Uzina

O que há de mais bonito nas mulheres

Maio 10, 2009 · 9 Comentários

Alguns domingos atrás, parei pra ler no jornal uma matéria de moda que falava da paixão das mulheres pelos sapatos. Parei pra ler, sim, senhores. Afinal de contas, minha namorada é uma dessas românticas. Preciso conhecer esse universo. Muita coisa bem útil já deixou de entrar no quarto dela por causa do espaço privilegiado que ocupam os seus inúmeros pares. Eu mesmo tenho receio de sobrar qualquer hora dessas, pra vocês verem.

E sabem que uma das entrevistadas da matéria sobre sapatos femininos que eu estava lendo matou a charada? Disse que as mulheres se interessam tanto por esse adorno por causa do democratismo dele. Taí! Pé não engorda, pé não sai de forma, não perde as medidas, não tem celulite. Nunca vi uma mulher em frente ao espelho, reparando no pé. Nunquinha. O pé é o que há de mais previsível, beleza garantida. Um pé bem cuidado não tem classe social, não tem pontas que ressecam, não tem raízes descoloridas, não tem gordurinha pra esconder. Por isso, porque o pé é a salvação, as mulheres buscam garantir sua beleza a partir deles. Não que as colecionadoras de sapatos não tenham o corpo bonito. Deus do céu, nada disso! Mas tenho que concordar com a entrevistada da matéria que li. Ela matou.

Agora, se eu não tivesse parado naquela noite de domingo, com a melancolia de todo domingo de noite, e lido a tal matéria, eu nunca saberia. Eu nunca saberia que as mulheres depositam nos sapatos tal parcela do seu desejo de estarem bonitas. Seu desejo de parecerem bonitas.

Porque pra mim, há uma coisa nas mulheres que é infinitas vezes mais bonita. Só uma. Vou contar qual é.

O Patrick era da turma mais velha que eu, o Dudu, o Bacon e o Marcinho. Ele andava com os guris mais crescidos, com barba na cara, pêlos nas pernas e no peito. Eram gente boa eles. Eu curtia ficar por ali, ouvindo eles falar das gurias. Eles, que eram mais rodados, entendiam desse troço de guria. Como eu jogava bola com eles, acabava ficando por ali depois do jogo, aprendendo sobre o mundo das mulheres. E foi num desses dias em que aprendi o que das mulheres eu devia amar para o resto da minha vida.

Depois do jogo daquele domingo à noite, no ginásio das freiras, fomos todos pro apartamento do Patrick. Eles falavam do jogo, dos gols perdidos e das gurias. Elegiam a mais gata das pequenas arquibancadas do ginásio. Sempre ficavam entre duas ou três. Eu concordava com todas as opções. Os guris tinham bom gosto. Quase nunca dava meu palpite. Ficava só ouvindo. E aprendendo. No que o Patrick, querendo dar credibilidade aos seu conhecimento de mulheres, abriu o maleiro do guarda-roupas e apontou lá pra dentro: a coleção de Playboy do Patrick! Eram muitas, eram diversas as Playboys do Patrick. O Patrick tinha mais Playboy do que a prateleira da biblioteca do colégio tinha livros da coleção Vagalume e mais do que hoje tem sapatos a minha namorada.

E o Patrick começou a entregar, bem generoso, pra nós, suas revistas. Cada um ficou com umas três ou quatro Playboys no colo. E riam, e apontavam e regozijavam-se. “Caaaaara, olha essa”, um dizia e eu espichava o pescoço pra conferir. “Meeeeeeu, e essa?”, dizia outro. Até que um deles sentenciou: “agora, vocês vão concordar comigo”, iniciou, em tom de discurso, depois de folhear umas três ou quatro Playboys do Patrick. Ele tinha o ar da experiência, da liderança. “É ou nao é verdade que a melhor coisa numa mulher é o cabelo?”. Nem sequer um segundo de pestanejo. A resposta foi unanime que sim. E gargalharam.

Eu fiquei sem entender.

