia, é para os judeus meramente meios para um fim, uma forma de satisfazer sua ganância e sua sede de poder. O resultado disso é a tuberculose racial da nação. Por isso, o anti-semitismo racional deve englobar uma luta legítima e sistemática contra os privilégios desfrutados pelos judeus, e seu objetivo final deve ser a remoção total dos judeus de nosso meio. Isso só pode ser alcançado por um governo forte, não por um governo impotente. E nós somos um governo forte.”

Trecho da entrevista de Adolf Hitler, concedida para a revista Veja, em setembro de 1939.
O material é parte de uma
simulação que a revista faz de como seria uma cobertura jornalística da maior de todas as guerras.

O blog de Bagdá

Obrigado por seu aguçado interesse pela situação dos direitos humanos no meu país. Obrigado por fazerem vista grossa durante trinta anos. Obrigado por fornecerem suporte para que meu governo pudesse enviar 2 milhões de iraquianos para a guerra contra o Irã, para serem mortos.
[…]
Por todos os seus esforços, eu os saúdo, do fundo do coração, com um FODAM-SE .

:: salam pax 2:55 AM [+] ::

Trechos do livro O Blog de Bagdá, da Companhia das Letras. A obra remonta o diário de Salam Pax na internet. Salam é um jovem iraquiano, igual a tantos outros ocidentais, que narrou os preparativos e a guerra do Iraque entre setembro de 2002 e junho de 2003.Tudo sob o ponto de vista de uma pessoa que vive, trabalha,se diverte, ama, reflete e se revolta como todos nós.

Por favor, me traga uma notícia boa!

:: G-7 elogia postura do Brasil em relação à economia
:: Reforma vai levar universidades a regiões menos favorecidas
:: ONU quer melhorar Políticas de Direitos Humanos

Uma boa e uma ruim. Qual vc quer ouvir? Se optar pela boa, o site Cia.da Boa Notícia é uma dica para quem quer ser apresentado ao jornalismo positivo, que só vê o lado bom das coisas. Sim, ele existe.

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Leite Moça acinturada

Outro dia, na aula, o professor comentou do sucesso do produto Leite Moça, da Nestlé. Ela havia mantido nessa montoeira de anos a figura daquela senhora (senhorita?) segurando dois baldes de leite. Um na cabeça e outro na mão direita, parte escondido atrás de uma das pernas, cobertas por um longo vestido. O nome do produto havia se consolidado no dia a dia das pessoas. Como o Bombril, o Nescau e a Maisena, de certa forma, Leite Moça era o nome pra leite condensado.

O nome já é só Moça. E a lata agora ganhou uma cinturinha. O novo formato deu ares de gostosa, de cremosa, mesmo tratando-se de uma simples lata, com um rótulo por cima. Como meu professor continuava, o Leite Moça havia chegado ao auge do seu sucesso mercadológico. Por causa da qualidade, graças ao marketing e, principalmente, por saber dar ao consumidor o que ele desejava.

No outro dia, abri o jornal, virei uma, duas páginas e a surpresa. O lançamento do Moça em frasco de protetor solar de criança, aquelas bisnagas, sabem? Ah, lembrei. E o professor também havia comentado noutro dia que, quando um produto chega ao topo da preferência, das vendas e tudo mais, cabia a ele manter esse sucesso. Porque tinha muitos outros, de outras marcas, pleiteando sua posição. Por isso, não podia descansar. E estava na minha frente, na página daquele jornal, o exemplo disso. Eu e meio mundo adorávamos (ou adoramos) lamber o resto que ficava na lata de Leite Moça depois de alguma receita feita em casa. O grande risco que eu sempre corria, lembro da minha mãe dizendo, era cortar a boca ou os dedos, porque ficavam perigosas aquelas rebarbas de lata que ficavam depois dela aberta. Estava resolvido: Leite Moça em bisnaga. Mais uma vez, ela dava ao seu consumidor o que ele queria consumir, sem que, talvez, este nem soubesse disso.

