Uzina

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A lua escura

Outubro 12, 2009 · 3 Comentários

Era uma note sem lua, daquelas bem escuras. Na varanda do sítio, Alam, Felipe e Anita conversavam olhando o final da fogueira que tinham acendido para espantar os mosquitos.
De repente…
… Alan diz: –Vamos dormir, amanhã temos que levantar cedo para uma longa aventura…
… PRIMMM! PRIMMM! PRIMMM!
– Alô! atendeu Felipe.
– Quem é? – Felipe!
– Felipe!!!, vocês estão atrasados!!!, deviam estar lá as 6 horas e já são 8 horas!!! berra Júlio seu patrão.
– Estou indo chefe!
– TRINNNNN! desliga o telefone.
– Alan!!, Anita!!.
– Que é Felipe?. pergunta Alam.
– Nós estamos atrasados!
– É mesmo!!!!!!!!!!!
– Vamos!!! diz Anita…
– HHHHH! Chegamos. fala bem baixinho Anita. Alam, Felipe e Anita caminham mais três passos e… …HÁÁÁ!! HÁÁÁ!!
– PPPUUUMMMM!!! – Onde estamos? pergunta Felipe.
– Tirou as palavras da minha boa! afirma Alam.
– VVVUUUUMMM! – HÁÁÁ!! – PIMMM!
voa uma lança a cabeça de Anita, mas ela consegue se salvar. – TUUFF!! TUUFF!! cai pontas de gelo do teto do castelo em forma de chuva e então o que lhes resta é fugir…
… Quando Alam, Felipe e Anita começam a correr aparecem três carrinhos (de ferro) por um trilho. E então eles três entram nos carrinhos. Alam fica no 1º carrinho e Felipe e Anita no 2º.
De repente chega o fim do trilho e Alam fala desesperado: – Só nos resta é os nossos cabos de aço, para emergências!! – VVuuum!!!! (3 vezes) – PPiiimm!!! (3 vezes).
– Conseguimos!! – grita Anita. Mas derepente um fogaréu aparece em volta deles. Felipe olha bem para o fogo e bem lá dentro do fogo aparece uma estranha luz. Com muita curiosidade Felipe entra no fogo e de lá dentro tira uma caixa de ferro cadiada. Alam e Anita exclamam juntos: – Como vamos abri-la? – Já sei! – diz Felipe. – Co… – Pum!!! – atira com um revólver Felipe – Felipe não mexa nessa parte !!! – Alam!!, olhe lá é o fim do castelo! (das brincadeiras) grita Anita.
– Vamos embora!!! gritam os 3 juntos. E então eles vão embora felizes para sempre.

***

Eu posso lembrar do meu entusiasmo descrevendo e imaginando cada detalhe, característica e reação dos personagens dessa história. Entendo ainda hoje a razão de cada uma daquelas onomatopéias esquisitas com as quais ocupei as páginas brancas de meu pequeno caderno pautado, cuja capa ilustrava duas crianças sós e obesas, bebendo suco de uva Aurora em um piquenique. Anita, Felipe e Alam foram meus primeiros personagens. Ao longo do resto da minha infância, não lembro de outros. Devem ter existido, mas não lembro.

O que lembro e tenho registrado é um erro da educadora que foi testemunha deste texto, o qual pode ter sido a primeira manisfestação de uma criança que desejava imaginar mais, desejava inventar mais, desejava ser, sem saber, um artista. “Procure fazer histórias menores e cuide o parágrafo”. Foi o que ela deixou dito para mim depois desta bela história de aventura, fantasia e emoção, que um guri de nove anos – apenas nove anos! – acabara de criar.

Fala-se muito hoje da educação deficitária que temos no Brasil. Eu também fico intrigado com isso. No mínimo intrigado. Passados 18 anos, quantas professoras de séries iniciais continuam despreparadas para indicar limites, demonstrar interesse, perceber incapacidades, desenvolver aptidões e incentivar o lúdico?

Minha primeira ficção, aos nove anos

Minha primeira ficção, aos nove anos

Minha história tinha tirinhas...