Entre tudo aquilo que víamos dentro das brochuras daquelas revistas pecaminosas, entre tudo o que era mais belo e formoso, eles preferiam o cabelo. Eu fiquei perplexo. Mas logo o cabelo? E a fulana, eu pensava, quer dizer que tudo o que a fulana lá do grupo de jovens tem debaixo do cabelo, nada é mais belo que o seu cabelo? Mas como? O que ele tinha a ponto de fazer com que os guris preterissem todas as outras partes femininas? Eu não podia lembrar do cabelo de nenhuma das gurias do grupo. Eu havia sido enganado esse tempo todo.

Voltei pensativo pra casa aquele dia. Ainda tinha que tomar banho, jantar e preparar a mochila para uma semana de aula. Os dias se passaram e eu me peguei muitas vezes pensando em todas aquelas mulheres dentro do maleiro do guarda-roupas do Patrick. Tinha bom gosto mesmo o Patrick. Eu pensava nelas e tinha que fazer força pra lembrar só dos seus cabelos.

Considerem que eu praticamente formava naquela época minhas inclinações sexuais. E ouvir dos guris, deles que já namoravam e tal, que conheciam cada parte de uma mulher, ouvir deles que o melhor delas era o cabelo, aquilo foi chocante.

Desde aquele dia, até hoje, eu preciso que saibam de uma coisa: eu só olho para os cabelos das mulheres.

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Só o Bento salva

Maio 10, 2009 · 3 Comentários

Estou longe de ser pai, mas sabem que esses dias eu pensei na sensação que deve ter um bebê? Nas coisas boas de se ter um, claro. Estava eu no mictório do banheiro da empresa, indo embora, quando lembrei do Bento, o meu sobrinho. Minha cabeça quase latejava de tanta preocupação, com tanta coisa que não dera certo, que me deixavam desgostoso com a vida. E lembrava do Bento a cada pouco. E pensava em vê-lo quando chegasse em casa. Mesmo que soubesse que ele não estaria lá, me esperando, pensar no Bento e na forma como ele leva a vida, me transportavam dali.

Com pouco menos de um mês entre a gente, o Bento vive para sustentar o seu corpo e – por que não dizer? – a sua mente. Para o Bento, este mundo novo é habitado por apenas dois únicos seres: o seio da minha irmã – ah, se ele desconfiasse que são dois! – e as cólicas do seu tubo digestivo. Chora, porque é a sua única forma de comunicação, e logo vê seu desejo ser atendido. Dorme e sonha com alguma coisa que eu nem desconfio o que seja. Meu palpite é que ele veja um seio, bem grande e farto de leite. Porque às vezes, enquanto dorme, sem saber, o Bento sorri.

Gente, o Bento ainda nem sabe que suas mãos existem. E não sabendo que tem mãos e que tem pés, tampouco tem noção de seus pensamentos. Quando eu olho pro Bento e tenho a convicção que nada mais passa pela sua mente ao não ser o desejo de se alimentar, confesso que dá uma inveja boa.

Porque será que em algum trecho da nossa vida, alimentamos nosso cérebro com a noção do caos? Por que será que sempre as coisas têm a possibilidade de darem errado? Por que o nervosismo antes da prova ou antes da apresentação, mesmo nos casos em que você tem a plena convicção de que domina o conteúdo? Por quê? Sei que há explicações da ciência, da psiquiatria e da psicologia que dão conta de quase tudo. Mas tenho direito de desejar que um dia meus pensamentos trabalham apenas a meu favor, assim como trabalham pra mim minhas mãos e minhas pernas.

Volta e meia me pego pensando no Bento. No quanto o amo e no quanto invejo o estágio da sua existência. Nos dias em que nada dá certo e que a cabeça não ajuda, penso no Bento. Nesses dias, só o Bento e a sua singular forma de existir salvam.

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Rebento!

Abril 17, 2009 · 9 Comentários

Digamos que eu esteja vivendo aqui neste planeta com vocês há exatos 9.836 dias. Não é fácil fazer essas contas. Mas suponhamos que seja este o número de dias de vida que coleciono até aqui. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o milhares de vezes em cada um desses dias. Sem parar um dia só, um minuto sequer. Digerindo alimentos, expulsando excrementos, dormindo, distinguindo cores e formas, ouvindo sons e vozes. Tudo com a autonomia que chamamos de vida, com a energia gerada pelo meu próprio corpo, utilizando meus próprios recursos, nascidos comigo no dia em que a natureza me trouxe pra cá porque entendia que eu estava pronto.

