Para quem já amou ou já foi amado

A tevê desligou no meio do segundo tempo da final do campeonato. A luz da sala se apaga. O filho havia chamado o pai minutos antes, que resolveu atender ao pedido. Naquela noite de quarta-feira nada seria mais importante que tomar a lição do pequeno Eduardo.

Enquanto Melissa deliciava-se com o único prato de feijão que fora possível cozinhar, o estômago daquela mãe doía. E já não era a primeira vez que Maria renunciara à passagem de ônibus que a levava ao tão sonhado supletivo para manter a filha saudável — e disposta para uma tarde inteira de aula.

A semana havia sido puxada, o corpo já reclamava por descanso. Mas Álvaro levantou-se e, violão às costas, pôs-se a caminho. Ia animar mais uma vez a tarde de sábado daqueles vovôs e vovós carentes de qualquer tipo de visita, de qualquer tipo de atenção.

Enquanto cenas como essas se repetem em nossa sociedade, muitos ainda confundem amor com vontade de estar junto, com sexo, com afago, com rosas vermelhas, com um coração vermelho, com serenatas.

Talvez Rodrigo, Melissa e aqueles vovôs e vovós nunca agradeçam o que aquele pai, Maria e Álvaro fizeram por eles. E um dia, felizes, talvez nunca se deem conta do bem que receberam.

Se você já foi amado, algum dia alguém se doou por você. Se você já amou, certamente já abriu mão de alguma coisa e sabe do que estou falando.

São os nossos sofrimentos, as nossas pequenas mortes cotidianas que contribuem com a felicidade do outro. E com a nossa.

Não basta gostar, não basta estar junto, é preciso abrir mão de prazeres, é preciso desrespeitar nossa própria vontade, nosso instinto, em favor do outro. Isso — e nenhuma outra coisa — é o amor.

A vaidade dos homens os separa. Só o amor é capaz de submeter a vaidade à gratuidade e unir casais, pais de filhos, voluntários de desconhecidos.

Quando e onde aprendemos isso?

Há dois mil anos, num lugar chamado Calvário (em aramaico Gólgota), atualmente na região de Israel, um país da Ásia Ocidental, situado na margem oriental do Mar Mediterrâneo. Naquele dia, um homem precisou aceitar uma morte injusta para nos ensinar o que significa o amor. Só uma coroa de espinhos seria pouco. Chibatadas? Alguém ainda não entenderia. Perder todo o sangue do corpo a ponto de deixar escorrer água das veias? Seria insuficiente.

Se o grão de trigo não morrer, não produzirá frutos. Sábio Jesus de Nazaré. Sábia natureza.

Que para os cristãos a cruz signifique o centro da fé. Para os demais, o símbolo da fábula mais importante de todos os tempos. Para mim, não há mais discussão. Foi a morte de Jesus Cristo, filho de Deus, no alto de uma cruz de madeira que deixou tudo claro como um céu sem nuvens: ninguém ama alguém se não exigir de si mesmo algum tipo de morte.

Iniciou a mais importante de todas as semanas.

“Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros.” (Jo 13, 36)

Feliz Páscoa a todos!

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Tudo pelo sorriso da Rebeca

A Rebeca, minha afilhada de nove meses, tem um tapete de E.V.A. colorido, em formato de quebra-cabeça, com letras destacáveis de cor oposta no miolo de cada peça. O tapete colorido dá limites à Rebeca. Os primeiros e essenciais limites. Nele, se acomodam a Rebeca, sua tartaruga com pescoço vibratório, sua borboleta multicolorida e todos os demais brinquedos. Enquanto brinca em seu universo de imaginação, a Rebeca devolve um sorriso a todos que a interrompem. Ele é assim, o sorriso: coberto por uma franja e um nariz, cada um à sua perfeição, ele tem poucos dentes, e o fato de ser espremido pelas bochechas faz com que se espalhe e seu rosto todo também sorria. Ou seja, gente, é contagiante o sorriso da Rebeca.

Uma de suas atividades preferidas no tapete-quebra-cabeça é um movimento acrobático que põe dois grupos da numerosa família em oposição — porque famílias grandes sempre alimentam suas polêmicas: uns apostam que é o início do engatinhar, enquanto outros, mais apressados, dizem que ela já está tentando se levantar. É que ela apoia as palmas das mãos no chão, faz um esforço tremendo até que seus pezinhos também estejam com as bases no solo, isso sem dobrar os joelhos, de forma que quase todo o seu peso seja acumulado nos membros superiores. “Um perigo”, grita a bisavó. “Deixa, bisa, ela tem que se experimentar”, ameniza a mãe, minha comadre Mel.

