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Sobre a gastronomia do Bento

Outubro 12, 2009 · 3 Comentários

Meio potinho de sobremesa de mamão bem amassado, seu carrinho em movimentos ritmados e repetidos e, pronto, o Bento já repousa seus olhos fechados sobre suas bochechas brancas e delicadas. Dorme.

Meu pequeno sobrinho e afilhado completa seis meses no próximo dia 15 e fez algo nas últimas semanas de que se lembrará de fazer por toda vida: Bento alimentou-se com comida de adulto. Bento passou a acrescentar frutas à sua dieta de bebê que mama no peito. Já comeu banana, abacate, mamão e chupou minha maçã. E gostou.

Foi assim. Eu vinha da cozinha pra garagem comendo minha maçã, bem belo, quando chamaram minha atenção para o Bento. Ele estava com os bracinhos esticados, lábios em biquinho e olhos concentrados na minha fruta. Eu podia ver aquele círculo vermelho desenhado na íris do pequeno Bento. Segundos depois, graças à generosidade deste que vos escreve, ele já estava com a boquinha encaixada no buraco da minha mordida, dedicando toda sua energia para extrair para si o máximo daquele líquido doce.

Sabem que nos últimos meses o ato de comer, assim como Bento faz um terço do seu tempo de vida, vem me intrigando? Porque muitas vezes, o ser humano não come só para alimentar-se. Óbvio, né? Mas mais. O ser humano também não come só pelo prazer que a comida ou aquela trufa de chocolate cremoso causa em alguma parte do seu complicado cérebro. A gente quer mais do que prazer. Não sei o que agente quer mais. Mas tenho a impressão de que há algo em mim faltando e esse algo será ilusoriamente substituído pela comida. Não te parece? Que às vezes tu comes, comes, comes e a comida ou a fome acabam antes de acabar aquele vazio que tu tens aí dentro? Pensa e me ajuda a responder essa existencial interrogação.

Bem, mas vamos voltar ao que interessa. Eu estava terminando um trabalho da Pós no quarto, quando vieram me chamar. Venha ver o Bento chupar o dedo do pé. Incrédulo, saltei da minha cadeira, dei toda a volta na casa para conferir mais essa desse piá. Pediram-me silêncio. Avancei repousando um pé após o outro para que os meus olhos vissem a cena com toda sua naturalidade. Nem banana, nem mamão, nem abacate, nem a maçã suculenta do tio. O pequeno Bento deliciava-se era com o dedão branco e comprido – sim, de tanto chupá-lo – de seu pé-bisnaguinha direito. Não tirei conclusão alguma. Tem cenas que se justificam só por acontecer. Sorri mais uma vez de admirado que estava com este meu sobrinho.

(Leia mais sobre o Bento clicando aqui).

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O Ventoso e o Bento

Agosto 29, 2009 · 5 Comentários

O Bento, o sobrinho e afilhado do Juliano, este que escreve para vocês neste blog, digo pra vocês, fez a sua grande descoberta por esses dias. Isso mesmo, talvez possa-se dizer que o Bento fez, há poucos dias, a sua primeira grande descoberta desde seu primeiro instante de vida, no hospital Ernesto Dorneles, em Porto Alegre. Porque outras pequenas descobertas o Bento já tinha feito. Por exemplo. Ele descobriu, desde que nasceu, que chorar não é a forma mais eficiente de receber o que lhe falta – ou leite ou alguém que lhe faça dormir. Descobriu que chorar não é a forma mais eficaz. É a única. Outra pequena, mas fundamental, descoberta do Bento, o afilhado do Juliano e da Samanta, foi sua pequenina, mas ágil, língua. E imediatamente junto desta, Bento aprendeu outra coisa de igual importância. Sabem o que é? É que embora a língua o ajude a mamar, fazendo repousar sobre si o bico do seio materno e auxiliando na obtenção do leite (eu imagino que seja assim), esta mesma língua, esta mesma e insubstituível língua, não pode agarrar objetos distantes mais de cinco centímetros da boca. Ela é simplesmente incapaz disso.