O Bento está pronto.

Meu sobrinho nasceu às 7h55 do dia 15 de abril, com 3,215kg e 48cm.

E comprovar isso, com os meus próprios olhos, fez surgir em mim uma sensação que só não é melhor do que a que a minha irmã deve estar sentido. Assim mesmo, o que eu senti é inenarrável, é indescritível. O que eu senti é algo que se sobrepõe à razão pelo simples fato de que nem mesmo a razão sabe lidar com isso. Eu não soube, o dia todo, o que fazer com aquilo que estava dentro de mim, na região do peito. Dei o nome de alegria. Porque é assim que convencionalmente chamamos aquilo que é bom de sentir. Mas não é como se formar, ver um time de Porto Alegre ser bicampeão da Libertadores pela primeira vez ou praticar uma boa ação. É melhor que isso. Não, não é melhor. É outra coisa. É o que põe os animais a lamber as crias quando nascem. E se eu o tivesse lambido? Nem assim ficaria em paz. Nem assim. Naquele dia, no décimo quinto dia do mês de abril, naquele quarto de hospital, eu, criatura racional, com polegar opositor e tudo, não soube lidar com o sublime.

E vê-lo do alto, cabeça pequenina, e ir me aproximando até encostar lábios e ponta do nariz nos cabelos raros, e sentir o cheiro da sua pele fina, e perceber o seu calor vital, isso tudo, assim junto, quase me fez chorar. Contive. Como agora, enquanto escrevo e meus olhos se umedecem. Devia ter chorado eu acho. Já que não lambi, devia ter chorado. Homens e mulheres choram quando a alegria é demasiada. Mas nem isso me ocorreu. Porque nada me ocorria. As coisas ocorrem quando se pensa. E eu não pensava, eu sentia. E alguma coisa com a qual eu não sei lidar.

No dia que soube que o Bento havia nascido, antes de vê-lo, escrevi um texto para postar aqui na Uzina. Pra compartilhar com vocês. Um texto racional. Sobre o que representava pra mim o nascimento desse guri. Há poucos minutos, apaguei quase tudo para reescrever o que vocês lêem agora. Porque assim como não é possível explicar o que se sente, tampouco há chance de antever. Nunca entendi porquê temos nítidas, gravadas na nossa mente, algumas cenas antigas da vida. Como fotografias. Por que estas marcaram e outras, aparentemente mais importantes, não? Continuo sem saber isso. Mas sou capaz de apostar que o que vi no quarto daquele hospital, ao entardecer daquele dia, me acompanhará para sempre.

Pra completar, sou dindo do Bento. Aí foi alegria mesmo. Receber o título e ver a Samanta chorar de emoção foi bonito, foi alegre. Sou padrinho de Batismo dele. Do sacramento da Igreja Católica que inicia o crente na vida em comunhão com Deus. Este mesmo Deus que deu condições para que o meu afilhado estivesse pronto nesse momento. Inspirando o ar, enchendo os pulmões e soltando-o. Digerindo o leite materno, expulsando excrementos e dormindo. Baita responsabilidade.

O que é verdade também, é que tudo isso me deixou meio egoísta. Como se o Bento fosse o primeiro e o único a nascer. Sinto-me como se ele fosse mais do que só diferente de tudo e de todos, mas o único a surgir assim, desse jeito, nessa cor e nesse formato. Com os órgãos todos que funcionam como uma máquina nova. E ele ali, comandando tudo aquilo sem saber. Puro, orgânico, sem as influências, toxinas, sotaques e eletroportáteis dos humanos maus.

É curioso como o mais repetido fato social, o mais massificado, o mais batido, que não diferencia classe social, pode ser, ao mesmo tempo, a maior novidade de todas, o que há de mais novo, o fato mais notícia de todos.

No jornalismo, dizem que nada pode ser mais velho do que a notícia de ontem. E o que pode ser mais velho pra nós, ancestrais terráqueos, que o nascimento de um dos nossos? Mesmo assim, pra mim, o Bento é a mais especial de todas as notícias. E olha que já li muitas.