Um dia, a bisa teve razão e os bracinhos da Rebeca não suportaram seu peso. Ela foi-se com o rostinho ao chão. “Viu! Ai, meu Deus!”, exclamou a matriarca, tentando chamar pra si os méritos de seu conservadorismo.

Uma fração de segundos pra refletir sobre o que fazer diante da queda da Rebeca.

Uma hipótese seria correr em direção a ela, afagá-la, procurando ferimentos e soltando murmúrios do tipo: “E agora? Será que cortou o nariz? Ou o lábio?”, diria a mãe da Mel e vó da Rebeca. “Não faz mais isso, guria!”, alertaria o pai. “É perigoso até criar um coágulo na cabeça”, avisaria a bisavó.

Pra sorte da Rebeca, não fora essa a decisão.

As mães francesas, quando seus bebês choram à noite, levantam e param ao lado do berço, sem tocar o filho e sem que ele perceba. Em dois minutos, o bebê se acalma e volta a dormir. É uma reação típica de um ciclo do sono, chorar. Dizem elas que aos dois meses os francezinhos já dormem uma noite inteira.

O que estaria fazendo a mãe francesa se pegasse o bebê no colo e o acalmasse? Estaria ensinando-o como reagir cada vez que quisesse colo ou a mãe por perto.

E como reagiram com a queda da Rebeca, sua mãe e familiares? Sabiamente, não permitiram que ela se assustasse e desviram sua atenção para uma nova brincadeira. Tudo para não deixar o seu sorriso escapar. Tudo pelo sorriso da Rebeca.

A queda da Rebeca traz a nós, adultos, um belo aprendizado: o de que os problemas, desde os mais simples, podem ser ignorados.

Pense em um desconforto estomacal. Mentalize seus sintomas, suas causas e suas mais trágicas consequências. Segundo Nicholas Carr, autor de A Geração Superficial, um dos estudos sobre como padrões de pesamento afetam a anatomia de nosso cérebro, realizada por Álvaro Pacual-Leone, neurologista de Harvard, comprovou que parar em frente a um piano e imaginar os toques e os sons de cada tecla produz as mesmas mudanças cerebrais que tocar de fato o instrumento musical. “Nossos pensamentos podem exercer uma influência física sobre nosso cérebro (…). Tornamo-nos, neurologicamente, o que pensamos”, conclui Carr. Quer dizer que a célebre advertência “Não mime os seus problemas”, do Pe. Eduardo Delazeri, tem sua razão. Ao concentrar sua atenção no estômago, procurando fazer mais que o remédio, o adulto age como se permitisse à Rebeca assustar-se com o arranhão na testa ao cair.

O sorriso da Rebeca é bonito demais para que permitissem que se fosse, sendo substituído por berros e lágrimas. Cada momento da vida de um adulto é único o bastante para que ele permita substituí-lo por suposições de possibilidades negativas.

O que aprendi com a Rebeca é que mais do que desperdício, o nosso pessimismo é um grande risco: vai que o cérebro resolve acreditar na gente e torna real a ideia de uma infecção intestinal. Ou vai que isso custe o nosso sorriso.

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As lições de dezembro

Você conhece o programa Amor-Exigente? Se não, saiba que está perdendo um bocado por não ter dedicado parte de algum dia para descobri-lo. O Amor-Exigente é um programa que auxilia as pessoas – qualquer pessoa, em qualquer idade, com qualquer credo ­e qualquer sofrimento – na mudança de comportamento para uma vida mais feliz. E você estranhará o que vou dizer: é de graça. Trazido para o Brasil há coisa de vinte anos, foi adotado pela problemática da dependência química e hoje auxilia os familiares dos doentes a se recuperarem e, em consequência, ajudarem no tratamento de seus entes queridos.

No último dia cinco deste mês, na Rádio Aliança, em Porto Alegre, enquanto apresentávamos o programa Escolhe, Pois, a Vida, sobre dependência química, a questão surgiu: por que o “amor”, esta palavra tão popular, esta atitude tão elementar, que dá nome ao programa, aparece só no final, no último princípio, e é refletido nos grupos de apoio só quando o ano está prestes a terminar e as pessoas têm menos tempo, estão mais cansadas, gastando suas últimas energias? Por que, ora bolas?

