Papo com o além

Sentaram os dois lado a lado, no escuro. Olharam ambos para o lado oposto, afim de que ficassem frente a frente. Assim, poderiam ouvir claramente o que sussurravam, trêmulos. Mateus podia ouvir até mesmo a respiração de Germano. Estavam perto o suficiente.

Nada de importante. Coisas do dia a dia. Mateus tinha perdido a avó antes de ontem. Morreu de infarto. Falaram sobre a morte.

– E, então, acredita na vida depois da morte?
– Sim.
– É espírita?
– Não.
– Então?
– Só acredito. Que mania de querer associar tudo à uma religião… Tu acredita?
– Não sei.
– Devia acreditar.
– Por quê?
– Porque é básico. Todo mundo já ouviu ou viu alguém que já morreu.
– Não fala merda. Eu nunca vi nada.
– Não viu porque não acredita.
– Pois é.
– Vai viajar?
– Sim, pra casa da guria. Vou no sábado e volto na terça.
– De bus?
– Não, com o carro do pai.
– Cuida, né meu.
– O quê?
– Ah, os acidentes. Morre gente todo dia com isso.
– Eu sei. Mas muito é papo da TV. Eu sei até onde eu posso ir.
– Te liga, vai na manha.
– Na manha eu não chego. Na última vez fui em uma hora e quinze. Essa vez não passo de uma hora. O finde já é curto, capaz que eu vou perder tempo na estrada…
– No máximo, tu vai economizar 15 minutos. Não viaja, vai acabar te incomodando de graça. Teu pai arrumou o cinto?
– Bah, nem me lembrava. A Cátia não usa e eu acabei me acostumando. Lembramos sempre quando já chegamos. Hehe.
– E elas, cadê que não voltam?
– Ali. Tão vindo.
– Doce?
– Salgada, amor, gosta?
– Pode ser.
– Que merda de frio esse ar, porra.

Esperavam as namoradas virem com as pipocas. O ar-condicionado esfriava o ambiente enquanto falavam sobre a morte. O que vem depois dela e também sobre ela. Mas, claro, não sabiam. Germano só soube dela quando ela chegou. Assim como lembrava do cinto de segurança. Mateus não imaginou que o escuro do cinema e o frio eram parte do ritual. Ele falava com o amigo que estaria morto horas depois, na Freeway, auto-estrada que liga Porto Alegre com o litoral norte do Estado. Germano e Amanda também não imaginavam. Nunca pensaram que podia acontecer, assim, tão perto, e com eles. Sei lá, tão jovens. Sabe lá se imaginariam que podia ser tão terrível. Levaram junto os pais de Amanda e outra família de Gravataí. Pai, mãe, filho e primo. Iam conhecer a casa que o pai, Luis, havia alugado em dezembro, pros 10 dias de férias. Teriam alertado Germano se soubessem. Assim como tentou fazer Mateus aquele dia, antes do filme. Agora Mateus chora e Germano dá adeus a esta vida numa coluna de uns poucos caracteres do jornal de quarta-feira. Acabou pra eles.

Quem se importa? Falamos com a morte a todo instante. Acreditando ou não na vida após ela. Falamos com a morte sempre. Principalmente antes dos feriados prolongados. O ritmo de festa faz a vida parecer indestrutível. A velocidade sacia os sentidos do motorista que, anestesiado, esquece da recomendação de quem o ama. E vira nada. Um corpo no meio de ferragens. Mais um número no jornal. Que, vocês sabem, sendo pouco, o pessoal nem lê. Só lê quando é tragédia mesmo. Com um monte de morto. Quatro, cinco é comum. Acontece todo dia. Amanhã ou depois.

Parece brincadeira ou cópia. Sempre, quando voltamos a trabalhar ou a estudar, depois do feriado ou do final de semana, tem mais uma leva de gente que se foi. Por imprudência de um ou de outro. Mas se foram. Muitos, nessa hora, estão falando com a morte e esquecendo de recomendar bons modos. A única coisa certa dessa vida é a morte mesmo.

Não é assim? Depende também de nós, sim. Alerte quem você ama e quem você sabe que desafia a prudência. Diz que o ama, se for preciso. Assim, você evita descobrir que, ao invés de uma conversa qualquer, aquele já pode ser um papo seu com o além.

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