Ele está lá, naquele quarto de hospital, junto do seu pequenino coração, que palpita sem que ninguém dê corda ou recarregue as pilhas. Enquanto dorme, não sei com que sonha, mas já ouvi dizer que relembra o seu último e aconchegante lar. Ele lembrará pra sempre disso tudo. Cada dia que viver. Mesmo que o tenha feito mais de nove mil vezes, como eu. Mesmo assim. Lembrará sempre do seu útero luminoso e confortável.

Além de pronto, Bento é um ser amado. E isso, como o ar que a gente respira, é quase tudo.

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Espelho meu exclusivo: o Bento

Abril 17, 2009 · 4 Comentários

Como podem ler no Rebento!, o meu sobrinho Bento nasceu há pouco. E já é um ilustre entre os meus. E por isso já está aqui na série de entrevistados da Uzina. Confiram, abaixo, entrevista exclusiva obtida no seu primeiro dia entre nós, direto do quarto do hospital onde está, em Porto Alegre.

A palavra mais bonita da língua portuguesa
uma que ouço mamãe repetir toda hora para me acalmar: bento

A mais feia
todas as que eu entendo são lindas!

O pior defeito da nossa sociedade
furadeira. é esse o nome daquilo que estava fazendo barulho aqui esses dias, né? não deve ter nada pior que este

Como achas que os outros te vêem?
como eu os verei assim que puder

Qual tua ideia de domingo perfeito?
aquele em que sinto todos à volta, felizes. ao meu redor, tudo muito claro e macio. eles tentam sentir meus chutes, chamando-me pelo nome, enquanto mamãe sorri

O que queres estar fazendo e onde queres estar vivendo com 60 anos?
me alimentando ou dormindo, e perto da minha família

O que é o amor?
e o que não é?

Qual tua memória mais antiga?
dindo, pode ter crianças como eu na internet essa hora. creio que não seja adequado eu descrever o que papai e mamãe faziam na minha memória mais antiga

Qual tua idéia de felicidade?
leite, leite, leite

Onde gostarias de viver hoje?
exatamente onde estou

Onde gostarias de passear agora?
que pergunta. que lugares tem lá fora?

O que deixarias de fazer se a Internet acabasse?
o que se fazia quando ela não existia?

Se pudesses eternizar alguém, quem seria?
só posso eternizar um?

O que tu fazes que te dá muito prazer?
mamo. mamo muito. e flatulo também.

O que fazes para espantar a tristeza?
na falta de alternativas para o momento, mamo.

Um filme
tenho curiosidade em conhecer um.

Um livro
idem.

Um som/música
“o que você faria se soubesse? até onde vai a sua fé?” mamãe escutava todo dia até pouco tempo.

Um cheiro
a pele da mamãe

Um lugar
um? este. dois? este e dentro da mamãe

Um site
não vejo a hora de conhecê-los

Uma coleção (que tens ou já tiveste)
não, ainda não

Um doce
isso é bom?

Uma bebida
adivinha

Um prato
pode ser bebida?

O conselho que nunca esqueceu
não precisei de muitos ainda. mas o que tento seguir sempre é “calma, bento, calma”. juro que eu tento.

Um pensamento
antes de eu nascer, minha mãe costumava ficar pensando em como eu seria. esse era um dos meus pensamentos preferidos.

Bento estreando

Bento estreando

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Parabéns, Porto Alegre!

Abril 4, 2009 · 2 Comentários

A luz que vinha do alto iluminava seu rosto. Especialmente seus olhos morenos. Ao lado da janela de vidro, ela maquilava-se. Sempre que podia, jogava sua cabeça de um lado para o outro, acompanhando a música que tocava no rádio e admirando os contornos dos seus olhos e de sua boca. Maquilava-se e cantarolava. E admirava-se. E a batida do som empurrava seu rosto ora pra esquerda, ora pra direita. Na certa, preparava-se para um happy-hour. Não, era mais. Uma festinha, uma balada. Tinha um desses instrumentos delicados na ponta dos dedos e com ele pintava os olhos. Os cílios, o canto do olho. E repetia o procedimento cuidadoso num olho e depois no outro. E ficava mais bela. E cantarolava. E quase dançava.