Mas estas são apenas as pequenas descobertas do Bento, neto do José e da Ema. A maior de todas ainda não contei. E quem sou eu? Eu faço parte desta magnífica descoberta. Aguardem.

Os brasileiros tiveram a presença de espírito de metaforizar a genial teoria da evolução de Darwin com o famoso “quando a água bate na bunda o sujeito aprende a nadar”. Bom, se fica mais fácil de entender, sem problemas, usemos esta metáfora mesmo. Digamos, então, que, quando o Bento descobriu que sua hábil língua era inofensiva a objetos distantes, a água bateu na sua fofa e branca bundinha. Certo? E Bento, o neto da Dona Elisa, teve de aprender a nadar. Certo? E como Bento fez isso? Batendo as perninhas! Não! Nada disso. A fantástica descoberta do nosso Bento são, atenção: as suas pequeninas mãos. Isso mesmo. Há algumas semanas que o Bento já não repete suas frustadas tentativas de agarrar as coisas com a língua, ele usa suas duas próprias mãos.

Ventoso

Ventoso

E eu, quem sou? Prazer, meu nome é Ventoso. Aham, Ventoso. Sou nada mais, nada menos do que o primeiro brinquedo no qual o Bento tocou conscientemente (conscientemente, isso é importante) com suas duas desajeitadas mãos. Claro que virão outros, como a Centopéia, dizer que foi nela que o Bento tocou primeiro. Nãããão foi. Não acreditem nessa impostora. Foi em mim, em quem vos escreve agora, no Ventosinho aqui, que o Bento inaugurou seu tato. Bom, fui dado de presente ao Bento justamente pela Samanta e pelo Juliano, seus dindos, e meu nome é este porque eu tenho uma enorme ventosa na minha base, o que me permite ficar grudado em quase qualquer superfície da casa. Essa é, portanto, minha primeira virtude: adapto-me facilmente. Depois disso, colocam a criança, neste caso, o Bento,  na minha frente e ele fica girando três astes de plástico presas bem no meio do meu corpinho. As grandes atrações são os simpáticos animaizinhos coloridos que ficam na ponta de cada uma das minhas astes: o tucano, a borboleta e o macaco. As três astes giram como num catavento e os três bichinhos coloridos também contornam o seu próprio eixo. Manero, né? As crianças dessa idade, da idade do Bento, adoram.

Bem, devidamente apresentados, eram estas as novidades que eu tinha pra contar pra vocês. Que eu, o Ventoso, sou o mais novo amigo do Bento, e que o Bento, o filho da Ana e dos Luís, acaba de descobrir que, além de chorar, de mamar, de dormir e de adestrar sua língua, agora pode usar suas duas e poderosas mãos.

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Bento é bento

Julho 23, 2009 · 2 Comentários

Bento, já bento

Bento, já bento

Quase podia ouvir as paredes e o chão da igreja trincarem naquela manhã fria de 29 junho, na paróquia Santa Flora, no bairro Cristal, em Porto Alegre. Eu já tinha decidido que sairia dali para movimentar meus músculos endurecidos e colocar uma barrinha de cereal no meu estômago oco. Já tinha decidido por isso. Não sabia o quanto mais podia aguentar. A voz daquele leigo à minha frente já soava sem sentindo tanto era o frio que eu sentia. Ele dizia palavras sem nexo e eu podia ver minhas mãos gelarem.

O Bento estava em paz, ora no colo da avó, ora no colo da mãe. Adormecia, aquecido por uma angelical roupa de tricô branca, preparada exatamente para esta ocasião, o seu batismo.

Quando fomos orientados a nos aproximar da pia batismal, eu levantei aliviado por ainda poder sentir com normalidade cada um dos meus membros. E o Bento em pouco tempo tornar-se-ia mais do que filho de Deus e membro da Igreja. Ele seria, logo após a água daquela jarra de vidro molhar o seu sensível couro cabeludo, um ser humano premiado.

Porque o Bento, meu sobrinho Bento, nascido há pouco mais de dois meses, agora é, sim, um ser premiado.

