Arquivo do mês: março 2005

F A G U L H A S

“A Revolução Industrial pôs na esteira da produção em série a centelha da nossa existência e transformou-nos em iguais. Travestiu-se de Mídia, espalhou a idéia e somos ambulantes de uma massa repetida e submissa.”
Uzina

“Bebida é água, comida é pasto. Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? A gente não quer só comer, a gente quer comer e quer fazer amor. A gente não quer só comer. A gente quer prazer pra aliviar a dor. A gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade. A gente não quer só dinheiro. A gente quer inteiro e não pela metade.”
Comida, de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto

“Isto, senhoras e senhores, é o sinal de nossos tempos. O símbolo da alienação, da maluquice que se espalha no mundo de hoje. À qualquer canto do Globo que se vá, em qualquer um dos continentes do mundo, a grande busca das barras Wonka continua. Nós já estamos chegando ao fim do 43º dia da caça aos bilhetes dourados e em toda parte já começamos a ver sinais de ansiedade.”
Boletim de um repórter em Willy Wonka & the Chocolate Factory (1971)

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Que orgulho desse Brasilzão!

Esses dias entraram no pátio de casa e levaram o rádio do carro do pai. Dois dias depois, enquanto eu jogava bola, levaram o resto.

Soube de um amigo do qual levaram o carro no mesmo lugar, poucos dias depois. Na outra semana, outros dois carros foram furtados dali.

Fomos deixar o carro de um amigo poucos metros longe de um xis, em Canoas. O filho do dono do terreno que ficava em frente de onde estávamos estacionando nos avisou que era grande a chance de o carro não estar mais ali quando voltássemos. Quase tinham levado o do pai dele na semana anterior. Ele estava chegando em casa quando viu os ladrões arrancando e os seguiu até que a polícia fizesse algo.

O microônibus que utilizo para vir da universidade (também como medida de prevenção) toma as suas próprias medidas de prevenção. Não espera o passageiro entrar em casa. De certo porque seria, no mínimo, dezoito ou dezenove vezes mais arriscado ser surpreendido com a visita de um assaltante dentro do veículo, pondo em risco a vida dos demais.

Um colega de trabalho teve a oportunidade de ver os ladrões arrombarem e levarem seu carro à luz do dia, no momento em que era obrigado a caminhar prum lado e proibido de olhar pra trás.

Ouvi outro dia, enquanto almoçava, que outro foi assaltado enquanto chegava em casa por dois jovens que desceram de uma carroça. Isso. Daquelas com um cavalo cansado, faminto e doente na dianteira.

Muitos e muitos cidadãos de bem dizem não à campanha do desarmamento porque fazem questão de ter uma arma de fogo em casa para defender sua família. Argumentam que se a arma for proibida inclusive dentro de casa, os ladrões trocariam de vez a rua pela nossa sala. Mais e mais pessoas passariam horas e horas trancadas no banheiro, senão fossem mortas pela ganância de um marginal.

Entretanto, é motivo de verdadeira exaltação quando avistamos uma viatura da polícia civil na cidade onde moro.

Eu, sigo por aí, vivendo a vida com essa mania de perseguição injustificada. Sigo enchendo o peito de orgulho desse meu país.

E, assim como as novelas terminam os capítulos com o nível de euforia e de ansiedade dos brasileiros lá nas alturas, ontem tive eu o meu orgulho levado aos céus. Quase não me contive.

Levaram a bolsa da granfina da novela das oito. Nem mesmo ela se dava conta do ocorrido, uma viatura vinha às pressas para prestar socorro e atender a ocorrência. O trombadinha corria feito um condenado (só que solto) até que, não alcançado pelo carro da polícia que vinha a mil, entrou numa embarcação que saia na costa e se foi.

Me reorganizava na cadeira, tentando me convencer da fábula que via na TV, quando aconteceu o mais legal. A Polícia Federal por acaso passava pelo capítulo bem nessa hora. Foi acionada pelos polícias. Começou uma cinematográfica (jura!) perseguição em alto-mar ao trombadinha, ladrão de perua da novela das oito. Foi lindo. Deu um baita orgulho. Eu sou brasileiro, eu moro nesse país, eu sou desse país, gritei. Pega, pega, pega!