Por que você não sabe o que é o amor. Você não sabe amar. Não (pausa) sa-be. Simples assim. Por isso, propositalmente, o Amor-Exigente exige que os seus aprendizes passem 11 meses do ano desconstruindo suas vidas, questionando suas certezas, para, ao final, reunirem mais condições de — fiat lux! — descobrirem o sentido e a aplicação do verdadeiro amor.

Dezembro. E por que o Natal é em dezembro? Estranho: uma data tão legal bem chega justo quando temos menos tempo, menos disposição, menos fôlego e menos dinheiro. Sim, temos o 13º, quem tem emprego com carteira assinada tem o 13º salário, mas o apelo consumista é tamanho, que passamos a ter menos dinheiro que, digamos, em novembro.

Pois bem, afirmo-lhes: o Natal só poderia ser em dezembro. Assim como o “amor” só poderia estar no décimo segundo princípio do Amor-Exigente. Se o Natal fosse em agosto e o “amor” fosse o segundo princípio do programa, as pessoas não entenderiam o que é o Natal, não entenderiam para que serve o “amor”. Porque o Natal, em sua essência, quer fazer renascer dentro de nós a luz da vida, a luz da esperança, de dias melhores, de um ano melhor, de relações mais amorosas. Tudo muito bonito. Mas você não faria nada disso, não estaria disposto a nada disso, não reuniria os amigos para um Amigo Secreto, não faria um happy-hour com os colegas do trabalho, não ligaria para o tio que mora longe, não rezaria mais – atenção! – SE VOCÊ NÃO PECISASSE. Têm coisas que só fazemos direito quando realmente precisamos fazer, não é? Tem gente que só faz regime depois do infarto e organiza as finanças depois de sujar o nome. Portanto, você só reuniria as últimas forças que lhe restam para celebrar a vida se você, quase por uma questão de sobrevivência, precisasse muito fazê-lo.

Em dezembro, você precisa. Eu sempre preciso, ao menos. É em dezembro, no último mês, quando você exibe todas as cicatrizes do ano, quando a camiseta está molhada de suor, que você está pronto para celebrar o Natal. Só agora você sabe quão difícil é um ano inteiro. Sabe quanta força e quanta fé – seja lá no que for – é necessário para cair e levantar, seguir em frente durante mais de 300 dias. Desse modo, este é o tempo oportuno.

Mas não é fácil viver o Natal. Como não é fácil amar alguém.

Você nem precisa ter uma religião, nem precisa acreditar na veracidade dos evangelhos que narram a passagem de Jesus Cristo, o filho de Deus, na Terra, para perceber a importância de, pelo menos, estes três trechos a seguir, copiados dos livros escritos por São Marcos e São Lucas, há mais de dois milênios, e recordados nestes tempos pela Igreja Católica. Ei-los:

“Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando. Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (Marcos 13, 33-37)

“Naquele momento Jesus exultou no Espírito Santo e disse: ‘Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar’.” (Lucas 10, 21-22)

“Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no Livro do profeta Isaías: ‘Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’’ Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam seus pecados e João os batizava no rio Jordão. João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo. E pregava, dizendo: ‘Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo’.” (Marcos 1, 1-8)

Vigia teu comportamento para poder olhar o mundo com olhos de criança, mas te prepara para conseguir fazer isso. Esta é a lição dos três trechos acima. Nada mais oportuno que esses três conselhos. Porque se eu não vigiar meu comportamento, se eu não ME vigiar, como o guarda daquela guarita da rua ao lado da sua, ou como o segurança e a sua arma comprida, que guarda o carro-forte ao lado do supermercado, ou como aquele pitbull do vizinho, passarei o mês de dezembro fazendo contas, comendo panetones e comprando fogos de artifício. E o ano seguinte iniciará sem que eu tenha feito o que até as empresas fazem neste tempo: um balanço do que passou e um planejamento dos despendiosos meses que virão.

E se eu não deixar de lado um pouco da lógica com a qual te ensinaram a ver a vida, a passar a enxergá-la com olhos de criança, com inocência, como quem vê tudo pela primeira vez, não acreditarei que ano que vem as coisas darão certo. Um adulto com todas as suas malícias e preocupações não é capaz de admirar as andorinhas voando em “vê” no céu. Não é capaz de perceber que nenhuma onda produz o mesmo som quando se derrama na areia da praia. É preciso infantilizar-se para ver o mundo como ele é de verdade, sem os nossos filtros e as nossas interfaces carregadas de preconceito e de paradigmas.

