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Bento é bento

Julho 23, 2009 · 2 Comentários

Bento, já bento

Bento, já bento

Quase podia ouvir as paredes e o chão da igreja trincarem naquela manhã fria de 29 junho, na paróquia Santa Flora, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Eu já tinha decidido que sairia dali para movimentar meus músculos endurecidos e colocar uma barrinha de cereal no meu estômago oco. Já tinha decidido por isso. Não sabia o quanto mais podia aguentar. A voz daquele leigo à minha frente já soava sem sentindo tanto era o frio que eu sentia. Ele dizia palavras sem nexo e eu podia ver minhas mãos gelarem.

O Bento estava em paz, ora no colo da avó, ora no colo da mãe. Adormecia, aquecido por uma angelical roupa de tricô branca, preparada exatamente para esta ocasião, o seu batismo.

Quando fomos orientados a nos aproximar da pia batismal, eu levantei aliviado por ainda poder sentir com normalidade cada um dos meus membros. E o Bento em pouco tempo tornar-se-ia mais do que filho de Deus e membro da Igreja. Ele seria, logo após a água daquela jarra de vidro molhar o seu sensível couro cabeludo, um ser humano premiado.

Porque o Bento, meu sobrinho Bento, nascido há pouco mais de dois meses, agora é, sim, um ser premiado.

O Bento é um brasileiro premiado por ter a sua volta pais, avós, tios-avós e dindos — este quem vos posta é um deles — preocupados em iniciá-lo em um caminho que, mais tarde, na vida adulta do Bento, poderá ser decisivo. Porque, no mínimo, quem está em Deus, como o Bento está desde as 11h30 daquele domingo, respeita a instituição família, fundamento da sociedade, respeita a si próprio e a existência do outro. No mínimo isso — e, convenhamos, só isso que entregamos ao Bento já fará uma baita diferença na sua vida e na vida desse país. Ele poderá até não aceitar, mais tarde, a religião católica. Ate poderá. Mesmo assim, Bento será um privilegiado, será um premiado. Duvido que deixe de crer em Deus, duvido que deixe de sentir no seu íntimo o desejo de viver a beleza da vida e poder enxergá-la além dos computadores, além dos expedientes de trabalho, além do extrato do banco, além dos blogs e do twitter, além da rotina cinza dos dias. E se tu esqueceres desses vitais desejos, meu afilhado Bento, quero estar vivo para poder, com voz trêmula, te dar aqueles conselhos de engenheiro de obra pronta, sabe?

Bento, tu ainda nem fala e mal pode diferenciar a sacada e o banheiro, mas já é bento. E desde já, a tua existência nos abençoa com este simples, mas grandioso lembrete: Deus está aqui.

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Deus existe

Dezembro 6, 2008 · 3 Comentários

Embora eu tenha completa convicção da existência de Deus e do seu poder sobre todas as coisas desse mundo, sempre me frustrei por nunca ter convencido um cético disso.

Agora chegou esse momento.

Você está caminhando, voltando do almoço, do refeitório da empresa, quando avista ao longe aquela sua colega de trabalho. Você não é íntimo a ponto de perguntar como foi o final de semana e fazer graça da marquinha do biquíni no ombro esquerdo, nem é desconhecido suficiente para ignorá-la. O que lhe cabe então? Cumprimentá-la, naturalmente. Simples.

Todo esse raciocínio lógico se dá em pouquíssimos segundos enquanto ela se aproxima rapidamente. Você precisa medir a distância para que, ao mesmo tempo, não a encare por muito tempo, nem a deixe passar, enquanto está de cabeça baixa. Você busca, com determinação, o tempo certo. Quase como no futebol. Naquela corrida antes de acertar o chute na bola. Alguns centímetros a menos e você pode errar a bola. Um passo a menos e você corre o sério risco de, imaginem, tropeçar e cair. 

O fato é que a tal colega está chegando, está a poucos metros. É agora. Você a mira no tempo certo, olha nos seus olhos e pronuncia um “olá, tudo bem?” apetitoso, assim, cheio de letras e fonemas.

E ela? Nada. 

Ela o ignora solenemente. Como se você simplesmente não habitasse esse mundo insólito.. 

É até engraçado. Parece que está falando sozinho. Sabe Ghost, o filme aquele? Assim. Você é só um fantasma educadinho distribuindo olás por aí. Um babaca diplomático querendo que todos os colegas de trabalho saibam quem você é e igualmente estejam interessados em saber se está tudo bem com a sua vida. Babaca.

E você fica irado. Mesmo se estivesse afônico, ela perceberia pelo olhar que você a cumprimentou. Mas não. Ela o ignorou. Solenemente. Sem pestanejar. Ela pensa que é quem? Alguém melhor do que eu? Que não precisa me cumprimentar, nem passar a impressão de que quer saber como eu estou? Ela pensa que não precisa do meu olá? Vadia.

Nesse momento, uma luz desce sobre você, o inspira e você tem a certeza de que fez a coisa certa. E que você não é a única testemunha daquela cena humilhante. Alguém está vendo tudo isso. Tem mais alguém achando graça e ódio daquilo. Você sobreviverá e será recompensado no tempo certo. Vou revelar para vocês: este alguém é Deus. Deus, que tudo vê e tudo percebe, está guardando um tesouro para você que cumprimenta as pessoas e não é correspondido. Só Deus para olhar para você numa hora dessas. Ele tem que existir.

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