Minha história tinha tirinhas...

... cenas de ação

... cenas de ação

A avaliação da professora: "Procure fazer histórias menores."

A avaliação da professora: "Procure fazer histórias menores."

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O Ventoso e o Bento

Agosto 29, 2009 · 5 Comentários

O Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, este que escreve para vocês neste blog, digo pra vocês, fez a sua grande descoberta por esses dias. Isso mesmo, talvez possa-se dizer que o Bento fez, há poucos dias, a sua primeira grande descoberta desde seu primeiro instante de vida, no hospital Ernesto Dorneles, em Porto Alegre. Porque outras pequenas descobertas o Bento já tinha feito. Por exemplo. Ele descobriu, desde que nasceu, que chorar não é a forma mais eficiente de receber o que lhe falta – ou leite ou alguém que lhe faça dormir. Descobriu que chorar não é a forma mais eficaz. É a única. Outra pequena, mas fundamental, descoberta do Bento, o afilhado do Juliano e da Samanta, foi sua pequenina, mas ágil, língua. E imediatamente junto desta, Bento aprendeu outra coisa de igual importância. Sabem o que é? É que embora a língua o ajude a mamar, fazendo repousar sobre si o bico do seio materno e auxiliando na obtenção do leite (eu imagino que seja assim), esta mesma língua, esta mesma e insubstituível língua, não pode agarrar objetos distantes mais de cinco centímetros da boca. Ela é simplesmente incapaz disso.

Mas estas são apenas as pequenas descobertas do Bento, neto do José e da Ema. A maior de todas ainda não contei. E quem sou eu? Eu faço parte desta magnífica descoberta. Aguardem.

Os brasileiros tiveram a presença de espírito de metaforizar a genial teoria da evolução de Darwin com o famoso “quando a água bate na bunda o sujeito aprende a nadar”. Bom, se fica mais fácil de entender, sem problemas, usemos esta metáfora mesmo. Digamos, então, que, quando o Bento descobriu que sua hábil língua era inofensiva a objetos distantes, a água bateu na sua fofa e branca bundinha. Certo? E Bento, o neto da Dona Elisa, teve de aprender a nadar. Certo? E como Bento fez isso? Batendo as perninhas! Não! Nada disso. A fantástica descoberta do nosso Bento são, atenção: as suas pequeninas mãos. Isso mesmo. Há algumas semanas que o Bento já não repete suas frustadas tentativas de agarrar as coisas com a língua, ele usa suas duas próprias mãos.

Ventoso

Ventoso

E eu, quem sou? Prazer, meu nome é Ventoso. Aham, Ventoso. Sou nada mais, nada menos do que o primeiro brinquedo no qual o Bento tocou conscientemente (conscientemente, isso é importante) com suas duas desajeitadas mãos. Claro que virão outros, como a Centopéia, dizer que foi nela que o Bento tocou primeiro. Nãããão foi. Não acreditem nessa impostora. Foi em mim, em quem vos escreve agora, no Ventosinho aqui, que o Bento inaugurou seu tato. Bom, fui dado de presente ao Bento justamente pela Samanta e pelo Juliano, seus dindos, e meu nome é este porque eu tenho uma enorme ventosa na minha base, o que me permite ficar grudado em quase qualquer superfície da casa. Essa é, portanto, minha primeira virtude: adapto-me facilmente. Depois disso, colocam a criança, neste caso, o Bento,  na minha frente e ele fica girando três astes de plástico presas bem no meio do meu corpinho. As grandes atrações são os simpáticos animaizinhos coloridos que ficam na ponta de cada uma das minhas astes: o tucano, a borboleta e o macaco. As três astes giram como num catavento e os três bichinhos coloridos também contornam o seu próprio eixo. Manero, né? As crianças dessa idade, da idade do Bento, adoram.

Bem, devidamente apresentados, eram estas as novidades que eu tinha pra contar pra vocês. Que eu, o Ventoso, sou o mais novo amigo do Bento, e que o Bento, o filho da Ana e dos Luís, acaba de descobrir que, além de chorar, de mamar, de dormir e de adestrar sua língua, agora pode usar suas duas e poderosas mãos.

