Arquivo do mês: janeiro 2005

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A cor da diversidade Posted by Hello

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Intolerância

Saramago fez que concordou.

O Auditório Araújo Viana, em Porto Alegre, amanheceu lotado na manhã de sábado, 29 de janeiro, para o painel Quixote hoje: Utopia e Política. As palestras tinham terminado e há pouco tinha iniciada a sessão de perguntas, abertas ao público, quando o rapaz levantou. Jovem estudante, de fala firme, indagou Saramago. Não lembro exatamente das palavras. Começou falando da fila para perguntas. Disse que tinha sido empurrado por uma outra pessoa que também ia perguntar.

– Como podem as pessoas se empurrarem aqui? Não estão todos engajados, na luta por um outro mundo? Porque não é possível um outro mundo se lutamos cada um pelo seu ideal. Isso aqui é uma briga partidária, uma disputa de ideologias ou estamos todos juntos buscando um mesmo ideal humanitário?

O rapaz fez ainda algumas outras perguntas. Mas o seu primeiro desabafo ecoou e cobriu de reflexão os que o escutaram. Eu estava em casa e larguei um pomposo “baaaah”. Saramago fez que concordou quando começou a responder outras questões para o rapaz.

Parece absurdo para alguns que eu não comece falando do comentário ou da resposta do português, Nobel de literatura em 1998. Muito mais importante, foi o simbolismo daquele desabafo. É exatamente disso que o Fórum Social Mundial está precisando e tomara que encontre nas próximas edições. Uma crítica que surge no meio dos participantes. Assim mesmo, de dentro pra fora. Uma respiração saudável para a sobrevivência. Era visível no estudante o sentimento de indignação. A fila foi o grande palco por onde transitaram os personagens simbólicos do conflito de interesses que há neste evento.

Não é possível, diria o rapaz e fazia que concordava Saramago, que o movimento indígena queira o seu mundo ideal, o MST o seu, o movimento feminista o seu, a Une o seu. Nenhum outro mundo é possível assim. É preciso que haja uniformidade do discurso para que floresçam soluções práticas para iniciar a viabilização deste outro mundo. É preciso haver tolerância com a necessidade do outro também.

No jornal Correio do Povo, aqui de Porto Alegre, o psiquiatra Jorge Ignácio Szewkies já alertava, no dia anterior, para o sério problema.
“(…) Haverá, neste Fórum, encontros entre pacifistas israelenses e palestinos. Temo que afluência de público seja menor que nas oficinas francamente belicosas, que têm resposta pra tudo: eu estou certo e o outro é o meu inimigo. Gritarão palavras de ordem e sairão todos contentes com a escolha de um inimigo responsável por tudo. Cantarão, dançarão e voltarão para suas casas. Tudo seguirá igual. Assim outro mundo não será possível.”

Naquela manhã, José Saramago fez que concordou. Antes mesmo do painel já havia feito menção aos jornalistas do problema da falta de ações concretas do FSM.
“As baterias têm que funcionar para pôr o motor a funcionar. Esta é a minha idéia. Teria de inventar no FSM algo que não fosse uma ONG, que se dilui na quantidade quase astronômica de ONGs, mas que se apresentasse como um fórum de debates de idéias não simplesmente que as pessoas se encontram e vão ter idéias e ficam contentes com isso. Que vão aprender algo e comunicar algo. Mas que seja mais do que isso. Que seja um instrumento para a ação”.

O outro mundo precisa de ação. Não de utopias. Precisa de respeito e de tolerância com o outro. Não de gritos e palavras de ordem.

Olhemos, sim, para o nosso queridinho umbigo. Mas não para encontrar o que está certo, mas para reconhecer o nosso próprio papel nisso tudo.

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O farto e o faminto

Quando há o faminto e o farto, precisa haver esforço de ambos para que a transformação aconteça. O faminto precisa dizer que tem fome e muito mais. Precisa mostrar legitimidade do seu esforço por uma condição melhor de vida. Precisa querer que a fome do outro também seja saciada. O farto precisa revelar seu caráter humanitário, abrir mão da vaidade e estender a mão.

