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Uma verdade sobre o futebol

Julho 23, 2009 · 2 Comentários

Veron não amarelou

Veron não amarelou

Dia desses ouvi um dos nossos oportunistas comentaristas de futebol afirmar que a função mais importante de um técnico de futebol é animar seu elenco. É só mais uma opinião no momento oportuno em que o time voltava pro segundo tempo demonstrando nova disposição, pensei.
Estava enganado.

Como todo guri brasileiro, com minha pouca idade, eu desejava ser um jogador de futebol. E não só desejada. Posso dizer que investi em mim mesmo. Fiz escolhinha de futebol, acordava cedo no sábado pra jogar bola quase que profissionalmente. Posso sentir o cheiro daquele ginásio na Vila Ideal, em Canoas. Fiz mais: joguei na escolhinha do Grêmio e, antes disso, — acreditem! — na do Inter. Aproveitava a carona do avô de um colega do primeiro grau e lá ia eu, de vermelho e branco, tentar a vida nos gramados sem grama da capital gaúcha. Como era do lado do hipódromo, eu acho q eles botavam os cavalos a alimentar-se no nosso campinho durante a noite. Só podia. Aquele areião todo. Só podia.

Agora, a verdade: eu nunca joguei nada. Não que não soubesse jogar, não que não cobrasse bem um escanteio, não que não batesse na bola razoavelmente bem. Não que eu não driblasse. Mas eu amarelava. Confesso pra ti que eu amarelava. Eu sentia, abaixo da nuca, o peso da expectativa. Do treinador, do meu pai. A minha expectativa. E de quem quer que seja que esperasse algo de mim.

Lembro de um gol, de ter marcado um único gol em todo meu tempo de escolinha. Somando Grêmio e Inter. Um golaço. Eu no meio da área, o cara cruzou no chão, bola rasteira, pulou num, pulou noutro morrinho de terra até que eu evitei que ela passasse para o companheiro do meu lado direito. Dominei-a e bum!, ela estufou a rede, no alto da goleira. Devem ter sido mais os meus gols, mas por alguma razão, pelos lances perdidos, pela bola que mordia e pela chuteira q não deixava a bola dormir no meu pé, por tudo isso, eu esqueci de todos os outros gols que fiz.

Mas o que me faz achar que revelo aqui uma verdade sobre o futebol é uma única lembrança: a de entrar em casa ofegante, depois de uma pelada no asfalto da frente casa, goleiras de chinelos, e jurar para quem pudesse ouvir que eu era, simplesmente, o Viola. Ele mesmo. Aquele centroavante que rebolava e que conquistou a torcida do Corinthians com um gol espírita em final de campeonato, em que a bola, saindo ao lado da trave, no alto, voltou ao campo pelo pé de Viola e Viola, perna espichada no ar, botou-a nas redes. Acho q foi num Corinthians e Palmeiras. Numa final. Imaginem! E eu era exatamente esse cara, o Viola. Eu não jogava mal. Não me destacava, mas não jogava mal. Tinha bons fundamentos, pouca velocidade, boa liderança e nenhuma tolerância em campeonatos da Igreja em que o meu time era roubado. Era quase um Tcheco, portanto. Não um Veron, mas um Tcheco. E como o Tcheco, podia agora estar ganhando algumas dezenas de milhares de reais e já estar planejando que parte do mundo iria conhecer quando parasse de jogar bola. Eu podia estar jogando pelo Grêmio e ouvir a Geral cantar meu nome. Mas não estou.

Eis uma verdade sobre o futebol: futebol é cabeça, é psicológico.

E aqui está a explicação para o sucesso do técnico motivador, para eu não estar hoje ouvindo a torcida do Grêmio gritar meu nome e para o Cruzeiro não ser o campeão da Libertadores nos próximos 12 meses: futebol é ca-be-ça.

Ou não fez diferença o time argentino do Estudiantes não desistir do jogo enquanto perdia, partir pra cima, fazer dois gols e sagrar-se o atual melhor time sulamericano de 2009? Mineirão com 80 mil hostis torcedores? Fez todinha. Te digo que a cabeça de cada um daqueles argentinos fez todinha a diferença.

Há, portanto, uma única desigualdade entre eu e o Estudiantes, campeoníssimo, com passagem já comprada pra Dubai: é que eu amarelei.