Ela estava sozinha ali. Só ela, aquela luz fraca, bancos vazios e o reflexo do congestionamento no espelho do retrovisor. O mesmo trânsito que a impedia de ver a cor do asfalto no horizonte, a obrigava, entre uma arrancada e outra, a antecipar o cuidado com a vaidade.

Meu carro estava atrás do dela. E atrás dos meus olhos cansados de um dia de trabalho eu lamentava ter percorrido uma dúzia de quilômetros naquele tempo perdido. Eu lamentava estar ali. Lamentava estar perdendo aquela consulta médica tão importante. E oitenta e cinco reais reais. E o meu tempo.

Mas, ao contrário, não me dava conta, eu devia estar era feliz. Porto Alegre está se tornando uma cidade moderna. Com seu trânsito, seus motoqueiros e motoristas entediados. Aos 237 anos, temos que reconhecer, Porto Alegre nunca mais será a mesma.

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O livre arbítrio do Bento

Abril 4, 2009 · 4 Comentários

Minha mãe disse à noite passada mais ou menos o seguinte: pra mim, o Bento nasce hoje, hoje de noite. Eu sorri desconfiado enquanto meu pai a advertia: é cedo, Ema, tu sabes que é cedo.

È cedo mesmo. Mas não pelas explicações obstétricas, naturais, fisiológicas e lógicas. Sabem qual a explicação? A seguinte.

Pra quem ainda não sabe, Bento é o nome do meu primeiro sobrinho – e primeiro filho da minha irmã e primeiro neto dos meus pais – que está para nascer por esses dias. Os médicos deram ao Bento um prazo: nove de abril. Daqui cinco dias, portanto.

Minha irmã me disse esta data quando contou que não faria cesariana. Que aguardaria.

Minha irmã aguardará.

Minha irmã transferiu ao Bento o poder de decidir. Bento está experimentando o livre arbítrio.

É estranho dar-se conta de que está tão perto ao mesmo tempo em que ninguém sabe quão perto está. É como brincar de esconde-esconde e sentir a adrenalina quase te paralisar com medo da surpresa de alguém que pode aparecer de qualquer lugar, a qualquer momento. É como mergulhar no escuro do filme de suspense, aguardando a movimentação repentina da câmera e a surpresa do vilão. É como isso.

Ninguém de nós sabe o dia, ninguém sabe a hora. Só sabemos que até nove de abril o Bento, o primeiro entre todos os gaúchos que vibrará igualmente com gols colorados e com gols gremistas, até nove de abril o Bento nascerá.

Ele nos tem nas suas pequeninas mãos. Cada um de nós e as nossas mais íntimas fantasias de como ele será, de quando será. Talvez espere o fim deste final de semana, talvez não. Talvez esteja se preservando do Grenal, talvez não. Talvez esteja aguardando para vir no exato dia do nascimento de sua mãe, segunda-feira, talvez não. Quase posso exagerar e dizer que nem Deus sabe. Apóia e viabiliza a decisão que ele tomar, mas não participa. A sensação que temos é que ele é quem decide. O próprio Bento. O Bento é que nos tem nas suas frágeis mãos.

Tenho vontade de dizer que ele aproveite e fique mesmo até o dia nove. E seja pontual. Porque talvez nunca mais, na sua longa e saudável existência, o Bento ostentará tamanha autonomia. Talvez nunca mais ele possa, com tanta independência, determinar o momento em que dará rumo à sua própria vida. Nem mesmo num emprego que lhe dê carro e uma sala envidraçada com ar-condicionado e apontador de lápis automático. Nem quando estiver solito em seu apartamento, vendo um filme e tomando uma cerveja. Nem a solteirisse aos trinta anos dará ao Bento o que ele possui neste momento. Nem.

É por isso que vos digo: não será hoje. Nem neste final de semana. Deram ao Bento o prerrogativa do livre arbítrio.

Encolhido em frente ao seus grandes pés, o Bento está simplesmente gozando de um direito o qual tentará reconquistar durante boa parte de sua vida aqui: a liberdade.