A relação que se estabelece entre o FSM e Davos é esta entre o faminto e o farto. Ambos possuem sérias responsabilidades e ambos ignoram que as possuem.

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Impressões do Fórum Social

De que forma um outro mundo pode ser possível? Confesso que é quase irresistível lançar essa pergunta como pauta de uma próxima visita ao Fórum Social Mundial, que começou dia 26, em Porto Alegre, e terminou na segunda-feira, dia 31.

Descemos na estação Mercado e caminhamos ao longo das instalações do Fórum, que põem a Usina do Gazômetro no centro disso tudo. O visual cosmopolita passa a chamar a atenção depois que nos desvencilhamos dos carros e das sinaleiras que abafam a percepção de qualquer um sobre qualquer coisa. Jornalistas e participantes de todas as partes do mundo se encontram, formam seus grupos e cada olhar e cada movimento deflagram os que não são daqui.

Seguimos nosso caminho. Passamos pela grande feira instalada logo após a Usina, pelo acampamento da juventude e pelo anfiteatro Pôr do Sol. A impressão foi ruim. As instalações da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica), local onde aconteceu a última edição, davam uma postura mais sisuda ao Fórum. Tinha mais cara de coisa séria, comprometida. O atual modelo, ao ar livre, combina mais com feira, com brique, com palavras ao vento e idéias que vão tão longe e se perdem tanto quanto o horizonte do Guaíba. Levanta-se, também nessa edição, a suspeita de que nada de concreto se extraia dali. Fica como destaque a multiculturalidade e o grande bem que o Fórum traz à cidade.

Do segundo poderíamos falar bastante. A começar pela grande presença da Brigada Militar. Que, convenhamos, nada tem a ver com a grande insegurança que a cada dia sentimos aumentar em nossa família, em nossos filhos, em nossos vizinhos. Qualquer um podia agora começar um grande desabafo aqui, mas deixa pra lá.

Parece que um grande contingente foi deslocado do litoral para garantir a segurança do evento que se despede este ano da capital dos gaúchos. Despede-se levando a falsa impressão de uma cidade segura.

Afora a segurança, servem como destaque o crescimento das vendas de quem depende do comércio de água mineral, de cachorro-quente ou de milho-verde para sustentar a família. Vê-se muito deles por lá. E todos ocupados atendendo ou tentando decifrar a necessidade de um estrangeiro interessado. A superpopulação que lota os hotéis da capital também é, senão o maior, um grande aspecto a ser ressaltado.

Bom, disse acima que a multiculturalidade é o outro grande destaque do Fórum. Pois então. Estávamos na estação Mercado, de volta pra casa, no fim de um dia de muita caminhada. Às margens da plataforma, aguardando conosco a chegada no próximo trem, estavam cerca de sete ou oito cidadãos de Sri Lanka.

Tinham a pele negra, mas não muito. As mulheres vestiam roupas pesadas e compridas. Tinham aquele sinal pequeno e arredondado entre os olhos, característica também das mulheres da Índia, creio eu. Os homens usavam trajes bem comuns. É interessante acompanhar a forma como se comunicam, como são dependentes uns dos outros num país tão estranho. Deviam ser de alguma ONG ligada ao plantio. Foi o que deu pra ler no crachá que usavam no peito. Demos risada quando o primeiro trem passou e não parou. Não estava na linha dele. Devia estar se deslocando pra outra estação, ou sei lá. Mas os nossos visitantes não entenderam nada. Entreolharam-se. Estavam em dúvida se havia faltado alguma iniciativa deles para que o trem tivesse parado. Bem engraçado.

Estávamos entretidos com um senhor de São Leopoldo que também vinha do Fórum quando resolvermos arriscar alguma conversa em inglês com algum dos cingaleses. Tentei o primeiro que logo fez sinal dizendo que não entendia bulhufas do que eu falava. Do outro lado, um colega seu cutucou meu braço e disse que, sim, “I speak english”.

Legal. Pude fazer uso do que sei de inglês pra descobrir que estavam indo se hospedar em algum hotel em Esteio, que eram mesmo de Sri Lanka e que estavam achando o Brasil “very, very good”. Talvez o papo rendesse mais se não tivesse chegado a nossa hora de descer. Despedi-me com um ligeiro “good night” e recebi um sorriso do senhor.