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Minha trágica experiência em um estádio de futebol

Dezembro 6, 2008 · 2 Comentários

Sexta-feira, o David Coimbra, escritor e cronista de Zero Hora, tocou no assunto das brigas entre torcidas. E com a peculiaridade que lhe é peculiar, com o perdão da repetição. Vale ler.

Sabem que eu já vivi a violência nos estádios? Em um deles, especificamente. Mas em um tempo em que era praticamente inimaginável tentativas de homicídio em jogos de futebol. Na mesma proporção em que era inadmissível assistir à partida de pé. Um cara de pé no estádio e um tiro, duas imensas improbabilidades daqueles tempos. Ficar de pé significava exclusivamente estar vivenciando o maior de todos os momentos do espetáculo: a iminência do gol. Sincronizados, todos punham-se de pé para acompanhar o lance. Não se confirmando, todos sentavam-se. Claro que sempre sobrava o mais distraído ou o tipo esperançoso, que sempre acreditava na roubada de bola e na arrancada inesperada e veloz em direção ao gol. Sempre tinha um. “Olha o mijoooooooo!”, era o que gritavam lá de cima. Da arquibancada superior. Umas tantas vezes a ameaça não foi só uma ameaça. Dava dó.

Foi nesses tempos, no tempo em que ir ao estádio de futebol apresentava menos riscos, que eu vivi a mais trágica das minhas experiências. 

O fato sucedeu-se no primeiro e último Grenal que assisti no Beira-Rio. Eu devia ter os meus dez ou doze anos. Não lembro qual era o placar quando aquele cidadão de preto, lá no meio daquele gramado verde, imenso e ensolarado ergueu o braço e encerrou o primeiro tempo. O intervalo era a hora de ficar de pé, de esticar as canelas, de comer pipoca e tomar aqueles refris que sempre vinham quentes e pela metade. Meu pai geralmente não levantava pra não perder o lugar. Ficava ali, sentado no seu jornal, descascando e comendo amendoim. Comíamos, juntos, uns quatro daqueles saquinhos. 

Mas naquele dia, no tal dia do Grenal no estádio do Internacional – que ainda era regional naquele época – eu quis comer um cachorro-quente. Cachorros-quentes eram uma extravagância para aqueles tempos. Isso porque tinha que sair do lugar, com o enorme risco de não encontrá-lo mais depois, ultrapassar a multidão para alcançar as lancherias dos estádios. Deixamos o nosso lugar e vencemos a multidão.

Só que a experiência que tive aquele dia, na lancheria do Beira-Rio, ficou gravada na minha lembrança. 

Meu pai pediu o lanche e o pôs nas minhas mãos. Sem dúvida, devia ser do tamanho que são hoje os cachorros-quentes.Nada de anormal. Feitos naquele pão meio-doce, de porte mediano. Para mim, era maior. Era enorme. Minhas pequenas mãos desapareceram debaixo do pão e eu fiquei ali, observando aquele molho e aquela salsicha enquanto meu pai pagava pelo pedido. Não estava sendo fácil administrar, mesmo com as duas mãos, aquele pão gigantesco. Assim mesmo, arrisquei duas ou três mordidas. “Ô meu, me dá um pedaço disso”, fui em seguida abordado. O menino não parecia estar querendo só um pedaço, além do que, era incomum os torcedores dividirem seus cachorros-quentes uns com os outros. Bem incomum. O fato é que eu havia resolvido que daria mesmo um pedaço do lanche para ele. Juro que daria. Não tivesse ele afundado repentinamente sua mão suja no meio do meu cachorro-quente e dado o fora dali. Assim, do nada, sem pena nem piedade. 

E eu fiquei ali, estático, assistindo a cena posta na minha frente. Minha generosidade cristã havia determinado que, sim, eu daria um pedaço do meu cachorro-quente a aquele menino que devia estar faminto. Sim, eu juro que eu daria. Mas porquê ele agiu assim, eu não podia compreender. 

Por um motivo mais do que justificado, nunca mais voltei ao Beira-Rio para assistir a jogos de futebol. Nunca mais. 

