Intolerância

Saramago fez que concordou.

O Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, amanheceu lotado na manhã de sábado, 29 de janeiro, para o painel Quixote hoje: Utopia e Política. As palestras tinham terminado e há pouco tinha iniciada a sessão de perguntas, abertas ao público, quando o rapaz levantou. Jovem estudante, de fala firme, indagou Saramago. Não lembro exatamente das palavras. Começou falando da fila para perguntas. Disse que tinha sido empurrado por uma outra pessoa que também ia perguntar.

– Como podem as pessoas se empurrarem aqui? Não estão todos engajados, na luta por um outro mundo? Porque não é possível um outro mundo se lutamos cada um pelo seu ideal. Isso aqui é uma briga partidária, uma disputa de ideologias ou estamos todos juntos buscando um mesmo ideal humanitário?

O rapaz fez ainda algumas outras perguntas. Mas o seu primeiro desabafo ecoou e cobriu de reflexão os que o escutaram. Eu estava em casa e larguei um pomposo “baaaah”. Saramago fez que concordou quando começou a responder outras questões para o rapaz.

Parece absurdo para alguns que eu não comece falando do comentário ou da resposta do português, Nobel de literatura em 1998. Muito mais importante, foi o simbolismo daquele desabafo. É exatamente disso que o Fórum Social Mundial está precisando e tomara que encontre nas próximas edições. Uma crítica que surge no meio dos participantes. Assim mesmo, de dentro pra fora. Uma respiração saudável para a sobrevivência. Era visível no estudante o sentimento de indignação. A fila foi o grande palco por onde transitaram os personagens simbólicos do conflito de interesses que há neste evento.

Não é possível, diria o rapaz e fazia que concordava Saramago, que o movimento indígena queira o seu mundo ideal, o MST o seu, o movimento feminista o seu, a Une o seu. Nenhum outro mundo é possível assim. É preciso que haja uniformidade do discurso para que floresçam soluções práticas para iniciar a viabilização deste outro mundo. É preciso haver tolerância com a necessidade do outro também.

No jornal Correio do Povo, aqui de Porto Alegre, o psiquiatra Jorge Ignácio Szewkies já alertava, no dia anterior, para o sério problema.
“(…) Haverá, neste Fórum, encontros entre pacifistas israelenses e palestinos. Temo que afluência de público seja menor que nas oficinas francamente belicosas, que têm resposta pra tudo: eu estou certo e o outro é o meu inimigo. Gritarão palavras de ordem e sairão todos contentes com a escolha de um inimigo responsável por tudo. Cantarão, dançarão e voltarão para suas casas. Tudo seguirá igual. Assim outro mundo não será possível.”

Naquela manhã, José Saramago fez que concordou. Antes mesmo do painel já havia feito menção aos jornalistas do problema da falta de ações concretas do FSM.
“As baterias têm que funcionar para pôr o motor a funcionar. Esta é a minha idéia. Teria de inventar no FSM algo que não fosse uma ONG, que se dilui na quantidade quase astronômica de ONGs, mas que se apresentasse como um fórum de debates de idéias não simplesmente que as pessoas se encontram e vão ter idéias e ficam contentes com isso. Que vão aprender algo e comunicar algo. Mas que seja mais do que isso. Que seja um instrumento para a ação”.

O outro mundo precisa de ação. Não de utopias. Precisa de respeito e de tolerância com o outro. Não de gritos e palavras de ordem.

Olhemos, sim, para o nosso queridinho umbigo. Mas não para encontrar o que está certo, mas para reconhecer o nosso próprio papel nisso tudo.

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