E, por fim, a última lição é: prepara-te. Aplaina os caminhos, varre pro lado – ou pra longe! – o que te atrapalha. Ninguém alcança um resultado diferente fazendo sempre a mesma coisa. Logo, crie novas rotinas de oração, de descanso, de lazer, de convívio. Discipline-se para mantê-las durante este mês – ou durante 2012 inteiro. Só assim, negando seus atraentes instintos é que você conseguirá chegar na noite do dia 24 preparado para vivê-la de verdade.

Pense nisso e tenha um Natal feliz e abençoado.

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Você sabe com quem está falando?

Amigos, compartilho com vocês artigo que escrevi sobre Comunicação Interna e que foi publicado na última edição da revista Super Sul, especializada em varejo, com circulação na região Sul. O link a seguir leva para o meu blog sobre Comunicação: http://j.mp/nJ67no

Boa leitura!

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É só o amor

“Meu objetivo é te preparar para o futuro, não ser amada por você.” Frase de Amy Chua, autora do livro Battle Humn of the Tiger Mother (Hino de Batalha da Mãe Tigresa, em tradução livre).

No início do ano, a mídia brasileira e internacional dedicou espaços generosos ao polêmico livro Battle Humn of the Tiger Mother, de Amy Chua, que conta como a autora, uma mãe chinesa, criou suas duas filhas. A obra causou muito espanto pela rigidez dos métodos de educação praticados. Não li o livro, mas Caio Blinder, colunista de Veja, contou à época que na obra “há relatos de como ela inferniza a vida das duas filhas para serem nota 10 (como a mãe). Foram criadas sob regras que alguns mais histéricos dizem equivaler a abuso infantil. As garotas devem ser  primeiro lugar em tudo (não apenas na escola), agir com perfeccionismo até para escrever um cartão de feliz aniversário e ter uma vida de quartel: nada de televisão, vida social ou dormir na casa das amigas, além de tocar piano e violino com padrão Carnegie Hall (a filha Sophia chegou lá). Quando as meninas não correspondem às altas expectativas, castigos e chacotas da mãe tigresa”.

Vinte e sete anos antes da mãe tigre ficar conhecida, em 1984, um padre norte-americano, Haroldo Rahm, importou de seu país natal para o Brasil um programa chamado Tough Love e adaptou-o ao nosso país com o nome de Amor-Exigente. A metodologia de auto e mútua ajuda desenvolve preceitos para a reorganização da família. Todo o trabalho feito pelos seus profissionais e mais de 10 mil voluntários em todo o país visa aplicar uma metodologia rigorosa de mudança do comportamento humano, que coloca a família no centro do processo. Atualmente, o Amor-Exigente é muito conhecido por ajudar no tratamento de familiares de dependentes químicos.

Mas o que a história de uma mãe chinesa e seu método de educação extremo e discutível tem a ver com uma receita norte-americana reconhecidamente bem-sucedida para recuperação da família de drogados?

Os elos dessa semelhança são exatamente o amor e a família.

É dentro do lar, nessa pequena sociedade onde crescemos, nos desenvolvemos e aprendemos a ser cidadãos, que nasce a maioria dos casos de desvio ético, de corrupção, de criminalidade, de drogadição. Não quero analisar aqui se são corretos os métodos aplicados por Amy. Minha provocação visa trazer à reflexão um questionamento central: que tipo de amor educa?

Pelos relatos que ouço há mais de um ano na Rádio Aliança participando do programa Escolhe, pois, a Vida (que discute prevenção e recuperação da dependência química) posso arriscar: o amor que educa é o amor que é exigente. Um amor que não é só afeto, que não é só sentimento; um amor que é atitude, comportamento, comprometimento. Quando eu amo, minha forma de agir prioriza a felicidade do outro, e não o meu bem-estar. Este amor ignora o meu prazer e o meu conforto. Com este amor, combina muito mais o “não” do que o “sim”. Um “não” que aponta limites, que ensina responsabilidade. Não um “sim” permissivo em excesso, que lava as mãos, que é condescendente, que inspira a libertinagem e negligencia o bom exemplo. Que autoriza os filhos, esses aprendizes da vida, a legislar dentro de casa, dentro da sala de aula.