O Bento é um brasileiro premiado por ter a sua volta pais, avós, tios-avós e dindos — este quem vos posta é um deles — preocupados em iniciá-lo em um caminho que, mais tarde, na vida adulta do Bento, poderá ser decisivo. Porque, no mínimo, quem está em Deus, como o Bento está desde as 11h30 daquele domingo, respeita a instituição família, fundamento da sociedade, respeita a si próprio e a existência do outro. No mínimo isso — e, convenhamos, só isso que entregamos ao Bento já fará uma baita diferença na sua vida e na vida desse país. Ele poderá até não aceitar, mais tarde, a religião católica. Ate poderá. Mesmo assim, Bento será um privilegiado, será um premiado. Duvido que deixe de crer em Deus, duvido que deixe de sentir no seu íntimo o desejo de viver a beleza da vida e poder enxergá-la além dos computadores, além dos expedientes de trabalho, além do extrato do banco, além dos blogs e do twitter, além da rotina cinza dos dias. E se tu esqueceres desses vitais desejos, meu afilhado Bento, quero estar vivo para poder, com voz trêmula, te dar aqueles conselhos de engenheiro de obra pronta, sabe?

Bento, tu ainda nem fala e mal pode diferenciar a sacada e o banheiro, mas já é bento. E desde já, a tua existência nos abençoa com este simples, mas grandioso lembrete: Deus está aqui.

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Só o Bento salva

Maio 10, 2009 · 4 Comentários

Estou longe de ser pai, mas sabem que esses dias eu pensei na sensação que deve ter um bebê? Nas coisas boas de se ter um, claro. Estava eu no mictório do banheiro da empresa, indo embora, quando lembrei do Bento, o meu sobrinho. Minha cabeça quase latejava de tanta preocupação, com tanta coisa que não dera certo, que me deixavam desgostoso com a vida. E lembrava do Bento a cada pouco. E pensava em vê-lo quando chegasse em casa. Mesmo que soubesse que ele não estaria lá, me esperando, pensar no Bento e na forma como ele leva a vida, me transportavam dali.

Com pouco menos de um mês entre a gente, o Bento vive para sustentar o seu corpo e – por que não dizer? – a sua mente. Para o Bento, este mundo novo é habitado por apenas dois únicos seres: o seio da minha irmã – ah, se ele desconfiasse que são dois! – e as cólicas do seu tubo digestivo. Chora, porque é a sua única forma de comunicação, e logo vê seu desejo ser atendido. Dorme e sonha com alguma coisa que eu nem desconfio o que seja. Meu palpite é que ele veja um seio, bem grande e farto de leite. Porque às vezes, enquanto dorme, sem saber, o Bento sorri.

Gente, o Bento ainda nem sabe que suas mãos existem. E não sabendo que tem mãos e que tem pés, tampouco tem noção de seus pensamentos. Quando eu olho pro Bento e tenho a convicção que nada mais passa pela sua mente ao não ser o desejo de se alimentar, confesso que dá uma inveja boa.

Porque será que em algum trecho da nossa vida, alimentamos nosso cérebro com a noção do caos? Por que será que sempre as coisas têm a possibilidade de darem errado? Por que o nervosismo antes da prova ou antes da apresentação, mesmo nos casos em que você tem a plena convicção de que domina o conteúdo? Por quê? Sei que há explicações da ciência, da psiquiatria e da psicologia que dão conta de quase tudo. Mas tenho direito de desejar que um dia meus pensamentos trabalham apenas a meu favor, assim como trabalham pra mim minhas mãos e minhas pernas.

Volta e meia me pego pensando no Bento. No quanto o amo e no quanto invejo o estágio da sua existência. Nos dias em que nada dá certo e que a cabeça não ajuda, penso no Bento. Nesses dias, só o Bento e a sua singular forma de existir salvam.

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Rebento!

Abril 17, 2009 · 11 Comentários

Digamos que eu esteja vivendo aqui neste planeta com vocês há exatos 9.836 dias. Não é fácil fazer essas contas. Mas suponhamos que seja este o número de dias de vida que coleciono até aqui. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o milhares de vezes em cada um desses dias. Sem parar um dia só, um minuto sequer. Digerindo alimentos, expulsando excrementos, dormindo, distinguindo cores e formas, ouvindo sons e vozes. Tudo com a autonomia que chamamos de vida, com a energia gerada pelo meu próprio corpo, utilizando meus próprios recursos, nascidos comigo no dia em que a natureza me trouxe pra cá porque entendia que eu estava pronto.