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Meu medo de Jason

Março 13, 2009 · 2 Comentários

Jason

Jason

Eu me rolava na cama aquela noite. Eu era uma criança. Uma criança assustada. Quase via vultos de uma pessoa enorme andando pela casa, decidindo se entrava no meu quarto, enquanto eu me virava de um lado pro outro com o coração apertado. Eu tinha medo. Medo de que ele viesse para me pegar e me machucar com a sua brutalidade. Medo, muito medo eu tinha.

Já devia ser bem tarde, todos dormiam, minha irmã inclusive, e eu resolvi fazer uma promessa. Pra poder dormir. Não sei bem pra quem foi a tal promessa. Só lembro que prometi nunca mais ver Sexta-feira 13. Nunca mais. Em troca, só queria dormir. Queria que ele e sua sombra gigantesca fossem embora e me deixassem dormir um sono tranquilo. O sono tranquilo de uma criança. As cobertas taparam todo o meu pequenino corpo e adormeci.

Passou um bom tempo.

Era uma noite de temperatura amena e algumas pancadas de chuva em Porto Alegre. Segunda-feira passada. Ventava bastante. Oitos pessoa, a escuridão e dezenas de poltronas vazias faziam-me companhia naquela sala de cinema. Eu estava inquieto. E a ansiedade em revê-lo gelava meu estômago vazio. A promessa estava sendo quebrada: eu havia voltado ao Cystal Lake e Jason e eu nos reencontraríamos. E foi bacana.

Escutar aquela trilha de suspense dizendo algo como “ki-ki-ki-ma-ma-ma” foi como voltar no tempo. Deram saudade a mascara de hockey, os atalhos na floresta que só ele conhece e os jovenzinhos sexys, louros e alegres. Senti falta do gato. Aquele que, na cena da jovenzinha loura apavorada, sai repentinamente do armário dois minutos antes de ela morrer e dois minutos depois de ela ter transado.

Jason está mais veloz e menos misterioso. Mas isso é bom, não é critica, não. Conheci a sua casa, seus brinquedos, sua cama com seu nome gravado na cabeceira e o seu porão. Um porão. Onde é avisado, com os bater de latas, da presença de algum jovenzinho forasteiro e louro na floresta, que fica a beira do lago em que, ainda criança, afogou-se, e onde viu sua mãe ser morta por uma monitora negligente.

Não sei, a câmera pode tremer, o ator pode trocar de roupa três vezes na mesma cena, eu não percebo nunca um erro num filme Sexta-feira 13. Aliás, eu não percebo também a minha fome e o tempo passar.

De tensão, minhas costas ainda estavam empurrando o encosto da poltrona pra trás quando os créditos começaram a subir e as luzes acenderam-se de supetão. Você sabe o que acontece, né, quando alguém vai com muita expectativa ver um filme? Não, eu nunca me decepciono com Sexta-feira 13. Nunquinha.

E a sensação de que o filme vai junto com você embora do shopping? Já passava das onze da noite e eu sozinho. Jason estava em cada canto daquela praça de alimentação deserta. Nas trevas do corredor escuro dos sanitários, lá estava ele e a sua máscara bege e suja me cuidando. O vento na rua parecia cochichar no meu ouvido: ki-ki-ki-ki-ma-ma-ma-ma-ki-ki-ki-ki-ma-ma-ma-ma. Dei a volta no estacionamento até chegar no carro. Eu a passos largos e ele me vigiando. Podia jurar.

Só se eu pensar muito lembro de ter dado ré, encaixado o rádio e me mandado dali. Quilômetros a frente, um Uno velho branco trafegava devagar na pista lateral. Um Uno branco e pesado. Era ele. Só podia ser ele. Jason devia estar guiando aquele Uno Mille branco. Eu podia apostar. Estava só aguardando eu ultrapassá-lo para tirar o braço pra fora da janela e arremessar seu machado velho no meio das minhas costas, transpassando o banco do carro. Como fez no filme quando matou aquele jovenzinho negro. 