A evolução do capitalismo e as grandes crises econômicas brasileiras fizeram do Jornalismo um grande mercado também. Cada vez mais, as empresas e organizações jornalísticas estão dependentes de capital, seja ele advindo de algum tipo de receita ou, em especial, dos anúncios. O jornal, a página na internet, o programa de rádio e de TV viraram produtos. Isso, como o Leite Moça.

Precisam vender e, antes disso, precisam providenciar algumas outras coisas. Uma das grandes ações de marketing é fixar um padrão de vida ao consumidor e a outra, identificar e satisfazer suas necessidades.

A morte e o funeral do Papa lembraram um pouco isso. A repercussão do Conclave e a expectativa pela sucessão do Pontífice nunca foram cobertas pela imprensa mundial como estamos vendo agora. Não há precedentes. Nunca a mídia se fartou tanto da morte de um Papa. Há 26 anos, contam-me os mais velhos, era tudo muito diferente.

Inclusive, para o marketing editorial. Se em tecnologia, eram os homens da caverna com um microfone na mão, o estudo de recepção e tratamento do discurso midiático também evoluiu consideravelmente.

Como ouvi um senhor comentar esses dias, o Papa era um grande ícone para todos. Indiferentemente de raça, credo ou localização geográfica. A imagem de sua agonia ao tentar falar em público, poucos dias antes da morte e a própria morte mexeram muito com as pessoas. Talvez não tanto por ser um Papa, mas por ser esse grande símbolo da era da imagem.

O que fazer em termos de cobertura então? Inventar uma bisnaga de Leite Moça, com a qual os gulosos não teriam mais que se preocupar em se machucar, nem em esperar que sobrasse alguma coisa da receita de pudim. E se abrisse a lata só pra comer um pouquinho também era um problema. Como fechar depois? É, a bisnaga resolveu metade dos problemas da humanidade.

Publicar o Papa, em todos os ângulos possível e inaugurar abordagens sobre o Vaticano e o seu contexto que poucos imaginavam, mas era tudo o queriam ler nessa hora, foi a grande jogada de marketing editorial, compartilhada pela imprensa do mundo todo.

A capa do Universo On-line, respeitado pela sua parceria com a Folha On-line, permaneceu com novas sobre a morte de João Paulo II durante semanas, dias após dias. O renomado jornalista Ricardo Noblat, conhecido pelo seu blog de cobertura política, escreveu cerca de 45 páginas (de Word, fonte 12) sobre o fato, durante o final de semana do acontecido.

Capas de jornais do mundo inteiro, inclusive não-cristãos, davam a morte do Papa como fato principal e transformador da sociedade de todas as culturas. Programas de entrevista, documentários, edições especiais de revistas semanais, todos. Nossa vida não seria mais a mesma. Tudo sobre o futuro da Igreja Católica, sua progressividade, liberalidade ou conservadorismo. Tudo sobre todos os cardeais candidatos, suas crenças e favoritismos.

Durante dias a fio, um novo padrão de vida para a sociedade: acompanhar a morte do Papa. E, para isso, identificar, gerar e transmitir informações que satisfizessem a necessidade desse público em saber sempre mais sobre o assunto.

O Jornalismo havia criado não só a latinha de Leite Moça acinturada, mas o Leite Moça em bisnaga. Pronto para consumir, na hora que quisesse, na quantidade que desejasse. E, melhor, sem engordar.

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1920 – 2005
O Papa era extremamente preocupado com o mundo em que vivia e, como eu, também sentia que na guerra somos todos perdedores.
– Kofi Annan, secretário-geral da ONU Posted by Hello

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Gazeta de Cracóvia, Polônia, terra natal de João Paulo 2º
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A dualidade da tragédia e da dor I
A cotidiana tarefa do jornalismo de negociar entre as partes. Vencer o parcialismo e manter o equilíbrio em meio à chantagem das editorias. Posted by Hello

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A dualidade da tragédia e da dor II Posted by Hello

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