O Bento está pronto.

Meu sobrinho nasceu às 7h55 do dia 15 de abril, com 3,215kg e 48cm.

E comprovar isso, com os meus próprios olhos, fez surgir em mim uma sensação que só não é melhor do que a que a minha irmã deve estar sentido. Assim mesmo, o que eu senti é inenarrável, é indescritível. O que eu senti é algo que se sobrepõe à razão pelo simples fato de que nem mesmo a razão sabe lidar com isso. Eu não soube, o dia todo, o que fazer com aquilo que estava dentro de mim, na região do peito. Dei o nome de alegria. Porque é assim que convencionalmente chamamos aquilo que é bom de sentir. Mas não é como se formar, ver um time de Porto Alegre ser bicampeão da Libertadores pela primeira vez ou praticar uma boa ação. É melhor que isso. Não, não é melhor. É outra coisa. É o que põe os animais a lamber as crias quando nascem. E se eu o tivesse lambido? Nem assim ficaria em paz. Nem assim. Naquele dia, no décimo quinto dia do mês de abril, naquele quarto de hospital, eu, criatura racional, com polegar opositor e tudo, não soube lidar com o sublime.

E vê-lo do alto, cabeça pequenina, e ir me aproximando até encostar lábios e ponta do nariz nos cabelos raros, e sentir o cheiro da sua pele fina, e perceber o seu calor vital, isso tudo, assim junto, quase me fez chorar. Contive. Como agora, enquanto escrevo e meus olhos se umedecem. Devia ter chorado eu acho. Já que não lambi, devia ter chorado. Homens e mulheres choram quando a alegria é demasiada. Mas nem isso me ocorreu. Porque nada me ocorria. As coisas ocorrem quando se pensa. E eu não pensava, eu sentia. E alguma coisa com a qual eu não sei lidar.

No dia que soube que o Bento havia nascido, antes de vê-lo, escrevi um texto para postar aqui na Uzina. Pra compartilhar com vocês. Um texto racional. Sobre o que representava pra mim o nascimento desse guri. Há poucos minutos, apaguei quase tudo para reescrever o que vocês lêem agora. Porque assim como não é possível explicar o que se sente, tampouco há chance de antever. Nunca entendi porquê temos nítidas, gravadas na nossa mente, algumas cenas antigas da vida. Como fotografias. Por que estas marcaram e outras, aparentemente mais importantes, não? Continuo sem saber isso. Mas sou capaz de apostar que o que vi no quarto daquele hospital, ao entardecer daquele dia, me acompanhará para sempre.

Pra completar, sou dindo do Bento. Aí foi alegria mesmo. Receber o título e ver a Samanta chorar de emoção foi bonito, foi alegre. Sou padrinho de Batismo dele. Do sacramento da Igreja Católica que inicia o crente na vida em comunhão com Deus. Este mesmo Deus que deu condições para que o meu afilhado estivesse pronto nesse momento. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o. Digerindo o leite materno, expulsando excrementos e dormindo. Baita responsabilidade.

O que é verdade também, é que tudo isso me deixou meio egoísta. Como se o Bento fosse o primeiro e o único a nascer. Sinto-me como se ele fosse mais do que só diferente de tudo e de todos, mas o único a surgir assim, desse jeito, nessa cor e nesse formato. Com os órgãos todos que funcionam como uma máquina nova. E ele ali, comandando tudo aquilo sem saber. Puro, orgânico, sem as influências, toxinas, sotaques e eletroportáteis dos humanos maus.

É curioso como o mais repetido fato social, o mais massificado, o mais batido, que não diferencia classe social, pode ser, ao mesmo tempo, a maior novidade de todas, o que há de mais novo, o fato mais notícia de todos.