O senhor baixo e careca do Uno Mille deve ter ficado preocupado com a minha velocidade e desconfiança quando o encarei. Não era o Jason. Essa tinha sido por pouco.

Liguei a luz alta como sempre faço ao chegar em casa à noite. Diminui o risco de eu ser surpreendido por algum mal-intencionado escondido nas folhagens dos vizinhos. Naquela noite, só um malfeitor podia aparecer do outro lado do meu pára-brisas molhado. O Jason. Mas ele não pôde. Também! Quase não lembro como fui parar dentro da garagem e pouco mais tarde, dentro de casa. Aparentemente, são e salvo.

O melhor de tudo? Ele não morre no final do filme. Não, isso não é o melhor. O melhor é que, quase vinte anos depois, daquela noite de segunda-feira, eu voltei a sentir medo do Jason. O mesmo medo. A mesma sensação de que não há saída. Mesmo que eu corra, que me esconda atrás das árvores daquele bosque, que grite pelos outros – que certamente já devem estar mortos – ele virá para acabar comigo. Para esconder meu corpo de modo que nem um enterro digno eu terei. 

E isso é muito bom. 

É bom quando no lugar das preocupações reais da vida, dos pepinos reais do trabalho, dos desentendimentos reais dos relacionamentos, você sente medo do Jason. Só do Jason. Queria poder escolher ter medo só do Jason e da sua mão pesada. Poder esquecer de todos os outros medos e só correr do Jason; dar luz alta na frente de casa e procurar apenas por sua silhueta apavorante; procurar saber dos meus amigos só por causa da sensação de que Jason os pegou; chamar minha mãe para uma conversa no quarto só para que ela acenda a luz e mande pra longe aquele gigante malvado.

Quando deitei na cama aquela noite, não fiz promessas. Só lamentei que Jason não aparecesse. Quase chamei por ele. Mas acho que nunca mais virá me apavorar e tirar o meu sono. É realmente uma pena. Lamentavelmente, acho que nada que eu prometa me isentará das preocupações reais desta dura vida de adulto.

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A lição dos Amigos Secretos

Dezembro 12, 2008 · 6 Comentários

Prometam uma coisa. Uma só coisa. Seja no trabalho, entre os amigos, no futebol do marido, na creche da filhinha ou com a família, prometam somente uma coisa neste fim de ano: participem e valorizem os Amigos Secretos – ou os Amigos Ocultos, se preferirem. 

Mais que isso. Façam isso não só neste mês. Valorizem-nos para todo o sempre.

Há uma boa razão. O Amigo Secreto, na sua forma original, lá na nossa infância, no deixou uma fundamental lição. E por isso, pelo legado que ele nos deixou, devemos reverência a ele. O Amigo Secreto nos ensinou, desde cedo, o significado da mais importante mazela da nossa sociedade: a injustiça.

Sei que é quase inacreditável, mas eu lembro como se fosse hoje.

Nunca mais um Amigo Secreto foi o mesmo desde o dia em que um boné verde fosforescente da Colcci – à época em que qualquer um comprava qualquer coisa da Colcci – veio ofuscar a minha visão de guri da quinta série do primeiro grau. Ele era horrível, detestável e, sobretudo, vexatório. Eu não podia acreditar que teria que agradecer e dizer que havia gostado daquele presente estúpido e de inacreditável mal gosto. Eu não podia crer nisso. Pela primeira vez em todas a minha curta vida até ali eu estava sentindo o gosto amargo e repugnante da injustiça. 

Eu que havia comprado um presente de qualidade, escolhido a dedo, daqueles que se escolhe pensando na pessoa, sabe? Eu mesmo tinha sido injustiçado. Por que aquele boné estava ali, na minha mão? O que ele tinha a ver comigo? O que ele queria de mim? O que ele queria me ensinar? Para que servia aquele objeto bizarro e brilhoso senão para ensinar-me a dura lição da injustiça?

Não suportei.

