Respostas de outro mundo

O ano de 2001 trouxe para Porto Alegre a primeira edição do Fórum Social Mundial. Era o início de uma caminhada organizada pela esquerda política de todo o mundo para discutir questões centrais para a construção de um outro mundo. Nos outros três anos que se seguiram, o Fórum voltou a acontecer em Porto Alegre. Com a participação do público aumentando a cada edição, chegou-se ao número de 100 mil participantes em 2003. No ano passado, o encontro ocorreu na cidade de Mumbai, na Índia e envolveu cerca de 100 mil pessoas outra vez. Este ano, o recorde foi estabelecido. Segundo informações de autoridades locais, o Fórum chegou a ter 200 mil pessoas circulando ao longo dos armazéns do Cais do Porto, Usina do Gasômetro e parques Farroupilha e Marinha do Brasil, locais onde o evento aconteceu. Em 2006, a idéia é que o Fórum seja descentralizado, tendo suas discussões ocorrendo em diversos países, simultaneamente. No outro ano, em 2007, a África vai receber o encontro. Marrocos passa a ser a bola da vez. O país seria a porta de entrada para o Fórum atingir os países do Oriente Médio.

Tornou-se polêmica ano passado a declaração do presidente Lula dizendo que o Fórum tratava-se de uma “feira ideológica” e que pouco chegava a soluções práticas. Aceita por muitos e rebatida por outros tantos, o certo é que a questão avançou, foi discutida entre os milhares de participantes do Fórum, entre os painéis e hoje é pauta da Uzina. Em sua opinião, como um outro mundo é possível?

Um grande mural construído no local do Fórum, expôs 352 sugestões para tornar possível um outro mundo. As idéias foram recolhidas durante os dias do evento e o mural tornou-se o grande símbolo dos anseios dos diversos povos que passaram por ali.

A Uzina foi até lá e quis ouvir a resposta de pessoas de diferentes partes do mundo. Muitos são os credos, as raças, as línguas que compõem a diversidade do Fórum Social Mundial. Muitos são percebidos logo de cara, pelo olhar curioso que examina o mapa na mão, pelo excessivo cheiro de bloqueador solar e pela estranheza com que percebem as coisas ao redor. Os anseios fazem todos, porém, habitantes da mesma aldeia. O sentimento é de revolta, de urgência e de esperança.

Em sua opinião, como um outro mundo é possível?

Ghassan F. Abdullah, pesquisador universitário de Ramallah, Palestina

Os atuais governantes do mundo, especialmente os neoliberais americanos, e a sociedade neoliberal espalhada pelo mundo todo, estão fazendo a vida mais difícil pra maioria das pessoas do mundo. Este Fórum é uma forma de confrontar esse ataque contra os interesses de qualidade de vida e saúde das pessoas. Mas nós esperamos mudar essa situação que traz guerra e devastação. E, claro, há problemas políticos com a ocupação do território palestino, do Iraque, do Afeganistão.
Diogo Cavalcanti, estudante universitário de São Paulo
Um dos exemplos é este Fórum. Um centro de discussões democráticas, participações de jovens, comunicação. Um outro mundo é possível quando se volta a atenção para os pobres, para os países do terceiro mundo. Um outro mundo é possível sem desigualdade social, sem imperialismo, sem dominação dos americanos, da Europa, de quem quer que seja. Um outro mundo é possível com igualdade política. Principalmente com democracia, cara. O diálogo, a conversa… acho que é importante isso. Porque, qual que é a idéia do Fórum? Na minha opinião é essa. É reunir a diversidade num mesmo tom, que é discutir os problemas da sociedade.

Luz María Helguero de Plaza, diretora do jornal El Tiempo, do Peru
Eu acredito e acho que todos os que estão aqui pensam assim também, que há aqui muita inquietude. E penso que esta edição do Fórum deu um salto qualitativo. Que depois deste Fórum já se possa estabelecer talvez uma filosofia, uma ideologia, um partido político… Concordo com Saramago quando ela fala conosco sobre as Nações Unidas… para que as Nações Unidas recupere essa voz plural, que é o que todos queremos. Acho que é um pouco por aí que um outro mundo é possível. Mudar as estruturas. E o Fórum nos mostra um grande movimento nesse sentido. Nós que estamos aqui entendemos que se pode mudar, que se pode se ter um mundo mais plural, mais diverso, com muito maior inclusão. Que não seja uma coisa hegemônica, que não somente a voz de um pretenda representar a de todos.

Monika, universitária nova-iorquina
Eu venho dos EUA, que é um país que se considera o melhor do mundo e especialmente em termos de democracia. Mas é um país que não prioriza áreas que eu considero importante como educação, saúde, arte e cultura. Eles se preocupam mais com militarismo, capitalismo e consumismo. E com uma espécie de falso sentimento de felicidade. Então, no meu ponto de vista, um outro mundo seria possível priorizando as coisas que eu já mencionei. Eu não tenho certeza se pra isso nós precisamos de governo, mas no momento nós temos um governo e eu espero que ele comece a corresponder às necessidades que eu acho que todas as pessoas no mundo têm.

