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Sobre a gastronomia do Bento

Outubro 12, 2009 · 3 Comentários

Meio potinho de sobremesa de mamão bem amassado, seu carrinho em movimentos ritmados e repetidos e, pronto, o Bento já repousa seus olhos fechados sobre suas bochechas brancas e delicadas. Dorme.

Meu pequeno sobrinho e afilhado completa seis meses no próximo dia 15 e fez algo nas últimas semanas de que se lembrará de fazer por toda vida: Bento alimentou-se com comida de adulto. Bento passou a acrescentar frutas à sua dieta de bebê que mama no peito. Já comeu banana, abacate, mamão e chupou minha maçã. E gostou.

Foi assim. Eu vinha da cozinha pra garagem comendo minha maçã, bem belo, quando chamaram minha atenção para o Bento. Ele estava com os bracinhos esticados, lábios em biquinho e olhos concentrados na minha fruta. Eu podia ver aquele círculo vermelho desenhado na íris do pequeno Bento. Segundos depois, graças à generosidade deste que vos escreve, ele já estava com a boquinha encaixada no buraco da minha mordida, dedicando toda sua energia para extrair para si o máximo daquele líquido doce.

Sabem que nos últimos meses o ato de comer, assim como Bento faz um terço do seu tempo de vida, vem me intrigando? Porque muitas vezes, o ser humano não come só para alimentar-se. Óbvio, né? Mas mais. O ser humano também não come só pelo prazer que a comida ou aquela trufa de chocolate cremoso causa em alguma parte do seu complicado cérebro. A gente quer mais do que prazer. Não sei o que agente quer mais. Mas tenho a impressão de que há algo em mim faltando e esse algo será ilusoriamente substituído pela comida. Não te parece? Que às vezes tu comes, comes, comes e a comida ou a fome acabam antes de acabar aquele vazio que tu tens aí dentro? Pensa e me ajuda a responder essa existencial interrogação.

Bem, mas vamos voltar ao que interessa. Eu estava terminando um trabalho da Pós no quarto, quando vieram me chamar. Venha ver o Bento chupar o dedo do pé. Incrédulo, saltei da minha cadeira, dei toda a volta na casa para conferir mais essa desse piá. Pediram-me silêncio. Avancei repousando um pé após o outro para que os meus olhos vissem a cena com toda sua naturalidade. Nem banana, nem mamão, nem abacate, nem a maçã suculenta do tio. O pequeno Bento deliciava-se era com o dedão branco e comprido – sim, de tanto chupá-lo – de seu pé-bisnaguinha direito. Não tirei conclusão alguma. Tem cenas que se justificam só por acontecer. Sorri mais uma vez de admirado que estava com este meu sobrinho.

(Leia mais sobre o Bento clicando aqui).

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O Ventoso e o Bento

Agosto 29, 2009 · 5 Comentários

O Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, este que escreve para vocês neste blog, digo pra vocês, fez a sua grande descoberta por esses dias. Isso mesmo, talvez possa-se dizer que o Bento fez, há poucos dias, a sua primeira grande descoberta desde seu primeiro instante de vida, no hospital Ernesto Dorneles, em Porto Alegre. Porque outras pequenas descobertas o Bento já tinha feito. Por exemplo. Ele descobriu, desde que nasceu, que chorar não é a forma mais eficiente de receber o que lhe falta – ou leite ou alguém que lhe faça dormir. Descobriu que chorar não é a forma mais eficaz. É a única. Outra pequena, mas fundamental, descoberta do Bento, o afilhado do Juliano e da Samanta, foi sua pequenina, mas ágil, língua. E imediatamente junto desta, Bento aprendeu outra coisa de igual importância. Sabem o que é? É que embora a língua o ajude a mamar, fazendo repousar sobre si o bico do seio materno e auxiliando na obtenção do leite (eu imagino que seja assim), esta mesma língua, esta mesma e insubstituível língua, não pode agarrar objetos distantes mais de cinco centímetros da boca. Ela é simplesmente incapaz disso.

Mas estas são apenas as pequenas descobertas do Bento, neto do José e da Ema. A maior de todas ainda não contei. E quem sou eu? Eu faço parte desta magnífica descoberta. Aguardem.