No jornalismo, dizem que nada pode ser mais velho do que a notícia de ontem. E o que pode ser mais velho pra nós, ancestrais terráqueos, que o nascimento de um dos nossos? Mesmo assim, pra mim, o Bento é a mais especial de todas as notícias. E olha que já li muitas.

Ele está lá, naquele quarto de hospital, junto do seu pequenino coração, que palpita sem que ninguém dê corda ou recarregue as pilhas. Enquanto dorme, não sei com que sonha, mas já ouvi dizer que relembra o seu último e aconchegante lar. Ele lembrará pra sempre disso tudo. Cada dia que viver. Mesmo que o tenha feito mais de nove mil vezes, como eu. Mesmo assim. Lembrará sempre do seu útero luminoso e confortável.

Além de pronto, Bento é um ser amado. E isso, como o ar que a gente respira, é quase tudo.

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Espelho meu exclusivo: o Bento

Abril 17, 2009 · 4 Comentários

Como podem ler no Rebento!, o meu sobrinho Bento nasceu há pouco. E já é um ilustre entre os meus. E por isso já está aqui na série de entrevistados da Uzina. Confiram, abaixo, entrevista exclusiva obtida no seu primeiro dia entre nós, direto do quarto do hospital onde está, em Porto Alegre.

A palavra mais bonita da língua portuguesa
uma que ouço mamãe repetir toda hora para me acalmar: bento

A mais feia
todas as que eu entendo são lindas!

O pior defeito da nossa sociedade
furadeira. é esse o nome daquilo que estava fazendo barulho aqui esses dias, né? não deve ter nada pior que este

Como achas que os outros te vêem?
como eu os verei assim que puder

Qual tua ideia de domingo perfeito?
aquele em que sinto todos à volta, felizes. ao meu redor, tudo muito claro e macio. eles tentam sentir meus chutes, chamando-me pelo nome, enquanto mamãe sorri

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos?
me alimentando ou dormindo, e perto da minha família

O que é o amor?
e o que não é?

Qual tua memória mais antiga?
dindo, pode ter crianças como eu na internet essa hora. creio que não seja adequado eu descrever o que papai e mamãe faziam na minha memória mais antiga

Qual tua idéia de felicidade?
leite, leite, leite

Onde gostarias de viver hoje?
exatamente onde estou

Onde gostarias de passear agora?
que pergunta. que lugares tem lá fora?

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse?
o que se fazia quando ela não existia?

Se pudesses eternizar alguém, quem seria?
só posso eternizar um?

O que tu fazes que te dá muito prazer?
mamo. mamo muito. e flatulo também.

O que fazes para espantar a tristeza?
na falta de alternativas para o momento, mamo.

Um filme
tenho curiosidade em conhecer um.

Um livro
idem.

Um som/música
“o que você faria se soubesse? até onde vai a sua fé?” mamãe escutava todo dia até pouco tempo.

Um cheiro
a pele da mamãe

Um lugar
um? este. dois? este e dentro da mamãe

Um site
não vejo a hora de conhecê-los

Uma coleção (que tens ou já tiveste)
não, ainda não

Um doce
isso é bom?

Uma bebida
adivinha

Um prato
pode ser bebida?

O conselho que nunca esqueceu
não precisei de muitos ainda. mas o que tento seguir sempre é “calma, bento, calma”. juro que eu tento.

Um pensamento
antes de eu nascer, minha mãe costumava ficar pensando em como eu seria. esse era um dos meus pensamentos preferidos.

Bento estreando

Bento estreando

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O livre arbítrio do Bento

Abril 4, 2009 · 4 Comentários

Minha mãe disse à noite passada mais ou menos o seguinte: pra mim, o Bento nasce hoje, hoje de noite. Eu sorri desconfiado enquanto meu pai a advertia: é cedo, Ema, tu sabes que é cedo.

È cedo mesmo. Mas não pelas explicações obstétricas, naturais, fisiológicas e lógicas. Sabem qual a explicação? A seguinte.

Pra quem ainda não sabe, Bento é o nome do meu primeiro sobrinho – e primeiro filho da minha irmã e primeiro neto dos meus pais – que está para nascer por esses dias. Os médicos deram ao Bento um prazo: nove de abril. Daqui cinco dias, portanto.

