Nada de novo no front

De certa forma, nos parecemos com soldados vindos do front quando lemos os números de mortos da guerra do Iraque com tanta indiferença.

Na real, um soldado recém de volta de uma guerra não consegue entender o quanto se pode sofrer por apenas uma vida que se vai. Não compreende o sofrimento de uma mãe que se esmigalha ao túmulo, chorando a vida do filho que se foi. Pra ele é tudo tão menor do que o que viu de terrível na guerra. Parecemos esses soldados, no conforto de nosso lar, envolvidos com nossos afazeres diários, selecionando matérias do jornal pelo maior impacto quantitativo que podem ter. O valor-notícia de uma guerra para o leitor comum não é mais o furo, a notícia, o avanço da tropa x, a resistência dos rebeldes do país y, a cidade z que foi dominada. Damo-nos ao trabalho da leitura se o número nos é expressivo o suficiente. As fotos não têm cheiro, não inalam pó, podridão. As fotos e as linhas que se seguem não traduzem o sofrimento da frente de batalha. Como podemos ser assim? Tão indiferentes? Tão alheios ao que acontece no front?

Como podem ser assim, se lá fora os estilhaços zunem sobre as trincheiras e os foguetes luminosos sobem, os feridos são arrastados em lonas para a retaguarda e os companheiros abaixam-se nas trincheiras?

Estas últimas indagações são de Paul Bäumer, um jovem alemão de família humilde que fora enviado para Primeira Guerra Mundial e que viveu a exaustão humana que poucos imaginam existir. Ele é o personagem de Erich Maria Remarque, no livro Nada de novo no front, de 1929. Erich fora também enviado à Guerra quando tinha seus 18 anos. Saiu do conflito profundamente marcado e perplexo com a crueldade da guerra. Durante a década de 20, enfrentava a insônia carregada de fantasmas tomando notas sobre os horrores que viu e viveu no front. Os rascunhos deram origem ao romance que Paul protagoniza.

Faltam ainda algumas páginas para terminá-lo de ler. Os detalhes assustam e comovem ao mesmo tempo. Cada vez mais se tem a clara impressão de que a guerra nunca foi feita por quem está nas trincheiras. Pobres meninos sem passado que entregam suas vidas pela causa que nunca lhes darão a conhecer os senhores engravatados da guerra.

Nada de novo no front é considerado o mais importante romance pacifista do século XX. Remarque, junto de Goethe, é o escritor de língua alemã mais lido do mundo. E o jornal de amanhã, seja ele qual for, será também um marco para história. Ele será a lápide dos muitos que morreram hoje no Iraque em função de uma guerra irracional e mesquinha. O jornal de amanhã ainda está sendo rodado e estará quentinho nas bancas do mundo inteiro pela manhã. Novos números. Novidades da guerra. E quando acordarmos, a indiferença despertará conosco.

Como podem ser assim?

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2 Comentários

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2 Respostas para “Nada de novo no front

  1. Anonymous

    Muito bom o texto. Adorei, fácil de entender e bem objetivo. Parabéns!

  2. Rafael (daredevil_fa7@hotmail.com)

    Nossa adorei o texto e gostaria de falar aos que nunca tiveram a oportunidade de ler o livro citado acima que devem o fazer imediatamente. Posso afirmar categoricamente que de todos os livros que li, dentre todos os estilos ” in wester nicht neues” foi o melhor deles. SE ESTIVER PROCURANDO UMA BOA LEITURA COMPRE-O AGORA…. (não sou garoto propaganda, mas de fato o livro é fantástico)

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