De volta pra casa ficou a vontade de saber mais daquele senhor. Como estava a sua gente depois do Tsunami, da situação de suas casas, suas famílias. Do que faziam no Fórum. Esperam realmente levar algo daqui? De que forma um outro mundo pode ser possível?

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Nada de novo no front

De certa forma, nos parecemos com soldados vindos do front quando lemos os números de mortos da guerra do Iraque com tanta indiferença.

Na real, um soldado recém de volta de uma guerra não consegue entender o quanto se pode sofrer por apenas uma vida que se vai. Não compreende o sofrimento de uma mãe que se esmigalha ao túmulo, chorando a vida do filho que se foi. Pra ele é tudo tão menor do que o que viu de terrível na guerra. Parecemos esses soldados, no conforto de nosso lar, envolvidos com nossos afazeres diários, selecionando matérias do jornal pelo maior impacto quantitativo que podem ter. O valor-notícia de uma guerra para o leitor comum não é mais o furo, a notícia, o avanço da tropa x, a resistência dos rebeldes do país y, a cidade z que foi dominada. Damo-nos ao trabalho da leitura se o número nos é expressivo o suficiente. As fotos não têm cheiro, não inalam pó, podridão. As fotos e as linhas que se seguem não traduzem o sofrimento da frente de batalha. Como podemos ser assim? Tão indiferentes? Tão alheios ao que acontece no front?

Como podem ser assim, se lá fora os estilhaços zunem sobre as trincheiras e os foguetes luminosos sobem, os feridos são arrastados em lonas para a retaguarda e os companheiros abaixam-se nas trincheiras?

Estas últimas indagações são de Paul Bäumer, um jovem alemão de família humilde que fora enviado para Primeira Guerra Mundial e que viveu a exaustão humana que poucos imaginam existir. Ele é o personagem de Erich Maria Remarque, no livro Nada de novo no front, de 1929. Erich fora também enviado à Guerra quando tinha seus 18 anos. Saiu do conflito profundamente marcado e perplexo com a crueldade da guerra. Durante a década de 20, enfrentava a insônia carregada de fantasmas tomando notas sobre os horrores que viu e viveu no front. Os rascunhos deram origem ao romance que Paul protagoniza.

Faltam ainda algumas páginas para terminá-lo de ler. Os detalhes assustam e comovem ao mesmo tempo. Cada vez mais se tem a clara impressão de que a guerra nunca foi feita por quem está nas trincheiras. Pobres meninos sem passado que entregam suas vidas pela causa que nunca lhes darão a conhecer os senhores engravatados da guerra.

Nada de novo no front é considerado o mais importante romance pacifista do século XX. Remarque, junto de Goethe, é o escritor de língua alemã mais lido do mundo. E o jornal de amanhã, seja ele qual for, será também um marco para história. Ele será a lápide dos muitos que morreram hoje no Iraque em função de uma guerra irracional e mesquinha. O jornal de amanhã ainda está sendo rodado e estará quentinho nas bancas do mundo inteiro pela manhã. Novos números. Novidades da guerra. E quando acordarmos, a indiferença despertará conosco.

Como podem ser assim?

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Leia até aqui.

Brincadeira. Leia sempre um pouco mais. A Internet comprovadamente nos consome ao menos 10% a mais de tempo para ler a mesma quantidade de texto do papel, aquele comum, tipo o do jornal. Isso, decerto, pela trabalheira de lidar com uma ou outra barra de rolagem, um botão aqui, outro acolá. Tem também os vários links interessantes que nos dispersam. Sem falar na pilha horizontal de janelas que estão abertas ali embaixo, na barra de tarefas. Fora o magrão ou a guria que insiste a piscar no msn ou nos outros softwares de conversa instantânea.