Os brasileiros tiveram a presença de espírito de metaforizar a genial teoria da evolução de Darwin com o famoso “quando a água bate na bunda o sujeito aprende a nadar”. Bom, se fica mais fácil de entender, sem problemas, usemos esta metáfora mesmo. Digamos, então, que, quando o Bento descobriu que sua hábil língua era inofensiva a objetos distantes, a água bateu na sua fofa e branca bundinha. Certo? E Bento, o neto da Dona Elisa, teve de aprender a nadar. Certo? E como Bento fez isso? Batendo as perninhas! Não! Nada disso. A fantástica descoberta do nosso Bento são, atenção: as suas pequeninas mãos. Isso mesmo. Há algumas semanas que o Bento já não repete suas frustadas tentativas de agarrar as coisas com a língua, ele usa suas duas próprias mãos.

Ventoso

Ventoso

E eu, quem sou? Prazer, meu nome é Ventoso. Aham, Ventoso. Sou nada mais, nada menos do que o primeiro brinquedo no qual o Bento tocou conscientemente (conscientemente, isso é importante) com suas duas desajeitadas mãos. Claro que virão outros, como a Centopéia, dizer que foi nela que o Bento tocou primeiro. Nãããão foi. Não acreditem nessa impostora. Foi em mim, em quem vos escreve agora, no Ventosinho aqui, que o Bento inaugurou seu tato. Bom, fui dado de presente ao Bento justamente pela Samanta e pelo Juliano, seus dindos, e meu nome é este porque eu tenho uma enorme ventosa na minha base, o que me permite ficar grudado em quase qualquer superfície da casa. Essa é, portanto, minha primeira virtude: adapto-me facilmente. Depois disso, colocam a criança, neste caso, o Bento,  na minha frente e ele fica girando três astes de plástico presas bem no meio do meu corpinho. As grandes atrações são os simpáticos animaizinhos coloridos que ficam na ponta de cada uma das minhas astes: o tucano, a borboleta e o macaco. As três astes giram como num catavento e os três bichinhos coloridos também contornam o seu próprio eixo. Manero, né? As crianças dessa idade, da idade do Bento, adoram.

Bem, devidamente apresentados, eram estas as novidades que eu tinha pra contar pra vocês. Que eu, o Ventoso, sou o mais novo amigo do Bento, e que o Bento, o filho da Ana e dos Luís, acaba de descobrir que, além de chorar, de mamar, de dormir e de adestrar sua língua, agora pode usar suas duas e poderosas mãos.

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Bento é bento

Julho 23, 2009 · 2 Comentários

Bento, já bento

Bento, já bento

Quase podia ouvir as paredes e o chão da igreja trincarem naquela manhã fria de 29 junho, na paróquia Santa Flora, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Eu já tinha decidido que sairia dali para movimentar meus músculos endurecidos e colocar uma barrinha de cereal no meu estômago oco. Já tinha decidido por isso. Não sabia o quanto mais podia aguentar. A voz daquele leigo à minha frente já soava sem sentindo tanto era o frio que eu sentia. Ele dizia palavras sem nexo e eu podia ver minhas mãos gelarem.

O Bento estava em paz, ora no colo da avó, ora no colo da mãe. Adormecia, aquecido por uma angelical roupa de tricô branca, preparada exatamente para esta ocasião, o seu batismo.

Quando fomos orientados a nos aproximar da pia batismal, eu levantei aliviado por ainda poder sentir com normalidade cada um dos meus membros. E o Bento em pouco tempo tornar-se-ia mais do que filho de Deus e membro da Igreja. Ele seria, logo após a água daquela jarra de vidro molhar o seu sensível couro cabeludo, um ser humano premiado.

Porque o Bento, meu sobrinho Bento, nascido há pouco mais de dois meses, agora é, sim, um ser premiado.

O Bento é um brasileiro premiado por ter a sua volta pais, avós, tios-avós e dindos — este quem vos posta é um deles — preocupados em iniciá-lo em um caminho que, mais tarde, na vida adulta do Bento, poderá ser decisivo. Porque, no mínimo, quem está em Deus, como o Bento está desde as 11h30 daquele domingo, respeita a instituição família, fundamento da sociedade, respeita a si próprio e a existência do outro. No mínimo isso — e, convenhamos, só isso que entregamos ao Bento já fará uma baita diferença na sua vida e na vida desse país. Ele poderá até não aceitar, mais tarde, a religião católica. Ate poderá. Mesmo assim, Bento será um privilegiado, será um premiado. Duvido que deixe de crer em Deus, duvido que deixe de sentir no seu íntimo o desejo de viver a beleza da vida e poder enxergá-la além dos computadores, além dos expedientes de trabalho, além do extrato do banco, além dos blogs e do twitter, além da rotina cinza dos dias. E se tu esqueceres desses vitais desejos, meu afilhado Bento, quero estar vivo para poder, com voz trêmula, te dar aqueles conselhos de engenheiro de obra pronta, sabe?