Pé do Bento

O pé do Bento

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Coisas que o Bento não verá

Março 22, 2009 · 2 Comentários

Amigos e amigos que acompanham o caminho do Bento a este mundo, digo-vos que ele está perto. A contagem regressiva, aprendi, é feita em dedos de dilatação. Ele está a nove deles de mostrar-nos a força e a disposição do seu pulmão e da sua goela. Porque é como se já soubéssemos o que nos aguarda nesse mundo maluco e daí nascemos chorando, berrando. No caso do Bento, uma das razões do choro, da lástima e da tristeza também será o que ele ouviu dizerem dele esses dias, do lado de fora da barriga: pela ecografia, ele se parece com o tio! Essa o Bento não suportará. Mas o motivo das lágrimas do Bento no dia tão esperado também será a dor da mudança. Nascemos alheios à ela, nascemos inflexíveis e resistentes. Se pudéssemos escolher, continuaríamos lá, naquele útero claro e macio, recebendo de nossa mãe o alimento e o amor necessário, dormindo e acordando, com o único propósito diário de dar chutinhos e soluçar.

Mas o inflexível e resistente Bento, que chegará a capital dos gaúchos daqui nove dedos de dilatação, embora chore e esperneie, terá que se acostumar com o mundo assim mesmo como ele está – por pior que ele esteja.

Já posso ver o Bento firmando suas pernas gordas na grama verde aqui de casa e perseguindo os sabiás e as formigas pela calçada. E mais tarde, quando já puder falar o nosso bonito idioma, como o mais velho representante da nova geração dos Rigatti, também já posso vê-lo pedindo-nos para explicar o significado de coisas com as quais crescemos junto e presenciamos a sumária extinção.

Trema, hífens e acentos nunca mais estarão presentes na mesma quantidade em que nos fomos alfabetizados. O Bento terá fluência e outra língua, praticamente. E rirá dos pais e do tio quando escrevermos mega-sena, assim, com hífen, e quando ouvir nós dizermos que tivemos uma grande ideia, assim, com acento agudo.

Como explicar pro Bento a utilidade daquele pedaço de plástico onde carregávamos minúsculos 1,4 megabytes e chamávamos de disquete? E por que a avó dele não está no Orkut? Ou por que ele não encontra mais a gordura trans por mais que a procure nos rótulos das bolachas recheadas? E se ele quiser saber qual era o gosto dela, o que fazer? E se ele quiser saber como as pessoas encontrava umas as outras sem celular, que que a gente diz? E se ele perguntar se aulas de datilografia com máquina de escrever era para criar músculos nos dedos, eu nego? E se ele quiser ensinar pros amiguinhos do Twitter o passo-a-passo de como engatinhar?

Olha, sei lá. Vou mandar ele se catar e ir procurar no Google.

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A pauta está errada!

Março 22, 2009 · 5 Comentários

No jornalismo, dizemos que a pauta está errada quando uma matéria aborda um assunto pelo  ângulo menos importante do acontecimento. Como se, ao final de uma partida de futebol, um jornalista da editoria de esportes deixasse de informar o resultado e o melhor jogador em campo para avaliar a qualidade do gramado e as condições das redes que são presas às traves e que seguram a bola na hora do gol. A menos que os buracos no campo tenham influenciado muito no resultado do jogo; e o time vencedor tenha feito seu gol furando a rede, o que teria posto em dúvida a validade do lance. Só se fosse assim, a notícia principal seria a grama e as redes. Se não, sempre, o mais importante da fala de um repórter ao final de um jogo é o placar o impacto deste placar na campanha dos clubes ao longo do campeonato.

Para mim, jornalista e cristão, a pauta sobre a Igreja Católica está errada.

Talvez pelo que houve de mais repugnante na sua história, como as cruzadas e a inquisição. Talvez porque ela tenha em seus dogmas um conservadorismo polêmico. Talvez porque ela se manifeste publicamente nos momentos mais inconvenientes. Talvez por tudo isso, hoje, infelizmente, a Igreja Católica virou notícia no Brasil não pelas seus incontáveis benefícios à sociedade, mas pelas suas contradições.