Minha irmã me disse esta data quando contou que não faria cesariana. Que aguardaria.

Minha irmã aguardará.

Minha irmã transferiu ao Bento o poder de decidir. Bento está experimentando o livre arbítrio.

É estranho dar-se conta de que está tão perto ao mesmo tempo em que ninguém sabe quão perto está. É como brincar de esconde-esconde e sentir a adrenalina quase te paralisar com medo da surpresa de alguém que pode aparecer de qualquer lugar, a qualquer momento. É como mergulhar no escuro do filme de suspense, aguardando a movimentação repentina da câmera e a surpresa do vilão. É como isso.

Ninguém de nós sabe o dia, ninguém sabe a hora. Só sabemos que até nove de abril o Bento, o primeiro entre todos os gaúchos que vibrará igualmente com gols colorados e com gols gremistas, até nove de abril o Bento nascerá.

Ele nos tem nas suas pequeninas mãos. Cada um de nós e as nossas mais íntimas fantasias de como ele será, de quando será. Talvez espere o fim deste final de semana, talvez não. Talvez esteja se preservando do Grenal, talvez não. Talvez esteja aguardando para vir no exato dia do nascimento de sua mãe, segunda-feira, talvez não. Quase posso exagerar e dizer que nem Deus sabe. Apóia e viabiliza a decisão que ele tomar, mas não participa. A sensação que temos é que ele é quem decide. O próprio Bento. O Bento é que nos tem nas suas frágeis mãos.

Tenho vontade de dizer que ele aproveite e fique mesmo até o dia nove. E seja pontual. Porque talvez nunca mais, na sua longa e saudável existência, o Bento ostentará tamanha autonomia. Talvez nunca mais ele possa, com tanta independência, determinar o momento em que dará rumo à sua própria vida. Nem mesmo num emprego que lhe dê carro e uma sala envidraçada com ar-condicionado e apontador de lápis automático. Nem quando estiver solito em seu apartamento, vendo um filme e tomando uma cerveja. Nem a solteirisse aos trinta anos dará ao Bento o que ele possui neste momento. Nem.

É por isso que vos digo: não será hoje. Nem neste final de semana. Deram ao Bento o prerrogativa do livre arbítrio.

Encolhido em frente ao seus grandes pés, o Bento está simplesmente gozando de um direito o qual tentará reconquistar durante boa parte de sua vida aqui: a liberdade.

Pé do Bento

O pé do Bento

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Coisas que o Bento não verá

Março 22, 2009 · 2 Comentários

Amigos e amigos que acompanham o caminho do Bento a este mundo, digo-vos que ele está perto. A contagem regressiva, aprendi, é feita em dedos de dilatação. Ele está a nove deles de mostrar-nos a força e a disposição do seu pulmão e da sua goela. Porque é como se já soubéssemos o que nos aguarda nesse mundo maluco e daí nascemos chorando, berrando. No caso do Bento, uma das razões do choro, da lástima e da tristeza também será o que ele ouviu dizerem dele esses dias, do lado de fora da barriga: pela ecografia, ele se parece com o tio! Essa o Bento não suportará. Mas o motivo das lágrimas do Bento no dia tão esperado também será a dor da mudança. Nascemos alheios à ela, nascemos inflexíveis e resistentes. Se pudéssemos escolher, continuaríamos lá, naquele útero claro e macio, recebendo de nossa mãe o alimento e o amor necessário, dormindo e acordando, com o único propósito diário de dar chutinhos e soluçar.

Mas o inflexível e resistente Bento, que chegará a capital dos gaúchos daqui nove dedos de dilatação, embora chore e esperneie, terá que se acostumar com o mundo assim mesmo como ele está – por pior que ele esteja.

Já posso ver o Bento firmando suas pernas gordas na grama verde aqui de casa e perseguindo os sabiás e as formigas pela calçada. E mais tarde, quando já puder falar o nosso bonito idioma, como o mais velho representante da nova geração dos Rigatti, também já posso vê-lo pedindo-nos para explicar o significado de coisas com as quais crescemos junto e presenciamos a sumária extinção.