Bento, tu ainda nem fala e mal pode diferenciar a sacada e o banheiro, mas já é bento. E desde já, a tua existência nos abençoa com este simples, mas grandioso lembrete: Deus está aqui.

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O livre arbítrio do Bento

Abril 4, 2009 · 4 Comentários

Minha mãe disse à noite passada mais ou menos o seguinte: pra mim, o Bento nasce hoje, hoje de noite. Eu sorri desconfiado enquanto meu pai a advertia: é cedo, Ema, tu sabes que é cedo.

È cedo mesmo. Mas não pelas explicações obstétricas, naturais, fisiológicas e lógicas. Sabem qual a explicação? A seguinte.

Pra quem ainda não sabe, Bento é o nome do meu primeiro sobrinho – e primeiro filho da minha irmã e primeiro neto dos meus pais – que está para nascer por esses dias. Os médicos deram ao Bento um prazo: nove de abril. Daqui cinco dias, portanto.

Minha irmã me disse esta data quando contou que não faria cesariana. Que aguardaria.

Minha irmã aguardará.

Minha irmã transferiu ao Bento o poder de decidir. Bento está experimentando o livre arbítrio.

É estranho dar-se conta de que está tão perto ao mesmo tempo em que ninguém sabe quão perto está. É como brincar de esconde-esconde e sentir a adrenalina quase te paralisar com medo da surpresa de alguém que pode aparecer de qualquer lugar, a qualquer momento. É como mergulhar no escuro do filme de suspense, aguardando a movimentação repentina da câmera e a surpresa do vilão. É como isso.

Ninguém de nós sabe o dia, ninguém sabe a hora. Só sabemos que até nove de abril o Bento, o primeiro entre todos os gaúchos que vibrará igualmente com gols colorados e com gols gremistas, até nove de abril o Bento nascerá.

Ele nos tem nas suas pequeninas mãos. Cada um de nós e as nossas mais íntimas fantasias de como ele será, de quando será. Talvez espere o fim deste final de semana, talvez não. Talvez esteja se preservando do Grenal, talvez não. Talvez esteja aguardando para vir no exato dia do nascimento de sua mãe, segunda-feira, talvez não. Quase posso exagerar e dizer que nem Deus sabe. Apóia e viabiliza a decisão que ele tomar, mas não participa. A sensação que temos é que ele é quem decide. O próprio Bento. O Bento é que nos tem nas suas frágeis mãos.

Tenho vontade de dizer que ele aproveite e fique mesmo até o dia nove. E seja pontual. Porque talvez nunca mais, na sua longa e saudável existência, o Bento ostentará tamanha autonomia. Talvez nunca mais ele possa, com tanta independência, determinar o momento em que dará rumo à sua própria vida. Nem mesmo num emprego que lhe dê carro e uma sala envidraçada com ar-condicionado e apontador de lápis automático. Nem quando estiver solito em seu apartamento, vendo um filme e tomando uma cerveja. Nem a solteirisse aos trinta anos dará ao Bento o que ele possui neste momento. Nem.

É por isso que vos digo: não será hoje. Nem neste final de semana. Deram ao Bento o prerrogativa do livre arbítrio.

Encolhido em frente ao seus grandes pés, o Bento está simplesmente gozando de um direito o qual tentará reconquistar durante boa parte de sua vida aqui: a liberdade.

Pé do Bento

O pé do Bento

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Coisas que o Bento não verá

Março 22, 2009 · 2 Comentários

Amigos e amigos que acompanham o caminho do Bento a este mundo, digo-vos que ele está perto. A contagem regressiva, aprendi, é feita em dedos de dilatação. Ele está a nove deles de mostrar-nos a força e a disposição do seu pulmão e da sua goela. Porque é como se já soubéssemos o que nos aguarda nesse mundo maluco e daí nascemos chorando, berrando. No caso do Bento, uma das razões do choro, da lástima e da tristeza também será o que ele ouviu dizerem dele esses dias, do lado de fora da barriga: pela ecografia, ele se parece com o tio! Essa o Bento não suportará. Mas o motivo das lágrimas do Bento no dia tão esperado também será a dor da mudança. Nascemos alheios à ela, nascemos inflexíveis e resistentes. Se pudéssemos escolher, continuaríamos lá, naquele útero claro e macio, recebendo de nossa mãe o alimento e o amor necessário, dormindo e acordando, com o único propósito diário de dar chutinhos e soluçar.