Joice Elisa Costa, cientista política. Vive em Pelotas, Rio Grande do Sul.
Acho que um outro mundo é possível nessa perspectiva que estamos vivendo aqui no Fórum. Ele é possível no momento que a gente se propõe a trabalhar duro, a se matar para construir esse mundo. Porque ele não vai acontecer do nada e as edições do Fórum estão bem pontuadas nesse sentido… a primeira edição foi mais rebelde, tipo pra dizer “nós existimos, estamos aqui e somos contra um pensamento único”. Depois a coisa foi se estruturando e eu acho que este Fórum está bem mais maduro. Eu acabei de participar de um painel que propõe a montagem de um Observatório Brasileiro de Mídia. Isso é importante. Esse tipo de coisa, que nasce com o Fórum, é fundamental. Já tinha nascido o Media Watch Global em outra edição. Isso demonstra um amadurecimento mesmo. É claro que temos muito mais pra caminhar, mas estamos no caminho certo. Também vejo que a organização deste Fórum se propôs a rebater as críticas de que do Fórum não nasciam soluções práticas. E eles tiveram um grande acerto no momento em que eles decidiram socializar e democratizar o próprio controle do Fórum. Dizer “vem aqui, vamos conversar, vamos organizar”. Este foi um grande acerto. Eu até acho que as primeiras edições acertaram em centralizar mais a organização. A gente vai errando e vai acertando… virão ainda muitas outras questões, mas repito que estamos no caminho certo…

Elias Elliot, escritor. Vive em Capinas, São Paulo.
Eu acredito que um outro mundo passa inevitavelmente pela leitura. Os livros são nossos sábios, novos conselheiros. Mas infelizmente nós não temos uma cultura que desenvolva o hábito pela leitura, o bom gosto. Acredito piamente que a leitura é um dos principais caminhos para se construir um mundo bom. Nós sabemos que existem ainda muitas outras questões que podem nos levar à construção de um mundo bom. Mas acredito que elas estão mais no mundo da utopia do que da realidade. Enquanto que a leitura pode ser tornar, sim, realidade.
Esta edição do Fórum eu acredito que esteja mais vazia, digamos assim, de intelectuais. Me parece que esvaziou. Eu estou vendo menos pessoas reconhecidas, pessoas públicas, mais notórias. Estou percebendo que aumentou o número de pessoas no evento, mas esvaziou o lado das pessoas mais pensadoras, mas decisivas. E eu vejo este Fórum como uma grande arena para as decisões futuras da humanidade. Seria uma pena se acabasse porque ele é uma grande referência para se tomar decisões futuras no planeta.

Hugo Verjadez, membro da Liga Socialista Revolucionária, da Argentina
Bom, o que estamos vivendo é bastante complicado, não? É uma etapa de muita guerra e muitas crises. Mas isso não quer dizer que não poderá haver mudança radical e revolucionária na sociedade. Nem mesmo pelo que está acontecendo no Iraque, na Palestina, no Haiti o mundo não se dá conta de que cada vez mais vivemos pior… Um outro mundo é possível, sim. Mas temos que lutar muito e de forma revolucionária. Para nós, o capitalismo quer destruí-lo. Não é possível reformá-lo. Porque sua lei será sempre de mais guerras e mais conquistas. Os maiores problemas são o imperialismo e o capitalismo. E é isso que queremos dialogar com os povos latino-americanos, do mundo todo, com as pessoas que estão aqui. Acreditamos, sim, que um outro mundo é possível. Mas há que se lutar muito.

Um jovem nova-iorquino, estudante de Política Americana nos Estados Unidos
O FSM é um bom exemplo de como um outro mundo é possível por que você vê pessoas vindas de diferentes países, falando diferentes línguas, não necessariamente se comunicando, mas entendendo umas as outras, criando um fantástico encontro internacional com tantas atividades diferentes, como cultura, música, muito sobre política. Eu não vejo o Fórum como um evento pra se falar sobre como um outro mundo é possível, mas é um exemplo disso. Como o respeito por diversidade sexual e racial. O Fórum é um exemplo dessa possível mudança.
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Um outro mundo se dá a partir das diversidades. Pra isso, é preciso que as diversidades apareçam, se manifestem. Nesse sentido, a mídia tem um papel fundamental que é o de abrir espaço para que essas diversidades tomem corpo, tomem forma. A gente sabe que a mídia tradicional tem já os seus interesses delimitados e não se tem muito espaço nesses veículos. Então, é necessária uma articulação da cidadania para que crie esses espaços. E isso vem ocorrendo no Brasil nos últimos tempos, com a criação das rádios comunitárias, TVs comunitárias, os sites, os blogs. Então essa é uma conquista importante, porque a diferentes opiniões se manifestam aí, as idéias são colocadas e as pessoas podem, então, fazer sua opção para que esse novo mundo comece a ganhar corpo. No nosso caso, especificamente de uma TV pública, esse compromisso deve ser a base de toda a programação. O compromisso com a pluralidade das informações, das opiniões. O compromisso com a verdade, no sentido de não tentar passar uma opinião já formada. Por ser um canal do Estado brasileiro ele tem esse compromisso: de ser um canal por onde as informações trafeguem com um grau de oficialismo, de responsabilidade. Essa preocupação toda existe também porque somos fonte de informação para outros veículos. Nós temos convênios com outras televisões públicas de todas as partes do mundo que retransmitem a nossa programação. Então, nós começamos com esse sentido aqui no fórum. Conseguimos colocar no ar opiniões de diferentes países, procuramos sempre estabelecer debates e entrevistas com a diversidade… acho que vamos conseguir.
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