Trema, hífens e acentos nunca mais estarão presentes na mesma quantidade em que nos fomos alfabetizados. O Bento terá fluência e outra língua, praticamente. E rirá dos pais e do tio quando escrevermos mega-sena, assim, com hífen, e quando ouvir nós dizermos que tivemos uma grande ideia, assim, com acento agudo.

Como explicar pro Bento a utilidade daquele pedaço de plástico onde carregávamos minúsculos 1,4 megabytes e chamávamos de disquete? E por que a avó dele não está no Orkut? Ou por que ele não encontra mais a gordura trans por mais que a procure nos rótulos das bolachas recheadas? E se ele quiser saber qual era o gosto dela, o que fazer? E se ele quiser saber como as pessoas encontrava umas as outras sem celular, que que a gente diz? E se ele perguntar se aulas de datilografia com máquina de escrever era para criar músculos nos dedos, eu nego? E se ele quiser ensinar pros amiguinhos do Twitter o passo-a-passo de como engatinhar?

Olha, sei lá. Vou mandar ele se catar e ir procurar no Google.

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A piscadela do Bento

Fevereiro 6, 2009 · 3 Comentários

O Bento piscou pra mim.

Já anotei a data: cinco de fevereiro de 2009. O Bento, que está com 31 semanas e um quilo e setecentos gramas, deu sua primeira piscadela, e foi pra mim. Pra mim!

Foi assim.

Estávamos minha irmã, minha namorada, a médica e eu na pequena sala da ecografia. Minha irmã deitada, com a barriga debaixo daquele gel meloso, a médica deslizando o tal aparelhinho mágico, minha namorada e eu assistindo. A médica começou a nos explicar o que enxergava naquele monitor dela. Pra mim, os bebês estão sempre imóveis, sentaditos, de perfil, na mesma posição. Sempre. Mas aquela doutora abriu meus olhos e me fez ver! Enquanto ela apontava, passava o seu mouse sobre ele, fazia medidas e mexia naquela espécie de autocad de bebês, eu vi com meus próprios olhos míopes o rosto do Bento. E a mão, e as narinas, e o cabelo, e a sua perna longa, e os lábios, e o dedo que ele chupava e quase tudo. No que, acreditem: ele piscou pra mim! Por Deus, o Bento deu uma piscadela para o titio! Naquela tela turva, os pontos claros formaram o olhinho branco do meu sobrinho e, pisc!, eu pude ver seu sinal.

E se alguém mais naquela sala também tivesse visto e pensado ser para si a piscadela e guardado, feliz e faceiro, pra si o segredo? Se eu não tivesse sido o único, o escolhido? Não, duvido. Ninguém teria a frieza de esconder isso do mundo. Eu fui o predestinado.

Mas e ele podia me ver? Digo-vos que sim. Aposto que sim. Sei lá, webcam integrada ao cordão umbilical. Vai saber o que nos aguarda dessa nova geração. Mais do que me ver, o Bento me piscou.

Só para moá.

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Dígrafo – parte 2

Janeiro 22, 2009 · 2 Comentários

Te liga. O texto abaixo é continuação do post Dígrafo.

***

A audição e a visão: o bebê usa mesmo esses sentidos no útero?

 

Ele ouve mais o pai

Carmem: Com 26 a 28 semanas de gestação, a capacidade do feto ouvir já é aguda e bem desenvolvida (Ziegel e Ceranley, 1985). Um som alto próximo do abdômen também provoca susto, enquanto que um som fraco leva o bebê a voltar-se na sua direção.O feto ouve principalmente ruídos de fundo (rítmicos): entrada e saída de ar nos pulmões da mãe; fluxo sanguíneo nos grandes vasos; passagem de alimentos pelo aparelho digestivo; fluir de sangue pelo cordão umbilical; movimentos intestinais; batimentos cardíacos. Com esses sons rítmicos existentes no útero, o feto vive ao compasso do coração da mãe. 