Mas o inflexível e resistente Bento, que chegará a capital dos gaúchos daqui nove dedos de dilatação, embora chore e esperneie, terá que se acostumar com o mundo assim mesmo como ele está – por pior que ele esteja.

Já posso ver o Bento firmando suas pernas gordas na grama verde aqui de casa e perseguindo os sabiás e as formigas pela calçada. E mais tarde, quando já puder falar o nosso bonito idioma, como o mais velho representante da nova geração dos Rigatti, também já posso vê-lo pedindo-nos para explicar o significado de coisas com as quais crescemos junto e presenciamos a sumária extinção.

Trema, hífens e acentos nunca mais estarão presentes na mesma quantidade em que nos fomos alfabetizados. O Bento terá fluência e outra língua, praticamente. E rirá dos pais e do tio quando escrevermos mega-sena, assim, com hífen, e quando ouvir nós dizermos que tivemos uma grande ideia, assim, com acento agudo.

Como explicar pro Bento a utilidade daquele pedaço de plástico onde carregávamos minúsculos 1,4 megabytes e chamávamos de disquete? E por que a avó dele não está no Orkut? Ou por que ele não encontra mais a gordura trans por mais que a procure nos rótulos das bolachas recheadas? E se ele quiser saber qual era o gosto dela, o que fazer? E se ele quiser saber como as pessoas encontrava umas as outras sem celular, que que a gente diz? E se ele perguntar se aulas de datilografia com máquina de escrever era para criar músculos nos dedos, eu nego? E se ele quiser ensinar pros amiguinhos do Twitter o passo-a-passo de como engatinhar?

Olha, sei lá. Vou mandar ele se catar e ir procurar no Google.

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A piscadela do Bento

Fevereiro 6, 2009 · 3 Comentários

O Bento piscou pra mim.

Já anotei a data: cinco de fevereiro de 2009. O Bento, que está com 31 semanas e um quilo e setecentos gramas, deu sua primeira piscadela, e foi pra mim. Pra mim!

Foi assim.

Estávamos minha irmã, minha namorada, a médica e eu na pequena sala da ecografia. Minha irmã deitada, com a barriga debaixo daquele gel meloso, a médica deslizando o tal aparelhinho mágico, minha namorada e eu assistindo. A médica começou a nos explicar o que enxergava naquele monitor dela. Pra mim, os bebês estão sempre imóveis, sentaditos, de perfil, na mesma posição. Sempre. Mas aquela doutora abriu meus olhos e me fez ver! Enquanto ela apontava, passava o seu mouse sobre ele, fazia medidas e mexia naquela espécie de autocad de bebês, eu vi com meus próprios olhos míopes o rosto do Bento. E a mão, e as narinas, e o cabelo, e a sua perna longa, e os lábios, e o dedo que ele chupava e quase tudo. No que, acreditem: ele piscou pra mim! Por Deus, o Bento deu uma piscadela para o titio! Naquela tela turva, os pontos claros formaram o olhinho branco do meu sobrinho e, pisc!, eu pude ver seu sinal.

E se alguém mais naquela sala também tivesse visto e pensado ser para si a piscadela e guardado, feliz e faceiro, pra si o segredo? Se eu não tivesse sido o único, o escolhido? Não, duvido. Ninguém teria a frieza de esconder isso do mundo. Eu fui o predestinado.

Mas e ele podia me ver? Digo-vos que sim. Aposto que sim. Sei lá, webcam integrada ao cordão umbilical. Vai saber o que nos aguarda dessa nova geração. Mais do que me ver, o Bento me piscou.

Só para moá.

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Meu sobrinho é um homem!

Novembro 15, 2008 · 4 Comentários

Bento Rigatti Scherer, anotem este nome. Com dezenove semanas de vida, este cara é o meu sobrinho. Um homem. É ainda bem pequeno – coisa de 10 centímetros e menos de 500 gramas, segundo minhas pesquisas –, formado basicamente por um cabeção em cima de ossos, cútis e membros – inclusive o tiquinho –, todos em acelerada formação. Mas embora tão pequeno, ele já é um guri, ele já é um homem. Posso garantir-vos. Querem ver porquê? Desde a décima primeira semana, já era possível observar sua massa encefálica; desde a décima quarta, o seu batimento cardíaco; e agora, seu sexo! Meu sobrinho, o Bento, já possui, portanto: dentes, unhas, um sexo, um coração e um cérebro. Todos devidamente checados. Estão mesmo ali, funcionando harmoniosamente.