Desejava dizer à Monique, acho que esse era o nome da minha algoz, que eu não gostara do presente. Que, na verdade, eu o detestara. E, amigos, eu o disse. Meio acanhado, mas disse. E dois dias depois ela veio colocar na minha mão a nota fiscal que me autorizada trocar o tal boné. E assim foi feito. 

E sei que isso já aconteceu com todo mundo. Todos, invariavelmente todos, já foram injustiçados na infância por um inocente e bem intencionado Amigo Secreto de final de ano. Todos.

Mesa grande, torta no centro, cachorrinho-quente, refrigerante em garrafa de vidro, brigadeiros, branquinhos, pasteizinhos dourados, cores e mais cores. Em um instante, tudo ia à ruína. Todo o encanto da festinha de final de ano e da surpresa que aguardava o momento das revelações, tudo desmoronava. A realidade se transfigurava enquanto você abria o pacote de presente e de dentro dele surgia uma dessas criaturas repugnantes. Porque era isso mesmo que eu via quando rasgava o papel colorido e avistava um par de meias, ou um baralho, ou um dominó, ou uma carteira do He-Man com figuras reluzentes que se alternam com o movimento do objeto. Repugnantes, era isso que eram aqueles presentes. 

Na maioria das vezes, eu deseja, como toda a energia do meu ser, estar com o presente que eu mesmo havia dado. Sem sombra de dúvida que ele era melhor. Enquanto escolhia o presente, eu ainda conservava a empatia, o carinho e a preocupação com a satisfação do outro. Mas eles não. Eles nunca me respeitavam. Eu era, pela primeira vez, um injustiçado.

Mas teve uma vez, uma única vez, que eu também servi deste veneno. Mas sem culpa. 

Estávamos às vésperas da festinha da escola e eu ainda não tinha comprado o presente do Luiz Fernando. Na real, não imaginava o que dar. Minha mãe veio com a solução. Como ela estava indo para o centro, passaria em uma loja qualquer e compraria uma camiseta. Topei. 

“Mas nós?!”, eu reivindicava uma explicação convincente da minha mãe. Por que ela havia escolhido aquela camiseta que ensinava a fazer nós de marinheiro? Por que, meu Deus? Surf, futebol, marcas, mulheres, tudo bem, mas nós? 

Luiz tinha a cara da injustiça no dia seguinte. Certamente, ele se fazia a mesma pergunta que eu havia feito à minha mãe há um dia. Por que nós? Com que cara eu olharei para as pessoas quando, mesmo sem ser um marinheiro, eu estiver vestindo uma camiseta que ensine a fazer nós?

Mesmo sem o peso da culpa, eu havia dado seqüência àquela sina. A de que os Amigos Secretos todos, sem exceção, surgiram na vida das crianças para que elas, desde cedo, aprendessem o gosto amargo da injustiça.

***

Não, gente! Há muitos anos que isso vem sendo diferente. O Amigo Secreto da empresa que revelamos esses dias, por exemplo. A Bel acertou em cheio. :-)

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Feliz Dia das Criancas!

Outubro 12, 2008 · 1 Comentário

“Nenhum rio chega ao mar se não respeitar os limites impostos pela natureza.”
Ouvi essa já no fim do domingo, 12 de outubro.
Lembrei de correntezas, de enchentes, de encostas sendo invadidas pelas força das águas. De famílias desabrigadas.
Pensei também em águas mansas seguindo seu curso, em pescadores indo buscar seu sustento, em peixes saltando, enquanto o sol reflete o brilho de suas escamas.

***

Estou convencido de que ser um exímio gestor dos limites do filho é o melhor presente que o pai pode dar a ele. Não só hoje.

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Pais, leiam isso!