Sempre será saudável para pais e mães pensarem sobre que tipo de amor praticam em seus lares. Talvez a história chocante da mãe chinesa nos traga essa valiosa contribuição. Antes que seja tarde.

Nossa sociedade adoece, vítima da violência e das drogas, porque não pratica com seus filhos o verdadeiro amor. Porque não os ensina a alcançar os objetivos, a conquistar a felicidade por seu próprio esforço, a duras penas, percebendo seu papel e seu valor na sociedade. Por estas causas é que luta o Amor-Exigente, representado em Porto Alegre pela Apaex (Associação Porto-Alegrense de Amor-Exigente) e nacionalmente pela FEAE (Federação de Amor-Exigente). Essencialmente, o Amor-Exigente, organizado em 12 princípios básicos e éticos, existe para cumprir o seu lema: “eu o amo, mas não aceito o que você está fazendo de errado”. Viveríamos em outra sociedade se todo filho escutasse isso de seus pais um dia.

Nenhuma família está livre. Ainda que ela fale todas as línguas, as dos anjos, as dos homens, as dos livros, a da tecnologia, se não tiver amor, será como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Mesmo uma família aparentemente perfeita, que conhece todos os mistérios e toda a ciência; que possui toda a fé, a ponto de operar milagres, se não tiver o amor, não será nada. O amor de verdade é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. O amor de verdade não tolera atitudes inapropriadas, não se alegra com a injustiça, mas se realiza com a verdade. Só o amor que é reto, que é exigente, tem o poder de recuperar adultos, de transformar crianças, adolescentes e jovens em pessoas sadias, felizes e amorosas.

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Há um rato na sala

Era uma vez uma família.

Um dia, enquanto conversavam na sala, um berro, um grito agudo os interrompeu. “Que foi???”, a filha encarou a mãe. “Um rato!!!”, respondeu-lhe aquela senhora pálida, do alto de sua histeria e de sua cadeira. Acuado, o pequeno intruso congelou entre a estante e a caixa de som. Só os observava. Nem mesmo  se atrevia a mexer o rabo. Prendeu a respiração. Seis pares de olhos o observavam igualmente paralisados. “Tu vais esperar quantas horas, pai?”, questionou a filha adolescente, exigindo uma atitude. “Não!!!”, a mãe interrompeu a reação do pai, “e sujar a parede?!”. “Então o que vocês querem?”, revoltou-se o filho, pegando, do chão, um pé do tênis. “Deixem ele”, falou o pai, com toda sua autoridade de pai. O rato soltou o fôlego. “Essa noite, montarei uma ratoeira e amanhã cedo tudo estará acabado”. Satisfeitos, todos se desmobilizaram e o bichano desapareceu por baixo da TV.

Havia um rato naquela sala. Assustada, a família queria eliminá-lo dali. Agiram como todos agiriam. Afinal, o rato era o problema. A solução, portanto, era acabar com aquele roedor assustado e restabelecer a paz.

Ao menos até que outro rato aparecesse.

Só há ratos onde há restos de comida, onde há sujeira, onde há lixo exposto. Mas aquela família ignorou essas circunstâncias e depositou a atenção no intruso. É assim que a sociedade costuma agir com seus problemas estruturais. Em consequência, é assim que aprendemos a agir contra a epidemia da dependência química: ainda estamos tentando matar o rato que está na sala.

É preciso avançar. É preciso investigar o que o trouxe e o que o sustenta. Que testemunhos pai e mãe deram a seus filhos? Que comportamentos inadequados a família cultivava antes mesmo da droga chegar? Que maus hábitos são comuns até hoje? A família está disposta a mudar as suas atitudes se o dependente aceitar o tratamento? E quando ele voltar, como será? Em todo lar em que a droga faz um doente há inúmeras perguntas como essas sem resposta. E, lamentavelmente, há milhares de outras famílias, pobres, ricas, com ou sem vivência religiosa, em situação de risco. Mais cedo ou mais tarde, enfrentarão o mesmo drama.

O rato precisa ser eliminado? Claro que sim. Transitando pelas salas de nossos lares, ele pode atrair outros roedores e insetos e transmitir doenças até aos vizinhos. É preciso alertar a população para aos malefícios das substâncias químicas? Claro que sim. Mas isso é muito pouco. O fato é que em uma sociedade desestruturada, com valores superficiais e famílias desnorteadas, o vazio existencial surgirá e a droga será a alternativa de muitos, mesmo que saibam de seus males e de suas consequências.