Sou contra o aborto, como a Igreja, porque sou contra matar. Mas sou a favor dele, em caso de risco de vida para a mãe e da impossibilidade natural dela levar adiante a gravidez e o desenvolvimento do bebê. Acho que, neste caso, se temos tempo, pelo menos um precisa ser salvo. Acho que foi para isso que Deus me diferenciou dos macacos, permitindo-me pensar. E mais: se não pudesse realizar um milagre para salvar os dois, tenho a impressão que Deus não discordaria desta minha opinião. Agora, não consigo admitir que matar um bebê inocente possa ser a solução para um crime dessa natureza. Não consigo aceitar que matar um bebê inocente possa ser o único jeito de livrar a mãe da lembrança daquele dia. Nem que matar seja a única forma de evitar que tenhamos entre nós mais uma criança lesada psicologicamente. Não consigo.

Sou contra a proibição da camisinha. Mas a propósito da opinião da Igreja sobre o assunto, fico sempre me perguntando no efeito moral que a distribuição dela aos montes pode causar na cabeça daqueles que não sabem o que é o sexo. No Carnaval, por exemplo. Não, o sexo não é um lazer como qualquer outro. Se fosse assim, se ele fosse um playground, não teríamos tantos dedos para falar sobre ele com as crianças, com os filhos, e, às vezes, até com pessoas adultas, próximas de nós. Se ele fosse como um escorregador ou uma gangorra de uma pracinha, não teríamos tanta gente grande nesse país traumatizada porque um adulto brincou de sexo com ela em uma idade inadequada. Sexo precisa de responsabilidade, precisa de entendimento, de sensatez, de sobriedade, de maturidade. E para quem for praticá-lo munido de todos esses princípios – se for com a pessoa que ama, melhor ainda –, esse, sim, deveria poder optar pela camisinha e tê-la ao seu alcance. Que seja em um pedágio em direção à praia ou às mãos de um agente no Ministério da Saúde ao lado de um trio elétrico.

O que eu lamento, como jornalista e cristão, é que a Igreja Católica somente vire notícia no Brasil quando a pauta não é a seu favor e a favor do que tenta ensinar; quando a pauta põe a sua importância em xeque, põe os seus benefícios vitais em discussão. 

Nasci, cresci e me tornei jovem frequentando a Igreja. E hoje, sentado em frente ao computador na empresa onde trabalho, em uma sinaleira ou em uma balada, às vezes tenho insights de como seria correto agir em determinadas situações. Sou levado a pensar como Jesus Cristo agiria em determinados momentos. Como um cristão deve agir. E quase sempre, depois de resolvida uma situação, me sinto um privilegiado por ter no meu currículo o aprendizado da fé.

Neste exato momento, de noite ou de dia, enquanto você está aí confortavelmente sentadito um uma cadeira em frente à este modernoso equipamento, um padre ou um irmão religioso ou irmã religiosa estão em alguma periferia do mundo, realizando um ato de total doação, arrancando um sorriso ou um olhar de alívio e de esperança de algum ser humano como você e eu. Mas que nasceu desprovido de dinheiro, de saúde e de educação. Este cristão deixou para trás uma família, um projeto pessoal e o conforto de sua terra para cuidar de alguém que precisa. (Tenho a honra de conhecer dois desses — e sobre um deles até já falei aqui). E só porque ele não está excomungando, não está proibindo o uso da camisinha ou do aborto, ele não existe para todo o resto da humanidade que lê jornal, assiste televisão ou faz buscas no Google.

Infelizmente, para muitos, a Igreja Católica, essa pedagogia das lições de vida de Jesus Cristo, ainda é só um conjunto de dogmas arbitrários, irracionais, atrasados, contraditórios e inúteis.

Infelizmente.

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Vamos abolir esta vergonha!

Março 20, 2009 · 1 Comentário

Campanha do Wal-Mart Brasil contra o trabalho escravo

Campanha do Wal-Mart Brasil contra o trabalho escravo

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Qual a sua opinião?

Março 13, 2009 · 5 Comentários

Esta é para quem acompanhou o caso da menina de nove anos que engravidou de gêmeos depois de ser estuprada pelo padastro.

A Igreja Católica excomungou os envolvidos na decisão e na execução do aborto, com exceção de quem a violentou. A legislação brasileira autoriza o aborto pra os casos de estupro e de risco de vida da mãe.

O fato estava, portanto, coberto pela legislação em ambas as situações — já que com a idade que tinha, o corpo da menina não teria condições de levar adiante a gravidez.

Pergunto: 

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