Eu sei, é dura a batalha. Antes não era assim. Aposto. O cara quando ia ler alguma coisa que chegava, rasgava o envelope, que até então era a única coisa que lhe desviava o foco. Depois de rasgada a pontinha aquela, suficiente pra fazer o rasgo maior por onde sairia o papel escrito, nada mais o impediria de ler. Lia, relia. Sabe lá se não lia uma terceira vez. Faria o que se não isso? Reler o jornal? A revista, se existia. Ligava o rádio e fica olhando pro nada.

Somos produtos da evolução e da convergência das mídias, sei. E o passado também não devia ser tão monótono como tentei convencer ali em cima. Mas insiste mais sempre. Ler, como bem sabemos e ouvimos por aí, só faz bem. Leia de tudo e mais. Leia até isso aqui quando te sobrar um tempo. E se tiver mais algum, comente. Ficarei bem agradecido.

No começo, tinha me comprometido de escrever a quantidade certinha pra caber na tela do teu monitor quando abrisse a Uzina, sem precisar rolar. Mas, sério, não deu. E temo não dar na maioria das vezes. Por isso, a clemência por compreensão.

Dê sempre um pouco mais de crédito para esse humilde comunicador, humilde futuro jornalista. Leia até aqui. Feito, consegui.

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Sai monstrengo!

A globalização trouxe pro mundo, junto de mais riqueza e de mais pobreza pra quem já as tinha, algo um pouco mais particular. Uma frenética sensação de nunca saber o suficiente e, mais, de perder o controle do saber pela quantidade dele que nos é apresentada no zapear o controle remoto ou listar o que precisa ser consultado na Internet.

O principal dos sintomas, então, é a preocupação. Seguida do conforto das desculpas que sempre encontro. Primeiro me preocupo em não estar suficientemente por dentro de algo que acontece e, em seguida, agarro meu dia-a-dia e o coloco na linha de tiro para não ser atingido. A culpa é dele. Como vou ter tempo de ler tudo e ver tudo se o tempo em que tudo acontece está ocupado pelas obrigações cotidianas?

Sempre que posso e tenho alguma folga – um necessariamente existe por causa do outro – compro uma Folha de S. Paulo. Aquele bolo de cadernos empilhados me dão uma gostosa sensação de dever cumprido. Como referência de jornalismo no país, a Folha serve como um anestésico. Fico com a consciência tranqüila, digamos assim, pelo simples fato de tê-la em mãos. Isso tudo antes de ler.

Mas aí vem aquilo que eu disse lá em cima, que a globalização trouxe. Pra mim, a Folha é a materialização desse saber múltiplo. Não que ela tenha vindo com a globalização. Mas assusta tal e qual.

– Olha quanta coisa eu tenho que você deveria saber… uahhhh! Olha aqui, olha… deveria, não, deve, é sua obrigação saber… ler tudo… uahhhh! uahhhhh!

Diálogo com seres inanimados e a imagem deles gigantes com dentes coreeno atrás de você é coisa de pesadelo de desenho animado. Mas eu não consigo evitar. Preciso que imagine o quanto sofro.

Não é loucura. Já ouvi muito colegas de jornalismo falando disso também. Eles que carregam o jornal do dia, a Veja da semana e um ou dois livros na pasta. Lêem tudo? Não. Carregam e tentam bafar aquela voz perversa que nos atormenta.

Rolou por e-mail ano passado um artigo de um senhor afirmando que deveríamos ser especialistas em algo. Esquecer o resto e dedicar nossa atenção para algo determinado. Que o mundo é dos que são especialistas em algo e não dos que sabem um pouco de tudo. Anh? Também pensei isso. É a forma como ele tenta abafar o monstrengo que grita, como a Folha grita pra mim. Né? Cada um do seu jeito. Por isso, discordo, meu senhor. Como disse pra vários amigos que entraram na discussão semestre passado. Não podemos, como viventes do século da informação, ignorar o mundo que passa girando no monitor de nossas casas, escritórios, escola, trabalho. Corriga outra. Não estamos no século da informação. Mas no século da propagação dela. Sim, isso. Porque ela sempre existiu.

Domine o monstrengo. Ignore-o algumas vezes, mas não desista de saciá-lo. Não o deixe desaparecer sob a pena de naufragar na ilha da soberba. Daqueles que insistem no seu saber egoísta e medíocre.

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