Famílias, voltemos à cozinha! Vamos em busca do que não está certo, dos restos de comida, do lixo da omissão, dos maus hábitos e dos maus exemplos. Deve haver muita sujeira na despensa, deve haver filhos legislando, permissividade em excesso e falta do amor que ama, mas que não aceita o que está sendo feito de errado.

Há um rato na sala, sabemos que há. É preciso que reconheçamos que ele é só um sintoma inevitável de problemas muito mais graves.

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De todo o amor que tu tens

Fui saber quem foi a Dona Cila há pouco tempo. Desde bem antes de conhecê-la, uma canção com o seu nome, composta e interpretada por Maria Gadú, sua neta, mexia comigo, não me saía da cabeça. Gadú diz o seguinte logo no início de sua poesia musicada:

De todo o amor que eu tenho
Metade foi tu que me deu
Salvando minha alma da vida
Sorrindo e fazendo meu eu

Era uma noite gelada e chovia bastante também. O Tio Brandão, que nunca fora parâmetro para assuntos de temperatura porque nunca sente frio, vestia um moletom e podia-se especular se havia pelo menos uma camiseta por baixo dele. Era possível que não. Samanta, mais alguns astutos mortais e eu o ouviríamos ministrar o curso de Batismo no salão paroquial da igreja Nossa Senhora da Saúde, no bairro Teresópolis, zona sul de Porto Alegre. Com muita alegria, nos preparávamos para ser padrinhos da Rebeca, filha do Juliano e da Melissa.

Alguns podem estranhar que seja necessário uma preparação para tornar-se padrinho ou madrinha de alguém. Mas tem que, sim. O Espírito Santo falou por meio do Tio Brandão aquela noite e plantou em nossos corações esse significado: o desejo e a responsabilidade de dar, de ensinar à Rebeca, o amor, que é de Deus.

Naquela fria e encharcada noite de quarta-feira, ouvimos que Deus nos amou desde o início, nos projetou e desejou que estivéssemos vivos. Por alguma razão desejou isso. Um dia, bem antigamente, o homem, tomado de vaidade, afastou-se do amor, e tomando o caminho contrário, desejou ser Deus. Assim, nasceu o pecado com Adão. Desde lá, o homem tropeçou e caiu muitas vezes tentando viver sem compreender o amor. Até que Jesus Cristo, o próprio filho de Deus, veio ao mundo nos dar a prova mais amorosa e mais definitiva: sofreu até a morte como exemplo de como devíamos nos comportar para sermos felizes.

Mas a Rebeca não sabe de nada disso.

Em princípio, seus pais e padrinhos apenas desejam que se cumpra nela o plano de Deus e que ela seja feliz. Mas ela não será feliz se não aprender a amar. “Ela não amará se não for amada primeiro por vocês”, sentenciou o Tio Brandão. Há poucas chances de a Rebeca ser feliz se não dermos a ela o amor.

Tem mais. Como diz a letra de Gadú, esse amor salvará a Rebeca da vida. Da vida que nos chama de volta à vaidade, à inveja, à competição, ao individualismo, que são sentimentos e comportamentos  originais do animal que reside dentro da gente e que é atraído todos os dias pela forma como a sociedade nos valora. Não resistir a isso, praticando o amor, é pecar. Pais e padrinhos são chamados a dar, a ensinar ao filho e afilhado metade deste amor, como também diz a canção. Para que ele busque todos os dias da vida, com sua liberdade, a felicidade completa.

Mas de que amor estamos falando? Mesmo sem compreender isso tudo, que pais e padrinhos não vão amar seu filho e afilhado? Facilmente, confundimos amor com afeto. O afeto gera prazer. O amor, nem sempre. O amor precisa ser praticado com consciência, é mais razão que emoção. O amor quer mais que carinho, quer até mais que noites em claro, quer mais que o sacrifício de dar atenção quando a novela está no seu capítulo final. O amor criado por Deus e vivido por Jesus Cristo é uma atitude que exige a nossa entrega pela felicidade do outro.

Pais e padrinhos, entendam o significado do Batismo para suas crianças e vivam com alegria essa responsabilidade. Torná-las filhas de Deus é ensiná-las a amar, para que sigam o plano de Deus, para que sejam felizes. Ensiná-las o amor é a metade de tudo. Acho que era por isso que a Dona Cila sorria.

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