Quase chorei quando o malandro jogou a bolsa no mar e tudo estava acabado. Não fosse o espírito de porco do ladrão, tudo terminaria como na vida real e na Senhora do Destino. Com um glorioso final feliz.

Agora, vai dizer, mesmo adiado o aumento de 60% do salário dos deputados, dá ou não dá um orgulho desse brasilzão, hem?

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Progresso em cotas

Há uns bons anos, era comum na cidade ouvir-se comentar da qualidade de ensino do colégio Rondon, em Canoas, no Rio Grande do Sul. Aqui em casa, o exemplo clássico era o de uma amiga da minha irmã, que era irmã de um amigo meu. Ela tinha feito todo o segundo grau científico (atual Ensino Médio) no Rondon e havia passado no vestibular de Odonto na federal de Porto Alegre. E isso era natural. O Rondon é um colégio estadual e, como ele, as demais escolas do estado tinham essa fama: educação forte, professores de qualidade.

Isso, sei, surpreende um pouco hoje em dia. Ainda mais depois da falação sobre Pró-Uni e o sistema de cotas e, agora, a gritaria gerada pela reforma universitária.

O certo é que consolidou-se no país a realidade de universidade privada como privilégio dos nobres e a federal como privilégio dos nobres também. Isso porque só quem pode pagar uma privada é a grande minoria do país e só quem consegue entrar numa federal, dada a grande demanda de candidatos principalmente, é o melhor preparado. Eis, então, a questão. Quem é o melhor preparado? Óbvio, o cara que teve ensino de melhor qualidade. Ou quantidade. A realidade que conheço me diz que só entra para o curso de Odonto na Federal, hoje, aquele que fez cursinho pré-vestibular. Isso, quem sabe, porque nem o Ensino Médio privado nem o público têm dado conta da exigência por qualidade. Extrai-se daí, claro, o perfil do estudante brasileiro, que, salvo louváveis e numerosas exceções, é levado pela massa, torna-se, cada vez mais, cópia de outros seres despropositados e sem objetivos pela frente.

Antes de se pensar, de forma prática, na urgente qualificação da educação no país, vieram as cotas. O Estado se exime da responsabilidade de formar bem o jovem e dá direito aos menos favorecidos de acessar a universidade com o estigma de menos capacitados. Como os negros são a maioria dos pobres no país, eles estariam especialmente favorecidos pelo sistema de cotas.

Sempre aprendi, isso desde pequeno, que nunca se deve amontoar todas as compotas e potezinhos de qualquer forma dentro de um armário sob o risco de surpreender o próximo a abrir as portas. A avalanche de potes, temperos e vidros de todos os tamanhos que viriam abaixo é um alerta à administração da educação no Brasil.

Nos orgulhamos de pesquisas que dizem que quase a totalidade de nossas crianças estão na escola. Isso não é investir em educação. A pieguice da qualidade versus quantidade serve aqui também. De nada adianta, como comprovadamente estamos vendo no debate atual com o MEC, atrolhar nossas escolas de alunos sem que não se preocupe minimamente com o que estamos ensinando e que método de avaliação estamos utilizando.

O debate é longo e, em respeito aos meus milhares de leitores, vou deixá-lo na reflexão ou na conversa que podemos ter pelos comentários aqui da Uzina.

A menos que me convençam, cotas são desculpa de incompetência. De governantes que nunca ensinaram o país a viver olhando pra frente. Importamos a cultura do imediatismo e nos nutrimos dela. O Enem e o Pró-Uni são um sucesso até a próxima eleição. Aí virão outros programas, outros nomes e outra esperança perneta.

Desse jeito, desistamos do futuro. Não sei as próximas, mas minha geração chegou à universidade. O Estado nos deu o progresso por meio de cotas.

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