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Parabéns, Porto Alegre!

Abril 4, 2009 · 2 Comentários

A luz que vinha do alto iluminava seu rosto. Especialmente seus olhos morenos. Ao lado da janela de vidro, ela maquilava-se. Sempre que podia, jogava sua cabeça de um lado para o outro, acompanhando a música que tocava no rádio e admirando os contornos dos seus olhos e de sua boca. Maquilava-se e cantarolava. E admirava-se. E a batida do som empurrava seu rosto ora pra esquerda, ora pra direita. Na certa, preparava-se para um happy-hour. Não, era mais. Uma festinha, uma balada. Tinha um desses instrumentos delicados na ponta dos dedos e com ele pintava os olhos. Os cílios, o canto do olho. E repetia o procedimento cuidadoso num olho e depois no outro. E ficava mais bela. E cantarolava. E quase dançava.

Ela estava sozinha ali. Só ela, aquela luz fraca, bancos vazios e o reflexo do congestionamento no espelho do retrovisor. O mesmo trânsito que a impedia de ver a cor do asfalto no horizonte, a obrigava, entre uma arrancada e outra, a antecipar o cuidado com a vaidade.

Meu carro estava atrás do dela. E atrás dos meus olhos cansados de um dia de trabalho eu lamentava ter percorrido uma dúzia de quilômetros naquele tempo perdido. Eu lamentava estar ali. Lamentava estar perdendo aquela consulta médica tão importante. E oitenta e cinco reais reais. E o meu tempo.

Mas, ao contrário, não me dava conta, eu devia estar era feliz. Porto Alegre está se tornando uma cidade moderna. Com seu trânsito, seus motoqueiros e motoristas entediados. Aos 237 anos, temos que reconhecer, Porto Alegre nunca mais será a mesma.

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Tenha um cachorrinho ou vire um motoboy

Outubro 4, 2008 · 3 Comentários

Há alguns finais de semanas, conversei com uma amiga com quem fazia tempo que não falava.

Ela separou-se do companheiro com quem esteve junto durante duradouros 14 anos. Sofreu pracaramba. Embora convicta, sofreu. Porque não se pode mandar, assim, batendo o pé, sobrancelhas agudas, na cabeça da gente. Embora tenha sofrido, ergueu-se, superou paradigmas, e está viva novamente. Graças à Keite. Digamos que seja este o nome da sua cadelinha.

Eu já tinha ouvido falar do poder terapêutico que os bichinhos de estimação exercem sobre nós, humanos quadrúpedes, pensantes e eleitores. Porque permanecem na ativa o tempo todo. Não há tempo ruim, falta de ração ou de afago que os desanime. Nos dão a certeza e a comprovação de que estão e estarão sempre ali, à nossa espera, à espera de nossa atenção, do nosso extinto tempo. Querem só correr atrás de um osso, rolar na grama mostrando-nos seus mamilos, rosnar, pular, brincar, sorrir sem sorrir.

A Keite, testemunhou minha amiga, ajudou-a a sair de uma quase depressão. Rabo abanando, Keite mostrava sentir, ao mesmo tempo, desdém pelos problemas e uma avassaladora motivação para tirar minha amiga daquela situação. Seu companheirismo, mesmo que irracional, foi fundamental.

Agora, há uma segunda alternativa.

Se você não está na melhor fase da sua vida, auto-estima em baixa, e não tem um cachorrinho ou não gosta de bichinhos de estimação, transforme-se hoje mesmo em um motoboy.

Isso mesmo: compre uma moto, capacete, macacão com listras reluzentes, compartimento para transportar encomendas e vire um motoboy já!

Porque o motoboy, este sim, goza do prazer indescritível da superioridade. Do prazer de andar pelas ruas da mesma cidade em que você e eu trafegamos, enquanto, ao mesmo tempo, transita em um mundo inteiramente seu, com sinalização e leis de trânsito ou inexistentes ou elaboradas e aprovadas por alguma entidade sobrenatural contra quem nossas autoridades nunca cogitaram se opor.

Eles, os motoboys, superam a tudo e a todos no momento em que colocam entre as pernas suas máquinas estreitas, impacientes e velozes. Devem ser seres orgulhosos de si mesmos os motoboys. Tenho notícia de que nenhum deles, nunca na história desse país, adentrou o consultório de um psicólogo ou psiquiatra. Jamais algum deles precisou.

Num país de metrópoles com trânsito cada vez mais caótico, este seres, os motoboys, regozijam-se. Vivem em um sistema à parte. Não compartilham de problemas elementares da civilização moderna. Ignoram o significado de verbetes como engarrafamento, atraso, impaciência e Voz do Brasil. 

Vire um motoboy e desfrute de tudo isso. De uma vida sem obstáculos. De uma vida sem freios e sem limites. De um mundo plano, sem distâncias. Deleitar-se-á do prazer da velocidade sem limites, da brisa veloz tomando seu corpo enquanto a inércia é vencida e você levado à glória.

Sobrará um único desprazer: você sofrerá com a antipatia e a irritação dos motoboys que insistem em viver no mundo de cá, no real, no mundo do resto do mundo. Onde há rígidas leis de trânsito, pistas duplas com inoportunas listras amarelas divisórias, com semáforos vagarosos, calçadas intransitáveis, faixas de segurança que multiplicam-se a cada dia, com proibição de ultrapassagem pela direita. Um mundo repleto de todas essas coisas impertinentes e desnecessárias. Um mundo de motoristas que convivem com ela, com a chatice e até com a depressão.

Portanto, repito: se você está cabisbaixo, se o seu orgulho está ferido, não dê ouvidos ao resto do mundo, para tudo há uma solução. E a minha é que nem pense duas vezes. Abandone sua profissão. Vire um motoboy.

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