Mas também ouve ruídos exteriores. Estes lhe chegam deformados. Estudos comprovam que o feto é capaz de distinguir uma voz feminina de uma voz masculina. Os sons agudos (voz da mãe) chegam-lhe de forma mais atenuada pela barreira do líquido amniótico que os mais graves (voz do pai). 

 

Música para os seus ouvidos

Carmem: Esse pequeno ser em formação já terá o aparato neurofisiológico da audição devidamente preparado para receber vibrações sonoras desde a 21ª semana de gestação. Alguns neurocientistas afirmam que podemos preparar o futuro bebê para o “ouvido absoluto” estimulando-o com sinfonias, música erudita barroca, renascentista e contemporânea.

Nem todos os estilos musicais são do agrado do feto: ao ouvir as composições de Mozart e Vivaldi, por exemplo, acalma-se e dá pontapés suaves e ritmados; ao ouvir música rock, aumenta os movimentos e acelera o ritmo cardíaco; ao ouvir heavy metal, dá pontapés freneticamente.

Existem cursos especializados para ajudar a futura mamãe a estimular seu bebê até antes mesmo de ele nascer. Nas aulas, o processo é realizado por meio de instrumentos musicais, cantigas criadas pelas próprias mães e escuta de músicas. Conversar com o bebê, cantar para o bebê, são práticas que tanto o futuro papai quanto a futura mamãe podem fazer.

 

Apaga a luz!

Carmem: O globo ocular do feto começa a formar-se precocemente, mas os bastonetes que configuram a retina não estarão formados até às 16 semanas. Ainda que já possa ver, os olhos estarão fechados, abrirá as  pálpebras pela primeira vez na 25ª semana, e a partir de então abrirá e cerrará os olhos repetidamente.Comprovou-se que uma luz forte junto do ventre materno, produz-se uma aceleração no ritmo cardíaco do feto. No final da gestação, com a distensão da barriga da mãe, há uma maior difusão de luz através do líquido amniótico. Assim sendo, o futuro bebê, distingue entre a luminosidade e o escuro.

 

Todos nascemos míopes

Carmem: A visão é o sentido  menos desenvolvido, por não ter sido exigida durante a gestação. No recém-nascido, seu alcance é de 20 a 30 centímetros, mais ou menos a distância entre o rosto do bebê e o da mãe na hora da amamentação. A criança não consegue focalizar objetos além dessa medida. As imagens são embaçadas e duplas porque as duas retinas ainda não estão unidas. O bebê é míope. Coloque móbiles coloridos sobre o berço. O olhar do bebê é atraído por objetos em movimento e de cores contrastantes, como azul, amarelo e vermelho. Aos seis meses, a visão estará quase igual à de um adulto.

 

Vai na manha

Carmem: As vivências maternas, portanto repercutem na forma como este ser virá ao mundo e lidará com o universo que o circunda nos momentos após o nascimento.Então a recomendação na gravidez é NO STRESS! Descanse, veja comédias, ria bastante, ria de si, ria da vida, saia com pessoas agradáveis, ande junto a natureza. Leia livros que elevem a sua auto-estima, mantenha seu humor o mais estável possível.

Durante a gravidez, recomendo às gestantes práticas de meditação, yoga, e muita paz! Massagens corporais ajudam a relaxar a musculatura, liberar as tensões. No abdômen, carícias suaves, feitas com óleo de amêndoas. 

 

Mãe feliz = bebê feliz

Carmem: Paz e felicidade são emoções que qualquer mãe e bebê podem alcançar, para isto aprenda a reconhecer para onde vagam seus pensamentos e entenda que você é livre para escolher o fluxo de sua mente, o conteúdo de seus pensamentos. Está tensa, ansiosa? Apenas reconheça esses sentimentos e saia para olhar as árvores de sua rua, caminhe olhando o belo que muitas vezes está diante de seus olhos: aquela pequena flor que floresceu, o brilho do sol no verde das folhas, o orvalho que ainda está sobre o gramado, o silvo de algum pássaro ao longe.

Deixe seus sentidos abertos para as pequenas maravilhas do universo… conecte-se com o azul do céu, o brilho das estrelas e com este pequeno ser pulsante dentro de você.

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