De que mais um homem precisa pra viver neste mundo, senão unhas, dentes, cérebro, coração e um sexo? Teoricamente, aquele ser que tem dentes saudáveis, unhas bem cuidadas, sente e pensa com retidão tem tudo para se dar bem nesse mundo, ou não? 

Todos os dias, a vida acrescenta uma razão para eu acreditar que não.

Querem ver uma delas bem atual? Digo-lhes: a sem-vergonhice e a pilantragem salvaram a economia brasileira da grande crise econômica de 2008. 

Salvaram, eu disse. Do verbo livraram a barra.

Isso porque, até onde sei, o principal motivo dessa crise toda é o excesso de confiança do norte-americano em si mesmo e na sua índole. O risco de vivermos uma recessão a partir da virada do ano, as férias coletivas já concedidas aos funcionários de uma montadora de veículos aqui perto de casa e o preço das frutas cristalizadas importadas. São todos exemplos mais ou menos perto da gente de conseqüências dessa conjuntura. Uma conjuntura desencadeada pelo, repito, excesso de confiança no sistema de crédito dos Estados Unidos. Suponhamos: os caras iam até o banco abrir um financiamento para casa própria. Diferentemente daqui, o banco não tinha muitos requisitos para aprovar este crédito.(Afinal de contas, lidava com um norte-americano, um norte-americano reto). A surpresa: os cidadãos que haviam aberto financiamento garantindo que honrariam suas dívidas não conseguiram fazê-lo. Faliram. Sem receber o pagamento desses milhares de clientes, os bancos também quebraram. Primeiro um, depois o outro e mais outro.

Aqui está a nossa vantagem. Escaldados, os bancos brasileiros não emprestam um centavo sem antes ter a mais absoluta certeza de que o cliente pagará o que deve. Tim-tim por tim-tim. No prazo exato. Temos um sólido sistema de financiamento, é o que escuto por aí. E isso nos beneficiou. Por isso é que eu disse: nossa malandragem nos salvou desta vez.

Bom, voltemos ao Bento. O fato é que ele, o Bento, meu sobrinho-guri, está indo aos poucos. Nada de economia, bolsas de ações ou casa própria. Há coisas mais elementares para aprender. Tem uma que, por exemplo, ele já faz com propriedade. Querem ver? O Bento já deglute. O seu esguio corpo já sorve o líquido amniótico – o delicioso líquido amniótico, hehe – e o processa transformando-o em energia. Que espetáculo, hem?

A próxima lição, Bento, lamento informar que, apesar de menos nervosa do que um pregão da Bovespa, não lhe dará o mesmo prazer das tuas últimas refeições. Pelo contrário. Vais conhecer ninguém menos do que o soluço. E isso, cara, é um saco.

Uma pausa para pensar no milagre da vida...

Uma pausa para pensar no milagre da vida...

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Meu sobrinho já é um feto!

Setembro 26, 2008 · 7 Comentários

Esta é a primeira vez que escrevo aqui sobre meu sobrinho. Meu primeiro sobrinho. E porque hoje é uma data célebre: ele ultrapassa seu terceiro mês de vida, deixando a condição de embrião para assumir a aspecto semelhante ao adulto e tornar-se um feto.

Meu sobrinho existe em seus aproximados 61mm de vida. Já tem genitália externa – embora não saibamos de qual se trata – estômago, bexiga, massa encefálica, além do esboço da coluna vertebral. Possui características de uma pessoa, rosto de gente. As unhas dos pés e das mãos já começaram a se formar (Catarina, se for você que está aí, já tem com o que se preocupar, portanto). 

Ainda não dorme, não chora, não pensa, não faz cocô, o feto. Mas já vive. Já deve sentir. Há algumas semanas, na primeira foto que tiraram dele, minha irmã dizia que o então ambrião era todo coração. Estava pulsando incessantemente e procurando a cada dia expandir sua singela forma de vida para outros membros, órgãos e tecidos. 

Por enquanto, meu sobrinho, de pouco mais de seis centímetros, é só uma simples manifestação de Deus. Porque só essa força oculta, onipresente, onisciente e onipotente pode fazer com que esse milagre aconteça: com envergadura de um prendedor de roupas, que flutua em uma substancia liquida, que pulsa um minúsculo músculo no seu centro e se transformará em um ser falante, pensante e com polegar opositor em pouco mais de seis meses. Só Deus para depositar nesse desconhecido ser toda sua milenar capacidade de criação mesmo sabendo que tipo de realidade ele vai adentrar. Só Ele.

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