Setembro 25, 2008 · 1 Comentário

Maravilhosamente
Por Fabrício Carpinejar

Vicente gosta de jogar futebol. Vicente gosta de jogar cartas de Supertrunfo. Vicente gosta de cavar a terra com pá e galochas. Vicente gosta de colecionar figurinhas. Vicente gosta de desenhar deitado no tapete. Vicente gosta de ajudar a mãe na cozinha. Vicente gosta de ir ao cinema e comer pipoca para acumular pontos. Vicente gosta de escolher sua roupa e colocar a camisa nova por cima de uma velha. Vicente gosta de jogar farelos para as pombas antes de chegar à escola. Vicente gosta de cortar os cabelos de seus bonecos. Vicente gosta de receber camisetas de times. Vicente gosta de tornear esculturas de argila. Vicente gosta de jogar videogame. Viente gosta de classificar restaurantes. Vicente gosta de dormir no carro. Vicente gosta de tirar fotografias. Vicente gosta de limpar os farelos dos salgadinhos nas calças. Vicente gosta de freqüentar o estádio. Vicente gosta de comer sorvete contornando as beiradas. Vicente gosta da sexta-feira.

Entre tantos gostos, o que meu filho mais gosta?

Observava o guri no final de semana. Com respeito. Como se fosse o pé direito de um quarto. Ele não parava quieto. Sua felicidade no final de semana é narração. Aponta e fala. Fala o que aponta.

Posso estar enganado, mas o que meu filho realmente gosta é de conversar.

Quando não cancelamos os ouvidos para forçá-lo a se ocupar com suas coisas. Não o empurramos ao seu canto e para seus brinquedos. Não o diminuímos diante de nossas leituras e afazeres miúdos.

O que fará uma criança crescer confiante é o tempo que dedicamos para escutá-la. É o tempo que propomos perguntas e a continuidade do raciocínio. O tempo em que legitimamos suas descobertas. O tempo em que não suspendemos sua curiosidade com elogios vadios: que bonito!, ótimo!, é isso mesmo!. Exclamações que pretendem enterrar o assunto e nos liberar para nossas atividades.

Ele se verá importante se eu valorizar o que ele escolhe para dizer, seus rascunhos e vacilações, seu modo de se organizar. Não é enchendo de mimos e presentes. Não é numa semana hiperativa, com passeios emendados e a adrenalina das surpresas. Toda criança tem um acesso estreito de sua imaginação para os pais. Deixará aberto se for usado. É tabuada: nenhuma criança dorme com a porta fechada, por que fechá-la durante o dia?

O autismo vem no momento em que a solidão é maior do que nossa capacidade de explicá-la.

Numa manhã e tarde modorrenta, com chuva intensa, trancados na residência, faltou luz. Escureceu dentro e fora. Acendemos velas e ficamos ao redor de uma mesa, brincando de adivinhar vultos, gesticulando fantoches nas paredes. A cera derretendo dá vontade de pescar sombras. De minha parte, conversava para matar o tempo e espantar o período de exceção. Reagia mais ao tédio do que à vida (mas é somente no tédio que suspiro). Restava a certeza de que era o pior dia do Vicente. Ele não fez nada do que admirava. Não brincou, não alisou o pó de seus carrinhos, não circulou pelo terraço.

Ao cabo da noite, ao apressar as cobertas e a virada do calendário, me confessou que nunca tinha sido tão feliz. Como? Sim, o óbvio é o imprevisível; por um momento contou com a audição de meus cílios. Maravilhosamente, eu olhei o que ouvia, não ouvia como quem olha. Sem querer, não descolamos um minuto da respiração. Um poderia embaçar o rosto do outro, tamanha a proximidade.

Meu filho procura entender o mundo. Posso ajudá-lo. Talvez ele tenha mais chance do que eu.

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Pouca infância

Abril 19, 2008 · Deixe um comentário

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Minha mãe e eu fomos no cinema assistir O Caçador de Pipas. Voltei angustiado. 

Tenha você conhecido ou não a obra – livro ou filme –, a mensagem da história me parece, como dizem, universal. Tipo o controle remoto aquele gigante e cheio de botões coloridos e sem função que se compra quando todos os outros de casa já não funcionam mais. 


Como todo best-seller, a linguagem é fácil. Como poucos, emociona ao tratar da singularidade do ser humano nos seus poucos anos de vida. O afegão Khaled Hosseini, autor do romance, trata a infância de uma forma contundente.

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