Agora, o que devem pensar nesse momento o jovem gremista que salvou-se da tentativa de homicídio dias atrás? E os jovens que participaram de tal barbaridade e experimentaram dormir em uma cela no Presídio Central? E a mãe de um deles que ligou desesperada para o David Coimbra esses dias suplicando pela liberdade do seu filho? Todos tiveram suas vidas marcadas pela violência instalada nos estádios. Que não ocorre só lá, seu sei. Acontece que o crime encontrou na multidão dos estádios e na cumplicidade das organizadas o que precisava para cometer com empáfia os seus pecados. E, convenhamos, já passou do limite. Os temidos não são mais eles, os lançadores de sacos de mijo e os larápios, roubadores de cachorros-quentes.

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O fim do volante de contenção

Agosto 10, 2008 · 1 Comentário

Rafael, a invenção gremista

Rafael, a invenção gremista

Mesmo que a imprensa do centro do país atribua a magnífica campanha do Grêmio no Campeonato Brasileiro a simples obra do acaso – um campeonato sem times imbatíveis fica mais fácil de ser vencido, segundo eles –, é difícil de acreditar na realidade que os olhos gremistas estão vendo. O time fez 15 gols em casa e inacreditáveis 20 fora – 11 em apenas dois jogos longe de Porto Alegre. É o melhor ataque. Mais de 70% de aproveitamento. Goleiro menos vasado. Na defesa, há três torres gêmeas – essa expressão também vem dos colegas paulistas – e um goleiro com má formação. Tem reflexo e membros superiores anormais. Mas está no meio de campo o pulo do gato do tricolor gaúcho: O clube decretou o fim do centro-médio que passava 90 minutos fungando na nuca e pisando no calcanhar do meia de armação do time adversário. Eduardo Bueno, atenção: no atual time do Grêmio não há volantes de contenção! Nosso primeiro homem de marcação do meio de campo é Rafael Carioca.

Rafael Carioca é o que há de mais moderno no raçudo futebol gaúcho.

Quase nunca escrevo sobre futebol aqui na Uzina. Sou ótimo expectador e um péssimo entendido de táticas e estratégias futebolísticas. Mas dessa vez não me agüentei. Isso porque comecei admirando o Rafael quando ele ainda jogava na meia. É o tipo de jogador que tu reconheces só pelo caminhar ou pelo toque na bola. Lembro do burguês, meu amigo burguês, que anda pelas bandas de Chapecó, quando descrevia essa última virtude. Uma vez, no primeiro grau, o burguês veio me dizer:

– Cara, o Artur (digamos que seja Artur) joga muita bola. – e eu percebia como era difícil pro burguês admitir aquilo. – Tu vi que quando ele toca na bola não dá barulho? Faz só um p. – dizia-me o burguês enquanto imitava estupefato o som de um pê mudo.

Por essas e outras, estranhei quando o Rafael Carioca sumiu dali, da armação do time, e apareceu na frente da zaga. E desfilava como se nunca tivesse saído dali.

O Grêmio marca de uma forma que chega a constranger. O Rafael Carioca é rápido suficiente para acompanhar o mais driblador do time adversário e é rude na medida para dar duro e tirar a bola sem violência. O zagueiro da sobra, fruto do esquema 3-5-2, é outro achado. Quando algum ávido atacante vence a marcação dos outros nove gremistas – porque todos marcam no time gremista – Pereira ou só acaba com a festa ou já arma mais um contra-ataque. E esse, o contra-ataque, tem em Rafael Carioca um voluntário veloz, com visão de jogo e um passe de trivela que eu muito dei nos meus tempos de pelada na pracinha da Figueira. Portanto, tenho propriedade para avaliar: é um baita toque de trivela esses do Rafael Carioca!

Li em um jornal daqui que o Grêmio teme o desgaste. São muitos jogos repetindo o time e – mentira! – não há peças de reposição. Talvez eu até concorde que o Rafael Carioca não tenha reserva hoje. Para as demais posições, porém, os banco atual não só dá conta do recado como causa grande insegurança nos titulares.

No fim desse meu primeiro ensaio boleiro, deixo a dúvida de um pessimista nato: qual será o defeito do Grêmio que ainda não foi descoberto? Qual a fraqueza ainda não revelada, capaz de arruinar uma campanha nunca antes vista em campeonatos brasileiros?

Será a inconstância do Roth? Será o grosseiro Marcel? Será uma eventual lesão do Rafael Carioca? Será uma expulsão e punição de Tcheco? Será a ruína do projeto da Arena? Será a derrota no Grenal da Sulamericana?

Deve haver algo.

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